Central do Textão, o blog dos blogs.

A Central do Textão ajuda a manter vivos os blogs pessoais


27/7/16 às 17h22

Em algum ponto do passado recente, cedemos o controle das nossas presenças virtuais em troca de gratuidade, facilidade e excelência técnica. Se até meados dos anos 2000 estar na Internet equivalia a ter um site, o que exigia uma carga de conhecimento mínimo, hoje é comum vermos empresas que resumem sua presença digital a uma página no Facebook. Para pessoas físicas, é raro encontrar quem se dispõe a ter um blog ou qualquer coisa fora das redes sociais estabelecidas. Mas elas existem. Quem se identifica com a web das antigas, com o modo mais artesanal de se manifestar no ambiente online, acaba se juntando. E dessas reuniões nascem coisas como a Central do Textão.

Criado pela jornalista Tina Lopes e alguns amigos próximos, todos conhecidos via Internet, a Central do Textão é um grupo de pessoas que têm blogs em 2016. Só isso já faz do projeto algo bastante peculiar. Em conversa com o Manual do Usuário, Tina reconheceu que não é fácil: “tem que pagar o domínio, o diagramador quando dá zica; pode ter hacker, podem plagiar”. Essa dificuldade talvez explique a resiliência dos que insistem no formato quando se tem à disposição plataformas gratuitas mais amigáveis; é que para essas pessoas há mais coisas em jogo.

Talvez nem fosse o objetivo, mas a Central acabou se transformando em um pequeno ato de resistência. A voracidade cada vez maior das redes sociais e das plataformas dominantes abocanhando o comércio, a imprensa, o entretenimento e todas as demais áreas em que há alguma comunicação entre seres humanos é difícil de resistir. Difícil, porém possível.

De onde surgiu essa ideia?

O nome Central do Textão subverte um dos termos mais amedrontadores originados no Facebook. Um “textão” não é só um texto comprido. Digo, é também; mas ele tem uma conotação bastante negativa. Trata-se de um texto comprido, opinativo, maçante e que, independentemente do tema, gera suspiros de desalento a quem tem o azar de topar com um. A Central do Textão o adota em tom irônico. O intuito do grupo é reunir pessoas que gostam de um texto comprido, mas de um dos bons, daquele gostoso de ler. Ganha pontos se não estiver numa certa página azul com um polegar levantado no rodapé seguido de comentários provavelmente raivosos.

Embora trabalhe com o Facebook gerenciando páginas de clientes corporativos, Tina, que já teve dois blogs, o Pergunte ao Pixel e o La Vie en Close, não tem muito afeto pela rede social. Para ela, “Facebook virou uma coisa forçada. O blog é mais para sair para respirar mesmo, sair dessa rotina das redes sociais de você ter que fazer de um determinado jeito.”

“Fazer do seu jeito” dá a tônica dos blogs. A facilidade das plataformas cobra um preço e parte dele é cobrado na forma de uma padronização do visual e das dinâmicas do ambiente. Quando Mark Zuckerberg muda de ideia ou vê uma oportunidade, a sua experiência no Facebook muda — não é curiosidade ou uma revelação divina alcançada coletivamente que explica a inundação de vídeos ao vivo no feed da rede social, mas uma decisão de cima. Essa tal liberdade dos blogs abre espaço para layouts cafonas, péssimos em usabilidade, alguns simplesmente feios, mas também para apresentações inovadoras ou simplesmente diferentes, pessoais. É um risco que para muitos vale a pena correr e que gera uma rede de sites heterogênea.

Isso, aliás, vai além do visual. Tina alega que o Facebook, com seu algoritmo que dita o conteúdo do que se vê lá dentro, suprime a serendipidade, aquele fator surpresa no corriqueiro das nossas vidas, e boa parte dos contatos com quem escolhemos de antemão nos relacionarmos — “você tem 500 amigos lá, mas só vê 15”, diz. Nos blogs, argumenta lembrando dos tempos áureos, “conversávamos sobre o que a gente queria, cada um no seu canto, no seu blog; era sempre uma surpresa acordar e ver o que a outra pessoa tinha escrito. Era muita gente fazendo coisas diferentes”.

O Pergunte ao Pixel já teve algumas versões, perdidas nos cantos da Internet por problemas nos serviços onde era hospedado ou por crises relacionadas ao conteúdo publicado. (A exposição de alguém num blog pode ser visceral e, consequentemente, causar alguns danos, mas mesmo assim ela se diz arrependida dos textos que apagou nesses momentos mais intensos.) O La Vie en Close, um projeto de blog escrito em e sobre Paris para uma escola de idiomas no Brasil, às vésperas da viagem foi cancelado pela contratante. Acabou convertido em um bem sucedido blog pessoal que, após o ano planejado em terras francesas e com o retorno de Tina ao Brasil, deixou de fazer sentido.

Sem ter um lugar próprio onde escrever, Tina decidiu retomar o Pergunte ao Pixel. Em conversas com amigos de blogs, esse retorno iminente suscitou boas lembranças do tempo em que blog era vanguarda. Eventualmente alguém questionou por que eles não escreviam mais como antigamente e um problema comum foi detectado: é difícil descobrir blogueiros e ser descoberto por quem talvez goste do que é publicado. Isso era algo que podia ser resolvido, porém. Assim, a Central do Textão começou a tomar forma.

Fomento dos blogs pessoais

O nêmesis da Central do Textão foi o local escolhido para organizar a sua criação: um grupo, de pouco mais de 40 pessoas, hospedado no Facebook. Eles trocaram ideias, encontraram uma designer e programadora, a Juliana Vilela, e tiraram do bolso a quantia necessária para pagá-la pelo trabalho de desenvolvimento. Novos membros apareceram por indicações de quem já estava no grupo; hoje, ele conta com quase 300 participantes.

Em três meses, a Central do Textão foi da concepção à concretude. O site é uma vitrine para blogs pessoais, um “blog dos blogs” atualizado em tempo real a partir de todos os posts publicados em todos os blogs cadastrados. O principal critério para figurar ali é ter um blog pessoal, ou seja, algo que não seja tão segmentado e que tenha apenas uma pessoa atrás do teclado. Tentei submeter o Manual do Usuário, sem sucesso; mas o meu blog pessoal, que compartilha muitas das características que formavam um blog nos idos dos anos 2000, foi aceito. Nele, aliás, só faltam o blogroll e aqueles selos de parceiros, concursos e agregadores — coisa que a Central, fazendo jus à história, oferece.

Um contraponto à Internet contemporânea

Quando a Central foi ao ar, escrevi no meu blog (aquele, “pessoal”):

Cada quadrinho da página inicial é uma ligação para pequenos universos particulares. Não caio na mesma página azul de sempre; são layouts diferentes, com personalidade. Uns zoados, uns outros elegantes, cada um diferente e instigante.

O site é como uma reprodução digital de um bioma drasticamente alterado faz pouco tempo. Antes, essas “ligações para pequenos universos particulares” eram a regra. Ter um site implicava, mesmo em sistemas mais amigáveis, em dar uma cara a eles. Havia espaço para uma serendipidade genuína, não a gerada por algoritmos — sem juízo de mérito; ambas são legais e cada uma tem seus problemas por motivos distintos.

Iniciativas como a Central do Textão tentam manter viva uma visão para a web que, em parte, fracassou. Os primeiros navegadores vinham com editores HTML embutidos porque, idealmente, as pessoas poderiam editar e remixar as páginas web elas mesmas. Apesar da facilidade do HTML, esse objetivo não vingou. Foram necessárias camadas extras para facilitar ainda mais o processo a fim de que as pessoas se envolvessem — o Facebook, com seu feed universal e aquele campo de texto que pergunta “No que você está pensando?” talvez seja o ápice desse esforço bem sucedido.

Recentemente, Tim Berners-Lee, o criador da web, e outros pesquisadores se reuniram em São Francisco para revisitar esse ambiente online. Apesar da web ter se tornado o meio mais poderoso que a humanidade já viu para espalhar conhecimento, propiciar a comunicação e impulsionar o comércio, ela contém falhas que só o tempo poderia evidenciar. Ao The New York Times, Berners-Lee disse que “[a web moderna] controla o que as pessoas veem, cria mecanismos sobre como as pessoas interagem. Ela tem sido ótima, mas a espionagem, o bloqueio a sites, a ressignificação do conteúdo das pessoas, o direcionamento aos sites errados — isso enfraquece completamente o espírito de incentivar as pessoas a criarem”.

A web tem esse nome porque ao passear por ela o usuário tece uma teia, tal qual as aranhas. Ela é, ainda, um projeto conceitualmente aberto, acessível e harmônico. Não será a Central do Textão que salvará os blogs e, em última instância, a web, mas ela é um bom lembrete de que o respeito à expressão e à diversidade, além do limite autoimposto do papel centralizador na medida da sua necessidade por quem detém mais poder na web, são importantes. Parece-me um pequeno e valoroso contraponto ao que se tem hoje por norma e algo em consonância com o espírito do lugar onde ela está inserida.

Revisão por Guilherme Teixeira.

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25 comentários

  1. Considerando a facilidade de uso do Blogspot, continuo nele a mais de uma década.

    Aliás, já sugeri para amigos que possuem micro-empresas ou MEI a usá-lo como página institucional: além de gratuito e fácil de usar, o Google frequentemente coloca na frente de outros resultados.

  2. Toda vez que tentei começar um blog pessoal ou fazer um textão, vi que fui alvo de preconceito. Quase ninguém lê ou fazem críticas negativas. Poucos textos saíram críticas uteis.
    Se bem que admito que tenho preconceito com blogs também. Textos pessoais demais também me soam “ditatoriais”. Ou seja, que a opinião da pessoa é de alguma forma uma verdade que ela quer propagar e deixar como única. Vide a ascensão de Youtubers…

    1. Me parece normal q qdo alguém escreve passe a SUA mensagem, afinal, é uma narrativa ou um discurso que “nasce” da pessoa… Se ela tenta impor algo isso vai da habilidade dela de persuadir pela linguagem textual ou falando no youtube… Mais isso é a opinião sendo difundida e sua contrariedade a ela, qdo ocorre, é justamente o q torna a opinião uma coisa viva! Se todo mundo concordar (e pode ser o caso compulsório numa ditadura em q se está sob a ameaça de morte) a coisa apodrece…

      1. A minha crítica é quando uma opinião tenta se tornar uma regra, lei. Não é “todo mundo concordar com uma arma na cabeça”, mas sim a persuasão do texto é feita de modo a obrigatoriamente ser concordável com ela. É nisso que quero chegar.

        Há dois contextos em que um texto se torna uma regra: ou quando se fala de fatos comprovados plenamente (relatando uma situação), ou de condições repetitivas na natureza. Ambos os casos recaem em jornalismo e ciências, respectivamente.

    1. O blog é o mesmo, só mudou de endereço (por várias vezes ao longo desses mais de dez anos em que ele está no ar). Movi ele para o WordPress e usei o antigo endereço como página pessoal/”currículo”.

      Obrigado pela lembrança!

      1. Eu só leio no feed, porque sou desses, e, se não tivesse visto esse comentário, nunca ia saber. Você poderia ter deixado o feed redirecionando para o novo endereço… Se precisar de ajuda é só chamar.

    1. O Medium entra naquelas restrições de plataforma, acho. É legal, bonito e tudo mais, mas é um negócio centralizado e que horizontaliza a produção, algo bem distante (do que pude entender) da proposta da Central…

  3. Eu adoro a CT, inclusive estou lá. Adorei ver que você escreveu sobre ela e que você tem um blog pessoal! Hahahaha…Não sabia! Adoro as coisas que encontro por lá e as amizades que a gente faz. Como antigamente mesmo… ninguém quer saber de criticar ninguém! =D

    1. Eu! Achei uma ótima sacada! Há não muito tempo não tinha notado a aversão a um texto mais longo e reflexivo, pq eu sempre gostei de textos q explorassem melhor (nem sempre mais é melhor, mas mais acaba sendo melhor em certo sentido quando se é um leitor voraz) determinados assuntos.

    2. Quem confia em alguém que se define como “Benigno”? :p ;)

      Preconceitos, preconceitos… (A propósito, me lembra de muitos blogueiros e “celebs” de informática por aí recheados de preconceitos, ao que me resta apenas ter o preconceito contra eles também :p )

      1. Hehehe boa.

        Mas pior que é meu segundo nome e nome mesmo do meu pai

        :P

        Nunca pensei nisso, que onda. Mas verdade.