Pensando fora da “kill box”: Debate do livro Teoria do Drone, de Grégoire Chamayou

Teoria do Drone, de Grégoire Chamayou.

Estou feliz em voltar a falar com vocês, sobreviventes da primeira indicação de leitura — Reprodução, uma cutucada proposital em termos estéticos para tirá-los do conforto de seus remansos literários habituais. Aos que começam agora no Clube de Leitura do Manual do Usuário, sejam bem-vindos! Chegou o momento em que viramos a chave pra adentrarmos no mundo da não-ficção.

Àqueles que estão na faixa dos 25 a 35 anos é evidente que a garotada de hoje vive de outro modo. Tanto que não há paralelo, em boa parte do século passado, com o que vivenciamos nessas últimas duas décadas de modo tão acelerado: toda a gente conectada ou com a possibilidade de conexão bem mais facilitada graças aos smartphones e, a partir disso, mudanças profundas e generalizadas nas relações sociais. Caso não ocorra um cataclismo que mude completamente nosso arranjo atual de vida, anuncia-se um futuro ainda mais diferente às gerações vindouras, onde parte substancial das nossas vidas estará ligada a empresas que detêm milhares de informações sobre os nossos hábitos. Velhacos como eu verão as mudanças estupefatos do que provavelmente será um mundo cheio de maravilhas ou aberrações, dependendo do entusiasmo de cada um ou de que forma seremos afetados ou beneficiados.

Despontam no horizonte a Internet das Coisas, os carros autômatos, a realidade virtual e, claro, os drones. Daí que a escolha pelo livro Teoria do Drone [Amazon], do francês Grégoire Chamayou, me pareceu extremamente oportuna e adequada para encararmos melhor e com mais fôlego discussões que certamente farão parte do nosso cotidiano, seja em âmbito acadêmico ou numa roda de amigos.

MQ-9 Reaper monitora os céus do Afeganistão.
MQ-9 Reaper da RAF. Foto: Tam McDonald.

As implicações éticas, principalmente no uso dos drones no campo militar, estraçalham uma visão ingênua que poderíamos ter das tecnologias embarcadas nessas aeronaves controladas à distância e o que elas representam. Sabemos que o que os militares usaram no passado a partir do desenvolvimento tecnológico que conseguiram se converteu em produtos ou serviços aos civis (a Internet que usamos constante e neste momento, uma delas):

“Resta o problema do progresso técnico, ou seja, da contribuição que a preparação da guerra como um evento ainda possível pode dar ao progresso técnico. A julgar pelo desenvolvimento vertiginoso das descobertas científicas e suas aplicações, da potência destrutiva das armas e dos voos espaciais nestes últimos anos na competição entre as duas potências rivais, essa contribuição é inegável. Mas o problema do progresso técnico é sempre uma questão de meios que não pode ser separada da dos fins. Para quem julga dever fazer uma avaliação da relação entre guerra e progresso técnico, o problema é outro: trata-se de colocar sobre um prato da balança o desenvolvimento técnico, sobre o outro prato o progressivo aumento de probabilidade de uma guerra exterminadora como consequência do progressivo desenvolvimento técnico guiado por objetivos de guerra. Em dado momento, é preciso escolher. A convicção de quem repudia as teorias justificadoras da guerra, que encontraram a sua mais difundida expressão na filosofia do progresso, e se põe ao lado de quem trabalha para a formação de uma consciência atômica é de que este momento já chegou.”

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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— Bobbio, Norberto. O Problema da Guerra e as Vias da Paz. Editora Unesp, 2003, pag. 95.

Não está mais no mundo do improvável, portanto, vislumbrar um enxame de drones, talvez, fazendo algo que espécies já extintas (no futuro, não esqueçam), como as abelhas, fariam: a polinização de plantas (todas transgênicas, claro). Ou, num cenário que a mim soa como pavoroso, ser abordado ao sair de uma festa por um drone policial que, vendo meu traçado irregular flagrado pela sua câmera térmica, (imitar a cena clássica de Dançando na Chuva, nem pensar!), sugere uma conduta possivelmente suspeita e, ao mergulhar a situação em probabilidades e algoritmos (pesquisando o meu “pattern of life”), me dar uma multa ou voz de prisão dependendo do desenrolar de como minhas respostas se encaixarão no fluxograma dessa novíssima ordem.

Os drones, pelo menos no Brasil de hoje, podem ser usados para combater o mosquito Aedes aegypti, mas poderão ser usados para matar seres humanos, sem exagero, como se fossem insetos também: apenas no Paquistão foram entre 2.282 e 3.623 mortos por ataques de drones. Eles já são usados há mais de dez anos para essa função naquilo que se convencionou chamar de “guerra ao terror” encampada pelo governo norte-americano: o drone tem sido encarado aí como “uma arma humanitária” por seus defensores e promotores por permitir ataques precisos. Felizmente Chamayou elucida essa questão ao expor o quão absurdo e falacioso é tal argumento.

Quando a versão do filme Robocop do cineasta José Padilha veio a público, em 2014 (analisado pelo Ghedin à época), as comparações com o filme de 1987 de Paul Verhoeven, como ele mesmo diz no programa Roda Viva de fevereiro de 2014, obliteraram as discussões sérias que ele embutiu no blockbuster hollywoodiano. Padilha também fala que levou várias referências científicas ao filme sem que o estúdio se desse conta:

É assim, meio que na surdina, que discussões filosóficas, políticas e sociais estão presentes em obras de arte, mesmo aquelas tratadas como filmes pipoca. As questões estão lá e basta você ter um olhar crítico (substanciado por leituras como essa) para notá-las. No caso desse remake, estamos diante de uma reflexão interessante e que pode muito bem constar do nosso reportório sem passarmos por “fanfarrões”, por assim dizer. A cena inicial do filme, narrada pelo personagem do Samuel L. Jackson, exemplifica a questão nuclear de Teoria do Drone.

A preocupação com esse assunto também está presente no mundo da música pop, veja só, porque quando uma banda como o Muse (nada contra, diga-se) faz um álbum chamado Drone e canta sobre um futuro sombrio, a coisa não parece lá muito séria, mas certamente e, mesmo que superficialmente, também reflete alguma preocupação que pode ser vista como oportunista, mas se dermos alguma chance às produções do nosso tempo encontraremos nelas suas razões de ser. (Fica como sugestão esta trilha musical para a nossa discussão de hoje, inclusive.)

É, estamos modelando o futuro de modo incerto e impreciso, exatamente como fazíamos antes e, ao mesmo tempo, alterando valores que já foram caros e hoje são razão para memes cheios de troça e ironia rasgada com assuntos de implicâncias éticas profundas. Vamos ver se ainda teremos motivos pra rir depois…

Alguns textos sobre o livro e seu tema central que podem ajudar nas conversas:

Vamos conversar!

O esquema do debate é similar ao dos posts livres, porém restrito à obra em questão. Novos tópicos podem ser abertos dentro dos comentários, tanto sobre a forma quanto as temáticas do livro, e, para fomentar esse começo, já deixamos alguns questionamentos ali.

Boa discussão a todos!

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75 comentários

    1. Cara, ótima dica! O autor justamente fala da decadência dos “Top Guns” (além da relação merda bombas/família q o piloto do drone encara qdo começa e termina seu trabalho) e o protagonista, pelo q vi do trailer, é nostálgico em relação a qdo era piloto de caça pelo q entendi. Vou tentar assistir ainda hj!

      Edit: Vi q são dos produtores do “The hurt locker”. Esse filme tb é muito bom!

      1. E o filme também aborda a ética da profissão como é citado na curta sinopse do IMDb:
        “Um homem de família começa a questionar a ética do seu trabalho como piloto de drone”

      2. E o filme também aborda a ética da profissão como é citado na curta sinopse do IMDb:
        “Um homem de família começa a questionar a ética do seu trabalho como piloto de drone”

        1. Então, esse filme ilustra muito bem o capítulo “Ethos e psiquê”. Pode ter certeza q o roteirista do filme leu esse livrou ou estava bem antenado a essas questões. De fato é um dilema brutal, mas, convenhamos, algo similar se passa, por exemplo, com todos aqueles q trabalham com trampos muito complicados. Imagina um cara que recolhe corpos em cenas de crimes ou acidentes. O que esse cara tem pra falar com a família quando chega em casa? Presumo que não muito coisa…

    2. “Chappie”, em outro nível, pq lida com a transferência da consciência humana para uma máquina tb é interessante.

    3. Relacionado ao assunto do livro, eu sugiro o documentário Guerras Sujas (2013), que foi baseado em um livro de mesmo nome (também recomendado): https://en.m.wikipedia.org/wiki/Dirty_Wars

      O filme concorreu ao Oscar e trata de um assunto mais amplo: as ‘guerras’ conduzidas pelos EUA na Somália, Iemen, Afeganistão e Paquistão. Guerra está entre parênteses, porque oficialmente não há nenhuma guerra em realização pelos EUA. Mas ainda assim, os drones e mercenários estadunidenses operam nesses países e atacam a civis, em nome da Guerra ao Terror. Ele retrata bem o impacto psicológico dos drones nas populações civis do Afeganistão e Paquistão , que nem destacado pelo francês de A Teoria do Drone.

    4. Relacionado ao assunto do livro, eu sugiro o documentário Guerras Sujas (2013), que foi baseado em um livro de mesmo nome (também recomendado): https://en.m.wikipedia.org/wiki/Dirty_Wars

      O filme concorreu ao Oscar e trata de um assunto mais amplo: as ‘guerras’ conduzidas pelos EUA na Somália, Iemen, Afeganistão e Paquistão. Guerra está entre parênteses, porque oficialmente não há nenhuma guerra em realização pelos EUA. Mas ainda assim, os drones e mercenários estadunidenses operam nesses países e atacam a civis, em nome da Guerra ao Terror. Ele retrata bem o impacto psicológico dos drones nas populações civis do Afeganistão e Paquistão , que nem destacado pelo francês de A Teoria do Drone.

    1. Foi-me um tapa na cara, pois jamais parei para pensar nesse viés tão negativo do uso dos drones. Sempre encarei-os como pequenos brinquedos que poderiam ter uma aplicação bem legal no futuro, mas deixei de analisar toda essa contrariedade no perfil militar.
      Gostei bastante do livro, ainda mais por ele dialogar com questões da filosofia do direito e do direito da guerra, em especial esse último que passou tão batido na minha graduação (sou Bacharel em Direito e comecei uma pós em História do Filosofia).

      1. Também achei muito bom, por justamente chamar a atenção de algo não relativamente novo, já q o programa tem dez anos, mas para o fatodessas coisas irem se imiscuindo-se travestidas de bens (geralmente de consumo) na pauta cotidianamente sem que se faça alguns poréns. E é justamente esse tipo de coisa q permite engendrar coisas como o holocausto. Parece exagero, mas se a sociedade de um modo geral, vai dando essas brechas, eu não tenho dúvidas que a senha assassina de loucos (e há tantos disfarçados de cidadãos de bem) pode ganhar corpo e virar um programa de extermínio… Quem acha q não pode virar um alvo realmente está brincando com fogo (do tipo hellfire).

    2. O que mais me surpreendeu foi a extensão e todos os desdobramentos do tema. No dia a dia, ficamos sabendo dessas operações de modo superficial, através pequenas notas no jornal e, mesmo sendo brutal saber que “dois civis morreram no Paquistão”, a superficialidade da cobertura enterra, junto aos detalhes, a profundidade da questão. Nesse sentido o livro é compreensivo e bastante didático (sem ser chato, jamais), o que foi uma grata surpresa.

      Um detalhe bobo foi descobrir, ou me dar conta, que “drone” é uma definição que não é exclusiva de dispositivos aéreos. Nunca tinha parado para pensar nisso. E, estendendo a definição, talvez seria o caso de chamar os carrinhos de controle remoto de… drones?

    3. O que mais me surpreendeu foi a extensão e todos os desdobramentos do tema. No dia a dia, ficamos sabendo dessas operações de modo superficial, através pequenas notas no jornal e, mesmo sendo brutal saber que “dois civis morreram no Paquistão”, a superficialidade da cobertura enterra, junto aos detalhes, a profundidade da questão. Nesse sentido o livro é compreensivo e bastante didático (sem ser chato, jamais), o que foi uma grata surpresa.

      Um detalhe bobo foi descobrir, ou me dar conta, que “drone” é uma definição que não é exclusiva de dispositivos aéreos. Nunca tinha parado para pensar nisso. E, estendendo a definição, talvez seria o caso de chamar os carrinhos de controle remoto de… drones?

      1. Eu acho q a superficialidade das coberturas, das abordagens jornalísticas de um modo geral, esbarram nas dificuldades de sempre (falta de recursos, falta de espaço pra assuntos sérios, poucos profissionais etc) com uma certa presunção de q a audiência não vai saber muito bem como lidar com essas questões. Daí q o esforço de explicá-las é bem válidos. Sugeriram no grupo do Manual a ‘Super Interessante’, tratando do assunto q, presumo, deve ser uma boa apresentação do assunto, mas, provavelmente, morre na apresentação, sem desdobrar. Talvez seja uma limitação do meio, mas não vejo como a maioria das pessoas, ainda mais aqui q se lê tão pouco, saia por aí atacando os livros. Daí a importância do jornalismo por mais paradoxal q seja isso.

    4. Boa tarde. Em primeiro lugar, gostaria de agradecer pela sugestão de leitura. Quando o Ghedin anunciou a criação do clube de leitura eu fiquei interessado, mas receoso de que o ritmo de leituras do meu mestrado não me permitisse participar dos debates. Mas quando vi a recomendação desse mês e me inteirei quanto ao livro, fiquei feliz por unir o útil ao agradavel. Ele foi uma grande contribuição à minha pesquisa de mestrado em Estudos Estratégicos Internacionais! Espero que outros temas da atualidade voltem a ser contemplados ao longo do ano.

      1. Pô, João. Legal saber que o livro já teve esse utilidade imediata pra vc. Tb fiquei bem surpreso em relação a leitura. Era uma leitura acadêmica e antevia ai um certo aborrecimento, mas não é q o cara escreve bem pra caramba (ou o tradutor caprichou demais). A extensão do assunto, se ficasse apenas nas partes técnicas ou mesmo militares, seria algo bem mais restrito, mas como ele levou o assunto a partir da perspectiva histórica, filosófica e tb jornalística já q teve aí uma boa pesquisa do q se publicou na imprensa, a leitura representou um belo estofo pra poder falar do assunto com propriedade. E, cara, se tiver umas dicas de leitura aí q possam estar relacionadas com essa, pode mandar!

    5. Quanto ao livro, acho que apesar de se tratar de um livro de não-ficção, ele proporciona uma leitura muito agradável. O autor escreve bem, faz boas comparaçoes e tem uma grande erudição em diversos assuntos. E sem dúvida um livro pro público academico, inclusive muito bem composto com notas e referências. Mas ainda assim permite uma leitura mais descompromissada, e inclusive segmentada, devido a boa divisão de partes e capítulos dentro do livro.

      Na minha opinião o autor foi extremamente feliz em dividir a discussão do tema, complexo e multidisciplinar, por assim dizer, em partes diferentes. A divisão em capítulos também contribui para isolar os argumentos, que parte de diferentes abordagem críticas ao uso dos drones. Eu o recomendarei para amigos pesquisadores e não pesquisadores.

      1. Eu acrescentaria q o autor caprichou nas notas e uma delas em particular tem praticamente a extensão de um capítulo inteiro!

    6. Muito bom.
      Abre inúmeras questões pra quem, como eu, acompanha o tema mais pelo lado técnico, com as consequências sócio-políticas sendo ouvidas mais “de orelhada”, geralmente quando aparecem as já manjadas notícias de bombardeios de supostos líderes de organizações terroristas.

      Ficou bem perceptível que o autor teve um baita esforço na pesquisa. É impressionante o quanto de referências são citadas nas notas, muitos tcc’s são menos extensos nisso.
      Além da disposição em explicar pormenorizadamente conceitos nessas notas, o que é muito útil, já que muitos deles são oriundos da área militar.

      E assim como já foi dito por aqui, a leitura é leve, mesmo com todos os conceitos e a densidade do tema em si.

      1. Opa! Acho q isso é consenso até agora, q o cara escreve bem. Acho isso muito importante num livro. Apesar q, dependendo do assunto, não tem jeito, é preciso ler coisas chatas. Nesse caso, apesar do tema ser intrincado pra caramba, realmente fiquei preso à leitura (pena o tempo ter sido pouco). Pra um livro de não-ficção com pegada acadêmica, isso é muito raro!

    1. Acho que o problema não são os drones… somos nós.

      Cai naquela história do problema não ser a tecnologia, mas sim o uso dela.

      Creio que teremos tanto as boas aplicações, quanto as más.

      1. Mas vc viu q o autor cogita em alguns momentos q os drones não serão mais nem comandados por humanos? Serão autômatos totais?

        1. Sim, vi.

          O que não tira nossa responsabilidade por ter desenvolvido certo drone para alguma aplicação específica.

          Exemplo: teriam consequências bem diferentes um drone que limpe a casa sem interferência humana (o que de certa forma já existe), de um que sirva ao exército, a forças policiais ou faça uma patrulha pelas fronteiras (como acho que você mesmo citou em outro comentário).
          As consequências das “escolhas” do drone seriam bem diferentes nesses dois cenários.

          1. Tendo a crer q um drone autômato encare ambos os casos como uma sujeira a ser eliminada. O primeiro ‘Robocop’, q o Padilha comenta no ‘Roda Viva’, ele diz q o Murphy luta contra a diretrizes. Com certeza essas diretrizes serão elaboradas por pessoas, mas sabe-se lá q desdobramento isso terá… Bom, mas isso é assunto pra outro livro do Clube do Livro ;)

          2. Sim, por isso mesmo que é de bom grado evitar utilizar um drone quando a sujeira a ser eliminada pode ser nós… mas não necessariamente abolir totalmente a tecnologia.

            Olha aí, já puxando a ligação pra outro livro, hein…

      2. Eu sempre leio esse argumento quando alguém contra-ataca a noção de que, por exemplo, o Facebook é uma opção e que reclamar de se estar é perda de tempo. Talvez seja (no fundo, é), mas é impossível ignorar a pressão social e, para muitos (eu, inclusive), profissional. Uma vez estando lá, independentemente do motivo, encarar com neutralidade o ambiente é, em certa medida, ingênuo. Ou maldoso.

        Toda tecnologia tem um viés embutido de quem a desenvolve, a comercializa e, em menor extensão, a utiliza. Não que ela, por si só, seja ou traga a resposta, mas “lavar as mãos” do drone ou da tecnologia que o possibilita, por assim dizer, é tirar um elemento importante para entender e atacar a questão.

        1. Sim Ghedin, concordo contigo: toda tecnologia tem um viés embutido… por nós (“de quem a desenvolve, a comercializa e, em menor extensão, a utiliza”).

          Será que vale dizer que o problema também é o drone em si quando ele é uma tecnologia que pode ser utilizada tanto em aplicações seguras quanto perigosas?

          Obs: a pergunta foi sincera mesmo (não foi retórica). Apesar de eu tender a considerar que o problema principal não é a tecnologia, e sim nós, a discussão “dá pano pra manga”…

      3. Coloquei esse trecho de um texto do Bobbio pra complementar e o q ele diz aqui me parece essencial (ele falava em outro contexto, das possibilidade mais intensa da bomba atômica, mas ainda vale):

        ” Mas o problema do progresso técnico é sempre uma questão de meios que não pode ser separada da dos fins.”

        Esse vídeo é bem legal tb. Dê atenção especial às falas da Jody Williams.

        https://www.youtube.com/watch?time_continue=396&v=5qBjFZV19p0

      4. Coloquei esse trecho de um texto do Bobbio pra complementar e o q ele diz aqui me parece essencial (ele falava em outro contexto, das possibilidade mais intensa da bomba atômica, mas ainda vale):

        ” Mas o problema do progresso técnico é sempre uma questão de meios que não pode ser separada da dos fins.”

        Esse vídeo é bem legal tb. Dê atenção especial às falas da Jody Williams.

        https://www.youtube.com/watch?time_continue=396&v=5qBjFZV19p0

        1. Vou soar repetitivo, mas vou usar mais ou menos a mesma questão que perguntei pro Ghedin:

          Será que vale a pena abolir o uso de certa tecnologia quando ela possui aplicações perigosas e seguras? Quando essas aplicações perigosas são situações causadas por nós e que ocorrerão com ou sem essa tecnologia?
          O problema do drone militarizado (que, friso, também sou contra) não seria apenas uma parte de um problema maior, a militarização em si?

          Usando o próprio trecho do Bobbio, será que uma discussão sobre os fins não seriam mais efetivas do que sobre os meios?

          E bem interessante o vídeo.

          Jody Williams:
          “(…) a campanha não se opõe à robótica. Ela não se opõe à inteligência artificial. Ela se opõe a colocar isso tudo junto em uma máquina que pode matar você sozinha.”

          1. O uso da aviação pelos militares, parece, levou o Santos Dummont ao suicídio, mas não sei se isso é mito. Ou mesmo a depressão q Oppenheimer enfrentou por conta dos destinos da bomba atômica. Qdo o Bobbio diz:

            “Mas o problema do progresso técnico é sempre uma questão de meios que não pode ser separada da dos fins.”

            acho q aí fica o alerta para a destinação as quais as coisas são dadas. Fora q há esse tabu em dizer: “não se pode frear o progresso tecnológico de jeito nenhum” ou “há um lado positivo na segunda-guerra (e tantas outras guerras) com todos esses avanços q ela propiciou”, mas imagine destinar, por exemplo, o orçamento q os EUA (e tantos outros países) destinam aos gastos militares pra outros segmentos da vida… Será q não teríamos resultadores melhores do q esperar q armas sejam convertidas em produtos disponíveis em prateleiras? Isso, levar os gastos militares pra outras áreas não eliminaria por si só os conflitos no mundo, mas a corrida por armas cada vez mais sofisticadas tem q qual finalidade?

            A primeira parte do capítulo V, o “1. Tanto na guerra como na paz” acho q dá umas dicas sobre como se dá essa relação entre sociedade e estado e seus acordos tácitos.

            E mais um acréscimo, Hannah Arendt, nos idos da década de 60, dizia citando Daniel Bell: “Há muitas razões pelas quais esse novo grupo não se transformou, ou ainda não, em uma elite de poder, mas, de fato, há muitos motivos pra acreditar, com Daniel Bell, que ‘não apenas os melhores talentos, mas também, finalmente, todo o complexo de prestígios social e de status social estará enraizado nas comunidades científicas e intelectuais'”.

            Ora, é justamente isso q estamos testemunhando nas últimas décadas… E veja só q são muitos desses figurões da tecnologia q vão ditar os rumos das sociedades pelo mundo e não só com base no interesse comercial, mas com outra pegada. Zuckerberg com seu plano de internet grátis age como um capitalista sem visão, mas os caras do Google não: eles têm planos de ter todas as informações do mundo em 300 anos! Não me parece improvável, apesar de não conseguir imaginar como.

          2. O uso da aviação pelos militares, parece, levou o Santos Dummont ao suicídio, mas não sei se isso é mito. Ou mesmo a depressão q Oppenheimer enfrentou por conta dos destinos da bomba atômica. Qdo o Bobbio diz:

            “Mas o problema do progresso técnico é sempre uma questão de meios que não pode ser separada da dos fins.”

            acho q aí fica o alerta para a destinação as quais as coisas são dadas. Fora q há esse tabu em dizer: “não se pode frear o progresso tecnológico de jeito nenhum” ou “há um lado positivo na segunda-guerra (e tantas outras guerras) com todos esses avanços q ela propiciou”, mas imagine destinar, por exemplo, o orçamento q os EUA (e tantos outros países) destinam aos gastos militares pra outros segmentos da vida… Será q não teríamos resultadores melhores do q esperar q armas sejam convertidas em produtos disponíveis em prateleiras? Isso, levar os gastos militares pra outras áreas não eliminaria por si só os conflitos no mundo, mas a corrida por armas cada vez mais sofisticadas tem q qual finalidade?

            A primeira parte do capítulo V, o “1. Tanto na guerra como na paz” acho q dá umas dicas sobre como se dá essa relação entre sociedade e estado e seus acordos tácitos.

            E mais um acréscimo, Hannah Arendt, nos idos da década de 60, dizia citando Daniel Bell: “Há muitas razões pelas quais esse novo grupo não se transformou, ou ainda não, em uma elite de poder, mas, de fato, há muitos motivos pra acreditar, com Daniel Bell, que ‘não apenas os melhores talentos, mas também, finalmente, todo o complexo de prestígios social e de status social estará enraizado nas comunidades científicas e intelectuais'”.

            Ora, é justamente isso q estamos testemunhando nas últimas décadas… E veja só q são muitos desses figurões da tecnologia q vão ditar os rumos das sociedades pelo mundo e não só com base no interesse comercial, mas com outra pegada. Zuckerberg com seu plano de internet grátis age como um capitalista sem visão, mas os caras do Google não: eles têm planos de ter todas as informações do mundo em 300 anos! Não me parece improvável, apesar de não conseguir imaginar como.

  1. 3. Se o Brasil entrasse em conflito com algum país e tivéssemos drones similares aos americanos, como vocês se sentiram se recebessem uma ordem para pilotá-los numa missão de ataque?

    1. Depende de muitos fatores.

      Acho que um ponto importo, que não lembro do livro ter abordado, é a questão de quais inimigos estão sendo atacados por drones: o terrorismo é normalmente taxado de ataque covarde por atacar civis, o que deve baixar as restrições da população em relação a métodos “covardes” como os drones. Não sei se isso é um fator relevante, mas acredito que os drones seriam reavaliados pela sociedade em uma guerra declarada, já que o inimigo poderia perder o rótulo de covarde que é associado aos terroristas. Um combatente se sentiria mais covarde fazendo isso com, sei lá, um russo.

      Além dessa questão técnica, o distanciamento social também ajuda a usar máquinas impessoais e imprecisas de matar como os drones. Em São Paulo, matar negros na periferia pode sem problemas, matar islâmicos deve ter o mesmo impacto para os americanos (pior provavelmente): o pessoal vai preferir manter a abrangência da estratégia (não deixar nenhum terrorista escapar), em detrimento a precisão (matar inocentes além de terroristas). Acredito que as pessoas se compadeceriam muito mais com vidas inocentes se fosse algum país vizinho ou desenvolvido, a falácia da precisão seria mais discutida pela sociedade e custaria mais ao combatente matar civis por tabela.

      Por fim, em relação a declarar guerra, acho meio alienígena essa questão para nós brasileiros: a “guerra ao terror” tem mais a ver com os problemas estadunidenses, mas é estranho esse conceito de lutar na guerra dos outros como do Kosovo e Vietnam. Mandar tropas da Síria é arriscar vidas do seu país para um problema do mundo todo, pior ainda no caso do Iraque, para nada muito importante tirando interesses econômicos. Se o Brasil tivesse esse papel de ser o “exército do Ocidente”, não sei o que pensar de mandar brasileiros para Síria ao invés de drones…certamente minha disposição seria muito menor do que se fosse um problema mais próximo como uma hipotética invasão de um país vizinho em território brasileiro.

      A pergunta do “você” pilotaria que você fez é importante porque acho engraçado que muitos apoiam tropas terrestres contra o ISIS e, apesar de concordar que seja a estratégia correta na atual situação, eu penso: mandar tropas americanas/inglesas para lá é fácil e se fosse você lá? Eu soldado brasileiro estaria disposto a arriscar minha vida para combater o ISIS? É melhor deixar o negócio rolar na Síria porque não quero arriscar minha vida ou usar drones que, apesar de injusto, pode minimizar a atuação do ISIS?

      1. Ok, ok… Digamos, então, q tivéssemos q levar drones para o Haiti, onde o Brasil comandava uma missão de paz, e que estivesse autorizado a brasileiros, com drones, a fazer ataques estratégicos em regiões de rebeldes armadas em que, por questões estratégicas, o drone foi apontado como a melhor solução. Acho q faz sentido não nos imaginarmos em conflito – aqui caberia mais uso do drone pelas forças policiais e não pelo exército atacando a Argentina. Mas, veja, as nossas fronteiras são enormes e constante alegam que essa porosidade favorece a entrada de armas (em parte é verdade, mas a maioria das mortes por arma de fogo aqui se dá com armas de fabricação nacional), daí que sugerir que drones patrulhem os espaço aéreo e drones lanchas patrulhem os rios, não é totalmente improvável…

        O lance da covardia é muito bem explorado pelo autor naquele capítulo sobre “princípios da filosofia do direito de matar” e toda a ginástica que os caras fazem teórica e conceitualmente pra tentar permitir e legitimar a matança.

        1. Acho complicado enxergar o Haiti como algo similar a guerra ao terror, um conflito de rebeldes é diferente de um grupo terrorista por não ter relação com o Brasil e por, acredito eu, não entrarem em uma linha tão baixa quanto terroristas. Patrulhar fronteiras e rio parece um caso mais adequado de drones, afinal o custo por terra é inviável e o uso de armas seja exceção e não regra. Ai seria mais o caso policial e não guerra, o qual é outra discussão (mais importante até no contexto atual).

          E discordo que o autor tenha considerado, posso ter perdido, mas não lembro de algum momento ele considerar que o inimigo terrorista tem padrões de guerra, para os ocidentais, bem abaixo da discussão dos drones.. Eles não matam civis sem querer, eles matam porque todos são inimigos, e tem a questão de ser uma guerra totalitária: é meu jeito ou de jeito nenhum. ou vocês abandonam seus valores e ficam com os nossos ou morre.

          Acho que isso influi na decisão da sociedade sobre o uso de drones, pode não ser digno em termos de guerra como uma invasão armada por terra, mas por que essa preocupação com o inimigo que mata civis e quer dizimar o país por princípio? Não vivi essa época, mas o esforço para moralizar a Guerra do Vietnam deve ter sido muito maior do que a atual “guerra ao terror”.

          1. Então, toda essa preocupação está no lance da ética militar, porque o drone tira a possibilidade de defesa de quem é atacado e, pelo q o autor fala, o drone, por sua quase invencibilidade faz com que o atacado não tenha a mínima chance (conforme o capítulo IV princípios da filosofia do direito de matar). Ele até chega ao ponto de comparar o envenenamento (algo totalmente repelido como arma de guerra, pois, bem, como se sabe ele pode atingir os figurões e não à toa ficou complicada aquela situação com o Yushchenko 2004) com esse tipo de assassinato incólume…

            Hum, acho q não disse q o ISIS usa tática de guerra não e nem autor fala isso, mesmo pq, eu acho, o livro foi escrito antes dessa ascensão do ISIS.

          2. Sim, o livro discorre muito bem sobre esse ponto, guerra não é nunca foi interpretado como vale-tudo apesar de parecer, eu só acho interessante que no caso específico de “guerra ao terror” é relevante considerar que não é uma guerra também nos moldes tradicionais. Não precisa ser o ISIS, pode ser a Al Qaeda ou qualquer outro grupo paramilitar: não é um estado contra outro e o grupo ataca civis. É uma bagunça de revolução, guerra civil e guerra entre estados.

            Concordo que os drones trazem uma assimetria muito grande na guerra, mas a “guerra ao terror” não é uma guerra como as outras como a Segunda Guerra ou a própria invasão do Iraque.

      2. E o lance de combater o ISIS é algo muito similar ao que se dá com outros combates, porque o ISIS não é um exército uniformizado pelo que eu saiba e não tem postos e estações militares oficiais. Eles agem de modo decentralizado e ainda fazendo atentados e execuções espetaculares (que teorias conspiratórias dizem ser falsas dada a superprodução). O dilema é o mesmo, porque tem aquele lance de vc investigar pelo drone, monitorando pessoas selecionadas por dias e dias, até que consiga chegar a conclusão de que é um alvo que está no seu monitor. E não teve aquele xarope brasileiro que foi lutar do lado dos rebeldes ucranianos a favor da Rússia nesse último conflito? O cara foi lá, todo feliz, lutar na guerra dos caras… Vc disse bem sobre a matança nas periferias, pq no contexto policial nosso, acredito que teríamos milhares de soldados dispostos a usar drones para matar suspeitos. Porque aqui, pelo menos em SP, já está amplamente difundida a tese de que é melhor que o “bandido” morra e não o policial. Daí que pelo drone, o policial estaria ainda mais seguro e o apoio que já existe hj certamente se amplificaria.

    2. Eu entraria em parafuso, pois jamais me vi em uma situação de dispor da vida de alguém. Mesmo que o drone proporcione esse “distanciamento” entre vítima e algoz, acho que não teria coragem de acionar um míssil.
      BEM, isso considerando que vivemos num contexto e relativa paz, eu que eu não preciso andar armado e paranoico com o inimigo tentando me matar.

    3. Eu entraria em parafuso, pois jamais me vi em uma situação de dispor da vida de alguém. Mesmo que o drone proporcione esse “distanciamento” entre vítima e algoz, acho que não teria coragem de acionar um míssil.
      BEM, isso considerando que vivemos num contexto e relativa paz, eu que eu não preciso andar armado e paranoico com o inimigo tentando me matar.

        1. Aha!
          Como o mindsetting é diferente, acho que sim. MAs tem outras variáveis, por exemplo, matar em ultra-realidade (realidade virtual aprimorada) : nunca testei, então não sei minha reação quanto a isso.

    4. Hum… acho que me sentiria do mesmo jeito que se fosse convocado pra um conflito mais “tradicional”, ainda mais depois de ler o livro.

      É algo que inclusive pensei por um tempo na época de alistamento militar, os dilemas de se por acaso ser convocado, ter que fazer algo que não necessariamente estamos dispostos a fazer e que ainda causará um mal, a si próprio ou ao outro lado.
      Ok, a reflexão do alto dos meus (já meio distantes) 18 anos foi num nível (ainda) mais simples, mas a essência é essa.

    5. Hum… acho que me sentiria do mesmo jeito que se fosse convocado pra um conflito mais “tradicional”, ainda mais depois de ler o livro.

      É algo que inclusive pensei por um tempo na época de alistamento militar, os dilemas de se por acaso ser convocado, ter que fazer algo que não necessariamente estamos dispostos a fazer e que ainda causará um mal, a si próprio ou ao outro lado.
      Ok, a reflexão do alto dos meus (já meio distantes) 18 anos foi num nível (ainda) mais simples, mas a essência é essa.

    1. Creio que não.

      Ficando só em aspectos presentes no livro e que eu concorde:

      – Jurídico: quem seria culpado por uma contravenção realizada por um drone?
      O autor sugere uma situação (altamente provável, diga-se de passagem) em que Forças Armadas, Estado, empresa desenvolvedora, e empresa produtora ficariam num jogo de empurra-empurra de responsabilidades.

      – Militar: a possível banalização da atuação das forças armadas via drone, pois já que não haveria possibilidade de sacrifício de vidas (da parte do país “dronificado”) a manutenção de uma campanha permanente não causaria tanto impacto na opinião geral.

      – Sociedade civil: a prática de acompanhamento de padrões de uma pessoa via vigilância por drone utilizada pelos EUA em alguns países, se aplicada pelas forças policiais, poderia trazer algo remotamente à la Minority Report… eu fiquei com medo.

      1. Essa parte é realmente muito boa. A pesquisa do autor foi sensacional: ao citar depoimentos reais e relatórios dos psicólogo militares ele ganha muita credibilidade nos argumentos de crítica quanto aos impactos disso dentro da sociedade. É algo que os planejadores militares e civis não dão muita atencao, imersos na lógica de obter resultados a custos minimos, mas que pode trazer consequências desastrosas para a coesão social do país. Acredito que isso só seja possível de manter em uma escala relativamente baixa, como é a dos operadores de drones.

    1. A mim foi os questionamentos sobre a ética, ou o “ethos” da guerra. Há toda uma filosofia por trás dos conflitos, toda uma fundamentação filosófica que, num certo sentido, é absolutamente oposta à barbárie da guerra. E isso ajuda a dar uma dimensão de como o drone, usado como os norte-americanos vêm usando, é brutal: ele subverte as regras dos atos mais primitivos e destrutivos da humanidade. Não é pouca coisa…

    2. Para meus interesses acadêmicos a parte mais interessante foi a discussão sobre a origem dos drones os aspectos técnicos militares da máquina e dos procedimentos de operação. É impressionante como a onipotencia do pensamento é um risco muito real em situações de guerra. Sempre há uma arma mágica, uma “bala de prata”, capaz de derrotar os inimigos sem causar baixas aos soldados do lado que emprega a arma. Foi assim com os bombardeios, com a arma nuclear, com os aviões stealth, e agora com os drones. Mas faltam mentes lúcidas que percebam o impacto desses mecanismos na organização das sociedades, nas economias dos Estados, nas relações de trabalho, sem contar no direito internacional público e nas relações políticas entre os Estados. Nesse ponto, o livro me foi muito útil.

    3. A questão de “terceirizar” as decisões a limites definidos do tipo: um ataque matará 90% de combatentes e 10% de civis tudo bem, porque o sistema estimou que seria essa proporção de até 1/10 de civis mortos tudo bem. É uma estratégia que nunca tinha pensado, mas muito comum, de tirar o ônus das decisões de uma guerra.

    4. O quão imprecisa (ao contrário do que toda a propaganda favorável diz) é boa parte dos ataques via drone.

      As citações presentes no livro mostram situações em que disparos são realizados a esmo, atingindo (diretamente ou pelo efeito colateral do disparo) pessoas que não estejam relacionadas ao objetivo do ataque, ou mesmo quando o ataque já é planejado visando um alvo errado.

      Além disso, as declarações dos moradores dessas regiões sobre como é a sensação ao ouvir os sons dos drones chegando é aterrorizante. Digno de romances distópicos.

  2. 6. Depois de tantos jogos como Call of Duty, vocês acham que o aspecto virtual desse tipo de jogo atenua os dilemas éticos que vamos encarar na vida real?

    1. Fabio, não sei…

      Mas tendo a acreditar que isso varia muito de pessoa pra pessoa, cada um é impactado de forma diferente por jogos eletrônicos, e que no geral isso não traria uma atenuação nos dilemas éticos nessas questões.

        1. Essa discussão é bem complexa…

          Acho que são dois cenários:

          – jogos que prezam pela simulação mais realista possível: nesse caso, acho que a introdução de mecanismos que não impeçam que os crimes sejam cometidos, mas que punam o jogador (como seria na vida real) seriam bem vindos.

          – jogos menos preocupados com isso, os mais “arcade”: aqui acho que não casaria bem. Em casos em que as leis da física não são consideradas com razoável esmero, em jogos mais “galhofa”, acho que essa preocupação pode ser mais relativizada, ou até desconsiderada.

    2. Será que atenua? Um jogo, aproveitando-se do realismo e das técnicas de narrativa, super desenvolvidas, não poderia contribuir com o debate? Tenho severas restrições com o papo de que jogos influenciam a violência do j0v3m (e, creio, concordamos nisso). Uma porque é, ou pode ser, arte, e estabelecer critérios à arte é uma atividade bastante infrutífera — “o que é arte?” e afins. E outra porque esse tipo de denúncia, geralmente, vem carregada de desinformação, preconceitos e acabam como o resultado pela busca de um bode expiatório.

      Como exemplo de que jogos de guerra podem ser suscitadores do debate, tem Spec Ops: The Line, um jogo cheio de dilemas morais: http://www.nytimes.com/2012/06/26/arts/video-games/spec-ops-the-line-from-2k-games-makes-killing-personal.html?_r=0

      O próprio Call of Duty teve um episódio marcante uns anos atrás por conta de uma passagem em que, infiltrado, o personagem do jogador tinha a opção de matar civis num aeroporto tomado por terroristas:

      https://www.youtube.com/watch?v=2UadzYIwors

      1. Não creio que estimule a violência, mas é curioso que nossos jogos, desde os primórdios, reflitam o nosso aspecto violento, porque veja o quão fácil é fazer jogos simples que tenham relação com violência. Se se parte q a violência é algo inerente a nós, ou seja, todos podemos ser violentos dada certas circunstâncias, então entra aí os dilemas éticos. Esse jogo q vc cita é um ótimo exemplo e eu já joguei. Qdo me dei conta do q se tratava senti um mal estar e depois me peguei pensando: e quem não sentiu? Será q o cara é um assassino em potencial ou, sei lá, a virtualidade do jogo faz ele deixar de lado essa questão e segue adiante? Isso era algo q eu gostaria, inclusive, de testar com jovens tidos como violentos, mas ainda não deu pra levar isso pra academia (quem sabe um dia). Não vejo relação direta, mas me preocupa, sim, os efeitos de simulação do virtual e como isso pode ser visto em termos cognitivos. Se vc lê os relatos dos q sobreviveram aos sonderkommandos (q era os judeus encarregados de fazer o trabalho de esvaziar as câmaras de gás e levar os corpos aos crematórios), eles se perguntam como foi que puderam concordar em fazer aquilo. É um contexto extremo, mas q dá a medida do quão possível é q dilemas éticos sejam soterrados. Ali, claro, era questão de vida ou morte de si (autopreservação). Mas no virtual, eliminando a possibilidade de morte do outro, a decisão pode ser mais “livre” das questões éticas. Eu vejo com certa preocupação alguns pontos porque o exército já sacou isso e tem feito dos jogos um atrativo para o alistamento…

      2. Não creio que estimule a violência, mas é curioso que nossos jogos, desde os primórdios, reflitam o nosso aspecto violento, porque veja o quão fácil é fazer jogos simples que tenham relação com violência. Se se parte q a violência é algo inerente a nós, ou seja, todos podemos ser violentos dada certas circunstâncias, então entra aí os dilemas éticos. Esse jogo q vc cita é um ótimo exemplo e eu já joguei. Qdo me dei conta do q se tratava senti um mal estar e depois me peguei pensando: e quem não sentiu? Será q o cara é um assassino em potencial ou, sei lá, a virtualidade do jogo faz ele deixar de lado essa questão e segue adiante? Isso era algo q eu gostaria, inclusive, de testar com jovens tidos como violentos, mas ainda não deu pra levar isso pra academia (quem sabe um dia). Não vejo relação direta, mas me preocupa, sim, os efeitos de simulação do virtual e como isso pode ser visto em termos cognitivos. Se vc lê os relatos dos q sobreviveram aos sonderkommandos (q era os judeus encarregados de fazer o trabalho de esvaziar as câmaras de gás e levar os corpos aos crematórios), eles se perguntam como foi que puderam concordar em fazer aquilo. É um contexto extremo, mas q dá a medida do quão possível é q dilemas éticos sejam soterrados. Ali, claro, era questão de vida ou morte de si (autopreservação). Mas no virtual, eliminando a possibilidade de morte do outro, a decisão pode ser mais “livre” das questões éticas. Eu vejo com certa preocupação alguns pontos porque o exército já sacou isso e tem feito dos jogos um atrativo para o alistamento…

        1. Mas você não acha que essa visão dá uma dimensão maior à proposta do jogo (digo, enquanto mídia)? Se pegarmos o seu comentário e trocar “jogo” por “filme”, ou “livro”, todos os receios e críticas continuam valendo — outras mídias também podem (e também são) usadas para influenciar, subverter, arrebanhar gente para diversas causas, inclusive a militar. A mera mudança de perspectiva que a mídia video game acarreta (de observador e participante, mas ainda assim num ambiente irreal) é tão forte a ponto de dar a ela um tratamento diferenciado? Um filme imersivo seria mais “perigoso” (nesses termos) do que um jogo violento, mas fraco em outros aspectos, chato de jogar e, portanto, menos imersivo?

          O ponto mais problemático dos jogos, para mim, é o desrespeito às indicações etárias dos títulos, especialmente porque na adolescência o discernimento raramente está bem desenvolvido — mais fácil de se corromper.

          1. Manja aquele livro, “Os sofrimentos do jovem Werther”? Então, ele levou gente a cometer suicídio depois de lê-lo… Assim como muitos conteúdos q demonstram cenas de suicídio vêm sempre acompanhadas de alertas, pq acredita-se q o conteúdo pode influenciar os q andam pensando no assunto. Tenho dúvidas sobre isso, pq pode até q ser isso faça parte do problema do suicida, mas dizer q foi isso q ocasionou o suicídio não tem nada a ver.

            Não creio q um jogo, por si só, possa levar alguém a ser violento. Mas, claro, cenas e situações ali pode estimular e inspirar alguém q já queira fazer algo. Houve um crime na Livraria Cultura há alguns anos, um rapaz foi atacado por um cara com um bastão de baseball e vendo melhor o caso depois, ficou parecendo uma cena de GTA. Isso foi conclusão minha e de um amigo qdo discutimos o crime, mas impossível saber.

            Eu queria testar jovens tidos como violentos pra ver como eles reagiriam num jogo como Minecraft (longe de ser considerado um jogo violento) apresentando ali alguns dilemas éticos. Mas uma parte essencial do trabalho seria entender o papel do virtual ali, pq diferente do livro e do filme, eles não permitem a mesma interação q um jogador tem com o jogo.

            Pelo menos da bibliografia q eu reuni aqui comigo, nada sugere q os jogos, especialmente os tidos como violentos, abrem caminho para a matança desenfreada no mundo real (o mesmo assunto paira sobre a TV há décadas e nada confirma isso a correlação), mas eu notei q ninguém se debruçou muito sobre os efeitos cognitivos dos jogos. Qdo a realidade virtual ficar comercialmente acessível como estamos vendo, creio q esse aspecto vai ser mais bem observado por gente mil vezes mais competente q eu. Pra mim, por enqto, é uma suspeita e vendo os caras operados drones, aquilo não deixa de parecer um jogo e se aqueles pilotos jogaram em simuladores, como eu acredito q tenham feito, qual o efeito disso?

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