Brendan Eich, novo CEO da Mozilla, em mais um capítulo de como (tentar) separar pessoas de instituições


2/4/14 às 19h12

Em pleno 1º de abril, Dia da Mentira, o OkCupid, um dos sites de relacionamentos mais tradicionais do mundo, uniu-se a uma campanha contra o Firefox. Motivo? A descoberta de que o novo CEO da Mozilla, Brendan Eich, apoiou com uma doação de US$ 1.000 em 2008 a Proposition 8, lei californiana que acabou aprovada e cujo conteúdo impedia a união civil entre homossexuais.

Atualização (3/4, às 18h): Brandon Eich não é mais CEO da Mozilla. O anúncio, feito por Mitchell Baker no blog oficial da Mozilla, reafirma a abertura e política de inclusão da organização, diz que houve falhas na resposta das críticas internas e externas a Brendan e diz que semana que vem novas informações sobre o novo CEO serão reveladas.

Mensagens de protesto no Twitter por funcionários da Mozilla.
Funcionários da Mozilla protestam no Twitter.

A indicação de Brendan como CEO da Mozilla tem enfrentado resistência derivada desse detalhe em seu histórico, inclusive entre seus subordinados. No Twitter, funcionários da Mozilla pediram publicamente a renúncia do novo líder. Fora do ambiente de trabalho, sites e usuários engrossam o coro e sugerem boicotar o Firefox. Uma petição online pedindo a saída de Brendan do cargo já conta mais de 70 mil assinaturas.

O clima é tenso, e nem as declarações públicas do CEO em seu blog pessoal e entrevistas parecem capazes de apaziguar os ânimos. No primeiro, ele escreveu:

“(…) Eu só posso pedir seu apoio para ter tempo de ‘mostrar, não falar’; e nesse meio tempo, expressar meu pesar por ter causado tanta dor.”

(…)

Estou comprometido em garantir que a Mozilla é, e continuará sendo, um lugar que inclui e apoia a todos, independentemente da orientação sexual, gênero, idade, etnia, status econômico ou religião.”

Em entrevista ao CNET, o tom usado foi cauteloso e pendendo para a separação pessoa física-entidade. Brendan Eich acredita que as convicções e posicionamentos pessoais não devam afetar a agenda da Mozilla, que já é bem atribulada tentando manter o navegador vivo entre dois gigantes (Internet Explorer e Chrome) e emplacar o Firefox OS:

“Se a Mozilla não puder continuar a operar de acordo com seus princípios de inclusão, em que você possa trabalhar na missão [da organização] independentemente do seu passado ou outras crenças, acho que nós provavelmente falharemos.”

A Mozilla, enquanto entidade e na figura de Mitchell Baker, chairwoman da Mozilla Foundation, apoia Brendam. Em seu blog, Mitchell posicionou-se, ao mesmo tempo, em defesa da diversidade e do novo CEO:

“(…) o compromisso da Mozilla com a inclusão para a nossa comunidade LGBT e todas as minorias, não muda. Ao agir para ou em nome da Mozilla, é inaceitável limitar as oportunidades a *qualquer um* baseado na orientação sexual e/ou gênero. Isso não é só um compromisso, é a nossa identidade.

(…)

[Na] minha experiência, Brendan é tão comprometido com oportunidades e diversidade dentro da Mozilla quanto qualquer outro, e mais do que muitos. Esse compromisso com as oportunidades para todos dentro da Mozilla tem sido um ponto basilar do nosso trabalho por anos. Eu o vejo em ação regularmente.”

A investida do OkCupid

Logo do OkCupid.
Imagem: OkCupid.

Christian Rudder, fundador do OkCupid, não gosta de brincadeiras de 1º de abril. Ele aproveitou a data, porém, para fazer uma espécie de protesto: quem acessou o site pelo Firefox, cerca de 12% da base de usuários, se deparou com uma mensagem oferecendo navegadores alternativos e expondo o caso de Brendan Eich.

A mensagem, traduzida pelo Lado Bi, é a seguinte:

“Olá, usuário do Mozilla Firefox. Perdoe essa interrupção da sua experiência pelo OkCupid.

O novo CEO da Mozilla, Brendan Eich, é um oponente dos direitos igualitários para casais gays. Nós gostaríamos, portanto, que nossos usuários não utilizassem software da Mozilla para acessar o OkCupid.

A política não costuma ser o negócio de um site, e nós todos sabemos que há problemas maiores no mundo que CEOs ignorantes. Então você pode se perguntar por que estamos afirmando nossa posição hoje. Aqui está o porquê: nós devotamos os últimos dez anos em unir pessoas – todas as pessoas. Se indivíduos como o Sr. Eich conseguirem o que querem, então mais ou menos 8% dos relacionamentos que nós trabalhamos tanto para tornar realidade seriam ilegais. Igualdade para relacionamentos gays é pessoalmente importante para muitos de nós aqui da OkCupid. Mas é profissionalmente importante para a companhia inteira. A OkCupid é a favor de se criar amor. Aqueles que querem negar o amor e, em seu lugar, promovem a miséria, a vergonha e a frustração são nossos inimigos, e nós desejamos a eles nada mais que o fracasso.

Se você quiser continuar usando o Firefox, o link no pé da página vai levá-lo ao site.

Nós, no entanto, insistimos que você considere usar um outro software para acessar o OkCupid.”

Não foi a primeira abordagem… inovadora do OkCupid para um problema. Não faz muito tempo, o site chamou a atenção com o tratamento que dá a usuários que navegam com bloqueador de anúncios. Em vez de recriminá-los, colocou uma imagem no lugar onde estaria o banner publicitário pedindo ao um pequeno pagamento para nunca mais exibir qualquer anúncio.

O próprio funcionamento do site é inovador, usando fórmulas matemáticas e questionários para atribuir porcentagens de compatibilidade. Este vídeo explica bem. É um serviço de vanguarda, tanto tecnicamente quanto nas abordagens que faz fora da sua atividade-fim.

A mensagem para usuários do Firefox ecoou bastante, mais do que Rudder esperava. Em entrevista ao Gizmodo, ele disse que da ideia à execução foi tudo muito rápido. E talvez a pressa tenha sido inimiga da iniciativa: qual era a ideia com ela? Rudder disse que não quer que Brendan Eich perca seu emprego e que a mensagem aos usuários do Firefox apenas “parecia a coisa certa a se fazer”. Se não a cabeça do CEO, o que quer o OkCupid? A Mozilla também não foi avisada de antemão sobre essa investida, mas depois que a coisa explodiu as duas empresas iniciaram conversações.

Como separar pessoas de instituições

Brendan Eich.
Brendan Eich. Foto: Mozilla.

Acontece muito na música e no cinema e, em certa medida, entre empresas com capital aberto na bolsa — ou de grandes proporções, a exemplo da Mozilla. As ações de quem está em evidência repercutem. Bastante. Um cantor que sai da linha, uma atriz que se perde nas drogas, um CEO com opiniões impopulares, todos pagam o preço dos atos inesperados pela posição que ocupam. Quando a obra é linda e o autor é um escroto, como lidar?

Um CEO impacta tanto quanto, objetivamente falando, um cantor ou ator. Ele tem o poder de ditar os rumos de uma companhia, mesmo quando os funcionários têm uma visão diferente das suas pessoais. A venda da Nokia para a Microsoft, muito mal recebida entre os finlandeses, é um exemplo recente.

No caso de um CEO, trata-se de mais do que um cargo funcional. John Schneider, do time de desenvolvimento da Mozilla, explicou em poucas palavras a importância desse cargo de liderança dentro de uma organização:

“Um CEO é (…) uma das faces mais visíveis de uma organização e [ele] representa mais para a imagem, parcerias e cultura [da empresa] do que um cargo altamente técnico, como o de um CTO.”

Nos comentários deste post no TechCrunch, Schneider novamente abordou o assunto:

“(…) É só o seu [de Brendan] cargo, agora na mira do público, que me causa preocupação. Não estou pedindo para ele ser demitido ou qualquer coisa do tipo, mas tenho receios sobre que impacto termos um CEO desalinhado com nossas (Mozilla) claras políticas de inclusão e tolerância terá em nossos parceiros, voluntários, investidores, colaboradores e funcionários em potencial.

Dito isso, sei que, não importa o que aconteça, as políticas pró-inclusão e LGBT da Mozilla jamais regridirão. Mitchell Baker jamais deixaria isso acontecer.

Como já disse algumas vezes, não tenho uma resposta ou solução, e é um caso complicado.”

A gritaria que funcionários da Mozilla têm feito é justificável. O CEO representa o espírito de uma organização, contribui decisivamente para como ela é vista pela comunidade externa. Um que tenha no histórico fatos que vão contra toda uma luta grande, difícil e na qual a Mozilla está comprometida pode enfraquecer essa imagem que vem sendo trabalhada há anos.

Não sei, porém (e não quer fazer juízo de valor, apenas incitar o debate), o que OkCupid e outros sites têm a ver com isso, ou o que eles ganham propondo um boicote tão explicitamente. Se Brendan Eich é tão cruel a ponto de recusarmos toda e qualquer coisa que venha dele, é bom desabilitarmos o JavaScript dos nossos navegadores e arcarmos com uma web bem mais lenta e menos dinâmica. Ele inventou o JavaScript.

Claro, essa alternativa é extrema e não avança o diálogo. É só um contraponto ao outro extremo, que tem sido mais publicado por aí. Opor-se à união civil entre homossexuais é daquelas atitudes incompreensíveis — é algo que só diz respeito aos envolvidos e, sério, que mal tem nisso? Qual o problema que alguém como Brendan vê nesses casais? Mistérios da mente humana. Mas é algo que atrapalha o desempenho das funções de um CEO, incluindo as representativas que o cargo exige? A resposta a esta pergunta, muito provavelmente, é o primeiro passo para resolver esse impasse.

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7 comentários

  1. Pingback: cat 4 brother
  2. Agora com o anúncio da renúncia do mesmo, fico me perguntando se ele fizera isso porque realmente a pressão de não deixa-lo como CEO foi realmente gigante, ou se ele não queria mudar sua postura, sei lá.

    Fora do assunto mas dentro do contexto, me lembra isso a entrevista do José Mujica (presidente do Uruguai) ao Canal Livre da Band, onde ele fala mais ou menos assim sobre a tortura que ele sofreu e o perdão que ele deu a seus algozes.

    “- Eu fui a exceção. Perdoei meus torturadores. Mas a sociedade, não. É difícil. A sociedade é muito dura.”

    É interessante a situação colocada hoje, onde se exige que a pessoa “não tenha incentivos à atitudes segregarias” sob o risco de ser segregado também. Isso vira uma espiral dualista tão grande que tenho medo das consequências futuras. É como aquele chavão dito por muitos não tão fãs de homossexuais, que muitos dizem que é idiota, mas ao que parece, tá ficando real: “Antes homossexualismo é crime, hoje se tolera. Temo que amanhã seja obrigatório”. Uma frase realmente idiota, mas o pior é que no contexto colocado, da obrigação de não segregar; e segregando este tipo de pessoa, a frase acaba se tornando real. A antes vítima, hoje vira algoz.

  3. O que o OkCupid e outros sites têm a ver/ganham com isso? Ora… Publicidade e o Pink Money que tem como únicas moedas à sua altura o “Evangélico Money” e o Bitcoin.

    É interessante este ponto de separar pessoas de instituições, mas em cargos de liderança ou qualquer outro com visibilidade isto não soa bem. Seria como o indiano da Microsoft pregando o Surface, mas usando o iPad; ou o Tim Cook saindo por aí com um Lumia; ou ainda a Marissa e todo o pessoal do Yahoo usando Gmail em vez do Yahoo! Mail, e Xuxa usando um hidratante que não o Monange… pera… ok, esqueçam as loiras.

    Para não ficar nessa de “isso é mais um mimimi gay”, também existem casos inversos onde padres brasileiros (como o tal do Padre Beto) foram expulsos da igreja apenas por se mostrarem mais de vanguarda. E isto não é errado (do ponto de vista cristão). Estas pessoas apenas não tinham o perfil que a organização vende.

    A verdade é que o Brendan não precisa(va) sair do cargo… ele só não deveria ter entrado.

    1. Só que estamos em uma época de questionamentos de valores morais.

      Muitas vezes, dependendo do caso, não importa a personalidade ou caráter pessoa dentro da empresa, e sim o resultado que ela dá à ela. A única exceção é se o caráter do mesmo é escuso o suficiente para prejudicar a própria empresa e o próprio executivo.

      A pessoa não gostar de homossexuais e apoiar causas anti-gays de forma democrática (diálogos, manifestações pacíficas) não é tão errado quanto parece. Errado é a pessoa ser anti-gay a ponto de bater em um, ou no mínimo ameaçar. Ser um psicopata. Como eu disse no outro comentário, pode ser que tal executivo tenha a posição de ser anti-homossexual, mas se ele fosse realmente intolerante, não entraria em um espaço tolerante. Talvez ele só tenha uma opinião contrária, e até mesmo a entrada como CEO em uma entidade que prega tolerância seja um sinal que ele mesmo queira mudar, já que todos nós sabemos que não é porque ele é CEO que também ele tenha poderes de mudar a mentalidade, mesmo à força, de centenas de pessoas.

      Estava pensando nestes dias. O que acontece nos tempos atuais é o que estamos próximos das distopias de Huxley e Orwell: a “ditadura da moralidade”. Você é de “Grupo Alfa”, então fique apenas com o “Grupo Alfa”, já que o mesmo defende o governo, os gays e as pessoas “livres”. O “Grupo Beta” é o mesmo que defende as entidades empresariais, os hereros e as pessoas “restritas”. Não é a melhor analogia que faço, mas é para tentar ilustrar a situação que você coloca.

      No caso da Igreja Católica, por mais que ela seja uma instituição, há um questionamento interior dos mesmos justamente por estes movimentos internos. A escolha do novo papa, o atual “Francisco”, se mostrou a nova inclinação da igreja para acatar e pensar novos conceitos, e provavelmente talvez até incorporar. Padres de vanguarda pode ser que uma hora voltem a reger no catolicismo. Se pensar que até mesmo nas religiões protestantes existe muito movimento anti-homossexual, em relação à católica, há coisas piores a se ver… basta ver as ações de Marcos Feliciano.

      Acho irrelevante também alguém “icônico” à uma empresa usar um produto de uma marca concorrente. É talvez engraçado a situação, mas irrelevante. A pessoa se vende como imagem do produto. Se as pessoas justamente parassem de pensar em idealizar, idolatrar, mistificar produtos, nem se preocuparíamos em ver um Cook usando um Lumia. Ei, Wozniak é um dos principais responsáveis da Apple e já disse que usa diversos tipos de aparelhos para testar, muitas vezes inclusive adotando aparelhos de outras marcas. Este é o tipo de atitude bacana de se ver.

  4. Nunca tinha ouvido falar nesse OkCupid, mas me parece bem plausível a hipótese de que o dono do site realmente não tenha um objetivo concreto com essa iniciativa. A questão é: será que é _relevante_ ter um objetivo concreto neste caso? Talvez toda a repercussão com reflexões e debates internet afora seja algo muito mais valoroso que algo tão específico quanto a cabeça de um CEO.

  5. Li, pensei, fui lá ver o link do Papo de Homem, vi um comentário que eu tinha feito por lá, e pensando um pouco, o raciocínio que eu tive lá se coloca aqui: Moral/ética é coisa secundária quando falamos de coisas que usamos, consumimos e fazemos por necessidade. O JavaScript é útil e foi ele que criou? Legal, vamos continuar usando então.

    As opiniões individuais, ao meu ver, podem ser irrelevantes. O problema é se ele fizesse algo que nós usássemos e isso ajudasse o mesmo a atacar quem ele está contra, mas isso é difícil de acontecer. Se estamos fazendo algo que gera dinheiro à ele, é irrelevante o destino de tal dinheiro, se financia grupos anti-gays ou não. Afinal, estamos pagando à pessoa pelo serviço prestado, não o grupo para fazer o que o que eles querem fazer.

    A propósito, segregar os segregadores é interessante se quem segrega realmente merece tal segregação. Se o cara é um militante anti-gay, ou anti-maconha, ou anti-tecnologia; dependendo de como ele trata as pessoas, segrega-lo é faze-lo ser mais segregador e com isso aumentar o ódio dele pelos seus então “algozes”.

    Não duvido que o cara chegou na “Mozilla Foundation” e conversou com um ou outro homossexual. E talvez isso até quem sabe mude a cabeça dele. Se ele entrou (E se deixou entrar) em um lugar onde se pede tolerância entre as pessoas, acho que isso é mais uma excelente iniciativa, pois o mesmo poderia simplesmente recusar o cargo de CEO justamente por “imaginar que tem homossexuais trabalhando lá”. Como dito por você, é um mistério e cabe ao mesmo as decisões que ele tem em trabalhar lá. Provavelmente isso poderá até nos surpreender :)