Qual o limite do Facebook?

Zuckerberg no palco com os dizeres "Pessoas primeiro" atrás.

Mais um trimestre se passou e, outra vez, o Facebook bateu recordes de receita. O lucro da empresa foi de US$ 3,5 bilhões, aumento de 177% em relação ao mesmo período do ano passado. Embora num ritmo menor, a base de usuários da rede continua crescendo; hoje, está em 1,86 bilhão de pessoas.

Em paralelo, nos últimos dias o Facebook anunciou diversas iniciativas em todos os seus apps para impulsionar o uso delas pelas pessoas:

O Facebook é insaciável, mas isso não é um problema particular ou específico. A dinâmica de mercado baseada em crescimento constante, ou seja, o bom e velho capitalismo, força as empresas a serem assim. Pela posição privilegiada que tem, com a atenção de (literalmente) quase meio mundo e boa parte do dinheiro dos anunciantes, sempre ávidos pela nossa atenção, financiar investidas diversas passa a ser possível e os riscos dessas aventuras, atenuados. Estranho seria se não tentassem tanto.

Se faz sentido na ótica mercadológica, será que o mesmo pode ser dito sob outros pontos de vista? É aí que entramos, eu e você, nessa história.

É quase impossível escapar do cerco que o Facebook construiu ao longo desses anos. Você pode não usar o Facebook, mas é bem provável que pelo menos o WhatsApp esteja instalado aí no seu smartphone. Quando o Facebook sugere (ameaça?) permitir a comunicação ininterrupta da localização dos participantes de um grupo, um negócio extremamente desconfortável e invasivo (ainda mais vindo de quem vem), o que se pode fazer? Pedir a todos os seus amigos para que instalem o Signal não funciona. Deixar os amigos falando sozinhos no WhatsApp, tampouco. Pergunto novamente: o que fazer?

Existe a saída fácil, que é pular do barco. Mas ela gera efeitos colaterais e talvez haja muito em jogo para se tentar uma saída fácil. Mesmo no Facebook, a rede social, que não acrescenta muito às nossas vidas, estar lá dentro e entender suas dinâmicas gera conhecimento para elaborar táticas combativas mais eficazes. Abdicar desse espaço, por mais inóspito que ele seja, seria o mesmo que uma oposição deixar de acompanhar os mandos e desmandos do grupo que está no poder. Ainda não estou muito convencido sobre a melhor abordagem, mas faz sentido não enfiar a cabeça embaixo da terra e fingir que o problema não existe. Raramente essa é uma boa solução.

No mesmo sentido, não é muito produtivo esperar que venha do Facebook as soluções para os problemas gerados pelo próprio Facebook. Digo, daqueles que não impactam nos relatórios financeiros. A ingenuidade da crítica rasa de que “essa empresa só visa lucro” talvez caiba aqui porque o Facebook faz muito mais do que vender um produto ou serviço. Ele molda a nossa realidade e interfere ativamente em como nos relacionamos uns com os outros. (Como deixamos a situação chegar a esse ponto é uma outra questão, de alta complexidade, que pode e deve ser debatida em outra oportunidade.)

Então, os anúncios no Messenger são só mais uma etapa do processo de extração de valor das nossas relações pessoais mediadas e, no processo, deterioradas por produtos do Facebook. O intuito não é promovê-las da melhor forma possível. Fosse assim, não nos viciariam em filtros e máscaras estúpidos nem em dinâmicas claramente nocivas e que exercem uma pressão absurda sobre situações que idealmente são leves e naturais — a amizade, por exemplo.

Tomemos o Snapchat, prestes a abrir capital nos Estados Unidos. Não é do Facebook (não por falta de tentar), mas ele representa uma ameaça grande ao Facebook, tanto que dita muitas ações recentes do rival maior. O Snapchat premia usuários que mantêm contato diário, sem falhas, com os demais. Muitos adolescentes se jogam nessa missão a fim de manter os “snap streaks” como se suas vidas dependessem disso. Não é algo saudável sob nenhum ponto de vista — exceto o das finanças da Snap, empresa dona do Snapchat. Viciar o usuário é um bom negócio, é negócio dessas redes e apps.

O discurso por trás disso, por mais nobre e bem intencionado, se perde em meio que às urgências do mercado. A missão do Facebook é “conectar pessoas”; a do Google, “organizar toda a informação do mundo”. São poucas as coisas que ambas fazem atualmente norteadas por essas declarações. E piora a situação o poder absurdo que essas empresas têm de moldar a nossa realidade. Somos ratinhos de laboratório servindo a experimentos sociais que nos dividem e nos estressam. Até que ponto? Temo que levará um bom tempo ainda para descobrirmos esse limite.

Foto do topo: Maurizio Pesce/Flickr.

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7 comentários

  1. Eu raramente entro no facebook. Nem tenho o app no celular. Li o artigo indicado do freeCodeCamp e vou adotar as medidas para “combater” essa máquina maligna do Zuckita da galera. rs
    Por outro lado, eu passo tempo demais no twitter. Tem algum texto sobre isso? ;P

  2. Deixei de usar o Facebook (a rede social) há um ano, e não sinto falta das informações que obtinha por lá, até porque a grande maioria era conteudo de fanpages que curtia e textos/fotos dos contatos que tenho como falar por outros meios.

    Não acho dificil ficar livre da rede social, mas infelizmente estamos presos ao mundo que as empresas nos oferecem, vulgo WhatsApp, Messenger etc…

  3. Eu resolvi ficar um mês sem Facebook, é muito interessante o vazio inicial, após uns dias vem uma enorme quantidade de tempo livre, após uns dias eu comecei a ver a rede não como usuário mas como espectador, aí comecei a achar aquilo um centro de vazio, com gente postando felicidade falsa pra que outros curtam a vida que a pessoa não consegue curtir (como diz o professor Leandro Karnal).
    Dá pra viver sem face tranquilamente, sem WhatsApp é outra história…..

    1. É possível viver sem qualquer meio de comunicação. O problema é justamente que hoje quaisquer meio de comunicação é essencial para relações sociais – profissionais, familiares, colegas. Mesmo sem essa coisa de “felicidade falsa”, é possível até deixar adequado as condições das redes sociais para sua conviniência, basta usar as ferramentas existentes. Meu feed no Face é “limpo”, ou seja, sigo poucos e geralmente justamente àqueles que não postam coisas de “felicidade”, “politicagem”, etc… E no Whats só há um grupo que tenho que é famiilar, e está “silenciado”, ou seja, não vive me notificando de atualizações. Passo o olho de vez em quando e vejo o pessoal e seus assuntos.

      Já tentei ficar sem Facebook, mas para isso teria que na verdade redefinir todas minhas contas também, o que seria uma plena dor de cabeça. Uma vez exclui minha conta no Facebook e do nada um dia veio vários emails do serviço dando acesso para mim na conta que outra pessoa que tinha um nome de email parecido com o meu (meio difícil de explicar). Resultado: apaguei a conta novamente (que era do cara), avisei-o antes disto e deixei a conta em “quarentena”, ou seja, sem acesso nenhum pelo prazo de exclusão do Facebook. Uma vez passado o prazo, acabei retomando a conta por medo de dar alguma dor de cabeça de novo.

  4. Nós atacamos muito quem cresce demais e domina o mercado, mas esquecemos de quem alimenta isso – que é a sociedade em si.

    Se o Facebook conseguiu hoje estar onde está, isso é devido tanto ao esforço de atender a sociedade de alguma forma (e no final se tornar o padrão onipresente), quanto da sociedade que buscou nele a comodidade necessária para sua vida.

    Isso vale para de tudo um pouco na vida – o dinheiro nasceu justamente desta necessidade de atender a sociedade (neste caso de exemplo, de dar a um valor uma representação), o automóvel (de dar habilidade de transpassar o mundo com pouco esforço), o telefone (de facilitar as comunicações entre lugares), a televisão (de massificar e comunicar com a sociedade).

    As grandes empresas antigas dos exemplos citados – os bancos, a Ford, a Bell, a RCA, etc… exemplificando, todas elas nas suas respectivas épocas cresceram financeiramente graças as suas invenções (ou invenções sob sua patente). E quando a patente venceu (ou algo ocorreu que o superaram – como no caso do telefone e da televisão), a sociedade já tinha se adaptado aos seus novos equipamentos e condições sociais. Ah, exceto os bancos, que já tinham inventado o dinheiro, e com isso a “riqueza quase infinita” :p .

    A internet nasceu livre – por isso demorou até que um pouco para engrenar. Imaginem se fosse logo de cara feita por um “Facebook”? Os sistemas de BBS, as primeiras “set-up boxes” antigas de 15-20 anos atrás… o que será que faltou para que as tecnologias de antes pudessem ter virado o que hoje é o Facebook?

    Nisso tudo, ai entrando na questão da privacidade e do “usuário como produto”, Facebook e Google ao menos tentam tratar o usuário com mimos. E isso é relevante ao usuário médio que não conhece muito da tecnologia e da necessidade de privacidade (se bem que tenho minhas dúvidas sobre privacidade).

    O usuário do Facebook / Google só vai se preocupar com a privacidade dele se um dia ele for exposto em uma praça pública e humilhado. Esse é o ponto. Ou quando seus dados forem usados para uma engenharia social ou outro crime que o amedronte quanto ao uso de internet e outras tecnologias. Ele não se preocupa (acho) com suas preferências serem vendidas para outros, desde que tais preferências o atendam também com um custo justo, ele se sentirá no lucro até. O importante ao usuário médio é seu conforto. ponto. Desconfortou, ele vai buscar outra coisa. É simples. O caso do Sisu e os “raquis” por exemplo. Ou o site que mostrava
    todos os dados das pessoas (acho que era Lily o nome). O problema da
    privacidade não está bem no Facebook, mas no que as pessoas consideram como valoroso a privacidade. Se todo mundo vivesse nu por exemplo, será que Largados e Pelados seria sucesso? Ou revista Playboy? Ou os XVídeos?

    Indo aos exemplos antigos – Carros ainda são vendidos pois geram conforto e respeito a individualidade (e isolamento ao coletivo), mas há muita discussão sobre o uso de mobilidade pública, o que desconforta o usuário. Telefone hoje é meio que um desconforto para muitos – telemarketing, cobrança, ou conversas que só estressam. Televisão “não tem nada que preste” e a pessoa hoje pega a tela e joga no computador para assistir suas preferências únicas.

    Pode ser que um dia o Facebook seja superado por qualquer outra tecnologia – implantes cerebrais que nos conectam com outros? :p Mas a priore, o que é relevante a sociedade e prático, é o que importa.

    1. Adendo: eu ia colocar no comentário referências sobre algo que acontece no Brasil é fica próxmo a esta questão do Facebook, que é a Rede Globo.

      O mais próximo (acho) que temos de “conglomerado” de comunicação no país é os serviços da Globo e em segundo lugar o conglomerado da UOL/Folha/Abril.

      Tal como o Facebook, a emissora sempre buscou “mimar” seu consumidor. E no final sempre foi referencial em tudo relacionado a mídia no país.

      Ao mesmo tempo que é vista, é críticada. “Manipuladora” e outros adjetivos são postos, tal como feito ao Facebook. No entanto, diferente do Facebook, o limite da Globo já se transpassou – ela era “ofertiva” e não “interativa”.

      Seu poder de comunicação se minou graças a internet. No entanto até hoje ela continua referência e alvo. E ela continua viva e influente graças ao mercado feito para ela. Graças ao conforto que ela proporcionou aos seus espectadores e a segurança que proporcionou a seus investidores e pessoal que compra espaço de publicidade.

  5. “mas ele (o Snapchat) representa uma ameaça grande ao Facebook, tanto que dita muitas ações recentes do rival maior.”

    Tenho a mais absoluta certeza que existe bônus anual extra no Facebook pro grupo que copiar mais features do Snapchat.

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