O Facebook em apps

Silhuetas de pessoas usando smartphone com logo do Facebook ao fundo.

Quando o Facebook surgiu, em 2004, smartphones como os que conhecemos hoje sequer existiam, muito menos a ideia de apps acessíveis e fáceis de serem instalados. Hoje ambos são onipresentes, embora restrições de outras ordens persistam. Temos os melhores dispositivos portáteis e uma infinidade de apps, mas nem todos esses estão ao alcance de qualquer um, por motivos que variam bastante.

Em pouco mais de dez anos o Facebook cresceu e se tornou a maior rede social do mundo, com 1,59 bilhão de usuários. Parte desse sucesso decorre da agilidade com que a empresa enxergou e aproveitou oportunidades. Entre elas, a explosão dos smartphones e, consequentemente, dos apps. Não falo apenas do app principal da rede social. Entre aquisições, soluções para públicos específicos e experimentos realizados em certos locais, são inúmeros os apps que a rede social já lançou e mantém ativos.

Neste momento a App Store brasileira lista 14 apps do Facebook — esse número já exclui as quatro extensões para o Messenger, desde 2015 uma plataforma, e inclui WhatsApp e Instagram, que são publicados como apps independentes da empresa-mãe. Desses, cinco são, de alguma forma, restritos, ou seja, na condição de usuário comum do Facebook, não estão ao seu alcance. Os motivos variam e daremos uma passada por cada um deles.

Gerenciador de Páginas e Gerenciador de Anúncios

São voltados a quem administra páginas no Facebook. O Gerenciador de Páginas permite a publicação de conteúdo nas páginas gerenciadas, oferece acesso ao Insights (estatísticas detalhadas do público e comportamento dele dentro das páginas) e mostra notificações e mensagens. É como o app padrão do Facebook, só que para páginas.

Já o Gerenciador de Anúncios é ainda mais focado. Ele facilita a criação, edições e acompanhamento de anúncios feitos na plataforma. A veiculação de anúncios é a principal fonte de renda do Facebook e um poderoso recurso para que pequenas e médias empresas, a quem o app é destinado, alcancem um público altamente segmentado. Esse é, aliás, o diferencial que o Facebook oferece: a capacidade de colocar os anúncios certos na frente de quem está mais inclinado a consumir o que eles mostram.

Embora, por padrão, os dois apps sejam restritos, o acesso a eles é simples: basta criar uma página, algo rápido e gratuito. Cultivá-la e fazê-la crescer em algo relevante são outros quinhentos — mas, decerto, esses dois apps são de grande ajuda nesse sentido.

Facebook at Work e Work Chat

Quem nunca criou um grupo no Facebook ou no Messenger para resolver um problema? O Facebook at Work é uma iniciativa mais encorpada para centralizar e facilitar esse trabalho colaborativo em ambientes corporativos. Na prática, é como uma intranet que utiliza a infraestrutura e ferramentas do Facebook — em outras palavras, o que o nome diz, ou seja, um Facebook exclusivamente pensado para trabalhar.

É uma área relativamente nova e bastante concorrida, essa em que o Facebook resolveu atuar, provavelmente por notar esse uso em seu produto principal. (Eu já trabalhei em redações virtuais organizadas completamente dentro do Facebook, por exemplo.)

O Facebook at Work ainda está em desenvolvimento. Algumas empresas brasileiras utilizam-no em caráter experimental, então mesmo que você tenha uma e goste da ideia de gerenciar as tarefas da sua equipe por intermédio do Facebook, ainda não é possível adotar a solução. Felizmente, não é como se faltassem alternativas: Slack, Basecamp, SharePoint, Google Apps, entre outros, fazem a mesma coisa, com vantagens e desvantagens em relação à oferta do Facebook.

Facebook Mentions

Prints do Mentions.

Alguns perfis têm um “tique” azul ao lado do nome. São os perfis verificados. O Facebook dá esse selo de autenticidade para celebridades, jornalistas e outras personalidades a fim de legitimar a identidade (sim, é o cantor mesmo, não um fake) ou fomentar a veiculação de conteúdo de qualidade e boas discussões na rede (caso da maioria dos jornalistas).

O Mentions é uma variante do app principal do Facebook para perfis verificados. Até o ícone é parecido, porém na cor preta. Por dentro, a divisão das abas é um pouco diferente e os recursos, todos voltados ao feed de notícias e com uma forte inclinação ao público. Não dá, por exemplo, para publicar algo somente para amigos. Por outro lado, existe a opção de “ignorar” amigos e publicar apenas no feed de notícias dos seguidores, o que ajuda a separar um pouco as coisas. Outras ausências notáveis são o bate-papo e os grupos. O gerenciamento de páginas, que no app principal existe de maneira um pouco precária, não está disponível aqui.

Além dos formatos tradicionais de conteúdo, o Mentions tem dois exclusivos: o “Face to Face”, que é uma espécie de sessão de perguntas e respostas, e o Vídeo ao vivo, que abre a câmera do smartphone e inicia uma transmissão ao vivo similar à do Periscope. Este último, porém, já começou a ser liberado para todos, independentemente do perfil verificado.

Uma das abas é homônima ao app, a Menções. Ela funciona como um clipping pessoal dentro do Facebook: todas as menções ao seu perfil e publicações em páginas feitas por você aparecem ali, concentradas. Para figuras públicas deve ser uma maneira ótima, especialmente com a filtragem para “fontes de mídia”, de acompanhar o que se fala dela no Facebook. Para mim, é legal ver quem e o que falam dos posts do Manual fora do meu feed de notícias.

Um Facebook para jornalistas

Print do Facebook Signal no Safari.

Com o oceano de dados gerados pelos usuários dentro do Facebook, com alguma boa vontade é possível detectar tendências e se ter uma visão macro do que acontece no mundo. A jornalistas é oferecido um serviço nesse sentido, gratuito e restrito, chamado Signal, acessível apenas via web.

O Signal é um painel de tendências, atualizado em tempo real, com ferramentas para facilitar a descoberta e o aprofundamento do que está sendo debatido no Facebook em língua inglesa. Além de dados da própria rede, ele também confia em dados de outras empresas especializadas em mídias sociais, como Storyful e Crowdtangle. Dá para pesquisar por eventos específicos e personalidades, além de buscas fáceis no Facebook e Instagram. O Signal também permite salvar posts e buscas.

O passeio pelos apps do Facebook não termina aqui. Ainda há mais coisas.

Restrições geográficas

Outra limitação em que alguns apps do Facebook incorrem é a geográfica. Por questões estratégicas ou de escala, alguns acabam restritos, num primeiro momento ou indefinidamente (leia-se: até ser descontinuado), aos Estados Unidos.

O mais conhecido é o Paper, uma releitura do feed de notícias, com curadoria feita por seres humanos e algoritmos, lançado em 2014. O app é um deleite visual, com uma apresentação mais agradável, organizado e cheio de bom conteúdo. Por conta da curadoria, ainda não chegou ao Brasil e isso não deve acontecer tão cedo.

Outro, mais recente, é o Notify. Lançado no final de 2015, é um app relativamente simples para receber conteúdo de parceiros. O usuário marca os assuntos ou sites favoritos de onde deseja receber conteúdo e é avisado, via (tcharam!) notificações, quando isso acontece.

Há casos de apps lançados em países pequenos, como experimentações. O mais conhecido é o Bolt, um clone do Snapchat liberado apenas na Nova Zelândia, Singapura e África do Sul. O motivo, nesses casos, é testar o potencial da ideia antes de fazer um lançamento de maior pompa em mercados mais maduros.

O cemitério de apps do Facebook

O Snapchat é uma obsessão do Facebook, que chegou a tentar comprá-lo, sem sucesso, por US$ 3 bilhões. A recusa parece ter enervado Mark Zuckerberg; desde que o Snapchat surgiu, já foram quatro tentativas de fazer frente a ele e conquistar o público ávido por imagens efêmeras, que somem depois de vistas.

Primeiro foi o Poke, mais tarde referenciado como “tipo uma piada”, feito em poucas horas numa hackathon do próprio Facebook. Acabou no ostracismo tão rápido quanto foi criado e, mais tarde, teve um “enterro” formal.

Depois, foi a vez de tentar com o Slingshot, que chegou a ser disponibilizado no Brasil. O problema, dessa vez, era a necessidade de se mandar uma foto antes de abrir as recebidas. Até hoje todos tentamos entender qual a lógica disso.

Tivemos, então, o já citado Bolt, que nunca ganhou o mundo, e em 2015 foi a vez do Riff, mais voltado para vídeos, que também não decolou. O Slingshot e o Riff, juntamente com o Rooms, um app anônimo para juntar pessoas anonimamente em grupos de interesse, foram desenvolvidos pelo Creative Lab, uma iniciativa que procurava recriar, dentro da megaestrutura do Facebook, o ambiente típico de startups — lance uma ideia, por mais improvável que seja, e veja se cola. Em dezembro de 2015, o Creative Lab foi fechado.

Outros apps descontinuados do Facebook foram o Camera, que facilitava o upload de fotos a partir do smartphone; o Messenger para Windows, que levava o bate-papo da rede social ao Windows; e o Facebook Home para Android. Sobre esse, e outros para o sistema, vale a pena falar mais.

Facebook para Android

Facebook Home no Android.

O fato do Android ser “livre” dá mais espaço para tentativas de dominá-lo. E o Facebook, carente de uma plataforma móvel para chamar de sua, tem muito interesse nisso. Ficar à mercê de um rival, caso do Android/Google, nunca é uma posição confortável.

O Facebook Home foi uma ambiciosa tentativa de transformar quantos smartphones Android fosse possível em “Facebook phones”. Ele surgiu em meio a rumores sobre um smartphone do próprio Facebook, algo que nunca se concretizou — e que não faria muito sentido. O Home trocava o launcher do Android e colocava o Messenger em destaque com as cabeças flutuantes (que permaneceram no app próprio do Messenger). Ele pedia muito ao usuário e, no fim, não fez o sucesso que se esperava. Acabou descontinuado.

Facebook Lite em um Moto X.

Outros dois apps exclusivos para Android são o Facebook Lite e o Hello. O primeiro é uma versão mais leve e que consome menos dados do app principal. Roda bem e, de fato, é menos gastona, uma alternativa interessante para quem deseja ter o Facebook à mão, mas não quer comprometer boa parte dos recursos do smartphone com ele.

O Hello é um discador. É outra tentativa do Facebook de se infiltrar numa parte chave do sistema. O chamariz aqui para substituir o app padrão do Android do Google é facilitar a realização de chamadas gratuitas via Wi-Fi, identificar quem te liga através do enorme banco de pessoas do Facebook e bloquear sem esforço contatos indesejados.

Facebook sem Facebook

Com tantos apps à disposição, dá até para usar o Facebook, ou os seus principais recursos, sem o app principal do Facebook. Que maluquice, né? Porém, dado o apetite insaciável do app principal por recursos do smartphone, trocá-lo por aplicações mais específicas pode ser uma boa ideia.

Groups, o novo app do Facebook.
Facebook Groups, um dos apps para usar o Facebook sem o (app do) Facebook.

Mas o futuro indica algo ainda mais radical: nada de apps. Com o aperfeiçoamento da inteligência artificial, novos caminhos começam a ser desbravados nesse front e, com a ajuda de seres humanos, os primeiros indícios de um mundo livre de apps começam a aparecer. E o Facebook, claro, já está trabalhando nisso.

Recentemente o WhatsApp sinalizou sua transformação em uma plataforma. O Messenger já está nessa há mais tempo. Embora os “apps” do Messenger sejam, em sua maioria, coisas meio bobas como buscadores de GIFs, um, do próprio Facebook, apresenta bastante potencial. É o M.

Telas do Facebook M.

O Facebook M é um assistente pessoal, como a Siri ou a Cortana, acessível por bate-papo. Ele promete realizar os desejos dos usuários e, para isso, usa uma mistura de algoritmos e atendentes humanos. Atualmente em estágio embrionário, com testes sendo realizados numa pequena parte de São Francisco, é difícil saber como ou se o modelo tem capacidade de escalar, ou seja, de servir a um público imensamente maior que o atual. Quem o usa, porém, gosta dos resultados e não há motivos para duvidar que pelo menos parte da tecnologia desenvolvida no M seja replicada, no futuro, em outras ofertas do Facebook.

Boa parte das coisas mais legais que surgiram na tecnologia do consumo na última década adveio de apps. O Facebook não perdeu a chance de explorar o conceito à exaustão, sem medo de tropeços ou de reconhecer fracassos. Afinal, os sucessos compensam — este slide, divulgado junto ao último relatório fiscal da empresa, dá uma dimensão do que “sucesso” significa para eles:

Os números embasbacantes do Facebook.
Infográfico: Facebook.

O que a próxima década reserva, ninguém sabe. É provável que migremos da ideia de apps para coisas mais integradas e naturais. E é certo que o Facebook, hoje uma empresa de US$ 319 bilhões e com quase 1,6 bilhão de usuários, continuará tendo um papel de protagonismo na tecnologia de consumo.

Revisão por Guilherme Teixeira.
Foto do topo: Dado Ruvic/Reuters.

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10 comentários

  1. Eu só uso o app do Messenger (e WhatsApp, claro), o restante eu vejo pelo navegador mesmo, porque o app principal é um devorador de bateria.

  2. Metade da matéria é grego para mim. Nunca fui muito fão do Facebookson, e já faz algum tempo que consegui sair daquela perda de tempo (na maior parte do tempo).
    Entrava só para ver piadas, e tinha que ver milhões de desabafos, pedidos de jogos, posts tipo curte/compartilha… Achava um saco.
    Mudei para o 9gag! Bem melhor! :D

  3. Sempre tentei usar o fb sem o app deles, prw economizar na bateria. Mas semprr acabo reinstalando de novo :/

    Hoje só uso app do fb quando estou em casa e com uma power bank do lado.

    Na rua, escola, trabalho, to usando a versão web via o browser UC. (Chrome é outro que gasta muita energia!)

    Em último caso, tento ver alguma coisa pelo FB Lite, só que ele nao mostra todas as listas personalizadas!

  4. Oi Ghedin, o smartphone do Facebook se concretizou, sim, só não se tornou popular. Vendeu pouquíssimas unidades, eu lembro. Vou tentar lembrar o nome dele e respondo aqui. Acho que era HTC First? Vou conferir.

      1. “Keep up with all your friends in real time with the new HTC FirstTM, featuring Facebook Home”

        Era um espertofone com o FB Home, e não um FBFone!
        O que rolava na época, eram rumores de um espertofone do FB. Tipo um iPhone, ou, talvez, um Nexus?

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