Imagem indicativa de que os vídeos no Facebook agora têm som por padrão.

Os vídeos do Facebook agora têm som ativado por padrão


15/2/17 às 10h40

Uma das grandes falácias contemporâneas é a que diz que redes sociais, apps e outros tipos de software que dependem da nossa atenção são “ferramentas”. Que podemos, por pura força de vontade, usá-las como bem entendermos. Não podemos. A última novidade do Facebook expõe com uma clareza rara essa ilusão de controle.

A rede social anunciou que, agora, os vídeos publicados na plataforma terão o som ativado por padrão. Era o contrário. Até ontem, quando se rolava o feed de notícias e algum vídeo aparecia, ele começava a rodar automaticamente, porém sem som. Para ouvi-lo, o usuário precisava tocar no vídeo.

Poucos se davam a esse trabalho, mas não por negar os vídeos, apenas porque achavam bom o suficiente consumi-los sem áudio. Uma análise independente do Digiday com algumas páginas grandes do Facebook constatou que, em média, 85% das execuções de vídeos na plataforma eram emudecidas. Os produtores de conteúdo audiovisual perceberam a tendência e passaram a adaptar seus vídeos para um universo sem barulho, colocando letreiros e outros substitutos visuais do som. Funcionou.

Se tudo parecia correr bem, com o Facebook ganhando seus bilhões de visualizações, as páginas alcançando mais gente com o peso artificial que o Facebook concede aos vídeos e as pessoas vendo o mesmo tipo de conteúdo raso a que já estavam acostumadas no YouTube e no WhatsApp, por que mudar?

Uma boa suspeita que se revelou no último domingo (12/2), dia do Grammy, quando a indústria da música se reuniu em Los Angeles para escolher os melhores do ano e, nos bastidores, fazer negócios. Entre os executivos de empresas de tecnologia habituais do meio — Apple, Google, Pandora, Spotify — estavam alguns do… Facebook.

De acordo com a reportagem da Bloomberg, eles estavam lá para avançar as negociações com as gravadoras. O interesse do Facebook por vídeo justifica esse colateral, pela música. Clipes são uma força enorme no YouTube — os vídeos mais vistos lá são musicais e muita gente faz do YouTube o seu player de streaming. O Facebook estaria, pois, tentando um ataque duplo: fortalecer a sua oferta de vídeos, que é bastante carente de produções mais elaboradas, e bater forte em um dos pilares do seu maior rival, o Google.

Por melhor que seja a produção de um clipe, ele não faz muito sentido sem música. É um dos raros casos restantes na nossa sociedade extremamente imagética em que o som se sobrepõe ao vídeo, em as posições de principal e acessório se invertem. Além de todas as ressalvas das gravadoras com o Facebook (e, se elas estão prestando atenção ao suplício da imprensa e aos próprios perrengues que tiveram na transição para o digital, devem ter muitas), garantir que seus vídeos musicais sejam ouvidos em mais do que 15% das sessões seria uma exigência compreensível. Se for o caso, o Facebook se antecipa ativando por padrão o áudio dos vídeos de sua plataforma.

Claro, isso é especulação minha. A mudança pode ter outra motivação. Mas as peças se encaixam bem demais. Se não por isso, por quê? E por que agora? No anúncio da novidade, a gerente de produtos Dana Sittler e o gerente de engenharia Alex Li, ambos do Facebook, escreveram:

Depois de testar o som ativo no Feed de Notícias e receber um feedback positivo, estamos trazendo aos poucos este recurso para mais pessoas.

Queria saber de quem veio esse “feedback positivo”. Será que dos usuários?

Em tempo: com o smartphone no modo silencioso, os vídeos ficam sem som. Você também pode reverter a mudança alterando uma configuração no seu dispositivo. Esta página ensina como fazer.

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