E Se? Respostas científicas para perguntas absurdas, de Randall Munroe

Entre todas as tirinhas com homens-palito da Internet, a mais famosa é a xkcd, do americano Randall Munroe. Formado em Física e com um trampo em robótica na NASA no currículo, ele consegue unir cálculos complexos, astronomia, química e outras ciências a uma ironia fina que quase sempre resulta em sacadas engraçadas e inteligentes. Às vezes, incompreensíveis à maioria, mas talvez não seja culpa dele, e sim nossa. Minha. 

Alguém está errado na Internet.
Minha tirinha favorita do xkcd.

E Se? [Amazon, Carrefour], publicado no Brasil pela Companhia das Letras no final do ano passado, é um livro que reúne material selecionado de outro site de Munroe, o homônimo (no inglês) what if?

Nele a dinâmica é diferente. Os homens-palito até aparecem, mas o grosso dos posts é texto mesmo. O autor é ajudado pelos leitores, que mandam perguntas absurdas para serem respondidas com todo o rigor científico. E embora algumas extrapolem até mesmo a vasta abertura que o site dá a perguntas descabidas, muitas são aproveitadas e recebem um tratamento digno de situações mais… digamos… viáveis, ou críveis. Não sei se outro lugar se daria ao trabalho de pesquisar as consequências à Lua caso toda a humanidade apontasse lasers para ela, ou como ficariam os nossos oceanos se um portal sugador de água se abrisse no fundo da Fossa das Marianas, ou ainda o que aconteceria se você, sabe-se lá por qual motivo, começasse a subir a 30 cm/s no ar.

E Se? traz mais de 50 “respostas científicas para perguntas absurdas” num misto de perguntas já publicadas no site, expandidas e atualizadas, e inéditas. Permeando elas, Munroe incluiu algumas que vão além a sua maluquice, as “perguntas bizarras (e preocupantes) que chegam ao E Se?” São bem divertidas!

Minha pergunta bizarra e preocupante favorita.

Li E Se? em duas sessões. Apesar de longo (mais de 300 páginas), o texto divertido e bastante fragmentado (cada resposta tem em média quatro páginas) facilita a leitura. Quem já leu alguma coisa do what if? online sabe o que esperar. Dá para dar umas boas risadas com as situações malucas e as soluções, algumas vezes mais malucas que as próprias perguntas, apresentadas por Munroe. Ele ainda coloca na receita diversas referências culturais, usa as notas de rodapé como suporte para anedotas e piadas, e recorrentemente brinca com a ideia e referências ao what if?

A edição brasileira, traduzida por Érico Assis, é um trabalho digno. Traduzir já é difícil, traduzir texto humorístico, mais ainda. Algumas coisas fazem mais sentido no inglês, então é preciso quase que repensar algumas piadas para que elas continuem tendo efeito em português. É possível notar alguns escorregões em certos pontos, e em outros senti um conservadorismo exagerado — por exemplo, uma tendência em forçar traduções quando uma nota do editor, no rodapé, daria melhor efeito –, mas são deslizes perdoáveis e que talvez sejam corrigidos numa eventual segunda edição. O que quero dizer é que, felizmente, a tradução não atrapalha.

Foto de um capítulo do livro E Se?

Dito isso, é bom levar em conta, também, que algumas perguntas são bem específicas dos EUA. Os desenhos e o contexto dado por Munroe ajudam, mas eventualmente conhecimentos prévios sobre a geografia e a história daquele país ajudam a entender melhor algumas respostas. Novamente: nada que atrapalhe, mas um detalhe que tira um pouco a graça de umas poucas passagens. E, claro, se você não manja de física e química, ficará na dependência (e limitado) às explicações do próprio autor. Na condição de alguém que não manja de física e química, digo que isso também não é impeditivo para apreciar o livro, ou pelo menos a maior parte dele.

A edição da Companhia das Letras é bonita, o papel é de qualidade, nada a reclamar. Você consegue ler a maioria das respostas no site, mas o livro na mão é mais confortável. E Se? é bem divertido e um convite, bem humorado e de bom tom, aos absurdos possíveis no nosso universo.

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