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O experimento australiano

Print da mensagem de erro que o Facebook exibe, na Austrália, quando um usuário do país tenta compartilhar um link de notícia.

Nesta semana, a Austrália iniciou um curioso experimento digital quase que por acidente. Um projeto de lei que obriga as grandes plataformas digitais a pagarem veículos jornalísticos por cada link deles publicado em seus domínios foi apresentado. O Google reclamou, ameaçou tirar seu time de campo, mas acabou cedendo. O Facebook, não.

Na manhã da quarta (17), os australianos se depararam com um Facebook único no mundo: um Facebook sem notícias. Todos os links para sites jornalísticos, publicados por páginas e por usuários comuns, desapareceram da plataforma, e a publicação de novos links, de veículos australianos e internacionais, foi bloqueada.

A lei é questionável. Ela beneficia grandes conglomerados de mídia, que fizeram um lobby pesado para passá-la nos termos em que ela passou, e subverte um fundamento da web, o link. Até hoje, ninguém jamais havia sido cobrado por publicar um link para outro site. Sem surpresa: em tese, cobrar por algo que beneficia as duas partes nem faz sentido. Digo “em tese” porque, no caso das grandes plataformas, há mais coisas em jogo. O pano de fundo dessa disputa é o poder que as big techs norte-americanas têm mundo afora e que, intencionalmente ou não, está asfixiando a imprensa. Na última década, a digitalização dos jornais deixou de ser uma opção para tornar-se uma questão de sobrevivência. E no mundo digital, a publicidade, que sustentou a mídia em todo o século XX, já tinha e ainda tem donos, o duopólio Facebook e Google.

Não quero entrar no mérito da lei nem no modelo de negócio das empresas jornalísticas. Interessa-me, aqui, as consequências e circunstâncias desse experimento na Austrália.

O Facebook afirma lamentar a remoção dos links. No Twitter, Campbell Brown, executiva que lidera as parcerias da rede social com veículos jornalísticos, disse que o Facebook estava pronto para lançar o News e aumentar os investimentos em jornalismo na Austrália — as migalhas que vez ou outra Facebook e Google jogam aos jornais para aplacar as críticas —, mas que só poderia fazer isso “com as regras certas postas”. “Regras certas”, no caso, para o Facebook.

Tudo bem, o Facebook está no seu direito e agiu de acordo com a lei australiana ao suprimir notícias da sua plataforma no país. De outro ponto de vista que não o legal, porém, fica escancarado que a única coisa que importa ao Facebook é dinheiro. Que toda aquela conversa de que o jornalismo é importante e a civilidade norteia a atuação da empresa é balela, que no fim das contas ela está condicionada a dinheiro. Colaborar com regimes autoritários que disseminam propaganda e perseguem opositores e minorias? Isso é contornável, negociável. Mexer no bolso? Aí não.

(É, também, um alerta explícito de que aqueles pedidos de Mark Zuckerberg por regulação não são bem intencionados. A regulação será bem-vinda pelo Facebook desde que seja nos termos ditados pelo Facebook.)

O sumiço de notícias traz efeitos imediatos. Embora notícias sejam apenas 4% do conteúdo que aparece nos feeds, na escala do Facebook qualquer percentual significa milhões de pessoas. Da noite para o dia, uma parcela de australianos que confiavam na rede para se informarem ficou no vácuo.

Para piorar, a definição Facebook para “jornalismo” é ampla. Sites governamentais, de ONGs e de serviços públicos acabaram engolidos pela nova diretriz do Facebook. Em plena pandemia e num país que sofre com eventos climáticos extremos, em que minutos de atraso no recebimento de uma informação pode custar vidas, as fontes mais confiáveis foram limadas do lugar que, apenas alguns anos atrás, tinha a ambição de se tornar o “jornal personalizado perfeito para cada pessoa do mundo”.

Tal desejo é impossível, sabemos hoje, porque o jornalismo se funda em consensos, em uma base compartilhada de fatos e dados. O Facebook estraçalha essa base comum a troco de “engajamento” e (adivinhe) dinheiro. Pode-se questionar a intensidade do papel do Facebook no divisionismo que nos acomete há meia década, só não dá para livrá-lo de culpa.

Pensando bem, talvez remover o jornalismo do Facebook seja uma boa, afinal. Tal medida pode reduzir a credibilidade do que circula lá dentro e, com o tempo, associar (ainda mais) a rede a boatos e desinformação, ou seja, colar a pecha de que “se está no Facebook, é mentira”. Nesse cenário, as pessoas talvez passem a buscar por informações confiáveis em outros locais e os veículos deixem de se sentirem pressionados a estarem num ambiente hostil. (A notícia tem que ir aonde o povo está, sim, mas se o povo está se deleitando no inferno talvez… não?) Por ora, tudo isso soa quase utópico. A Austrália, com seu experimento, tem a chance de dar concretude a um ambiente informacional pós-Facebook.

No Brasil, há três anos a Folha de S.Paulo deixou de publicar no Facebook. Este Manual do Usuário seguiu o exemplo em 2021. Para mim (e, aparentemente, para a Folha) está tudo bem, o mundo não acabou. Pode não parecer — e há um trabalho incisivo para que não pareça mesmo, feito por empresas como o Facebook —, mas a internet é muito maior que uma rede social.

Atualização (15h45): O lide foi alterado a fim de deixar mais claro que a lei australiana ainda não entrou em vigor.

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Imagem do topo: @elisethoma5/Twitter.

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6 comentários

  1. Estou fora do Facebook há alguns anos e ainda me espanto com a quantidade de empresas, grupos de pessoas e afins que preferem publicar conteúdos exclusivamente lá. É o tal da Internet murada. Fico feliz de ver uma legislação que desafia de algum modo o poderio deles… Mesmo que a real motivação seja lobby de outro grupo que é tão ou mais insidioso que o primeiro… No fim das contas, estamos torcendo por corporações. Acho que já estamos em uma distopia cyberpunk.

    1. Arrisco a dizer que a Microsoft joga em vários segmentos e venda de publicidade deve estar longe de ser o que lhe dá lucro real. Creio que os serviços corporativos, nuvem, até Xbox deve ser mais importante do que o Bing. Já Google e Facebook vivem de links, conteúdo, engajamento. Ou seja, para essas duas, a regulamentação australiana vai atingir o core dos seus negócios.

  2. Acho importante ressaltar um detalhe: isto é resposta do Facebook a PROPOSTAS de lei. Não estão em vigor. Nenhuma dessa movimentação é obrigatória como exigência legal.

    Há uma enorme chance que ela seja aprovada mas ela não está em vigor

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