Donald Trump em campanha pela presidência dos EUA.

O papel do Facebook na eleição de Donald Trump


9/11/16 às 16h07

Quase todas as pesquisas eleitorais apontavam a vitória da democrata Hillary Clinton na corrida pela presidência dos Estados Unidos. Assim, o triunfo do candidato republicano Donald Trump, eleito presidente nesta madrugada, foi uma surpresa. Analistas estão revendo suas previsões e muita reflexão terá que ser feita daqui em diante. Não tenho bagagem para entrar no debate político, mas creio que alguns dados sobre o papel do Facebook no pleito podem ajudar a entender o fenômeno.

O Facebook virou uma praça de debate político. Digo, “debate”? Perdão. Virou uma campo de batalha movido a memes e falácias absurdas. Mas é isso o que consumimos hoje, então a troca de “debate” por “guerra de memes” não modifica tanto assim o resultado prático, que é onde as pessoas estão buscando informação para tomar posicionamentos ou ratificar os que já têm, independentemente da questão factual. Afinal, o que importa se é verdade ou não? Está na Internet, no FACEBOOK!

Alguém pode alegar que é exagero dar tanto crédito ao Facebook. Eu acho que exagero é diminuir o seu papel. Antes de prosseguir, se o inglês estiver afiado, recomendo as leituras destas duas matérias. Elas revelam as táticas dos militantes e/ou aproveitadores políticos que usam a rede social. É coisa feia e é o que funciona.

A minha contribuição aqui é uma estimativa de quantos norte-americanos estiveram expostos às notícias via Facebook na corrida eleitoral. Seria interessante estender e contrapor esse dado às audiências de outros meios de comunicação, mas falta fôlego e fontes para tanto. Creio, ainda assim, que mesmo limitada, é uma contribuição válida.

Puxei alguns dados e fiz umas contas. (Corrija-me se eu errei alguma;~humanas, blablabal.) Comecemos considerando alguns dados:

Se fizermos uma distribuição proporcional em relação às populações de cada país, os usuários de Facebook nos EUA seriam 206,1 milhões. É provável que sejam mais, já que o Facebook só permite pessoas com mais de 13 anos e os dados populacionais levam em conta bebês e crianças.

Pegando agora o primeiro dado ali de cima, que já está defasado em mais de um ano, porém é o mais recente do Pew, concluímos que no mínimo 127 milhões de norte-americanos recebem notícias pelo Facebook.

É muita gente.

Seria ótimo se essa multidão estivesse debatendo e se informando em um ambiente saudável, mas não é o caso. O Facebook tem um problema endêmico de não fazer distinção entre fato e ficção — incluindo aí mentiras descaradas. O Facebook se julga uma empresa de tecnologia, não de mídia, por isso se exime de responsabilidade editorial. As eleições americanas trouxeram de volta aos holofotes o fact-checking, a prática jornalística de verificar a veracidade do que os candidatos dizem, em grande parte devido à quantidade enorme de absurdos, mentiras e falácias que Trump disparava todo dia, o dia inteiro. Isso é sintomático.

Outro fator curioso, e que ratifica o poder do Facebook em influenciar essa e outras questões delicadas e polarizadoras, foi o posicionamento da imprensa tradicional americana. Com exceção de veículos ultra conservadores, todos os outros declararam explicitamente apoio à Hillary. Não só: a cobertura foi enviesada, bem negativa a Trump. O Huffington Post, no início, declarou que cobriria a candidatura dele como “entretenimento”. NYTimes, Boston Globe e até publicações conservadoras como o Arizona Republic soltaram editoriais declarando apoio a Hillary. Superestimamos o poder da imprensa no século XXI?

Há muita beleza e coisas úteis dentro do Facebook, mas parece-me que o descontrole da informação que rola lá dentro está gerando problemas sérios e em maior número do que as coisas boas. Uns vão mais longe, dizendo que a rede prejudica ativamente a democracia. Não sei se é tanto, mas vale a reflexão e que, de preferência, dela resultem ações a fim de reverter essa espiral decadente em que nos enfiamos.

Foto do topo: Gage Skidmore/Wikimedia.

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53 comentários

  1. Sei que tou saindo um teco dos trilhos, mas puxando um negócio que rolou nos comentários aqui, no caso o assunto de manipulação de mídia e exposição de dados falsos.

    Vamos focar um teco nas eleições municipais. Pergunto: quem aí acompanhou um pouco ao menos os perfis dos candidatos, de amigos e colegas, sejam eles partidários ou contrários aos candidatos colocados?

    E o que vocês geralmente viram nas comunicações que eles faziam? Nos dados expostos, informações e versões de fatos, etc…?

    Antes que perguntem o que vi: digo que vi muita gente mentindo, falando exageros (como pessoas que acusaram outras de crimes ou falhas não cometidas); mas também houve muita exposição de informação real de situações que os candidatos falharam, seja em parcerias inválidas, seja em coisas prometidas e não cumpridas.

  2. Três coisas me vieram a mente aqui:

    1) Acho que tem que se pensar que o Facebook, Google ou qualquer outra “mídia de comunicação/rede social” é de facto neutra. Mesmo que elas tentem atuar de forma a mexer em resultados, de qualquer forma falamos de um meio que é feito pelos seus usuários, não de um jornal, revista ou lugar onde há algo feito exclusivo por alguém com ponto de vista único.

    Para mim, um Facebook não é tão diferente de um telefone ou carta. É um meio onde me comunico com pessoas de um ciclo de conhecidos. Ponto.

    2) Do lado político, vejo que não é só a questão do “discurso conservador”, mas sim que “nós que somos progressistas” de alguma forma não temos um discurso de solução de problemas que abranjam a todos. E na verdade, o pior é ainda ficarmos nesta de A vs B. Não sei se é nós na nossa linguagem que falta semântica para abranger novas palavras (sinto que falta palavras para definir isso tudo) ou é nós que estamos procurando algo que não tem explicação exata.

    3) Façamos um análogo a situação brasileira: geralmente os vitoriosos nos municípios são de discursos mais contidos, “conservadores”, dedicados a uma parte da sociedade que se sentiu ausente do poder público, que cabe na explicação do “WASP” (Branco Anglo Saxão Protestante). Aqui, pessoas que se dizem “de bem” (que não cometeram crimes considerados “de pobre”, que são de alguma denominação religiosa, que trabalham em “empregos comuns” (industria, comércio), e que vivem em condições consideradas “classe média/classe média alta”, se sentiram incomodados com inúmeras atitudes de prefeitos (e dos governos federal e estadual em alguns lugares), como implantação de ciclovias, mudanças no trânsito, etc…

    Um detalhe, e nisso posso estar sendo preconceituoso, é o fato de que alguns destes que se dizem “de bem” também cometem crimes, mas em outro nível (colarinho branco): sonegação de impostos, contrabando/desvio, crimes de trânsito, etc… e isso tudo nos últimos tempos vem sendo combatido de alguma maneira.

    Enfim, necessitamos fazer algumas reflexões melhores sobre isso tudo. E acho que estas discussões vão ajudar bastante a enfrentar um futuro provavelmente nebuloso, vai saber…

    1. Não acho que o Facebook seja neutro. A existência do algoritmo molda a experiência, é diferente de uma carta. Partir da premissa de uma neutralidade ali é dar carta branca ao Facebook. E, estamos presenciando, isso não é lá muito saudável.

      Sobre o segundo ponto, concordo. Essas dicotomias falham em pintar o mundo real. Há um mundo de nuances entre o ultra conservadorismo e o progressismo. O problema é se posicionar como tal — há um rechaço forte porque a mentalidade dicotômica ainda é muito enraizada. Ou é um, ou é outro.

      Sobre o terceiro ponto, o discurso conservador carrega alguns preconceitos e concepções que soam cruéis. E, obviamente, ser conservador não é ser ilibado. A ideia de isonomia, aliás, não é tratar todos da mesma forma, mas desigualmente os desiguais na medida da sua desigualdade, por isso não entendo a cisma de uma ala conservadora com direitos sociais, com Bolsa Família e coisas afins. Enfim, não é aqui que tampouco entenderemos.

      1. Quando falo neutro, é no sentido que por mais que tenha algoritmos e tudo, no final o que dita a movimentação é o público e não uma entidade. Mesmo que o Facebook faça suas pesquisas sociais, experimentos e tentativas de condução, o ponto é que o que dita a comunicação no local é a relação usuário-usuário, e não orador-ouvinte.

        Não é bem o Facebook que quer distorcer nossa realidade (pegando a frase do Louis), mas sim nós que buscamos algo para sair de nossa realidade, ou deixar a realidade a nosso bel-prazer.

        Noto que como sociedade, acabamos sempre em bolhas de alguma forma. É ainda difícil chegar em consensos. Não importa se é o Facebook ou uma linha telefônica – buscamos”iguais”, então vamos achar estes “iguais” de alguma forma. E se tiver um mecanismo mais fácil de achar estes “iguais”, então será aproveitado ao máximo. É o caso do Face.

        1. Nada disso. Recentemente saiu o escândalo progressista do Facebook. Quando ocorriam comentários conservadores, eles eram escondidos, jogados para debaixo do tapete, tudo sendo moldado para influenciar a maioria e pensar apenas o que é bom para a rede social.

        2. Nada disso. Recentemente saiu o escândalo progressista do Facebook. Quando ocorriam comentários conservadores, eles eram escondidos, jogados para debaixo do tapete, tudo sendo moldado para influenciar a maioria e pensar apenas o que é bom para a rede social.

          1. De qualquer forma, isso é mais nos “states”, não vejo muito disto por aqui. E outra, sou do “se quer uma opinião, o melhor é ir atrás; mas se quer dar uma opinião, vá atrás da sua audiência”. E se o Facebook não é o melhor lugar para a audiência…

  3. O Facebook atualmente é partidário da distorção da realidade em benefício dos seus próprios interesses. A mídia americana fraturou o pescoço ao abrir das urnas americanas e espero que isso seja apenas o começo.

  4. Eu acho que a eleição do Trump passa bem menos pelo poder da mídia tradicional (notório) e pela mídia nova (Facebook). A eleição dele se sustenta no sentimento de pertencimento – ou despertencimento – de um setor da sociedade americana -o WASP – que foi relegado no governo Obama e seria, novamente, no governo da Hillary Clinton.

    O discurso conservador é muito eficaz em “abraçar” as demandas de uma certa porção da população, seja nos EUA seja no Brasil, como segurança, tradições familiares, economia estável e manutenção de sistemas de reforço positivo (família. religião, propriedade). Trump pegou esse eleitorado para ele.

    Acho que pra fazer melhor uma análise do Facebook na eleições teria que se pegar o recorte dos eleitores do Trump e comparar com o uso do Facebook dentro dessa faixa, até porque, a Clinton deu uma lavada quando falamos de millenials (18-25 anos) e ganhou entre minorias (latinos, negros e mulheres) ao passo que o Trump manteve a sua hegemonia nos grupos WASP do país.

    1. Acho que foi justamente o contrário. A mídia não é a toda poderosa que a população “sem educação” vai seguir segamente. Além disso, existe um preconceito enorme com qualquer pessoa que não esteja no padrão progressista.

      1. Mas foi isso que eu disse. A eleição dele é baseada no sentimento de pertencimento que o discurso dele trouxe, isso não tem relação nenhuma com a mídia.

        Sobre o Facebook, seria bom comparar o recorte de eleitores do Trump com o de usuários do Facebook que se informam pela rede, por exemplo, pra saber a capacidade de penetração e o grau de influência na decisão das pessoas.

        1. Agora entendi. Pensava que vc acredita que o Facebook influenciava mais. A vitória esmagadora dele, prova que recortes sociais como os dos negros e de brancos altamente escolarizados foram completamente distorcidos (talvez com a intenção de influenciar uma parcela da população).

    2. Concordo, chuto eu que seja mais uma questão geracional até, todo o andamento dessa eleição foi bem similar ao Brexit. Digo isso pela surpresa que houve tanto da mídia tradicional quanto da “internet” com o resultado, a bolha é maior dos jovens em relação aos mais velhos do que entre ideologias.

      Levanto essa hipótese da geração porque ambas as propostas parecem apelar para os tempos de bonança e oportunidades de pouco tempo atrás, seja a história toda dos EUA seja o pós-guerra da Europa. Os millenials acabam sendo o retrato da geração que terá menos perspectivas que os pais, mas tem o caso mais grave desse pessoal que foi atropelado no meio do caminho pela globalização e mudanças no mercado em geral: acho muito mais grave perder perspectivas do que nunca tê-las tido.

      Para piorar, nem a esquerda nem a direita se propõe a proteger essas pessoas que estão sendo achatados e viram gerações anteriores viverem com mais expectativas. Acho que esse “cidadão-médio-branco-não-muito-bem-sucedido” acaba meio invisível para os jornalistas e os jovens acostumados com a internet.

      https://papodehomem.com.br/o-fenomeno-trump-e-a-revolta-dos-brancos-entender-isso-como-mero-racismo-e-um-erro

    3. Concordo, chuto eu que seja mais uma questão geracional até, todo o andamento dessa eleição foi bem similar ao Brexit. Digo isso pela surpresa que houve tanto da mídia tradicional quanto da “internet” com o resultado, a bolha é maior dos jovens em relação aos mais velhos do que entre ideologias.

      Levanto essa hipótese da geração porque ambas as propostas parecem apelar para os tempos de bonança e oportunidades de pouco tempo atrás, seja a história toda dos EUA seja o pós-guerra da Europa. Os millenials acabam sendo o retrato da geração que terá menos perspectivas que os pais, mas tem o caso mais grave desse pessoal que foi atropelado no meio do caminho pela globalização e mudanças no mercado em geral: acho muito mais grave perder perspectivas do que nunca tê-las tido.

      Para piorar, nem a esquerda nem a direita se propõe a proteger essas pessoas que estão sendo achatados e viram gerações anteriores viverem com mais expectativas. Acho que esse “cidadão-médio-branco-não-muito-bem-sucedido” acaba meio invisível para os jornalistas e os jovens acostumados com a internet.

      https://papodehomem.com.br/o-fenomeno-trump-e-a-revolta-dos-brancos-entender-isso-como-mero-racismo-e-um-erro

      1. O gap geracional nos EUA determinou as eleições. Quem está nas redes sociais não tem noção de quem está fora delas – é mais ou menos o fenômeno das análises de TI que eu sempre digo que são feitas por X e para X, existe uma discrepância entre a internet e o mundo.

        Trump ganhou no mesmo extrato social que a o Dória Jr. ganhou: quem não quer saber de política mas acha que precisa mudar; quem não se vê representado pela esquerda/direita mas quer votar pra mudar; que não é rico nem pobre. O não-politico traz consigo uma narrativa interessante para essas pessoas fora do espectro de representação da política atual, polarizada. Esse espectro decidiu as eleições nos EUA e no Brasil. E vai decidir em outros locais do globo, porque vai demorar ainda um tempo para que as atuais forças políticas tradicionais se movimentem em direção a essas pessoas.

        O Trump abraça o pai de família branco, heterossexual, religioso que trabalha o dia inteiro e mesmo assim tem dificuldades de manter a casa. Ele falou mirando exatamente esse eleitorado, muito grande e muito representativo.

      2. opa, pera lá… como assim invisível!? discutiu-se isso o tempo todo e sobre várias perspectivas! se vc estuda questões sociais e problemas relacionados, mesmo q superficialmente, não tem como não ver essa massa. seja pela ótica da adesão ao discurso conservador pela maioria (MBL, por exemplo, como condutor) ou seja pelo movimentos tradicionais (MTST, por exemplo). não acompanhei a coisa nos eua com muita atenção, mas duvido q tenha passado batido pela imprensa… e eles ainda têm a seu favor de estarem levando essas questão pela indústria cultural há tempos. vi uma penca de filmes q exibiam não diretamente essas questões, mas estavam lá como pano de fundo. e é coisa de mais de uma década…

          1. não é bem torcida, louis. se fosse só torcida seria ótimo, mas são grandes interesses. grandes mesmo. temos muito disso por aqui, não temos? mobilizaram todas as forças pra remover o PT (o qual não sou simpático desde 2002) pra colocar o PMDB, cara… isso é puro interesse.

        1. Tem uma diferença gritante entre “saber que eles existem” e “da voz as demandas”. Além do mais, ainda se faz necessário entender o que essa classe entende por voz e o que ela almeja. O discurso do Trump é muito mais do que apenas ódio (ele tem ódio), ele é preciso no que tange a apontar o dedo na direção do que essa porção da população crê e quer de um governo.

          1. Mas esse foi o ponto do post, pelo q entendi… Eles ganharam voz no facebook e deu no q deu. Me parece pouco provável q a imprensa não tenha tomado ciência disso. As pessoas q não são profissionais da informação e muito restritas a certos círculos, se fechando demais pra opiniões diferentes (mesmo alegando sendo transdisciplinares etc), podem, com certeza, terem sido pegas de surpresa. Mas já estão cantando essa bola faz tempo e pela proporção de opiniões q são divergentes das minhas qdo vejo nas redes sociais, sei q sou a minoria nitidamente em assuntos q me interessam como direitos humanos. Agora, se não se busca diálogo com as pessoas, aí a coisa complica muito… Se grupos de direita e esquerda estão se fechando, eles devem ter suas razões, mas q isso pode ser observado, não há dúvidas. E, sinceramente, as mídias tradicionais dão voz àqueles q se coadunam com seus próprios interesses e, em alguns momentos, há ressalvas graças a liberdade de atuação de poucos profissionais mais tarimbados…

          2. Você está misturando coisas. O post fala da influência do Facebook como mídia (ou da falta dela) ao passo que a discussão aqui é que o Trump angariou pra si uma parcela que não tinha voz com o Obama e que não se viu como protagonista com o programa da Hillary. Isso independe do Facebook, por exemplo.

            Postei mais acima um link do voto americano onde mostra que o Trump venceu entre brancos de baixa escolaridade, religiosos, nacionalistas e com salários baixos; ao passo que a Hillary venceu entre as minorias (latinos e negros), mulheres, pessoas com educação superior (pós-graduação e graduação) e com salários altos.

            Exatamente esse recorte WASP que elegeu o Trump. E esse recorte, defendo, não teve muita relação com o Facebook e sim com a incapacidade dos programas do Obama, da Hillary e do Jeb Bush (ainda nas primárias) de se conectar com o que essa parcela da população americana queria.

          3. Tô ligado, Paulo, mas não dá pra desconsiderar mais o face e outras redes no atual contexto e isso, se vc for reparar, vem desde a primeira eleição do Obama q foi celebrada justamente por ter sido uma campanha MUITO forte nos primórdios das redes sociais e despertou a atenção do mundo todo pra esse potencial. O combustível essencial de uma campanha política é justamente a troca da informação e isso vem antes mesmo da propaganda política. Se vc pega um Camille Desmoulins e seus panfletos na revolução francesa… o q ele estava fazendo!? Mobilizando as vozes. Hj a coisa, claro, tem outra dinâmica. Não acompanhei os MBL da vida nos EUA, mas com certeza eles mobilizaram esses votos. Creditar apenas à massa uma espécie de coalização ou alinhamento de interesses a partir de um discurso de um político é insuficiente, pq teve q rolar aí um convencimento. Estão tirando como estúpidas (não o seu caso) as pessoas q votaram no Trump, não estão? Mas não me parece q é isso, pq houve essa fase de convencimento da opinião pra abandonar o legado do Obama, q nos últimos meses ficou melhor graças ao Obamacare e outros pontos (veja, eu nem sou simpático aos democratas, tão pouco aos republicanos, q afundam o mundo em guerras e mais guerras).

          4. De maneira nenhuma se retira o poder da mídia e das redes, mas, ele é muito menor do que se pensa, só isso.

            Eu vejo a coalização muito mais orgânica do que fruto de panfletagem virtual. Trump aglutinou o discurso que certo recorte sócio-econômico queria ouvir, deu voz a eles na campanha desde as prévias. Isso foi o diferencial das campanhas.

          5. Tive uma infrutífera “discussão” com um coletivo feminista e um cara q está fundando um partido novo aí e eles, mesmo sendo uma causa nobre, defender um vítima de estupro na faculdade de medicina da usp, acabavam com a presunção de inocência ao ouvirem apenas a vítima e ao alertá-los disso, chamando a atenção de q o discurso deles estava se aproximando do discurso reacionário, recebi como resposta, além de deboche e provocações, o silêncio qdo eles já se viram sem argumentos… Eles estão se fechando mesmo tendo recursos cognitivos pra não o fazerem. Então, não dá pra dizer q só gente estúpida se fecha (como bem sabemos) e se há consciência disso, não dá pra dizer q essas coisas passam tão batidas assim. Daí eu acho q a imprensa estava fazendo papel de influenciar opiniões, mas pecou ao esconder as vozes (nesse caso muitas) dissonantes. Não dá pra esconder essas coisas e qdo isso é feito pela imprensa, é muito feio. Só q aqui no Brasil isso é algo meio q diário, então… Qual a novidade?

  5. Vc preferia q a eleição fosse determinada pela cobertura tendenciosa da midia ao invés do livre compartilhamento de informação na rede? Muito democrático esse pensamento, nooossa

    1. Opa, o compartilhamento não é “livre”, é bancado por um monte de interessados na desinformação, gente que ganha, direta ou indiretamente, espalhando essas mentiras, e fomentado por uma plataforma que faz pouco caso disso; e a informação, faltou a você complementar, é informação deliberadamente falsa, o que é problemático — elege-se, dessa forma, representantes com base em mentiras. Recomendo ler os dois links que deixei ali antes de entrar nos dados e contas, são leituras fascinantes.

      A mídia pode ser tendenciosa (eu iria além; sempre é), mas pelo menos há um cuidado mínimo de checagem de fatos e rigor jornalístico que, me desculpe, mas o Facebook não tem e nem tem interesse em ter.

      1. A melhor forma e talvez única forma de se aproximar da verdade verdadeira é mantendo o contato com muitas opiniões divergentes e opostas, Pois só dessa forma a pessoa é obrigada a raciocinar por si própria e decidir entre tantas contradições um meio termo que pareça mais razoável. E o face se compartilham mtos tipos de opnioes divergentes. De que adianta o “rigor” da apuração dos “fatos” na midia tradicional se o que eles passam na verdade nunca foram fatos, e sim interpretações tendenciosas de fatos particulares? A verdade nunca esteve no monopolio da informacao por uma autoridade Na historia a verdade e o saber so floresceram aonde havia pluralidade de opinioes (inexatas por definicao). Fechar-se em uma bolha ideologica, censurar a comunicao sobre pretesto de deter a verdade absoluta, a pessoa apontar pro ceu mas so se olhar pro dedo dela e nao considerar o que o outro diz, eh o caminho mais rapido para a ignorancia e a idade das trevas

        1. Eu concordo totalmente contigo sobre a necessidade e os benefícios indiscutíveis da pluralidade de pontos de vista. Essa é, inclusive, uma das críticas que recaem sobre o Facebook — você já deve ter ouvido falar do “filtro invisível” do Eli Pariser.

          No Facebook ocorre um tipo de bolha, uma que me parece mais danosa do que a parcialidade da imprensa tradicional porque não tem nenhuma responsabilidade factual, joga de acordo com critérios escusos (engajamento, adequação às ideias de mundo pré-concebidas das pessoas) e, no fim, acaba por blindar a bolha natural que todos temos em vez de nos livrar dela. Daí a minha crítica: o Facebook não faz nada para estourarmos bolhas e termos contato com opiniões divergentes. Pelo contrário, estimula a ratificação das nossas crenças e faz isso a todo custo, inclusive da informação declaradamente falsa.

          1. Não é exatamente assim, em minha timeline pipocam compartilhamentos tanto de pessoas de esquerda quanto de direita. E já vi várias discussões em postagem de outros, sinal que pessoas recebem posts conflitantes com suas crenças. Mas é claro que se pessoa só ficar clicando em notícias de um único tipo de amigo, ou se ela deliberadamente excluir o feed de amigos de outra ideologia, então ela terá menos chances de ver algo contra a ideologia dela. Mas isso terá sido um escolha dela, proveniente do seu comportamento de só olhar aquilo que lhe reafirma e evitar sem nem checar o que lhe contradiz. Não é uma imposição do Facebook, é um reflexo da pessoa ser alguém normal atras de noticias ou ser um militante intolerante e dogmático. Pessoas menos extremistas radicais, as pessoas que ao menos se interessam em olhar notícias contrárias ao que pensava ou conhecia até então essas pessoas comuns se beneficiam muito do debate na rede. Bolha se existe só existe mesmo pra fanáticos partidários. Ai não há tecnologia que resolva mesmo.

        2. Isso é altamente utópico e tem uma falha neste discurso.

          Primeiro que é difícil definir “uma verdade verdadeira”. Isso é como comprovar um fato com 100% de exatidão, e esse é o pior perigo que tem, pois justamente acaba deixando a margem para algo polarizado ao invés da dúvida ao menos razoável ou para o consenso, já que quando se falamos em algo “verdadeiro”, outra pessoa poderá considerar “falso”. Isso fica contraditório em relação ao seu último parágrafo.

          Quando se fala no “rigor da apuração de fatos na mídia tradicional”, é a questão de ver se o discurso bate com a sua ação atual. Voltando ao Brasil e a época atual de eleição: se hoje um político falasse que “nunca foi corrupto”, provavelmente algum jornalista puxaria uma informação rapidamente na internet e mostraria alguma corrupção do político, nem que seja uma multa de trânsito (sim, isso também é corrupção!).

          Indo ao EUA, isso é visto na situação do Trump, que fala em combate a corrupção, mas sempre foi levado pela mídia que ele agia de forma a desviar recursos e ficar devendo impostos ao governo.

          Eu não discordo do fato que realmente no final, quem bota as questões na mesa e resolve é a população, independente de qualquer mídia que seja, independente da forma de comunicação existente. Nisso você está certo (pela minha ótica).

          O problema aqui é justamente a falta de rigor de analise da própria população em avaliar a situação e procurar algo que não seja uma ameaça a si mesma. Em que no final o que você falou no último parágrafo não seja executado pela população da mesma forma que você tem como “utopia”

          E agora acho que compreendo melhor onde o Ghedin quer chegar com a questão do Facebook.

          Vou tentar outro exemplo recente brasileiro, que não tem nada a haver com política mas tem a haver com disseminar informação prejudicial a própria população.

          Tempos atrás, uma mulher no Guarujá foi espancada até a morte por ter sido espalhado em redes sociais, seja o Facebook, Whatsapp e outros, que ela seria uma pessoa que fazia magia negra com crianças e estava sequestrando na região.

          A polícia investigou e verificou que a mulher nunca fez nada de errado e quem espalhou a informação o fez de má fé, sem apuração de informação nem nada mais.

          Isso mostra que se fôssemos seguir sua utopia, essa pluralidade significaria um risco ao próximo, pois informações contraditórias sem filtro podem ser mal avaliadas e resultarem em problemas. É assim que se gerou a leitura de uma bíblia ou Alcorão de forma a gerar radicais.

          Pegando o exemplo das eleições brasileiras, é só ver as “máquinas de publicidade”, sejam elas “orgânicas” (feitas pela própria população) ou “maquinadas” (feitas pela equipe de marketing de campanha) disseminando informações falsas ou manipuladas de candidatos. Isso teve à rodo no Brasil.

          Antigamente (há uns 15 anos atrás até), era só pegar um dia antes da eleição para ver jornais falsos com ´”informações sobre a sujeira política”. Hoje um cilque no Facebook e você vê ou um gif zoando o candidato, ou se preferir uma matéria bem elaborada falando mal de um candidato e falando bem de outro.

          Claro que a população fará sua própria avaliação do que é “certo” ou “errado”, no entanto nem todas as pessoas farão esta avaliação em um consenso, e o perigo fica na falta deste.

          A bolha que você fala não é feita (só) pelo Facebook, mas pela própria pessoa, pois afinal, a pessoa busca para si um conforto, uma paz. Ela quer viver de forma a se alimentar e se confortar. Qualquer ameaça a isso é prejudicial para ela e esta vai fazer de tudo para manter este conforto.

          Nisso, a única verdade que vai restar para aquela pessoa que briga pelo seu conforto é que “os outros só querem ver o ‘meu’ mal, e o bem delas”.

          É isso que ocorre nos discursos que geraram a vitória do Trump e do Dória (e a visão do Bolsonaro como candidato presidenciavel futuro). E isso tem uma boa leitura nos textos do Arruda aqui nos comentários deste post, e no post do Pedro Burgos no Papo de Homem que o Arruda deixou linkado em um dos textos dele.

          Na cabeça de quem botou o Trump no poder, “a verdade é que os políticos tiraram os empregos ‘nossos’ e mandaram para ‘países socialistas'” (em uma visão preconceituosa). Para ser menos preconceituoso, podemos resumir em “os políticos anteriores tiraram o meu emprego e não fizeram nada para repor meu trabalho, agora não tenho dinheiro para nada, devo pra caramba, enquanto um monte de gente tem cotas, tem bolsas e vivem bem”.

          Nisso a discussão fica bem complexa e paro por aqui. Mas o que quero tentar dizer é que não dá para ficar na utopia de esperar que a população tome para si as decisões, pois foi nessas que um Hitler (sim, argumento ao nazismo :p ) ou Mussolini ou qualquer outro político destrutivo entrou no poder e estragou as coisas no mundo.

          Talvez possamos nos surpreender e dar o braço a torcer ao ver o Trump ir diferente ao discurso exposto. Mas nunca se sabe, e “a primeira imagem é a que fica”…

  6. Artigo interessante. Vejo muito mau caratismo no face em época de eleições. Muita noticia exageradamente falsa disseminada pela rede. Felizmente, quem gosta de saber a verdade, a alcançará. Os demais continuarão alienados.

    1. Isso não basta, Gabriel, porque o coletivo afeta a todos. Se só você alcança a “verdade”, não resolve muita coisa nem muda o cenário. O problema não é termos vozes dissonantes (isso é saudável); o problema é termos vozes elevadas dissonantes com base em distorções e manipulação do meio. É mais embaixo.

      1. Fica muito claro que tudo é interesse financeiro. Hillary seria mais uma para atender aos interesses das corporações. O Facebook só faz o que lhe convém e manipula os “inteligentes” usuários, vide as mentiras quando o WhatsApp caiu no Brasil (a rede era perseguida pelo juiz malvado) e meses depois, o incessável ficou disponíveis para fazer grana no Facebook.

        1. Como disse na introdução, eu não tenho bagagem para discutir a questão política com tanto afinco. Vendo de longe e ciente dessa limitação, porém, não me parece que Trump e Hillary representem pontos de vista muito diferentes — aí, concordamos, é tudo meio que farinha do mesmo saco.

          O que me parece preocupante são os posicionamentos do Trump acerca de minorias e das diferenças. A misoginia, o racismo, o lance do muro na fronteira com o México. Boa parte, pura baboseira performática de campanha, mas ele não diria, ainda que só para jogar para a torcida, se não acreditasse nesse discurso (mesmo que impraticável). O eleitor talvez não perceba esse jogo de cena, mas a intenção, de todos os envolvidos, está ali.

        2. Como disse na introdução, eu não tenho bagagem para discutir a questão política com tanto afinco. Vendo de longe e ciente dessa limitação, porém, não me parece que Trump e Hillary representem pontos de vista muito diferentes — aí, concordamos, é tudo meio que farinha do mesmo saco.

          O que me parece preocupante são os posicionamentos do Trump acerca de minorias e das diferenças. A misoginia, o racismo, o lance do muro na fronteira com o México. Boa parte, pura baboseira performática de campanha, mas ele não diria, ainda que só para jogar para a torcida, se não acreditasse nesse discurso (mesmo que impraticável). O eleitor talvez não perceba esse jogo de cena, mas a intenção, de todos os envolvidos, está ali.

          1. Também acho que são a mesma moeda num jogo de cena dregadante. O Trump não parece ser racista ou intolerante à imigrantes. Vejo o eleitor americano como alguém cansado de ser tratado como um retardado. Muitas pessoas negras apareciam nos vídeos, felizes pela vitória. Isso é apenas uma pequena fração da distorção que chega até aqui. Não acho que ele terá sequer coragem para fazer todo que prometeu, mas, espero que seja um caminho para o fim do Estado.

          2. Também acho que são a mesma moeda num jogo de cena dregadante. O Trump não parece ser racista ou intolerante à imigrantes. Vejo o eleitor americano como alguém cansado de ser tratado como um retardado. Muitas pessoas negras apareciam nos vídeos, felizes pela vitória. Isso é apenas uma pequena fração da distorção que chega até aqui. Não acho que ele terá sequer coragem para fazer todo que prometeu, mas, espero que seja um caminho para o fim do Estado.

          3. O problema não é o parecer, mas o discurso usado. A não ser que a mídia realmente esteja jogando (e nos Estados Unidos, isso é comum), é aparente ver que o Trump age de forma preconceituosa, pisando em ovos sem se preocupar em esmaga-los.

          4. Sim, mas a ação exposta soa preconceituosa. Bem, o Arruda trouxe um texto antigo no link que ele deixou que é muito bom e explica melhor a situação. De fato, acho que errei ao ver como preconceituoso. Mas é difícil mensurar também estas coisas :)