Homem tirando foto com iPhone e uma lente especial.

O Flickr pode ser a alternativa ao Instagram que tantos esperam


23/4/18 às 12h23

O Flickr, rede social voltada à fotografia, foi comprado pelo SmugMug, outro serviço similar, por um valor não divulgado. Lançado em 2004, o Flickr foi para a era pré-smartphone o que o Instagram é hoje: o local onde as pessoas publicavam suas fotos e viam as de amigos e profissionais que admiram.

A aquisição do Flickr pelo Yahoo, em 2005, foi seguida de crescimento e melhorias no site, mas essa fase boa durou pouco. O Flickr se manteve no ar ao longo desses 13 anos apesar do Yahoo. A letargia em responder às evoluções que ocorriam em ritmo alucinante na tecnologia minaram, pouco a pouco, a percepção de valor do Flickr e sua relevância frente a rivais mais novos e ágeis.

Essa inépcia abriu espaço para que o Facebook e, depois, o Instagram, ocupassem o espaço que era do Flickr até o final dos anos 2000.

O descaso com o Flickr não mudou nem quando Marissa Mayer, uma das executivas pioneiras do Google, assumiu o comando do Yahoo e respondeu a uma brincadeira/pedido de um usuário para “tornar o Flickr incrível outra vez”.

Com Marissa à frente, o Flickr ganhou alguma atenção. Melhorias foram feitas, mas elas não chegaram nem perto de recuperar a popularidade dos velhos tempos ou de dar ao serviço o ferramental necessário para brigar pela preferência do usuário.

Mais que isso: o Yahoo praticamente reposicionou o Flickr, afastando-o de premissas como comunidade e publicação/curadoria de fotos. Com as reformulações de 2012 e 2015, em vez de disputar espaço com o Instagram, o Yahoo aumentou dramaticamente o espaço para armazenar fotos em uma tentativa de tornar o Flickr um repositório de fotos. Ao sair da rota de colisão do Facebook/Instagram, o Flickr bateu de frente com outras gigantes — Apple, Google e Microsoft, além de startups bem sucedidas, como o Dropbox, todas com ofertas mais interessantes de armazenamento na nuvem. O Flickr acabou atropelado, de novo.

A notícia da aquisição pelo SmugMug é boa. O Flickr estava nas mãos da Oath, marca criada a partir da fusão do Yahoo com a Aol, ambas compradas pela operadora Verizon, dos Estados Unidos. A ocasião também é bastante oportuna para um eventual resgate do Flickr, enquanto serviço e missão.

Os novos proprietários disseram que, a princípio, nada mudará e que o Flickr continuará funcionando do jeito que é hoje, indefinidamente. Parece pouco, mas é um começo: aquisições desse tipo costumam se traduzir em desmantelamentos ou até mesmo no encerramento do serviço adquirido.

O outro fator que pode impulsionar o renascimento do Flickr é a insatisfação com a sede por dados pessoais do Facebook, dono do Instagram. Usuários mais conscientes da rede social, que o Facebook adquiriu em 2012 por US$ 1 bilhão — uma pechincha —, acabam se submetendo aos anúncios e à política invasiva do Facebook porque é no Instagram que amigos e familiares estão. É lá que as fotos da festa que ficaram legais vão parar e onde todos que você conhece as veem. Por mais indigesta que seja a política de privacidade, ela acaba sendo engolida sob o risco de nos alienarmos das vidas de gentes que nos são queridas.

Não basta, porém, dizer que o Flickr é legal e que ele continuará por aí do jeito que é. É preciso alguma mudança. Atualizar os apps móveis, que são competentes, mas estão com o visual datado, seria um bom primeiro passo. Criar meios de facilitar a organização e a exibição das nossas melhores fotos, o primordial. Enfatizar a comunicação via comentários e grupos de fotógrafos, algo que era bastante característico por lá, pode ajudar. E, neste momento, é oportuno dobrar a aposta e destacar os pontos que o Flickr não tem em comum com o Instagram, como o foco excessivo em “estilo de vida”, os anúncios (oficiais e nos perfis de “influenciadores”), o alto nível de intrusão e aquele ar de vida surreal nos perfis alheios que faz tanta gente se sentir deprimida.

Mesmo que tudo aconteça e a execução seja perfeita, ainda assim será difícil convencer as pessoas a voltarem. Mais ainda, convencer adolescentes que nem eram nascidos quando o Flickr brilhava a darem uma chance a esse serviço, que tem tanta bagagem e tantos significados para os mais velhos. Ninguém acha que será fácil, mas muitos anseiam por uma alternativa viável à hegemonia do Instagram. Tudo indica que o Flickr pode ser ela.

Foto: SmugMug/Divulgação.

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