Arte de Leandro sobre foto da Gerry Images

De fortuna a trocados: uma triste história do Yahoo


25/5/17 às 18h28

Em julho, completará um ano desde que a operadora norte-americana Verizon anunciou o acordo de compra do Yahoo por US$ 4,8 bilhões — uma transação grande do mercado de tecnologia, mas ao mesmo tempo um indicativo da decadência de uma das maiores potências que a internet teve em seus anos dourados. Para o Yahoo, uma marca que já valeu cerca de US$ 125 bilhões, é bem triste e deprimente, para ser sincero.

Foi um amargo final para a companhia que nasceu em 1994 como um catálogo de endereços na internet. O “Jerry’s Guide to the World Wide Web”, embrião do Yahoo, surgiu como uma lista de sites curados por dois estudantes (Jerry Yang e David Filo) da universidade de Stanford, na Califórnia, e rapidamente se tornou um dos redutos mais populares de páginas da web durante o boom inicial da internet. Em 1996, a empresa se tornou pública, foi para Sunnyvale, no Vale do Silício, e se transformou em uma das protagonistas da chamada “bolha do pontocom”, com ações chegando a US$ 500 cada na virada do século. No final dos anos 90, o Yahoo era a referência quando se tratava de buscas na web. Corta para 2017 e pergunte para alguém com menos de 25 anos se algum deles já buscou alguma página no Yahoo. Bola de feno.

É importante colocar essa desgraça toda em perspectiva, mas é importante reconhecer também que, como em toda boa tragédia, más decisões são o que determinam resultados ruins. Se no início dos anos 2000, tudo estava lindo e maravilhoso com o Yahoo, a empresa não foi tão sábia e não conseguiu reconhecer que dali para frente a web mudaria, e muito. A companhia estava confortável em sua posição de motor de busca e provedor de e-mail, o duplo alicerce da fidelização de usuários na época, mas sua estratégia de consolidação se provou errada no longo prazo.

A ameaça Google

Em 1999 e 2000, quando estava com seus cofres recheados e a bolha da internet estava inflando, a empresa investiu na compra de duas companhias proeminentes na época: a plataforma de criação de sites Geocities e a plataforma de vídeo online Broadcast.com. Nessa brincadeira de adquirir empresas por preços inflados, o Yahoo gastou mais de US$ 10 bilhões de seus cofres. Pior ainda: ao esbanjar dinheiro em compras pouco acertadas, a empresa deixou de investir em startups que poderia ser a base para seu crescimento futuro. Algo que seus concorrentes aprenderam mais rápido.

Nesse sentido, há um episódio ainda mais emblemático, de 1998, quando dois estudantes de Stanford ofereceram sua tecnologia de busca online, chamada PageRank, por US$ 1 milhão ao Yahoo. Os dois jovens estavam dispostos a vender a patente da inovação para a então gigante, pois precisavam do dinheiro para continuar pagando seus estudos. O nome desses dois rapazes? Sergey Brin e Larry Page. Sim, a mesma PageRank que depois se tornaria a inteligência central por trás do atual gigante das buscas, o Google.

Mas calma que ainda piora. O Yahoo teve sim uma segunda chance de comprar o Google. Em 2002, o CEO do Yahoo Terry Semel negociou com Page e Brin uma possível aquisição da empresa, já uma startup em ascensão no Vale do Silício. Desta vez, porém, o preço estava bem mais alto: US$ 5 bilhões — US$ 200 mil a menos do que o Yahoo vale hoje. Semel achou caro e preferiu não seguir com o negócio. Mas pagar US$ 5,7 bilhões por uma empresa de TV online quando a internet ainda nem falava em streaming foi um grande negócio, não é mesmo?

A derrocada do Yahoo na década que seguiria é, em grande parte, resultado dessa relação desgraçada que a empresa teve com o Google. Não apenas porque a então startup de Mountain View se tornou rei inconteste das buscas, mas porque o Yahoo nunca mais conseguiu ser o mesmo ou encontrar um novo caminho para o seu sucesso. Em 2008, a empresa já tinha perdido mais da metade de seu valor de mercado e a Microsoft chegou a oferecer US$ 44,6 bilhões para levar a marca, mas a oferta foi recusada.

Daquele ano até 2012, o Yahoo trocou quatro vezes de CEO: Jerry Yang (um dos fundadores da empresa) ficou treze meses no cargo; Carol Bartz saiu da liderança da Autodesk para ficar dois anos em Sunnyvale, mas foi demitida por telefone e depois falou que foi “f***da” pela empresa; Scott Thompson (ex-presidente do PayPal) não durou um ano e meio. A dança das cadeiras só parou quando Marissa Mayer, ex-VP de produtos de busca e experiência do usuário no Google, chegou no cargo.

Marissa Mayer para Vanity Fair
Marissa Mayer para Vanity Fair/Reprodução

A Era Marissa

A chegada de Mayer foi vendida como uma esperança para o Yahoo, que acumulava resultados insatisfatórios em seus relatórios financeiros. De fato, os fotogênicos olhos azuis/verde da executiva – na época, a revista Vanity Fair chegou a chamá-la de “deusa geek” (um trocadilho com o inglês “greek goddess”) – serviram para dar um novo gás, mesmo que temporário.

Mayer está no cargo desde então mesmo — as duas licenças maternidades a que tinha direito foram reduzidas a semanas, e não meses –, mas não teve sucesso em reanimar a marca junto ao mercado. O único porto seguro vinha do mercado asiático, onde tinha 40% de participação na chinesa Alibaba. Aliás, essa operação, que inclui o rentável Yahoo Japão, foi o único negócio não incluído na venda para a Verizon. Entretanto, até o nome da companhia já mudou, se chamando agora Altaba. Isso mesmo, ALTABA.

No lado ocidental, Mayer não apenas foi incapaz de tapar os buracos de um navio gigante em vias de naufragar, como aos poucos se tornou persona non grata por investidores. Já em 2015, acionistas do Yahoo pediam a saída da executiva, mesmo que a quebra de seu contrato como CEO resultasse em pesadas multas, uma vez que Marissa foi contratada a peso de ouro três anos antes. Toda essa pompa se refletia na sua postura como CEO dentro da empresa: funcionários diziam que ela era relapsa, que se atrasava com frequência para compromissos, egocêntrica e difícil de se relacionar.

Eis que então em 2016 a situação chegou a um ponto insustentável e o Yahoo passou a buscar potenciais compradores, mas poucos mostraram interesse. Do estimado valor de US$ 30 bilhões da companhia no mercado, mais da metade vinha da operação asiática – o que tornava o seu core business de buscas e marketing online nos EUA praticamente sem valor nenhum. Mesmo assim, a Verizon, em uma tentativa de turbinar sua frente de conteúdo e publicidade, resolveu pagar US$ 4,8 bilhões e o Yahoo finalmente foi vendido, fazendo companhia para a AOL, outro fantasma da internet do passado que integra a carteira multimídia da Verizon. As duas lendárias marcas deixarão de existir e serão unidas sob um novo nome: Oath. Quanto a Mayer, ela procurará a tal “recolocação profissional”, mas com um gordo cheque de US$ 184 milhões de rescisão no bolso.

E quando parecia que a história teria um fim, um bizarro epílogo chegou. Em outubro do ano passado, durante o andamento do processo da aquisição, dois escândalos abalaram ainda mais o Yahoo. O primeiro envolveu um vazamento de informações de mais de 500 milhões de contas de e-mail da companhia, enquanto o segundo apontava que informações de usuários de serviços da empresa estavam sendo repassados a agências de segurança dos Estados Unidos. Diante desses dois graves incidentes, a Verizon cogitou suspender o negócio, algo que acabou não acontecendo. Mesmo assim, acusado de negligência, o Yahoo entrou na mira de diversos de processos judiciais nos Estados Unidos, o que complicou a transação e obrigou ambas as partes a renegociarem. O fim disso tudo veio em fevereiro: uma empresa que já tinha sido vendida a preço de banana teve que dar mais um desconto de US$ 350 milhões, fechando tudo em US$ 4,5 bilhões. Ainda menos do que o Google pediu no início dos anos 2000.

Descanse em paz Yahoo, você meio que mereceu.

 

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