Funcionário do Facebook programando.

O bloqueio de bloqueadores de anúncios do Facebook só é bom para o próprio Facebook


10/8/16 às 10h19

O Facebook anunciou que passará por cima dos bloqueadores de anúncios como o Adblocker Plus, ou seja, mesmo os usuários que acessam o site em navegadores desktop equipados com extensões do tipo não terão escolha a não ser ver os anúncios. Embora algumas startups como a Pagefair trabalhem nesse sentido, o peso que o Facebook tem é grande o bastante para reacender a discussão em torno do tema. Não é meu intuito entrar nela (não tenho opinião formada), mas alguns aspectos desse anúncio chamam a atenção.

Primeiro, o interesse tardio do Facebook em atacar o problema. A veiculação de anúncios é literalmente o seu ganha-pão, mas os anúncios mais valiosos não são exibidos em computadores; são aqueles que aparecem nos smartphones.

No último relatório fiscal da empresa, de 27 de julho, foi divulgado que 1,57 bilhão de um total de 1,71 bilhão de usuários acessa o Facebook via dispositivos móveis. A maior fatia, 967 milhões, apenas por dispositivos móveis. Desde o final de 2015 mais da metade dos usuários apresenta esse comportamento e a tendência é de que ele se espalhe ainda mais. O mais importante, porém, é o faturamento: 84% dos US$ 6,24 bilhões que o Facebook fez no segundo trimestre fiscal de 2016 veio do mobile.

Os dois dados, onde os usuários estão e de onde vem o dinheiro, se relacionam. Não é como se o Facebook estivesse deixando na mesa uma quantia enorme devido ao baixo rendimento dos anúncios em computadores. Talvez esteja, mas não parece ser algo (tão) significativo visto que, hoje, a maioria acessa o Facebook a partir de smartphones e, neles, o faturamento vai bem, obrigado.

O que explica esse bom desempenho em telas pequenas é o ecossistema que há dentro delas. O Facebook controla totalmente o seu app e, obviamente, não permite que se bloqueie anúncios nele. Mesmo aqueles que acessam a rede social via web móvel têm dificuldades nesse sentido. Segundo a Pagefair, dos cinco navegadores mais populares com bloqueador de anúncios embutido, quatro são variações do UC Browser, da Alibaba, que é líder de mercado na Índia, Indonésia e China — nesse último país o Facebook não atua. Apple (iOS) e Samsung oferecem suporte a extensões que bloqueiam anúncios, mas o procedimento é menos intuitivo do que algo nativo e, em alguns casos, pago. E, no caso do Android, de qualquer maneira o Chrome domina as estatísticas no ocidente. (Não é coincidência ser especialmente difícil bloquear anúncios no Android do Google.)

Há dinheiro a ser extraído de usuários desktop, mas vale a investida? Ou o Facebook está mirando além dos dólares, mais preocupado em atuar na conscientização das perdas que os bloqueadores de anúncios causam antevendo um aumento dessa prática em dispositivos móveis?

Outro ponto interessante é a solução proposta pelo Facebook para compensar a inutilização dos bloqueadores de anúncios: transparência. Agora, a rede social expõe e facilita o acesso ao perfil comercial de cada usuário em seu app (móvel). Ao ver um anúncio, pode-se consultar o caminho que ele fez até você, ou seja, entender os motivos que levaram os algoritmos do Facebook a decidir que ele lhe seria interessante. Mais que isso, dá para modificar esses parâmetros se achar que eles estão incorretos.

Isso dá mais controle ao usuário, mas não ameniza o receio de muita gente pró-privacidade, para quem o problema está justamente na existência de um perfil completo de cada pessoa guardado nos servidores do Facebook. Pior: tal solução gera mais um trabalho ao usuário que, no fim e em grande parte, traz vantagens apenas ao próprio Facebook — dados mais precisos = publicidade mais efetiva = lucro.

No anúncio das novidades do Facebook, Andrew Bosworth, vice-presidente da plataforma de anúncios e negócios, começa assim:

Na medida em que mais conteúdo migrou para a Internet, as experiências online melhoraram dramaticamente, tornando-se mais imersivas e intuitivas. Porém, muitos anúncios digitais não acompanharam [a mudança]. Todos nós experimentamos um monte de anúncios ruins: anúncios que ocultam o conteúdo que estamos tentando ler, anúncios que aumentam o tempo de carregamento [da página] ou anúncios que tentam nos vender coisas que não temos interesse em comprar. anúncios ruins são disruptivos e uma perda do nosso tempo.

O que faz muito sentido e, na real, é um “não problema” no Facebook — o desempenho comercial espetacular é um atestado da qualidade dos seus anúncios. Questões sobre privacidade à parte, o Facebook faz um trabalho exemplar desde a forma com que exibe anúncios (poucos e em locais estratégicos) à seleção deles (algoritmo esperto comendo vastos dados que nós mesmos inserimos no sistema, voluntariamente ou não).

A decisão de ignorar bloqueadores de anúncios transcende essa questão, porém. Ela interfere no controle do usuário sobre o seu próprio navegador e ignora o funcionamento da web aberta — é, talvez, um efeito colateral de encará-la como a uma plataforma. O Facebook avança para camadas mais profundas do sistema e se hoje isso é feito para frear uma ameaça ao seu modelo de negócio, um fim que para alguns talvez nem seja condenável, o que virá depois? Já há manchas no histórico da empresa, como na vez (nas várias vezes) em que o ela monitorou o comportamento de usuários deslogados. Outro exemplo similar é o do Dropbox, que tem enfrentado muita resistência por estar prestes a pedir acesso ao kernel, o “coração” dos sistemas desktop onde opera. Até onde nossos sistemas e nós mesmos permitiremos que essas empresas cheguem?

Comentando o anúncio do Facebook, Ben Williams, gerente de comunicação e operações da Eyeo G.m.b.H., empresa por trás do Adblocker Plus, condenou a novidade: “é um movimento infeliz porque toma um caminho nebuloso contra a escolha do usuário”. E prometeu que o “jogo de gato e rato” continuará, ou seja, haverá pelo menos uma tentativa de criar um bloqueador do bloqueador de bloqueadores de anúncios do Facebook.

Todo mundo que faz um trabalho útil ou que ganha o interesse de outras pessoas tem direito a buscar uma contraprestação financeira. A questão dos bloqueadores de anúncios é delicada, mas muito mais para publicações, jornais, negócios que ainda não encontraram uma alternativa às receitas em queda derivadas de mudanças na conjuntura da Internet. O Facebook, inclusive, é parte do problema. Ele abocanha uma fatia enorme do gasto mundial com publicidade digital, dinheiro que antes era destinado a essas mesmas publicações que hoje sofrem para empatar as contas.

O Facebook pode ser um aliado nessa luta? Sim, mas não dá para esperar muita coisa. Ele joga para si mesmo, como já demonstrou incontáveis vezes. Quando os interesses de lá se alinham com os de algum grupo externo, ótimo. Quebrar bloqueadores de anúncios é o sonho de muitas publicações e do Facebook também. Mas não é o que o motiva e, por isso, a rede social não deve ser encarada como uma aliada. Afinal, o que acontece quando seus interesses não estão alinhados com os dos outros? Azar dos outros.

Colabore
Assine o Manual

Privacidade online é possível e este blog prova: aqui, você não é monitorado. A cobertura de tecnologia mais crítica do Brasil precisa do seu apoio.

Assine
a partir de R$ 9/mês