Reprodução, obra de Bernardo Carvalho, é o primeiro livro do Clube de Leitura.

“Aqui tem ou não tem Wi-Fi?” Debate do livro Reprodução, de Bernardo Carvalho


28/1/16 às 8h54

Sendo este o primeiro post para discussão no Clube de Livros do Manual do Usuário, peço paciência aos participantes e já digo de largada: todas as mancadas e absurdos ditos por mim aqui (e nos comentários) são de minha total responsabilidade. Ao senhor Rodrigo Ghedin, a quem agradeço pelo espaço e oportunidade de me comunicar com uma audiência bem bacana, coube o disparate de promover a leitura num país de tão poucos leitores de livros de uma literatura mais “séria”, digamos.

O convite a mais essa experimentação do Manual, pelo que pude sentir, foi extremamente oportuno, pois, como muitos de vocês, tenho o desejo de ler mais este ano. Daí essa oportunidade ainda melhor: estender as escolhas de livros que faria a mim mesmo para mais pessoas, com a grande chance de discuti-los ao término da leitura!

Ler, todos sabem, é um ato solitário. Há a leitura em conjunto quando da iniciação de jovens leitores; ao ler para uma criança ou adultos em alfabetização, por exemplo, estamos mostrando a eles que ler envolve atenção ao livro e concentração (algo escasso nos dias de hoje). As crianças, especialmente, viajam nas histórias e, apesar de já sermos adultos alfabetizados, tenho a impressão de que também nos pegamos muitas vezes em outros mundos a partir do que lemos — com menos imaginação, talvez, mas ainda ainda no terreno movediço da fantasia.

Capa do livro Reprodução.Nessa toada, o primeiro livro proposto, um livro de ficção como outros cinco que virão, Reprodução, do Bernardo Carvalho, me pareceu ideal pra começarmos, afinal, ele é curto e, pra nossa felicidade ou infelicidade, grosso. Grosso graças aos modos do seu personagem, o famigerado estudante de chinês… Eu, particularmente, o achei irritante e insuportável (de difícil convívio, melhor dizendo), mas gostaria de confrontá-lo e arrancar dele mais pérolas como “o homem é um eufemismo para o suicídio”.

Espero que você não tenha ficado atormentado com a leitura a ponto de querer passar longe de livros da mesma estirpe. Asseguro a você que não foi essa a intenção, mas o ponto principal — e isso se refletirá em todas as demais escolhas de livros do Clube — é que o mais importante é provocar, demover, atiçar e sensibilizar um determinado grupo de pessoas (em grande parte interessados quase que exclusivamente em tecnologia) para que notassem que o mundo ao nosso redor não está só cada vez mais complicado, mas também mais cifrado, codificado e repleto de incertezas.

E… Acalme-se, porque não farei mais filosofia de boteco! Mesmo porque acho que isso é algo que todos já notaram: habitamos um mundo (real e irreal) maravilhoso em nossos gadgets, mas eles não funcionam sozinhos e também não surgem do nada; não são autômatos providos de inteligência artificial desenvolvida a ponto de nos ludibriar e se reproduzirem em loop infinito. São pessoas, inclusive como esse imaginário estudante de chinês, com esse discurso medonho, que preenchem os nossos dias e temos que conviver com eles da melhor forma possível sem ficarmos tão malucos quanto.

Mais sobre Reprodução

Listo aqui, aos interessados em desdobrar um pouco a leitura da obra, duas críticas sobre o livro que me parecem bem interessantes, apesar de sempre serem insuficientes e requererem a SUA leitura da obra pra validar ou não o que o crítico diz. E vai também uma entrevista com o autor do livro que é excelente pra sacar um tanto do que ele pretendia quando resolveu escrever o Reprodução:

Segundo nosso querido personagem, “Brasileiro é burro e ignorante. Não dá pra conversar”. Vai, então, uma entrevista com o autor.

Apenas pontuando: a crítica, nesse caso, tem a função de nos ajudar a entender um pouco melhor a obra e o autor. Muitos já devem ter ouvido que críticos, seja de literatura, cinema ou artes, são escritores, cineastas ou artistas frustrados. Só que não é bem assim… A crítica, quando bem feita, claro, nos ajuda, e muito, porque é feita geralmente por alguém que tem muitas referências (leu muito, viu muitos filmes etc., mas viu tudo criticamente e não apenas por diversão ou passa-tempo). Ou seja, o crítico tem a visão e o conhecimento amplo o bastante pra saber posicionar uma obra a partir do seu ponto de vista para uma audiência que não tem essas mesmas referências e pode não sacar, talvez, a mensagem geral da obra ou de que forma ela se encaixa numa perspectiva artística.

Se você tem dúvidas, por exemplo, entre a qualidade da obra de um Bernardo Carvalho frente a um Paulo Coelho, é altamente recomendável que você tente encontrar mais referências sobre o contexto dos dois autores pra tirar suas próprias conclusões. Mas quando um crítico diz que, no caso, um Paulo Coelho não é literatura, ele tem lá suas razões.

Vamos conversar!

O esquema do debate é similar ao dos posts livres, porém restrito à obra. Novos tópicos podem ser abertos, tanto sobre a forma quanto a história, e, para fomentar esse começo, já deixamos alguns questionamentos ali.

Boa discussão a todos!

PS

Pra quem gostou muito do autor e quer ler mais dele, ele é, vejam só, colunista na Internet! Por essa talvez vocês não esperassem! Nesse caso, felizmente, a leitura é super válida e ficaremos, provavelmente, em melhor companhia do que o estudante de chinês em suas leituras.

Segue aqui também um agradecimento especial ao Flavio Moura e à Clara Dias, ambos da editora Companhia das Letras, que foram muito gentis em cederem um exemplar do livro para o sorteio. Ele será sorteado hoje, entre os assinantes do Manual do Usuário, no nosso grupo secreto do Facebook.

Revisão por Guilherme Teixeira.

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