Notebook Acer especial da Microsoft.

A sina de quem compra um notebook no Brasil


18/11/15 às 9h09

Quando vamos às compras, a maioria de nós procura pelo melhor custo-benefício. Em diversas categorias de produtos é uma missão difícil, mas não impossível. Não em todas. Algumas são tão ingratas, seja por falta de demanda ou por interesse da indústria, que obriga o consumidor a se contentar com o menos ruim. No Brasil é seguro incluir os notebooks entre essas. Não é de hoje que impressiona o estado lastimável das ofertas que temos à disposição.

Se levantarmos a cabeça e olharmos para a paisagem de notebooks no Brasil, dois espécimes se destacam. Um, o de notebooks de até R$ 3 mil, com acabamento ruim e muito peso, HD lento, tela de baixa resolução e bateria pífia, sem falar na tonelada de aplicativos pré-instalados. O outro, acima dos R$ 6 mil, é composto por Ultrabooks premium, o tipo de coisa ideal ao consumidor. Qualquer consumidor.

Existe um abismo entre esses dois extremos. Comprar um notebook hoje é um exercício ingrato de dosar o orçamento possível com os comprometimentos — alguns irracionais, que quase toda fabricante faz. Qualquer um que não está disposto a gastar bastante não fica plenamente satisfeito com o que compra. Se sim, é por ignorância, validando aquele discutível ditado que diz ser essa característica uma bênção.

Nem mesmo quando a Microsoft entra na jogada a situação melhora. Recentemente a empresa lançou uma campanha, batizada #CriandoJuntos, a fim de identificar junto a colaboradores, fãs da marca e influenciadores, como um blogueiro de humor (?), as necessidades mais comuns do consumidor brasileiro e, a partir delas, ofertar um notebook “especial”, vendido em um lote limitado pela sua loja oficial.

Disso, saiu o (respire fundo) Acer Aspire Cloudbook Serie ES1-431-C3W6.

É o “PC ideal para o consumidor brasileiro”, segundo a Microsoft. Pobre consumidor brasileiro. Numa ironia pra lá de triste, essa ação escancara como ele está na pior. O que a empresa por trás do sistema para PCs mais popular do mundo acreditar ser “especial” e “ideal” é, no máximo, um produto defasado. Na real, um notebook fraco.

Pedi à assessoria da Microsoft a configuração exata desse notebook da Acer, mas não obtive resposta até a publicação deste post. Confio, então, neste blog que encontrei pesquisando no Google. Ele tem uma tela de 14 polegadas e resolução apenas HD (o velho e ultrapassado painel de 1366×768 pixels). Vem com um processador Pentium N3700, uma das linhas mais fracas da Intel. Tem só 2 GB de RAM, parcos 32 GB de espaço interno e autonomia declarada de apenas cinco horas. Apesar disso, pesa 2,1 kg. Custa R$ 999, um preço (adivinhe) “especial” que, convenhamos, de especial não tem nada — surpresa seria se custasse mais. E ele custa; o preço normal é de R$ 1.699.

Deve haver explicação para esse padrão de comportamento. As margens de lucro dos PCs estão entre curtíssimas e inexistentes, o que talvez explique a precariedade dessa configuração dita “especial”. Será que custa tanto assim subir um tiquinho a resolução da tela? Colocar uma memória mais rápida impactaria em muito o custo final ao consumidor? Há interesse? Falta matéria-prima? Fornecedores? Um bom suspeito é a Lei do Bem, que isenta as fabricantes de PIS/Cofins em notebooks de até R$ 4 mil. O que fazem com essa diferença economizada? Onde estão os verdadeiros mid-range que batem nesse teto?

Outra coisa que me ocorreu, um pouco motivada por esse ranking do Zoom dos dez notebooks mais procurados no Brasil, é se o consumidor daqui quer esse tipo de coisa. Mas… não, não pode ser. É mais o caso de demanda que segue a oferta por pura falta de opção. (Deve haver alguma explicação, torta e esquisita, para o fato de que os dois primeiros notebooks desse ranking tenham teclados numéricos, um contrassenso em se tratando de um dispositivo móvel.)

Terá sido culpa do Windows 8? A busca por formatos híbridos e telas sensíveis a toques parece ter tirado o foco do que importa em um bom notebook. Perdemos alguns anos de aprimoramento em troca de uma questionável nova forma de interação com o notebook. Isso antes mesmo que a já disponível, o touchpad, estivesse aprimorada nos modelos de entrada.

Por R$ 89 a mais, o Acer “especial” da Microsoft vem um mouse da Microsoft. Ainda é comum as pessoas olharem como alienígena quem se diz satisfeito com o touchpad de um MacBook, ou XPS 13, ou ATIV Book 9. Não deveria ser assim. Um bom touchpad é mais prático e agradável do que qualquer mouse para tarefas do dia a dia. Não à toa, a Apple comercializa uma versão maior do seu, a ser usada em desktops. Porque é bom. Usar apenas um touchpad de notebook de entrada Windows é impossível, é irritante.

A tecnologia de consumo está mudando. Estamos migrando do PC para o mobile e, mesmo assim, a parte de baixo dos notebooks vendidos parece ter empacado na década passada. Não existe um “Moto G” dos notebooks; para ter algo decente, é preciso pagar caro. E nem isso é garantia de qualidade absoluta. É comum, naqueles Ultrabooks premium, que um ou outro detalhe fique aquém do que o (alto) preço pago deveria entregar: a plenitude, o mais próximo da perfeição.

Não é coincidência, muito menos “campo de distorção da realidade”, o que explica a ascensão dos notebooks da Apple, hoje provavelmente a única empresa que lucra a sério com PCs. São caros? Relativamente, sim, mas são ótimos, quase irretocáveis. Uma pena a Apple não atuar no segmento de entrada.

Àqueles que estão em busca de um notebook novo e não podem arcar com um MacBook ou Ultrabook premium, só me resta dar três dicas:

  • Você precisa mesmo de um notebook, de mobilidade? Se não, olhe com carinho aqueles arcaicos desktops. Eles não saem do lugar, mas em troca disso oferecem configurações robustas a preços equiparáveis aos de notebooks ruins.
  • Se precisa mesmo de um notebook, certifique-se de comprar um que permita a troca do disco rígido, e reserve uns R$ 300 para a compra de um SSD. É um tipo de memória cara, mas que transforma a experiência de uso de qualquer modelo.
  • Considere um Chromebook, em especial o último da Samsung. Para quem não precisa de aplicativos específicos para Windows, a experiência é muito melhor — e o touchpad, decente.

Revisão por Guilherme Teixeira.

Trecho sobre a Lei do Bem acrescentado no mesmo dia, às 20h55.

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