Em 2019 dei uma olhada no Chromecast de terceira geração. Classifiquei o produto de “objeto de transição”, ou seja, categoria que seria varrida do mercado no futuro próximo.
Levou cinco anos para acontecer. Ao anunciar o Google TV Streamer, sua nova caixinha de streaming para o mercado estadunidense, o Google informou o encerramento da produção dos Chromecasts. A empresa alegou que a ampla oferta de smart TVs, streaming e a tecnologia Google Cast embarcada em milhões de outros dispositivos tornaram o dispositivo Chromecast obsoleto.
Tudo verdade, mas ainda existe uma lacuna nesse mercado: a da caixinha ou smart TV com foco em privacidade. O único dispositivo do tipo, ainda que com ressalvas, é o caríssimo Apple TV. A demanda pode até ser pequena, mas ela existe. Alguém disposto a supri-la?
Eu entendo que você é um usuário Apple, mas, olha, essa empresa é qualquer coisa menos confiável. Como confiar na corporação mais valiosa do planeta (3.4 trilhões de dólares), não é mesmo? A gente bem sabe que esse poder todo não vem de compromisso social rsrs
Evitando entrar na polêmica toda da exploração da mão de obra, condição precária de trabalho e até suicídios sucetivos, sem contar as Apple Store (a primeira a ser sindicalizada já anunciou greve), vamos focar no ponto de vista cínico do usuário que só se importa com os produtos e serviços em si. E não, não vou me adentrar nos fracassos em torno do iPhone 4, Apple Maps, iOS 12.1.2, nem mesmo do recente Vision Pro.
A Apple é o tipo de empresa que criou patentes para detectar se seus produtos entraram em contato com água a fim de evitar RMA por parte de clientes, numa lógica totalmente invertida e tosca. A mesma empresa que desde sempre tenta emplacar padrões proprietários de cabos e conexões que ninguém nunca pediu, e quando é obrigada a se adequar, tem a cara de pau de causar pânico em seus clientes pra no final das contas tentar mantê-los nas mãos: https://www.hardware.com.br/noticias/nao-utilize-cabos-usb-c-de-celulares-android-para-carregar-o-iphone-15-alerta-apple.html
E o que dizer da App Store obrigar os navegadores a usarem a engine desenvolvida pela Apple? Uma clara tentativa de forçar os web devs a manterem compatibibilidade com o Safari, o navegador padrão do iOS — se isso não cheira a Google com seu Chrome, eu não sei o mais seria preciso. Sem contar os preços inflados de produtos que muitas vezes deixam a desejar em relação aos concorrentes quando, veja você, não apresentam nada proprietário, como os computadores desktop, incluindo os minis.
Mas o pior mesmo é que a empresa se vende como compromissada com a privacidade do usuário, sendo que já se sabe há um bom tempo que a Apple é também uma empresa de propaganda, tal como Google e Meta. A gente bem sabe como uma big tech de propaganda faz grana, não é mesmo? Mais aqui: https://www.wired.com/story/apple-is-an-ad-company-now/
Também já é de conhecimento que os apps nativos da empresa são devoradores de dados: https://proton.me/blog/iphone-privacy . Mais aqui: https://www.forbes.com/sites/kateoflahertyuk/2024/04/10/new-apple-iphone-privacy-warning-issued-by-researchers/ . E aqui: https://www.theguardian.com/technology/2022/sep/23/apple-user-data-law-enforcement-falling-short
A empresa ainda mente descaradamente: An independent test suggests Apple collects data about you and your phone when its own settings promise to ‘disable the sharing of Device Analytics altogether’ (fonte: https://gizmodo.com/apple-iphone-analytics-tracking-even-when-off-app-store-1849757558). Por conta disso aí já rolou até processo coletivo.
Tem ainda a questão da política de atualização dos aplicativos. A empresa força o usuário a atualizar a cada 2 meses no máximo. Embora venda a ideia de que isso é para o bem do usuário, a razão real a gente sabe bem qual é, não é mesmo? Manter todo mundo nas rédeas.
Bônus: https://www.bailiwickexpress.com/jsy/life/technology/7-biggest-controversies-surrounding-apple/
Essas são as ressalvas do meu texto, hehe. Talvez devesse ter escrito que, das opções, a da Apple é a menos pior.