Zuckerberg no palco com os dizeres "Pessoas primeiro" atrás.

Qual o limite do Facebook?


3/2/17 às 13h50

Mais um trimestre se passou e, outra vez, o Facebook bateu recordes de receita. O lucro da empresa foi de US$ 3,5 bilhões, aumento de 177% em relação ao mesmo período do ano passado. Embora num ritmo menor, a base de usuários da rede continua crescendo; hoje, está em 1,86 bilhão de pessoas.

Em paralelo, nos últimos dias o Facebook anunciou diversas iniciativas em todos os seus apps para impulsionar o uso delas pelas pessoas:

O Facebook é insaciável, mas isso não é um problema particular ou específico. A dinâmica de mercado baseada em crescimento constante, ou seja, o bom e velho capitalismo, força as empresas a serem assim. Pela posição privilegiada que tem, com a atenção de (literalmente) quase meio mundo e boa parte do dinheiro dos anunciantes, sempre ávidos pela nossa atenção, financiar investidas diversas passa a ser possível e os riscos dessas aventuras, atenuados. Estranho seria se não tentassem tanto.

Se faz sentido na ótica mercadológica, será que o mesmo pode ser dito sob outros pontos de vista? É aí que entramos, eu e você, nessa história.

É quase impossível escapar do cerco que o Facebook construiu ao longo desses anos. Você pode não usar o Facebook, mas é bem provável que pelo menos o WhatsApp esteja instalado aí no seu smartphone. Quando o Facebook sugere (ameaça?) permitir a comunicação ininterrupta da localização dos participantes de um grupo, um negócio extremamente desconfortável e invasivo (ainda mais vindo de quem vem), o que se pode fazer? Pedir a todos os seus amigos para que instalem o Signal não funciona. Deixar os amigos falando sozinhos no WhatsApp, tampouco. Pergunto novamente: o que fazer?

Existe a saída fácil, que é pular do barco. Mas ela gera efeitos colaterais e talvez haja muito em jogo para se tentar uma saída fácil. Mesmo no Facebook, a rede social, que não acrescenta muito às nossas vidas, estar lá dentro e entender suas dinâmicas gera conhecimento para elaborar táticas combativas mais eficazes. Abdicar desse espaço, por mais inóspito que ele seja, seria o mesmo que uma oposição deixar de acompanhar os mandos e desmandos do grupo que está no poder. Ainda não estou muito convencido sobre a melhor abordagem, mas faz sentido não enfiar a cabeça embaixo da terra e fingir que o problema não existe. Raramente essa é uma boa solução.

No mesmo sentido, não é muito produtivo esperar que venha do Facebook as soluções para os problemas gerados pelo próprio Facebook. Digo, daqueles que não impactam nos relatórios financeiros. A ingenuidade da crítica rasa de que “essa empresa só visa lucro” talvez caiba aqui porque o Facebook faz muito mais do que vender um produto ou serviço. Ele molda a nossa realidade e interfere ativamente em como nos relacionamos uns com os outros. (Como deixamos a situação chegar a esse ponto é uma outra questão, de alta complexidade, que pode e deve ser debatida em outra oportunidade.)

Então, os anúncios no Messenger são só mais uma etapa do processo de extração de valor das nossas relações pessoais mediadas e, no processo, deterioradas por produtos do Facebook. O intuito não é promovê-las da melhor forma possível. Fosse assim, não nos viciariam em filtros e máscaras estúpidos nem em dinâmicas claramente nocivas e que exercem uma pressão absurda sobre situações que idealmente são leves e naturais — a amizade, por exemplo.

Tomemos o Snapchat, prestes a abrir capital nos Estados Unidos. Não é do Facebook (não por falta de tentar), mas ele representa uma ameaça grande ao Facebook, tanto que dita muitas ações recentes do rival maior. O Snapchat premia usuários que mantêm contato diário, sem falhas, com os demais. Muitos adolescentes se jogam nessa missão a fim de manter os “snap streaks” como se suas vidas dependessem disso. Não é algo saudável sob nenhum ponto de vista — exceto o das finanças da Snap, empresa dona do Snapchat. Viciar o usuário é um bom negócio, é negócio dessas redes e apps.

O discurso por trás disso, por mais nobre e bem intencionado, se perde em meio que às urgências do mercado. A missão do Facebook é “conectar pessoas”; a do Google, “organizar toda a informação do mundo”. São poucas as coisas que ambas fazem atualmente norteadas por essas declarações. E piora a situação o poder absurdo que essas empresas têm de moldar a nossa realidade. Somos ratinhos de laboratório servindo a experimentos sociais que nos dividem e nos estressam. Até que ponto? Temo que levará um bom tempo ainda para descobrirmos esse limite.

Foto do topo: Maurizio Pesce/Flickr.

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