Cartão de divulgação, mas funcional, da Dvflix.

Música de pegar


14/1/19 às 10h32

As plataformas de streaming musical trouxeram muitas vantagens ao consumidor. Elas são baratas, têm vastos acervos e funcionam em diversos dispositivos. Para uma parte do público, porém, carecem de algo vital. A resiliência do vinil, um mercado que já pareceu condenado, mas que voltou a crescer nos últimos anos, prova que ainda há espaço — literalmente; espaço físico — para a música. Foi pensando em ocupá-lo que a Dvflix surgiu.

A empresa, fundada e comandada pelo maestro e empresário Farley Arruda, se apresenta como o elo perdido entre átomos e bits. Arruda confia tanto na ideia que investiu R$ 4 milhões do próprio bolso no projeto. Em entrevista ao Manual do Usuário, o empresário disse que já existem investidores interessados em aportar mais dinheiro no negócio.

A Dvflix é um app e um sistema de distribuição de cartões pré-pagos de papel, desses que outras empresas, como Google, Netflix e Spotify, comercializam em redes de supermercados e outros pontos de venda. A diferença é que em vez de trazerem créditos, os cartões da Dvflix dão direito a obras fechadas.

Um cartão da Dvflix pode conter até 80 minutos de música (incluindo letras e cifras), vídeos, fotos e e-books.

Depois de comprar um cartão, o usuário precisa baixar o aplicativo (Android, iOS), raspar o código na parte de trás e inseri-lo no app para fazer o download do conteúdo. Ao fazer isso, ele cria um vínculo com o artista, que passa a ser informado das estatísticas de consumo das suas obras e pode enviar novos conteúdos para a base de fãs. As músicas são criptografadas para, segundo Arruda, evitar a pirataria.

Como é comum na tecnologia, o embrião da Dvflix foi outro negócio, uma plataforma de IP TV desenvolvida pela produtora de Arruda para instituições de EAD e o segmento religioso. Três anos depois de lançá-la, Arruda reparou, em viagem aos Estados Unidos, nos “gift cards” que lá já eram bem comuns. Como a base tecnológica estava pronta, o lançamento da Dvflix foi apenas uma questão de fechar um modelo de negócio e fazer a parte dos cartões/vouchers. O aplicativo chegou ao mercado no final do segundo semestre de 2018.

Um dos principais objetivos da Dvflix é devolver ao artista a divulgação e a remuneração dos tempos áureos da mídia física. (Arruda alega que as grandes plataformas de streaming dividem mal a receita, repassando pouco dinheiro aos artistas.) O empresário, que responde como CEO da Dvflix, disse que está prestes a fechar contrato com uma grande distribuidora brasileira e destacou o bom começo da sua empreitada junto a um público bem específico: o da música gospel.

Do gospel ao sertanejo

Josie Martins, sócia de Arruda na Dvflix, explicou que o público religioso é muito apegado a produtos físicos e que há uma alta demanda entre os cantores do gênero, que costumam viajar e se apresentar em igrejas espalhadas por todo o Brasil. Ao final das apresentações, eles vendem produtos com a sua marca. Com o CD em baixa e as plataformas de streaming no smartphone crescendo, a Dvflix aposta que seus cartões podem fazer a ponte entre os mundos físico e digital.

É o que acontece com Salomão do Reggae, cantor gospel de Cabo Frio (RJ) que já trabalhou com duas gravadoras e, hoje, é independente. “O que a Dvflix fez foi resolver o contato físico caloroso com o público. Você pode tirar uma foto, levar para casa e guardar como uma lembrança, assinar, dar um recado, presentear. Esse contato voltou a fazer parte do evento”, disse.

Salomão do Reggae em foto de divulgação.
O cantor Salomão do Reggae. Foto: Divulgação.

Salomão do Reggae cobra R$ 15 pelo seu cartão, que vem com muita coisa: todas as suas músicas gravadas em estúdio, letras, cifras e seus clipes. Ele é vendido exclusivamente ao final de eventos e apresentações que o cantor faz. Para o artista, o custo por cada cartão é de R$ 3 e o pedido mínimo, de 200 unidades.

Além da música gospel, outro segmento em que a Dvflix já atua é o sertanejo. “Em festas de peão, levavam muitos CDs para o lançamento de novos artistas. Eles [os CDs] ficavam jogados no chão”, justificou Josie. Representantes da Dvflix têm participado de feiras e exposições temáticas de produtos cristãos e sertanejos e, dizem os dois sócios, a receptividade tem sido muito positiva.

Não por acaso, gospel e sertanejo também são os segmentos em que a Deezer aposta para decolar no Brasil e fazer frente aos rivais maiores, Spotify e Apple Music.

Apesar do foco inicial, a Dvflix não quer se restringir a um ou dois gêneros. “Em breve, os grandes nomes da música de todos os segmentos nacionais estarão com a gente”, disse Arruda. “Já fechamos com eles, mas não podemos falar ainda por questão contratual”.

Quanto aos grandes concorrentes do streaming, Arruda não os enxerga assim: “Não acredito que sou concorrente direto do Spotify e da Deezer. Acredito que somos um produto alternativo no mercado e, neste segmento, somos únicos por enquanto”. Para garantir que continue isolado nesse segmento, diz ter patenteado a ideia da Dvflix.

Com pouco tempo no mercado, a Dvflix já se prepara para se lançar em uma nova frente ambiciosa: uma loja online. A lógica é similar à dos cartões, só que sem o produto físico. Lembra, pela descrição dos sócios, as antigas lojas virtuais que ainda vendem música digital por unidade, como a iTunes Store da Apple. A previsão inicial era de lançá-la em meados de dezembro de 2018, mas por conta de assinaturas pendentes com algumas gravadoras, o lançamento foi adiado para fevereiro deste ano.

Usando o app da Dvflix

Detalhe código do cartão da Dvflix.
Detalhe código do cartão da Dvflix. Foto: Rodrigo Ghedin.

O aplicativo da Dvflix ocupa pouco espaço (10 MB no iOS), o que é importante se considerarmos o contexto brasileiro, onde ainda há muitos smartphones com 8 ou 16 GB em uso.

A interface é simples e direta. Falta o polimento que os aplicativos mais renomados, como o do Spotify, apresentam. No caso do app para iOS, o campo para inserir os códigos dos cartões estava inacessível durante meus testes, uma falha grave que inviabiliza toda a ideia da Dvflix. Segundo a assessoria, isso ocorreu porque a empresa estava “fazendo ajustes no sistema por conta da nova loja online”.

O app permite ouvir as músicas por streaming ou baixá-las para audição offline. Os álbuns baixados oferecem abas com informações adicionais, como ficha técnica da obra e letras/cifras das músicas.

Embora entregue o que promete, o app não traz nada exatamente novo ou mais vantajoso do ponto de vista financeiro — as músicas do Salomão do Reggae, por exemplo, estão nas principais plataformas de streaming disponíveis no Brasil. O que, talvez, não seja exatamente um problema, já que o seu diferencial está fora da tela do smartphone, ou seja, na venda dos cartões em locais físicos, especialmente no contato direto entre artistas e fãs. Mas é preciso combinar com os fãs primeiro. “Ainda é um produto que você tem que parar um tempo e explicar, mostrar ao público o que é porque as pessoas ainda não sabem”, diz Salomão. “Mas quando elas descobrem, vou lá para trás e sempre vende”, garante.

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