Fundo azul, com uma chamada para um PlayStation 5 no centro. À esquerda, a frase “Ofertas de verdade, lojas seguras e os melhores preços da internet.” À direita, “Baixe o app do Promobit”.

Sai o cofrinho de moedas, entra o dinheiro digital: as fintechs focadas em crianças e adolescentes

Menino colocando uma moeda dentro de um cofre de porquinho branco com uma coroa. Na mesa (branca), algumas moedas espalhadas.

Goste ou não, esteja ele sobrando ou faltando, dinheiro é assunto inescapável no tempo em que vivemos. Às vezes, tem-se a impressão de que tudo gira em torno dele; em outras, que apesar da atenção e importância que lhes são concedidas, ainda não sabemos como lidar. E se começássemos a falar de dinheiro mais cedo, com seres humanos recém-saídos das fraldas? Uma leva de fintechs acredita que o caminho é por aí.

Pesquisa da Serasa/Opinion Box (PDF) feita com 1.276 entrevistados em setembro deste ano traçou um raio-x das finanças infantis. A maioria dos pais/responsáveis (85%) concorda que é importante ensinar aos filhos a importância de se ter uma vida financeira saudável. Quase metade, 46%, já faz algum investimento para os filhos — a maioria, 54%, em poupança — e 51% pensa em fazê-lo.

Pouco mais da metade dos pais (51%) dá mesada aos filhos. A principal motivação é ensinar as crianças a lidarem com dinheiro e a terem autonomia financeira. A pesquisa constatou que a maioria das crianças começou a receber a mesada quando tinham entre 5 e 7 anos (47%) e que a principal forma de recebimento ainda é o dinheiro físico (59%), que acaba guardado no famigerado cofrinho (49%).

Em outras palavras, o mercado existe. E a julgar por referências anedóticas, há demanda dos pequenos por soluções mais modernas, mais compatíveis com o mundo digitalizado onde vivemos.

“Quando fez sete anos, ele entrou no meu escritório (em casa) com o saquinho de moedas na mão e disse: ‘Pai, quero comprar seu cartão de crédito’”, relembra Eduardo Schroeder, fundador e CEO da Tindin. Seu filho queria “comprar o cartão de crédito” para poder comprar um jogo online, que não aceitava moedas físicas. “Olha como evolui a necessidade, o perfil de consumo dele”, derrete-se Eduardo. O episódio o inspirou a criar a Tindin, uma edfintech especializada em educação financeira para crianças.

Dois homens brancos, de barba, abraçados. O da esquerda tem cabelo maior, liso; o da direita usa óculos. Ambos sorriem.
Fábio Rogério (esq.) e Eduardo Schroeder, fundadores da Tindin. Foto: Tindin/Divulgação.

Criada em 2018, a Tindin usa um produto de carteira digital para ensinar lições de educação financeira às crianças, sempre com a supervisão e o acompanhamento dos pais ou responsáveis. A carteira, ou o transacional, como define Eduardo, é só parte da experiência. “A parte mais importante é a educacional”.

O foco no educacional é um diferencial frente a soluções de outras fintechs e bancões, que nos últimos anos também se atentaram à entrada da Geração Z (nascidos entre 1995 e 2010) no mercado de consumo e começaram a se movimentar para prover soluções ao novo público. Esse foco também livra a Tindin de um conflito de interesses importante: o que condiciona a receita da empresa ao aumento de gastos por parte dos clientes mirins.

“Como você vai fazer com que uma carteira digital, que ganha na quantidade, no volume de transações, ensine consumo consciente à criança?”, questiona o executivo.

A Tindin não ganha com transações. A empresa trabalha com assinaturas, em duas frentes: no B2C, usada por pais interessados em incutir conceitos e boas práticas financeiras em seus filhos, e no B2B, focado em escolas, que surgiu e decolou com a obrigatoriedade da educação financeira como disciplina escolar na Base Nacional Curricular Comum (BNCC), em 2020. “Em 2020 a gente lançou o nosso segundo produto, o Tindin Escola, que hoje é o nosso carro-chefe”, diz.

O Tindin Escola é comercializado por licenças anuais, baseadas no número de alunos. É uma experiência gamificada e transversal, que dialoga com outras disciplinas escolares. “A BNCC diz que a educação financeira tem que ser transversal, ou seja, que assim como ela é transversal na vida adulta, não importa se você é médico, engenheiro, psicólogo, você vai precisar lidar com educação financeira, na escola ela tem que interagir com todas as demais disciplinas.”

Cada turma escolar que adere ao Tindin Escola é transformada em uma ilha virtual dentro do ambiente virtual de aprendizagem da plataforma. “Todos os 30, 40 alunos [de cada turma] competem pelos recursos naturais e contribuem para o desenvolvimento sócio-econômico da ilha. A ilha de cada turma tem PIB, tem arrecadação”, explica. O objetivo é trabalhar conceitos mais amplos de educação financeira, chegando à cidadania financeira, “não só olhando apenas para o próprio umbigo, para as minhas finanças pessoais, mas para finanças como um todo, a economia como um todo”.

A Tindin tem, ao todo, 70 mil usuários, sendo a maior fatia (45 mil, ou ~64%) no Tindin Escola, atendendo turmas do primeiro ano do Fundamental I até o terceiro ano do Ensino Médio. A edfintech tem pouco mais de 20 funcionários e levantou R$ 1 milhão em uma rodada pré-seed em 2020. Por estar trabalhando uma nova rodada de investimentos, Eduardo não revela dados de faturamento.

O cartão de “crébito”

Quatro pessoas, três homens e uma mulher, sentados contra a parede enquanto olham para a câmera. Foto em preto e branco.
Os quatro fundadores da Z1. Foto: Z1/Divulgação.

Embora não tenha um foco educacional explícito, foi um incômodo com a desorganização financeira de pais que plantou a ideia de uma fintech voltada a menores de idade em João Pedro Thompson, um dos quatro co-fundadores da Z1.

Quando trabalhava em outra startup de educação, JP (como é conhecido) notou que boa parte dos problemas que tinham com inadimplência não decorriam de falta de dinheiro, mas sim de organização, e isso, somado a outros indicadores conhecidos, como a desbancarização de quase metade da população brasileira, o levou à concepção da Z1.

“Era uma lacuna gigante, que não se aprende na escola, e esse problema começou a incomodar mais e mais”, conta Sophie Secaf, outra co-fundadora e CMO da Z1, em conversa com o LABS.

Para Sophie, o mercado financeiro está em descompasso com a realidade e as necessidades da geração Z. “Não faz sentido essa geração não só não ter educação financeira, mas o fato de que ela só ser considerada adulta e poder mexer com dinheiro, entrar nos bancos, com 18 anos, sendo que a realidade do país não é essa.”

A Z1 é uma carteira digital para menores de idade e fornece um cartão de “crébito”, ou pré-pago, da bandeira Mastercard: ele funciona e é aceito como cartão de crédito, mas tem como limite o dinheiro em conta, como se fosse um de débito. “É óbvio que a gente não pensaria em fazer um produto assim [como um cartão de crédito tradicional], para um adolescente se endividar. Isso seria irresponsável”, explica Sophie.

Originalmente, a Z1 cobrava uma mensalidade de R$ 10 das contas ativas, ou seja, se o cliente não movimentasse seu dinheiro em dado mês, a mensalidade era isentada. No final de novembro, pouco antes de anunciar um aporte série A de US$ 10 milhões (~R$ 55 milhões) liderado pelo fundo Kaszek, a Z1 aboliu a cobrança da mensalidade, tornando o produto completamente gratuito.

O diferencial da Z1, segundo Sophie, é a comunicação. “A gente fala diretamente com o jovem, não subestimamos essa geração”, diz. Isso se nota no site, no app e nas redes sociais — o diálogo se estabelece com o menor, não com os pais. Para a executiva, tal abordagem é muito diferente da de uma empresa que atua em outras frentes e passa a enxergar a geração Z como uma mera oportunidade de mercado. “Tudo o que a gente faz é realmente pensando quais são as dores, as demandas, as lacunas dessa geração e de que outras formas podemos contribuir com a vida desse jovem aqui no Brasil”.

A Z1 não aceita clientes maiores de 18 anos, “para focar bem nesse público e resolver esse problema para os adolescentes que não podem ter uma conta num banco tradicional”, diz Sophie, mas em toda conta aberta é requisitada a participação e o acompanhamento de um responsável legal. Quanto a uma idade mínima, a executiva diz não haver. “Alguém com três anos [de idade] será mais difícil, lógico, mas a gente não tem idade mínima.”

A concorrência já é grande e tem crescido. Bancões tradicionais, como Banco do Brasil e Bradesco (incluindo seu braço digital, o Next), já têm produtos destinados a menores de idade. Fintechs e bancos digitais nascidos nos últimos anos também detectaram a tendência e se posicionaram, casos do Inter e do C6 Bank.

Sophie não abre números, limitando-se a dizer que a Z1 tem crescido em média 200% ao mês desde o seu lançamento, em abril de 2020, e que almeja chegar a 1 milhão de clientes em 2022. O foco agora, segundo a CMO da fintech, está em crescer a equipe de funcionários com atenção plena ao pilar da diversidade. No comunicado à imprensa do último aporte, disparado após a entrevista concedida ao LABS, a fintech afirmou que pretende “aumentar o alcance do produto da empresa para milhões de clientes da Geração Z, com planos de multiplicar sua base em dez vezes no próximo ano”.

Não há dúvidas de que há um filão a ser explorado, o da geração Z e dos menores de idade que entram, cada vez mais cedo, como constatou a pesquisa do Serasa/Opinion Box, no mercado de consumo. Mas e as crianças, como ficam? Existe uma idade ideal para introduzir o assunto aos pequenos?

Financeirização da infância

O filho de Eduardo Schroeder, fundador e CEO da Tindin, começou a receber “semanada” quando tinha apenas 3,5 anos. “O fato é que mesmo sem saber números, sem saber ler, ele sabia muito bem o que era comprar um brinquedo”, justifica o empresário.

Nos passeios ao shopping, a criança ficou mal acostumada: sempre ganhava um presente, aí quando Eduardo negava o mimo, ganhava em troca um “showzinho”. “Foi nesse ínterim que acabei pesquisando a respeito de educação financeira”, diz, e o que o levou à dinâmica da semanada, que, como o nome sugere, é uma versão semanal da mesada.

Três meses depois, a criança conseguiu comprar um brinquedo com seu próprio dinheiro. “O que aconteceu naquele dia, e daquele dia em diante, eu costumo dizer que foi uma transformação. Ele nunca mais parou de poupar em prol de alcançar os seus próprios objetivos materiais”, conta.

Para Maria Belintane, professora e doutora em Educação pela Unicamp, com uma pesquisa voltada à educação financeira de crianças em idade escolar, “não tem idade” para se começar a falar de dinheiro com elas.

“Você já viu os carrinhos de supermercado que têm aqueles bebê-conforto?”, pergunta em entrevista ao LABS. “Qual é a mensagem que você passa para uma criança quando ela está no bebê-conforto, só olhando a mãe pegar na prateleira e por no carrinho? Nossa, que coisa maravilhosa, é só pegar. E os bebês são inteligentes. Qual é a mensagem que você passa à criança quando você põe no carrinho? ‘Ai que legal, vamos fazer compras!‘ E você fica passeando no mercado, no shopping, e ela se divertindo. Comprando, mesmo que simbolicamente. Perceba que desde muito cedo a gente ensina a criança a comprar.”

Sobre o risco da precocidade, de antecipar um assunto muitas vezes fonte de angústias e certamente complexo para crianças que ainda não sabem sequer os números, Maria ressalta que é preciso haver equilíbrio: “A gente precisa ter essa preocupação de trazer elementos da humanidade para o debate. E o dinheiro também possibilita essa humanização, porque a gente observa que muitas crianças e adolescentes se tornam empreendedores mudando uma realidade pontual em função da maneira como você conversa, analisa e ela percebe que essas pessoas precisam… que o mundo precisa de uma ação.”

Quando questionada por histórias inspiradoras do dia a dia da Z1, Sophie lembra-se de uma que “amou”, de um adolescente que trabalhava em um posto de gasolina. “Ele falou que ajudava a sustentar a família, isso no Nordeste, e ele falou: ‘Meu, vocês não têm noção o que vocês facilitaram a minha vida. Antes eu tinha que ir de bicicleta, horas até a lotérica, e agora estou conseguindo fazer muitas horas de trabalho, ganhar meu salário, receber no meu nome’”.

A Z1 tem cerca de 60 funcionários, nenhum deles com formação em pedagogia. Segundo Sophie, “isso ficaria muito engessado”. Em vez disso, a fintech considera o histórico dos investidores e se une a influenciadores da geração Z para falar com seu público. “Tudo que a gente faz é meio muito pautado em estudos, em empatia e tal, mas não entramos em nenhum assunto assim, extremamente pedagógico. Tudo o que a gente fala é muito dica do dia a dia, educação financeira como na vida, assim, sabe? Meio que usando a realidade, o dia a dia dos adolescentes, nada extremamente teórico nesse sentido. É muito mais comportamental.”

A postura é diametralmente oposta à da Tindin. Perguntado dos cuidados que a empresa tem ao lidar com menores de idade, Eduardo responde que “a primeira coisa que a gente fez é ter uma equipe pedagógica. Hoje, nós temos um time pedagógico. A nossa comunicação com o público infantojuvenil não sai da cabeça do meu desenvolvedor, do ‘bank as a service’, não sai dali’ sai da cabeça de um pedagogo”. Na ocasião da entrevista, cerca de 1/3 dos funcionários da Tindin compunham a equipe pedagógica.

As duas fintechs se encontram no envolvimento dos pais. Em ambas, a presença do responsável é obrigatória e fundamental para o funcionamento do serviço.

Em sua pesquisa para o doutorado, conduzida no final dos anos 2010, Maria descobriu que apesar dos valores variarem, praticamente todas as crianças analisadas recebiam dinheiro dos pais. E que o padrão de consumo não divergia muito entre elas, com gastos concentrados em joguinhos e guloseimas na cantina da escola. “As crianças têm dinheiro em mãos, os pais dão dinheiro. Agora só aumentou, e com o advento dos jogos eletrônicos, as crianças têm muito mais dinheiro”, diz.

A pesquisadora prossegue: “Existe um contexto no qual nós vivemos, as crianças vivem, e que nesse viver, nesse contato com as pessoas e com o mundo, elas são influenciadas pela publicidade, pelos amigos, pelo poder simbólico do dinheiro, pela necessidade, pela questão prática do dinheiro. Então, eu não posso avaliar… a fintech, o banco, estão no seu papel. Não vou falar ‘oh, que horror’. Nós estamos numa sociedade em que todo mundo quer vender, é assim que funciona. Isso não significa que não possamos ter um olhar mais crítico em relação à educação das crianças e entender quem é essa criança, e como essas informações chegam a ela.“

Foto do topo: VisionPics/Pixabay.

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3 comentários

  1. Acho a educação financeira importante e uma boa oportunidade para mostrar como o sistema capitalista preza pelo consumo insustentável.

    Não sei quão bem as empresas conseguem trazer essas problematizações (afinal elas estão querendo lucrar e o sistema capital faz isso com as empresas, mesmo as que parecem “legais”) mas certamente a empresa que tem 1/3 de pedagogos/as parece mais interessante do que a outra, que dispensa estes profissionais.

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