Ícone do Facebook em macro.

No dicionário do Facebook, “deletar” tem outro significado


1/3/19 às 15h26

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Em maio de 2018, no auge da crise da Cambridge Analytica que expôs a torneira pela qual dados pessoais dos usuários do Facebook vazavam até uns anos antes, Mark Zuckerberg prometeu, na abertura da F8, a conferência anual da empresa para desenvolvedores, uma ferramenta, até então inimaginável, que permitiria ao usuário excluir todos os dados que o Facebook capturou de apps e sites com os quais você já interagiu. Veja o trecho em vídeo.

A proposta, nas palavras do próprio Zuckerberg, era dar aos usuários um controle similar ao que navegadores web oferecem para a exclusão de cookies e histórico de navegação. Um clique e adeus a dados importantes que formam o seu perfil que o Facebook vende para empresas, governos e picaretas interessados em manipulá-lo.

Faz quase um ano que a ferramenta foi anunciada e, até agora, nada dela aparecer. A imprensa norte-americana começou a cobrar. Em dezembro, o Facebook disse ao Recode que estava “demorando mais do que inicialmente imaginado” devido a dificuldades técnicas. Isso vindo de uma das cinco maiores empresas do mundo e que dispõe, seguramente, de boa parte dos melhores programadores do planeta.

Semana passada, o BuzzFeed aumentou a pressão. A reportagem citou uma fonte anônima do Facebook que disse que a ferramenta de limpeza do histórico foi anunciada apenas porque “Mark queria marcar alguns pontos [com os críticos]” e que ela não passava de fantasia.

O diretor financeiro do Facebook, David Werner, sinalizou nesta terça (26) que, fantasia à época do anúncio ou não, a ferramenta realmente será lançada. Em uma conferência com banqueiros, gente mais interessada no lucro do Facebook do que em externalidades como o colapso de democracias, o fomento a genocídios e a corrosão da privacidade das pessoas, alertou-os de que a ferramenta será disponibilizada até o fim do ano e que poderá impactar o negócio de publicidade segmentada do Facebook.

Uma das maiores mentiras da indústria da tecnologia é o botão “deletar”. Em regra, o seu real significado é “ocultar”. Quando você apaga um post no Facebook ou desfaz uma curtida em uma página, não é como se uma linha em seu cadastro na rede social fosse apagada. Na verdade, surge uma nova sinalizando que você, que um dia postou aquilo ou curtiu tal página, mudou de ideia. O editor da revista Real Life, Rob Horning, coloca isso de maneira melhor:

O conceito de “deletar” não existe de fato para o Facebook; esforços para “deletar” são apenas novos dados sobre como você se sente a respeito de algo que agora está tentando esconder. (…) A exclusão, no mundo do Facebook, é uma maneira de acrescentar dados, não de removê-los.

A acumulação de dados está no DNA do Facebook e está longe de ser novidade. E é de uma voracidade que, com frequência, faz com que a empresa extrapole a legalidade e/ou níveis mínimos de ética esperados de empresas, que, convenhamos, são baixíssimos. Em 2013, por exemplo, descobriu-se que mesmo textos digitados nos diversos campos espalhados pela interface do Facebook, mas que jamais foram enviados porque a pessoa achou melhor não, são guardados pelo Facebook. É doentio.

Por isso o anúncio de maio de 2018 causou espanto na opinião pública e parece ter se transformado em uma batata quente na mão dos executivos do Facebook.

Só que sempre existe a saída pela tangente. Will Oremus, da Slate, fez o feijão com arroz do jornalismo e perguntou a um porta-voz do Facebook se os dados serão de fato excluídos pela ferramenta ou se, de alguma forma, eles continuarão guardados nos servidores da empresa. A resposta:

De uma perspectiva de segmentação e otimização, a Limpeza do Histórico será similar ao nosso controle de dados de parceiros existente nas Preferências de Anúncios — os dados que uma pessoa exclui não serão usados para personalizar seus anúncios. Compartilharemos mais detalhes do impacto para anunciantes quando estivermos próximos do lançamento.

Traduzindo o “executivês”, não, eles não serão excluídos. O que deve acontecer é apenas uma dissociação desses dados do seu perfil. E isso ainda é pouco.

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