Detalhe de um IBM Model M.

Blogs estão com os dias contados? Velho debate, mesma resposta


4/2/15 às 13h06

Eu não acompanhava, mas conhecia a fama do The Dish, blog político do Andrew Sullivan. Essa fama era especialmente inspiradora para mim porque ele conseguiu, há uns dois anos, abandonar o portal onde estava hospedado e se lançar em uma jornada independente, sustentado por 30 mil (!) leitores que viabilizaram um pequeno negócio com faturamento anual de US$ 1 milhão. Apesar disso, semana passada Sullivan anunciou o fim da empreitada depois de 15 anos na ativa. Essa notícia serviu de gasolina para reacender um velho debate: os blogs estão mortos?

Ao justificar o fim do The Dish, Sullivan alegou cansaço, estafa, problemas de saúde e o anseio por um ritmo mais lento:

Eu quero ler de novo, devagar, com cuidado. (…) Quero ter uma ideia e deixá-la ganhar forma em vez de publicá-la imediatamente no blog.

Todos perfeitamente compreensíveis, nenhum diretamente ligado ao blog em si. Os problemas estavam na pessoa por trás dele. A sacada, aqui, é que as duas coisas são indissociáveis, como escreveu John Gruber, outro (perdão pelo termo, que detesto) blogueiro americano:

Blog não é um trabalho difícil no mesmo sentido que [trabalhar em] minas de carvão, mas é, acima de tudo, algo que demanda entusiasmo. Não existe outra forma de continuar — blogs acabam quando seus autores perdem o entusiasmo. Para muita gente, ele parece acabar em alguns meses, talvez alguns anos. Para Sullivan, levou uma década e meia. Um bom lembrete de que nada é eterno.

Hoje, com uma rede social para cada coisa que no início se achava apenas em blogs, o discurso de que eles estão condenados é mais fácil (e tentador) de ser proferido. Fotos vão para o Instagram, textões têm encontrado cada vez mais espaço para ressoar no Facebook, a distribuição de links, que um dos criadores do conceito de blog disse ser a função original do meio, se dá pelo Twitter. O Medium quer, de alguma forma, ser o espaço de fato para textos longos que caracterizam blogs como o Manual do Usuário.

Parece mesmo o apocalipse, mas não é por um motivo: o blog é meu. Se escrevo no Twitter, Facebook ou Medium, o conteúdo fica com o Twitter, o Facebook e o Medium e está sujeito a quem manda lá. E as coisas podem mudar bruscamente nesses locais — basta ver o Twitter, que está virando um monstro disforme ante a necessidade de gerar lucro para agradar seus investidores, ou a rasteira que o Facebook deu no alcance orgânico das páginas. A propriedade do meio, embora não pareça, manda muito e interfere ativamente na produção do conteúdo, na forma de lidar com ele e até na percepção que os leitores têm do que você escreve. Eu não quero depender do Google, do Facebook, de ninguém.

A blogosfera brasileira em 2015

Quase que paralelamente à discussão norte-americana (ou, talvez, motivada por ela), a Bia Granja publicou no Youpix um questionamento: O que aconteceu com a blogosfera brasileira? Para ela, o YouTube a engoliu. Essa conclusão me é difícil de entender. É como dizer que Gabriel García Márquez ou Machado de Assis foram fracassados porque só escreveram livros, e que Uma Educação, roteirizado por Nick Hornby, é melhor que seus livros, como Um Grande GarotoAlta Fidelidade — o que, ainda que aquele seja um bom filme, não é verdade.

São mídias diferentes. Laranjas e maçãs.

O argumento dela ainda bate de frente com o que escrevi acima, sobre a melhor adequação de determinados formatos de conteúdo em certos espaços (redes sociais). Em outras palavras, quero dizer que quem publica vídeos no YouTube poderia, mas não necessariamente teria um blog e vice-versa. São duas atividades distintas que, em alguns casos, caem numa interseção — como um diagrama de Venn com uma área comum bem pequena.

Diagrama de Venn sobre blogs e YouTube.

Eu, por exemplo, nunca considerei largar o teclado, ligar a câmera e fazer um videolog. Até entendo a euforia com vídeo; lá fora toda publicação moderninha, da Vice à Vox Media, está investindo pesado nisso. Só que não é uma regra, e nem mesmo uma tendência entre blogs. Nenhum blog (BLOG mesmo, como comento mais abaixo) americano estabelecido, por exemplo, mudou a estratégia e passou a gravar vídeos em vez de publicar textos.

Um passo atrás: o que é um blog?

Ao questionar a ~blogosfera brasileira, essa dita entidade fragilmente unida por uma ferramenta interna invisível aos leitores, é difícil ignorar uma questão mais ampla: o que é um blog? Ficando na área de tecnologia, que é a que cubro aqui, será que é certo chamarmos Tecnoblog, Gizmodo e MacMagazine de blogs? Os próprios responderam:

Com o perdão dos que discordam, para mim esses três não são blogs. Tomo emprestadas as palavras de Ben Thompson, que também mantém um blog (genuíno) nos EUA, para explicar:

Um grande problema com toda essa discussão é que não existe uma definição amplamente aceita sobre o que um blog é, em parte graças à ascensão de sites como o TechCrunch que funcionam no WordPress e apresentam posts em ordem cronológica inversa e, assim, pelo menos no início, foram chamados de “blogs”; acrescente aí os canais de RP levemente disfarçados de “blogs corporativos” e é fácil ficar confuso.

Para ficar claro, quando eu falo de “blog” estou me referindo a um site regularmente atualizado que é mantido e operado por um indivíduo (sim, existe o “blog coletivo”, mas ele também tem um corpo de autores bem definido). E ali, naquela definição, está o motivo por que, apesar do grande desmantelamento [em redes sociais], o blog não morreu e não morrerá: ele é a única ferramenta de comunicação, em contraste a todos os outros serviços [de mídias] sociais, que é propriedade do autor; assim, dizer que alguém acompanha um blog é dizer que alguém acompanha uma pessoa.

Thompson continua a elaboração do seu argumento tratando de blogs profissionais, ou seja, aqueles que são o ganha-pão do autor. O texto como um todo é mais uma resposta ao de Ezra Klein, da Vox, que colocou todos os outros blogs na mesma cova do The Dish porque BUSINESS. Nessa parte ele diferencia com precisão cirúrgica blogs de sites-que-parecem-blogs-mas-não-são:

E aqui está o pulo do gato: o lado bom do meu modelo de negócios é que o Stratechery [site dele] tem todas as coisas que Klein alega terem sido perdidas:

  • Uma presunção de que meus leitores (especialmente meus assinantes) leem tudo o que eu escrevo.
  • Uma voz única.
  • Lealdade.

Isto vale para o Manual do Usuário. Para quantos outros “blogs” brasileiros o mesmo se aplica? Para mim, e novamente focando na área de tecnologia e entre os que acompanho, a apenas três outros: Pinguins Móveis, do César Cardoso, ZTOP, do Henrique Martin e do Nagano, e o novo blog do Pedro Burgos no Yahoo. (Você conhece algum outro? Diga aí nos comentários.)

Veja: eu leio e adoro os “blogs” nacionais de tecnologia, mas eles não conversam, não têm vozes ativas em todo texto publicado — embora, pelo estilo, alguns autores sejam facilmente reconhecíveis. Neles há edição, uma pauta a seguir, compromissos editoriais dos mais diversos; existe mais gente por trás cuidando do negócio. Se o Paulo (Tecnoblog) ou o Felipe (Gizmodo) quiserem, sei lá, escrever alguma coisa sobre esse assunto, “blogs estão mortos”, eles precisarão aprovar a pauta, debater internamente com alguém e terem, a princípio, uma postura mais jornalística na história, exceto se o texto sair como um editorial ou coluna — as reservas opinativas do jornalismo tradicional.

Blogs não estão morrendo, nem morrerão. Esse papo é antigo e a cada vez que ele retorna à agenda, com supostos novos e definitivos argumentos, chega-se sempre a essa mesma conclusão. Se alguém duvida da longevidade do formato, os blogs de moda, que a Bia estranhamente descarta em seu texto no Youpix (por quê?), são uma prova incontestável de que ele ainda tem força quando há interesse de quem escreve e de quem lê. O próprio Manual do Usuário, apesar de tratar de um tema mais rarefeito e de ter um faturamento incontáveis vezes menor que o de qualquer blog de moda mais ou menos (não é fácil), funciona.

Os blogs estão mais escassos, isso é fato. Aqui com mais força do que lá, nos EUA, ainda que seja uma situação fiel ao histórico dos dois cenários — sempre fomos mais receosos em trocar links, em ter voz ativa, em abraçar a causa. De qualquer forma, esse encolhimento geral é lamentável. A pluralidade de vozes individuais e não editadas, longe do caos do Facebook e da claustrofobia do Twitter, é muito importante. O meio mudou muito desde o auge do blog, há uns dez anos, mas eles continuam por aí e não irão a lugar algum tão cedo. A gente se adapta e a vida segue.

Foto do topo: Jeff Jackowski/Flickr.

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