A natureza intimista do e-mail faz dele a melhor rede social de que dispomos


1/10/15 às 13h50

Mande um e-mail anônimo!

Você talvez já tenha visto a corrente acima no Facebook ou no Tumblr. Ela é bem autoexplicativa, mas talvez mereça um pouco de contexto — mais ainda se você não leu/assistiu a As Vantagens de Ser Invisível, de Stephen Chbosky1.

O livro/filme conta a história de Charlie, um rapaz recluso que narra eventos da sua adolescência através de cartas a alguém que jamais é revelado. Na Internet, a corrente/brincadeira migra o suporte do papel para o e-mail por alguns motivos: é mais prático, permite a comunicação anônima (os 10 Minute Mail da vida estão aí para isso) e dispensa a troca de endereços, algo que pode acabar mal quando feito publicamente, na Internet.

Apesar dessas justificativas óbvias, gosto de pensar que a escolha pelo e-mail vai além delas. Que existe algo ali, na caixa de entrada, que combina com o compartilhamento de algo tão íntimo como a sua rotina. Contra todas as expectativas, o e-mail é um bom lugar para conversas divertidas, íntimas e/ou mais aprofundadas.

A resiliência do e-mail ao longo do tempo

Ninguém gosta de receber spam, bacn, mala direta, enfim, mensagens publicitárias ou automatizadas. A falta de pessoalidade e o fim desejado pelo remetente, sem falar no próprio conteúdo, quase sempre pouco aproveitável, são desestimulantes. Some a isso o caos de mensagens preguiçosas ou de rotina e o e-mail se transforma numa caixa de Pandora que, diferente da mitológica, abrimos por necessidade, não curiosidade. O conteúdo, porém, frequentemente parece o mesmo — as mazelas e desgraças que assolam a humanidade, nesse caso convertidas em palavras mal escritas, fotos horrorosas e ofertas de remédios que prometem curar algumas disfunções sexuais.

O e-mail foi a primeira ferramenta de comunicação à distância que funcionava via Internet. Os primeiros sistemas com contornos do que usamos hoje datam da década de 1960. Até pouco tempo atrás, ter um endereço desses era um ponto de partida obrigatório para todas as demais plataformas online. Queria ter uma conta no Facebook e só usar o bate-papo para falar com os amigos? Ok, forneça seu endereço de e-mail antes. Isso já está mudando, em apps como WhatsApp e Facebook Messenger, graças ao número do celular, mas por um bom tempo o e-mail foi o passaporte universal da Internet. Todo mundo conectado tinha um.

Com tanta história e tantas atribuições, não é de se espantar que o e-mail tenha se tornado um lugar caótico. Mas já foi pior, acredite. Antes do Gmail era preciso fazer malabarismo para lidar com os limites pífios dos webmails de então — 2 MB, em média. Até meados dos anos 2000, antes da derrocada de grandes redes e do aperfeiçoamento dos filtros, spam era uma frustração diária real.

Mas, contra todas as intempéries, o e-mail resistiu. Frente às incontáveis tentativas de “matá-lo”, do Google Wave ao Slack, ele sempre se adaptou e acompanha, talvez como nenhuma outra tecnologia com que o usuário lida diretamente, a passada frenética da modernidade — até em relógio ele funciona. Por ser baseado em protocolos abertos e ser independente de uma ou outra empresa, além de interoperável entre as várias que o oferecem como serviço, o e-mail prospera em meio a carros autônomos e assistentes inteligentes. É uma tecnologia simples, poderosa e muito resiliente.

Os vários indícios que apontam o e-mail como a rede social definitiva

Tom Hanks escreve um e-mail para Meg Ryan.

Eu adoro e-mail e fico especialmente feliz quando recebo uma mensagem pessoal, de alguém que parou o que estava fazendo para dedicar alguns minutos da sua completa atenção a mim. Infelizmente não costumo receber esse tipo de mensagem. Talvez falte interesse ou gente disposta a conversar, mas sinto que o meio também não colabora. A concorrência das redes sociais modernas é pesada; elas se apresentam como (e nos convence de que são) as melhores ferramentas para “conectar o mundo”. É mais rápido, sim, mas não necessariamente melhor publicar algo no Facebook ou na História do Snapchat do que mandar um e-mail.

Algum tempo atrás estive pensando numa hipotética rede social que teria como fim o e-mail. Apps e web seriam apenas a etapa inicial; o desenvolvimento das conversas se daria por e-mail. Chance zero disso dar certo, afinal, como as @marcas vão subir #hashtags e ~engajar seus FÃS num ambiente tão privado? Fora o Google e serviços que facilitam a troca de mensagens criptografadas, é difícil ganhar dinheiro com e-mail sem desconstruir tudo o que faz ele ser o que é. Boas ideias sem apelo comercial quase sempre fracassam — vide o Rando.

Esse exercício era uma tentativa de recuperar as trocas de e-mail que aparentemente todos gostam, mas que estão escasseando. E há sinais que se não provam de maneira incontestável, no mínimo, alimentam essa teoria, como o meme que abre este post, por exemplo.

Outro indício é um estudo que será publicado em janeiro de 2016, na revista Computers in Human Behavior, sobre a troca de afeto na comunicação mediada. Tem um excerto/prévia na Atlantic. O estudo analisou como 72 universitários americanos falavam com seus parceiros via mensagem de voz (deixada no celular) e por e-mail a fim de verificar qual resultava em mensagens mais afetuosas.

Quanto mais próxima a interação é da comunicação cara a cara, em tempo real, mais natural ela se torna. Assim, Skype e FaceTime seriam os paradigmas da comunicação mediada, o mais perto de  uma conversa natural, face a face, disponível através de telas. Quanto menos sinais extralinguísticos o meio fornece, menos apto a transmitir emoções ele é. O e-mail, que dispõe apenas da frieza das letras, seria, então, bem ruim para isso.

Mas não foi o que constatou o estudo. Os resultados mostraram que as mensagens por e-mail eram mais românticas que as de voz deixadas no celular. Alan Dennis, professor de sistemas de Internet na Universidade de Indiana e coautor da pesquisa, tem uma explicação para esse fenômeno:

“O e-mail permite que o remetente modifique o conteúdo na medida em que as mensagens são escritas, a fim de garantir que elas estão adequadas às necessidades da situação. Assim, os remetentes dedicam mais tempo às mensagens de e-mail e provavelmente refletem mais do que quando deixam mensagens de voz. Esse processamento extra pode aumentar a excitação. (…) As pessoas sabem que é difícil comunicar emoções por e-mail; como resultado, [elas] precisam ser um pouco mais explícitas.”

Em outras palavras, há mais dedicação num e-mail pessoal. Quase tudo em que depositamos mais atenção e esforço tende a sair melhor do que aquilo que é feito por impulso — mensagens de voz, conversas pelo WhatsApp, redes sociais.

Mulher vestindo camiseta 'Eu quero seu e-mail'.
Foto: Kevin Fitz/Flickr.

As newsletter talvez sejam a maior força desse “revival” pós-redes sociais do e-mail. Serviços como TinyLetter, que prezam pela simplicidade, permitem que qualquer um com alguma coisa a dizer comece a publicar, sem complicação e com pouca fricção ao leitor — ele precisa preencher um formulário com um campo. Nada de instalar apps, nem de fazer outro cadastro. O e-mail é o anti-Facebook em múltiplos níveis.

Lá fora e aqui, o nascimento de novas newsletter e a consolidação das mais legais tem acontecido à vista de todos. Escritas por seres humanos e lidas em privado, sem outros elementos gritando pela atenção do assinante, tecnicamente pouca coisa difere uma dessas de… sei lá, um blog. São as circunstâncias, a plataforma, que pesa um lado da balança.

Quem se lança nessa empreitada passa por uma série de autodescobertas. Vê que dá para chegar ao leitor sem intermediários, sem depender de Google ou Facebook. Que saber que uma pessoa determinada, não alguém difuso que cairá de paraquedas, vindo do Google, lerá o que você está escrevendo muda radicalmente a forma de escrever. Que o feedback é mais próximo, mais intenso. É uma vibe diferente, como conta Aline Valek, das Bobagens Imperdíveis, numa lista de indicação de newsletter:

Pode não parecer grande novidade, considerando que blogs surgiram como um tipo de diário e o e-mail é o dinossauro da internet, mas minha experiência escrevendo nesse formato me mostrou como é possível restabelecer um contato mais humano e verdadeiro, não pelas redes sociais, que hoje são usadas em seu máximo, mas justamente por meios considerados mortos, ultrapassados.

Ou Anjali Ramachandran, num longo bate-papo-convertido-em-texto sobre “o surpreendente ressurgimento das newsletters”:

“Para mim, é a sensação de entrar na mente de alguém e ser iluminado e — num certo sentido — empoderado pelos seus pensamentos. Todas as pessoas que estão aqui têm vidas diferentes da minha, cresceram em diferentes partes do mundo e são interessadas em coisas distintas (na maior parte). É aprender da experiência acumulada das vidas deles que, de outra forma, não seria possível sem me encontrar pessoalmente e conversar por horas, da forma que provavelmente fazíamos quando éramos adolescentes ou estávamos na universidade. É como um clube virtual para pessoas que querem ser mais espertas, se é que me entende. Eu gosto dessa sensação.”

Não é como se o e-mail tivesse algum ingrediente especial, um layout mais bonito ou uma tecnologia inovadora e revolucionária. É a sua natureza que propicia esses elogios rasgados a textos que poderiam, sem qualquer alteração, aparecer em páginas na web ou no Medium ou em um app qualquer. Mesmo newsletters, que são uma forma de comunicação por broadcasting, um-para-muitos, se beneficia da aura intimista do meio.

Todos esses são, como disse, poucos indícios, mas que validam sensações que sinto quando recebo um e-mail do tipo. A tecnologia e as redes sociais nos empurram para uma via expressa, onde a comunicação deve ser expansiva, acelerada, em tempo real, um-para-muitos, feita no atacado. Há espaço para esse tipo de interação, mas ele não deveria sufocar o de outras. A comunicação estilo rede social não deveria ser majoritária, muito menos encarada como norma.

Em meio à cacofonia da Internet, o e-mail é um local de respiro. O único problema é que muitos não percebem que estão sendo asfixiados por redes sociais à custa de um like ou uma visualização ou qualquer dessas bobagens. Talvez um e-mail afetuoso consiga revelar essas vantagens a alguém que não as enxergam. Talvez.

Revisão por Guilherme Teixeira.
Foto do topo: Microsoft.

  1. Veja o filme, ignore o livro. É um raro caso em que o filme é melhor.

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19 comentários

  1. Eu assino várias, e gosto muito. É uma ótima forma de consumir conteúdo e, pra mim, atualmente só perde para o podcast.

    Mas, mudando de assunto:
    “Até meados dos anos 2000, antes da derrocada de grandes redes e do aperfeiçoamento dos filtros, spam era uma frustração diária real.”

    Os filtros estão bons, hoje em dia. O maior problema, comigo ao menos, são aquelas mailings que eu clico em unsubscribe (como a de uma loja que funciona até debaixo d’água), e eles simplesmente ignoram o meu pedido. Continuam mandando. Daí eu preciso marcar uns 15 emails deles como spam, até o filtro do Gmail entender (já que o sistema do site, não entende).

  2. Ótimo texto

    Isso me lembra uma matéria que saiu um tempo atras na Exame (http://exame.abril.com.br/tecnologia/e-mail-morreu-539403/) falando que o e-mail morreu.

    na epoca que ela saiu, todo mundo aqui compartilhou ela como temos que mudar, inovar, blabla; 6 depois ele ainda ta ai firme e forte, e como certeza vai ficar muito tempo como uma das principais ferramentas de comunicação.

    E com aumento das caixas de e-mail (hoje praticamente infinitas) e-mails pessoais eu nunca apago, por esses dias tava lendo uns e-mails que trocava com meu grupo da faculdade lá pelos idos de 2004/05; é bacana reviver aqueles textos novamente.

    1. Esse é um lado positivo do email, tudo fica ali.

      Pena que praticamente ninguém atualmente usa email para se comunicar diariamente.

  3. É estranho ler esse texto porque penso exatamente dessa forma. Entretanto, evito mandar emails para não encher a caixa de entrada de alguém ou mesmo incomodar.

  4. Interessante o fato de utilizarmos o e-mail como forma de conexão entre as pessoas. Nunca fui de receber e-mails de pessoas, amigos e sim de publicidade e propagandas. Seria uma boa realmente participar desta “brincadeira” proposta no texto da imagem.

  5. Achei que não me identificaria com o texto por possuir apenas 21 mal vividos anos. O Facebook é sufocante, de fato. E-mail ainda é agradável de usar sim, espero que um dia as coisas melhorem e a Web se torne – um pouco – mais lenta.

  6. Minha mulher fica um doce por semanas quando a escrevo seis ou sete linhas, leva dez ou doze minutos, é a mais rentável relação custo-benefício.
    Sinto falta de receber um e-mail, de palavras que foram içadas de um bom momento de procura pela palavra exata sem, tipo, assim, né.
    Palavras que carregam o que não foi dito, o subentendido, o duplo sentido, a ironia (não confundir com o sarcasmo – sempre negativo), aquela coisa que se desdobra e você termina com a saudade imensa de rever a tal pessoa.
    Que dedicou dez ou doze minutos de sua total atenção para o fim único e exclusivo de emocionar você, política, espiritual, sentimental, carnal, social, intelectualmente, de qualquer você.
    Uma linha entre o remetente e destinatário, linha virtual e paleolítica que forma a mais antiga rede social: a relação social.

  7. Para mim o email é a mais intimista das ferramentas digitais. É como se fosse a carta, você pensa um pouco, escreve, revisa, deixa como rascunho. É mais lento, permite uma reflexão se realmente vale a pena enviar aquilo para a outra pessoa.
    Além disso, é o meio que permita que revisitemos coisas antigas. Eu estava relendo uns email dos começo da faculdade, antes de toda essa explosão de redes sociais nos smartphones, e observei que era o meu meio de comunicação mais usual. Ainda bem, se fosse em outro, teria se perdido no tempo.
    Repito uma vez mais: me arrependo de ter perdido as primeiras contas de email que tive, tinham preciosidades lá.

  8. Eu sempre tive essa sensação em relação ao email.
    Os outros meios de comunicação não tem a mesma credibilidade.
    Como dito no texto, é sempre bom receber um email de alguém querido. É muito diferente de receber uma whatsapp, por exemplo. Gera uma expectativa.

  9. Até achei interessante essa ideia da corrente.
    Quanto ao e-mail em si, ainda uso muito pra conversar, principalmente em trabalhos de escola. Mas dá um desanimo quando abro e veja as mensagens novas: links de lojas, promoções e aqui e acolá um “sua conta do Itaú precisa de renovação de cadastro”.

  10. Show de bola! Amo e-mail. Uso muito no trabalho e sempre que possível envio no meu pessoal pra alguém. O problema é que poucas pessoas me respondem. ?

    1. É, muitas pessoas usam o email apenas para criar contas em outros site, como Facebook, Space Amigos, etc…

  11. A coisa mais triste do mundo pra mim é revirar minha caixa do Gmail e ler emails de anos atrás. Conversas com amigos do ensino médio, discussões sobre trabalhos de escola, anúncios de coisas importantes que iam acontecendo na vida de cada um… Esse histórico pra mim é tem um valor incalculável.

    1. Eu gostei do seu comentário. Sinto o mesmo. Há uns meses, encontrei emails que troquei, anos atrás, com um colega, que faleceu no ano passado, de forma trágica.. Sensação estranha, triste, melancólica.

  12. Falando no Rando, alguém conhece algum aplicativo parecido, que seja tão satisfatório de usar quanto? Eu adorava o Rando, testei algumas alternativas, mas nenhuma chegava perto; talvez agora, anos depois de seu fim, haja algum que seja tão legal quanto.

  13. Me identifiquei bastante com o texto. Sou avesso a redes sociais e fã de carteirinha do e-mail. Aliás, ainda sou do tipo que prefere clientes dedicados ao webmail.

  14. Depois então te mando um cartão postal, Ghedin :)

    O e-mail é que nem a caixa de correio que recebemos cartas, ou a antiga “caixa postal” (dias atrás, estava vendo uma reportagem sobre uma senhora que guardou todas as cartas românticas que o marido dela tinha feito, e ela citou o uso de caixas postais). A origem e o destino são diretos, sem o texto ser aberto ou revelado ao mundo no meio do caminho (exceto se o carteiro for um vouyeur ou criminoso mesmo).

    As redes sociais – desde os fóruns e grupos de conversa, bate papos, passando pelo Orkut, agora no Facebook e Whats – são extremamente imediatistas. Até porque quando não se alimenta uma rede social, ela se esvazia. Basta prestar atenção em grupos e fóruns.

  15. O primeiro e-mail que eu tive foi um Bol da vida.

    A impressão que eu tenho é que esses outros meios são mais efêmeros, a mensagem é do momento. Possuo arquivado ainda os primeiros e-mails do Gmail, se fosse um Facebook ou um Orkut se será que teria aquelas mensagens ainda? Quantas vezes escutamos que o usuário apagou todo o perfil ou criou uma conta nova na rede social?
    Parece que a geração de hoje usa bem menos o e-mail, acho que só usam para comprar em sites.