Quase ninguém liga se seu site não está nas redes sociais

Em março de 2024, fiz um experimento no Manual do Usuário: parei de distribuir o conteúdo do site em redes sociais e aplicativos de mensagens.

O resultado foi que… pouca coisa mudou.

O site recebeu ~107 mil leitores que visualizaram ~172 mil páginas. Comparados à média dos seis meses anteriores, os números de março foram 33,7% e 30,3% maiores, respectivamente.

O motivo desse aumento, porém, foi uma interferência incontrolável ao processo: o Google. No dia 27 de março, postei um link no Órbita daquela planilha de relatos anônimos sobre empresas tóxicas. O Google, por qualquer motivo inexplicável, colocou esse link na frente de muitos pares de olhos, e quase 38 mil pessoas chegaram ao Manual por ali no restante de março.

(Isso gerou situações tragicômicas, como gente dando relatos anônimos de empresas tóxicas nos comentários do Manual e um que ameaçou me processar se eu não tirasse a planilha do ar.)

Sem esse pequeno viral maluco, a audiência do site em março teria sido 13,7% e 28,8% menor que a média dos seis meses anteriores. O que faz mais sentido, mas não sei se é certo tirar virais da jogada.

Em fevereiro, por exemplo, o Google mirou seu canhão de pessoas ao meu relato sobre usar o Kindle sem vinculá-lo à Amazon. Por quê? Vá saber! Naquele mês, esse único texto respondeu por 27,7% dos visitantes únicos e 18,5% das visualizações de páginas.

Como toda entidade autoritária, o Google pune e agracia sem critérios compreensíveis. Hoje você ganha tráfego gratuito de um viral sem sentido, amanhã… Talvez o próximo experimento do tipo seja tirar o Manual do buscador do Google.

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Redes sociais, aquelas de que me ausentei em março, dão traço de audiência — e não é de hoje. Até por isso tenho desdobrado minha atuação nelas em dois modos: ou automatizando a veiculação de conteúdos do site, ou replicando-os na íntegra. Em ambos, não nutro a expectativa de aumentar os acessos ao site.

Há uma má vontade, em alguns casos manifesta, das plataformas sociais com sites e links externos. E é geral. É raro eu acreditar em algo que saia da boca de um executivo de big tech, mas, nisso, Adam Mosseri, da Meta, está certo: a dor de cabeça que essas empresas têm ao apoiarem o jornalismo não compensa o retorno ínfimo que elas têm, porque a essas empresas não interessa a subjetividade e os nuances de assuntos complexos ou indigestos e, na real, elas não ganham nada mandando usuários para fora dos seus domínios.

Se o faturamento da operação dependesse de tráfego, eu me preocuparia mais com todos esses números e presença em redes sociais. (E com o Google, de quem o jornalismo moderno é dependente e/ou refém, dependendo de como se encara a situação.) Não é o meu caso.

E, por não ser o caso, é que apenas números não contam a história toda do apagão de redes sociais de março. Alguns leitores sentiram falta de ver as atualizações do Manual no Mastodon, no Telegram, até no LinkedIn. Não que faltem meios de serem avisados, mas é que, queira ou não, a vida no online acontece nesses lugares e visitar sites diretamente, acompanhar por RSS ou mesmo pela newsletter são práticas com menos espaço e popularidade.

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Dito isso, como seguimos daqui em diante? Não compartilho do otimismo dos colegas que participaram da última pesquisa anual de tendências e previsões do Reuters Institute, de que WhatsApp e Threads serão espaços para alavancar o alcance. São ambas plataformas da Meta, afinal.

Outra tendência popular, de foco no tráfego direto, já é uma realidade no Manual há uns bons anos. Continuarei investindo nisso e em plataformas descentralizadas. Seu apoio, espalhando a palavra e ajudando a financiar o projeto, é imprescindível.

Sabe aquelas armadilhas de filmes de ação, em que as personagens estão em uma sala e paredes opostas vão se aproximando lentamente a fim de esmagá-las? Vejo a web ali no meio, espremida entre redes sociais muquiranas e inteligências artificiais gerativas burras.

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O mais engraçado nisso tudo? Houve pouca variação no ganho e perda (no caso do X/Twitter) de seguidores. Quase esqueço de mencionar isso, para você sentir o nível da minha preocupação com redes sociais.

A propósito, as estatísticas de visitação do Manual do Usuário são abertas. Veja-as aqui.

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11 comentários

  1. infelizmente, no meu trampo, se as coisas não entrarem nas redes sociais, apesar delas estarem no website da firma, é como se elas não existissem e, de fato, as postagens nas redes sociais têm impacto. no caso, atrair público pra eventos presenciais. seria excelente ter alternativa a isso, mas, por ora, me vejo como voz minoritária ante a necessidade dos museus (e instituições culturais) fazerem frente às redes com alternativas. vamos jogando o jogo, mas pensando em alternativas. quais? devemos buscá-las ou, por que não, desenvolvê-las.

  2. eventualmente entr no site. gosto da usabilidade do Feedly e de acompanhar o canal no Telegram. e vejo com bons olhos o repost no Mastodon e Bluesky. vida longa e próspera ao MdU e ao Tecnocracia!

  3. Tendo a pensar que, mais do que os acessos propriamente ditos, a presença das empresas nas redes é mais por “presença de marca”, o famoso “quem não é visto não é lembrado”. Porque parando de publicar, muita gente pode simplesmente esquecer da sua empresa, achar que ela acabou, etc.

  4. Eu senti falta das postagens no Telegram, aproveito sempre para dar uma olhada no intervalo do serviço e como não via nada acabava nem lembrando de entrar no site

    1. A newsletter compensou, mas a ausência aqui no Telegram foi grande

    2. Percebi no meio do mês que não tinha visto nada do Manual no telegram, abri o canal e vi a mensagem explicando. Mas não me movimentei pra abrir o site nesse período, só esperei voltar no telegram.

    3. também gosto de acompanhar pelo Telegram. quando o título me desperta o interesse já clico, leio e interajo. apesar de receber a newsletter, como é um compilado, necessita de mais tempo para ver tudo e aí eu acabo ignorando mesmo.

  5. Curioso que o post do Kindle sem Amazon ter viralizado me lembra da outra matéria sobre os blogs de tecnologia, que falava sobre o fenômeno das postagens sobre *Como* fazer isso e *Como* fazer aquilo. Talvez seja essa a razão do Google ter subido ela e a razão também do porque tem tanta gente investindo nas postagens do *Como*.

    Surpreso com o resultado. Não imaginava que as redes influenciassem tanto, mas também não pensei em serem tão irrelevantes.

    Aliás, um fenômeno também tem me chamado atenção nas redes: influencers gastronômicos que indicam restaurantes e lugares para ir. Dia desses peguei para dar uma vasculhada nos comentários. E a quantidade de gente da categoria “amigos próximos e familiares” que respondem e interagem com as publicações é enorme. Daí você percebe que interações legítimas e orgânicas estão cada vez mais raras. Isso quando o próprio “influencer” não comenta sobre sua própria postagem.

    Rede “social”. Pois é.

  6. Bom, seja como for, cheguei a esse artigo por causa de um post no BlueSky. 😊