Foto de Adele.

Por que tem um celular flip no clipe de Hello, da cantora Adele?


26/10/15 às 14h45

O último álbum da cantora britânica Adele saiu há quase cinco anos, portanto a repercussão do clipe de Hello, primeiro single do seu novo álbum, 25, já era esperada. Mas, além de toda a expectativa satisfeita por sua primeira inédita em três anos (a última havia sido Skyfall, da trilha sonora do filme homônimo), um detalhe do clipe chamou a atenção de fãs e curiosos: a presença de celulares flip.

O estranhamento se deve ao momento da indústria de telefonia móvel. Nas ruas e nas vitrines das lojas, o formato do iPhone, ou seja, um retângulo simples com uma das faces ocupadas por uma tela enorme sensível a toques, é a norma. É cada vez mais raro encontrar outros à venda, incluindo aí o celular flip. Mesmo entre os modelos baratinhos esse é um espécime em extinção. É bem mais fácil se deparar com os do tipo barra, ou “modelo Nokia” (tela e teclado físico dividindo uma das faces de um retângulo sem partes móveis) do que os nostálgicos celulares flip.

O passado de glória do celular flip

Desenho de mulher mexendo num celular flip.
GIF: gifnewstest/Giphy.

“Flip”, como ficou conhecido e convencionado o nome do formato de celular usado por Adele no clipe de Hello, é o aparelho que se dobra ao meio — caso precise de uma referência, j0v3m, é esse artefato que a moça segura no GIF animado acima.

Lá fora, eles são chamados “clamshell”, e, em quase todos os lugares, estão em desuso. O formato flip permite a criação de modelos com dimensões reduzidas (quando fechado), mas sacrifica o tamanho de tela e praticamente exige um teclado físico apenas numérico, duas características deixadas de lado por sistemas modernos como Android e iOS.

Em um ponto da história da telefonia móvel, porém, celulares flip foram bem populares e, por algum tempo antes disso, sinônimos de status. Entre 2003 e 2006, segundo levantamento do GSMArena publicado pelo Daily Tech, era o formato mais vendido de todos, acima dos de barra, slider e touchscreen:

Gráfico de vendas de celulares barra.
Vendas de celulares do tipo barra (2000-2010).
Gráfico de vendas de celulares barra.
Vendas de celulares do tipo flip (2000-2010).
Gráfico de vendas de celulares slider.
Vendas de celulares do tipo slider (2000-2010).
Gráfico de vendas de celulares touchscreen.
Vendas de celulares do tipo touchscreen (2000-2010).

Não por coincidência, foi nesse período próspero que a Motorola lançou o RAZR V3, talvez o primeiro objeto de desejo massivo da telefonia móvel. Muito antes da Apple e das fabricantes de Android levarem a espessura dos smartphones a níveis quase ridículos, o V3 usava a analogia com navalhas para destacar sua finura. Vendeu como pãozinho quente e, pior, sem fazer nada muito elaborado; era mais pelo seu perfil esguio e visual futurista mesmo. (E tem quem reclame de “gente que compra iPhone só pelo visual”…)

A hegemonia do celular flip era tamanha que permeava a indústria cultural. Quase todos os filmes e séries de meados da década passada usavam modelos do tipo quando exigido pelo roteiro. Atualmente, sempre que algum personagem precisa de um aparelho pré-pago para tratar de negócios escusos, é um de flip que surge na tela.

Walter White com celular flip.
Breaking Bad (2008-2013). Foto: AMC.

Embora tenha quem o recomende ainda hoje (mas mais para desconectar sem ficar totalmente privado de comunicação), o celular flip ficou no passado. Até pouco tempo atrás ainda era possível comprá-lo, mas parece que a guerra do celular barato foi vencida pelo celular de barra, estilo Nokia. Numa pesquisa informal em três lojas distintas, não consegui encontrar sequer um celular flip novo à venda no Brasil.

A tendência é que esse progresso continue e, gradualmente, a base inteira de telefones móveis migre para smartphones touchscreen, o que, pelo menos aqui no ocidente, significa telas grandes em um dos lados de um retângulo — como todo iPhone, Galaxy qualquer-coisa ou Moto insira-uma-letra-aqui.

Já no oriente…

Os modernos smartphones flip orientais

Em sua terra Natal, a Coreia do Sul, e em alguns outros países asiáticos, LG e Samsung lançam com frequência aparelhos flip com entranhas atualizadas e rodando Android. Parece haver demanda por lá.

LG Wine Smart, celular de flip em 2015.
Foto: LG.

O último da LG, o Wine Smart (acima), foi anunciado em agosto. Embora saia de fábrica com um sistema atual, o Android 5.1, suas configurações são bem humildes, com coisas como tela de baixa resolução, 1 GB de RAM e apenas 4 GB de memória interna. Pelo menos o preço sugerido, de cerca de US$ 370, é mais ameno que o dos topos de linha. O Wine Smart chegou a ser lançado em alguns países fora da Ásia, como Itália, França, Espanha, Polônia e Cazaquistão.

Samsung G9198.
Foto: Samsung.

Já a Samsung não economizou no modelo G9198: trata-se de um smartphone com especificações avançadas, como SoC Snapdragon 808, câmera de 16 megapixels e duas telas AMOLED de 3,9 polegadas, ambas com resolução HD. O G9198 foi lançado na China também em agosto último.

Nenhum dos dois, nem seus antecessores, chegaram ao continente americano. Provavelmente ou não há interesse que justificasse o esforço, ou então as empresas não estão dispostas a correr o risco. E é compreensível: o mercado de smartphones passa por um momento delicado, onde todas as fabricantes, com exceção de Apple e Samsung, com sorte apenas empatam as contas. As margens de lucro curtas não deixam brecha para muita experimentação.

Os celulares do clipe de Hello

Dois modelos aparecem no clipe de Hello. Eles foram desvendados pela PC Magazine.

O que a própria Adele usa é a versão canadense do Samsung SPH-M300, de 2007. Ele contava com algumas funções básicas de PDA e acessava a web (com bastante dificuldade), mas não fazia muito mais que isso:

Celular flip da Adele no clipe de Hello.

Já o ex-namorado dela no clipe, interpretado pelo ator Tristan Wilds, usa um Motorola V235, de 2005:

Celular flip do ex-namorado no clipe de Adele.

Por que usar, em 2015, celulares tão antigos num clipe? É comum cineastas usarem produtos fora de catálogo e interfaces especialmente criadas para o filme a fim de evitar problemas jurídicos e, ao mesmo tempo, fazer propaganda de graça. Você já deve ter visto um buscador que lembra muito o Google, ou um sistema que se parece bastante com o Windows, em algum filme ou seriado. Alguns chegam a ser cômicos, outros, só fora de lugar.

Mas no caso de Hello, a justificativa é outra. A repercussão que esse detalhe gerou, muito acima do que esperava o diretor do clipe, Xavier Dolan, de 26 anos, fez com que ele se explicasse no Twitter:

iPhones em filmes me deixam desconfortável. Como se eu estivesse filmando um comercial. Agora, superem isso.

Seria irônico, então, o fato de tanta gente ter prestado mais atenção ao objeto (celular flip) cujo propósito era evitar associações com o mundo real? Em entrevista à People, ele admitiu:

Acho que talvez eu tenha conseguido distrair mais do que qualquer outra coisa com aquele celular flip, mas não foi intencional!

Além dos celulares flip, outras referências de um passado recente estão presentes em Hello, como um telefone fixo com fio, uma cabine telefônica e um fogão sem acendimento automático. Seria Adele uma neo-ludita não-radical?

25, o novo álbum de Adele, será lançado no dia 20 de novembro.

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52 comentários

    1. Sempre fui doido por um desses também, mas nunca cheguei a ver um pessoalmente. Aliás, o sistema da Motorola era bem feinho nos V3, nesse aparelho também era?

  1. “E é compreensível: o mercado de smartphones passa por um momento
    delicado, onde todas as fabricantes, com exceção de Apple e Samsung, com
    sorte apenas empatam as contas. As margens de lucro curtas não deixam
    brecha para muita experimentação.”
    Pois se a mesmice da atualidade já está no ponto de saturação (com o próprio Rodrigo afirmando que apenas duas ainda lucram), seria este o momento exato da ousadia.

  2. Minha mãe uma senhora que não liga para WhatsApp e internet no celular adora esse tipo de aparelho….
    Já avisei que provavelmente não terá um outro assim….
    Achei dois modelos para vender um Samsung e um Alcatel (esse de dois chips), mas sem câmera, sem nada…. Aaahhhh…. Eles tem rádio FM.
    Comprei (23/10) o Alcatel, nas lojas Pernanbucanas, pela baguatela de 159,00.
    PS Resolvi olhar no site da Alcatel e lá ele não existe mais…..

  3. Faltou dizer que a pessoa que segura o celular flip no GIF é Anna Wintour, editora da revista Vogue americana (retratada como Miranda Pristley no livro e filme “O Diabo Veste Prada”).

  4. adele e seus gritos intermináveis são demais para os meus pobres ouvidos… não me atrevo a ver o clip. mesmo sem som ouviria o uivo!

  5. adele e seus gritos intermináveis são demais para os meus pobres ouvidos… não me atrevo a ver o clip. mesmo sem som ouviria o uivo!

  6. Do tempo em que os celulares eram utilizados quase que exclusivamente para fazer ligações! Telefone fixo com fio; explica pra galera mais nova por que essa deve ter fundido a cabeça dos mais novinhos.

    1. Aqui em casa usamos fixo com fio! Ele ficou guardado na gaveta por anos. Quando o sem-fio viciou a bateria, como quase não usamos a linha, não valia a pena comprar outro. Resolvemos trazer o velhinho de volta ao uso. Ele funciona sem ligação na tomada :D

      1. Melhor recurso dos fixos com fio: funcionar sem tomada. Em caso de tempestade e falta de luz, pelo menos ainda da pra ligar :P

        1. Onde eu moro essa é uma vantagem só da operadora Oi. Quem tem um telefone da NET tem que conectar o aparelho num modem que só funciona se tiver ligado na tomada.

  7. Antes de tudo: Ghedin, perdão pelas imagens grandes. Não sei como usar códigos pra encolhê-las um bocado.

    Se tinha um celular que eu achava bonito, era sem dúvidas o Nokia 6101:
    http://centraldoeletronico.com.br/image/cache/data/Celulares/Nokia/nokia%206101-500×500.jpg

    Um que eu achava O Sonho era o N93 que, hoje, vejo que parecia uma TecPix: https://imgnzn-a.akamaized.net/2014/05/26/26103457558104.jpg?w=1040

    Por fim, não podia deixar de citar o 2652(custei a achar o nome), que tem umas dobrinhas bem curiosas que deveriam estragar fácil fácil: http://cdn2.gsmarena.com/vv/pics/nokia/nokia-2652_00.jpg

    (Aliás, a Nokia desde sempre teve essa obcessão com números, hein? Dos primeiros aos últimos…)

    1. Tive o 6101 ou alguma variação parecida. era bem completinho pra época.

      Mas BONITO eu não achava… era gordinho demais e meio plasticão. O teclado era “gostoso” de apertar.

  8. Gostaria que existissem ainda bons celulares flip no mercado brasileiro (atualmente, só no oriente existem boas opções).

    1. Sem falar que pra desligar o telefone na cara de alguém tem muito mais glamour vc FECHAR O FLIP NA CARA DELA do que apenas apertar um botão… rs

    2. Sem falar que pra desligar o telefone na cara de alguém tem muito mais glamour vc FECHAR O FLIP NA CARA DELA do que apenas apertar um botão… rs

      1. Hahahaha verdade… Quem nunca fez um CLAAAAAAAPPPPPPPPP dramático, com torque suficiente para decepar um dedo…..

  9. O V3 era uma peça de metal muito bonita. Seu design industrial realmente se destacava (e destoava) na época. Os Nokia eram mais completos (o SO era bem melhor) mas normalmente eram desenhos comuns, cheios de plásticos (opaaaa já ouvi essa história antes..ou no caso, depois XD ) – com poucas excessões, como aquele modelo ruim do filme Matrix. O V3 Teve uma versão “i” mais completa… mas acho que não fez tanto sucesso.

    Voltando ao clipe, creio que a solução do cineasta era essa mesmo, usar o celular apenas para representar a ação e nem ser percebido. Mas no fim o fato é que qualquer objeto que um astro de hoje em dia (seja POP, Rock, etc) colocar em sua rica orelhinha, vai se destacar. Se ela estivesse usando um iPhone 6S teria sido comentado de forma jocosa (em sites por ai) a relação dela vender muito no iTunes com usar um iPhone e Apple patrocina o clipe + Iluminattis + ET de Varginha + Monsanto e tudo mais.

    1. Posso estar enganado ou ser uma percepção só minha, mas o V3 tinha quase uma áurea de iPhone nos dias de hoje, no sentido de ser um aparelho símbolo de status.

      1. não está enganado não. algumas versoes do V3 eram muito chiques, até mesmo na embalagem.
        e outra, na época ele custava uma fortuna e mesmo assim foi um sucesso.

      2. Não tanto quanto um iPhone de hoje, pois era mais acessível. Lembro que pra época era demais, sempre quis um. Tinha “tudo”, mp3, rodava vídeos, tirava foto, tinha bluetooth hahahahahaha.

        1. Gedson, ele só foi ficar acessivel no finalzinho da vida util… no começo, acho que custava uns 2K na época.. que com a inflação é mais caro que um iPhone hoje em dia.

          1. Dai ja não lembro. Eu era muito novo, nao faço idéia de quanto custava.