Talvez o boicote não seja a melhor forma de protesto
Em junho de 2023, o Reddit parecia estar prestes a implodir. Protestos motivados por uma rasteira que a empresa passou em desenvolvedores de aplicativos alternativos levaram a um “apagão” de comunidades — convertidas para “privadas” por moderadores voluntários, elas ficaram inacessíveis ao público.
Apesar da pressão, o Reddit resistiu. Sem apps de terceiros, consolidou a experiência do usuário nos canais oficiais e, em março, fez a sua esperada abertura de capital na Bolsa de Nova York.
Nessa segunda (30/9), a direção do Reddit anunciou que o expediente usado pelos moderadores para protestar há pouco mais de um ano passaria a depender da aprovação da empresa. Em outras palavras, foi eliminado.
O episódio evidencia limitações da estratégia de “protestar por dentro” de espaços comerciais. É difícil ganhar um jogo em que um dos lados tem o poder de mudar as regras a qualquer momento, sem sofrer consequências.
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O X de Elon Musk é o caso mais extremo da mesma dinâmica. Todas as regras que Musk alardeia serem inegociáveis em sua rede social são relativizadas quando conflitam com interesses seus. A bola é dele, afinal, e bobos somos nós de continuarmos lá (quem continuou lá).
Meredith Whittaker, hoje presidente da Fundação Signal, tentou mudar o Google por dentro, como funcionária. Derrotada, deixou a empresa.
Quem fugiu do Substack quando se viu dividindo a mesa com nazistas não encontrou vida fácil. Casey Newton, da The Platformer, que o diga.
Poderia continua com os exemplos na área de tecnologia ou expandi-los para todas as outras da economia, porque nenhuma escapa. O simpático senhorzinho bigodudo da Tirolez? Nem ele.
No fundo, todo mundo tem um podre. Quando se trata de gente poderosa, então… Nesse mundo selva, não é sendo legal que se acumula poder.
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O que nos leva a um dilema. O meu, no caso da Tirolez, é se deixarei de comprar da marca quando encontrar seu creme de ricota em promoção. Não, óbvio. Para começo de conversa, é bem provável que eu tenha que tomar essa decisão dentro do mercado de alguém que compartilha da mesma… hm… ideologia dos donos da Tirolez.
“Vote com a carteira” é um discurso bonito para quem tem dinheiro sobrando ou é desprendido ao extremo. É difícil encontrar esses dois tipos por aí, o que neutraliza qualquer estratégia de boicote, que só surte efeito se generalizada.
Voltando à tecnologia.
Digo que há anos não compro na Amazon, mas minha companheira sim, incluindo muitas coisas para a casa, que consumo também. O meu “boicote” ao Jeff Bezos é parcial.
E tem as coisas da Apple. O uso inescapável do WhatsApp. O Manual está hospedado na Automattic de Matt Mullenweg e o PC do Manual na Oracle de Larry Ellison. E por aí vai.
Talvez o boicote não seja a melhor forma de protesto.
Triste realidade da concentração de poder serviços e produtos
Todas essas coisas são mercadorias.
Nada surpreendentes seus principais problemas. Essas características tendem a ser características de mercadorias, não exatamente apenas do produto em si e/ou de decisões corporativas.
Essas coisas meio que se misturaram, mas ser uma mercadoria é o que mais determina a presença desses ‘defeitos’.
‘Defeitos’ pra quem, né?
Um boicote indiretamente vinculado à carteira poderia ser as ações que o Sleeping Giants veio fazendo, não?
Acho que muita empresa – ou quase todas – acabou “aderindo” mais pela situação de pressão da opinião pública do que por convicção de fato.
Mas houve efeitos, ainda que por vezes limitados.
Esse é, precisamente, o limite da democracia burguesa. Isso é um micro-cosmos de porque não existe i) consumo sustentável dentro do capitalismo e ii) democracia de fato.
O Cory Doctorow tem um comentário bom sobre achar que “votar com a carteira” é uma solução pras coisas, ele aponta que, nessas situações, quem tem a carteira maior tem mais voz que os outros!
Tem o link desse comentário do Cory Doctorow, Alexandre?
Já vi ele falando isso algumas vezes, tem no subtítulo deste artigo: https://doctorow.medium.com/https-pluralistic-net-2024-03-05-the-map-is-not-the-territory-vapor-locksmith-57251144ea94
Tem um tweet dele falando exatamente isso, pesquisando no Google “Cory Doctorow voting with wallet”, aparece logo no primeiro resultado. Infelizmente não é possível ver o tweet completo nem o contexto disso devido ao bloqueio do X.
Obrigado pelo link! Aqui o do blog dele, para quem prefere não ter que acessar (boicotar? 😄) o Medium.
Dá para ler parte do post do Twitter na descrição do resultado da pesquisa. Traduzindo-a, é isto:
Pois é eu pensei nisso, não curto o Medium, mas foi primeiro link que apareceu e estava com pressa (depois me arrependi). Costumo ver as postagens direto no site dele a partir dos fios que ele faz no Mastodon.
Acho que é uma questão de ideologia. Boicote pode ou não ser eficaz, mas o boicote individual é inócuo. “Vote com a carteira” trás consigo ideais de meritocracia e de auto regulação do mercado, que são parte de uma ideologia liberal. Particularmente, não acredito nessa ideologia. Entendo o sentimento do Ghedin, e faço muitas escolhas com base nisso, mas faço sabendo que é algo muito mais moral do que prático. Gosto de deitar minha cabeça no travesseiro sabendo que não dou dinheiro pro arrombado do dono do Madero, que falou que podia morrer 5k pessoas na pandemia que tava ok. Mas sei que esse porra continua ganhando rios de dinheiro explorando trabalhadores. É um conforto individual meu, mas sou humano, preciso de coisas assim.
Pra um boicote ser efetivo, precisa ser planejado e coordenado, com um foco específico, assim como uma greve, ou um protesto. O que todas essas táticas têm em comum? Precisam de organização de pessoas. Esse é o ponto fundamental, o mais difícil de se alcançar.
Em um mundo pós moderno, onde tudo é “liquido” (definição do Bauman), organizar pessoas em torno de ideais comuns tem sido cada vez mais difícil, pois tudo é banalizado, o interesse individual e imediato prevalece sobre qualquer coisa, e é muito fácil não se comprometer.
Dentro da esquerda radical, onde escolho atuar, tem muita gente se organizando pra atingir objetivos pequenos e locais. Talvez não seja “a” solução, mas são uma infinidade de pequenas batalhas sendo travadas em busca de um ideal maior.
Talvez o segredo seja esse: não adianta pensar de forma utópica imaginando que “todo mundo” vai pensar igual quando falamos de por exemplo não usar algo por causa de um dono ruim ou todos conhecerem um site legal ou um produto legal de uma pessoa bacana e que não faz mal para ninguém.
“Objetivos pequenos e locais” me soa algo bem mais plausível e menos utópico. Talvez não a toa muitas pessoas preferem mudar de onde estão e achar outros lugares para tentar viver em outras comunidades – a comunidade onde ela estava antes não o agradava, então resta migrar para uma comunidade onde ela pode tentar vivienciar algo que ela tenha conforto, quem sabe até ideias políticas próximas ao que um socialismo prega e ela mesmo desejava.
(na verdade muitos mudam também por questões financeiras – compensa viver naquela comunidade; ou por trabalho – é onde ela conseguiu um trabalho estável).
Seja o Manual do Usuário, as comunidades no fediverso ou no blusky, ou na vida real, acho que parte dos “ganhos” são justamente estes: espaços comunitários confortáveis e confiáveis.
Poderíamos partir desta premissa para atitudes políticas.
A-DO-REI!!!!!!! Vou levar pra vida!!!!!
Agora mesmo, estou passando por uma situação algo crítica no trabalho, e pensei em fazer algo tipo um “semi-boicote”. Depois de ler isso, vou reavaliar e tentar buscar outros caminhos, analisando o mais viável.
Esse tópico vai de encontro com o post do “Artista que você gosta passou pelo cancelamento” lá no Órbita.
Boicotar não é uma solução, mas ao mesmo tempo talvez seja possível achar alternativas – quando há tais disponíveis. Boas empresas buscam crescimento escalado, não expoencial. Difícil, senão raro achar empresas que atuam assim.
O ruim é pensar que o ponto da marca é que o dono deixa ou não de pensar políticamente é o de menos, e o capitalismo em si depende muito de uma relação entre gente que fez dinheiro de forma expoencial (geralmente ilicito) e usa algo lícito para compensar. Só lembrar que quem lida com tráfico por exemplo monta empresa de fachada, como um posto de gasolina ou depósito de gás de cozinha. Ambos essenciais para uma sociedade como a nossa.
A quem não tem muito dinheiro na carteira – meu caso – não tem muito o que fazer. A marca pode ser de um dono que assassinou alguém, mas se preciso usar aquele serviço ou produto devido ao preço ou ser única opção, não terei muita outra escolha senão usa-lo.
Ou talvez, em último dos casos, é achar um terreno em um lugar bem ermo e tentar viver lá só de forma subexistencial. Afinal, não estaria fazendo mal para ninguém e nem trabalhando para ou comprando algo de alguém ruim.
O risco maior é tirarem a pessoa dali porque vão fazer um condomínio fazenda de sei lá quantos alqueires….
Se não é possível convencer os outros de que estão errados e, por isso, não aderem ao boicote, ele acaba sendo ineficaz. A eficácia do boicote depende de conseguir convencer mais pessoas a se juntarem à causa.
Mesmo assim, extrapolando a situação, um boicote, ainda que limitado, é melhor do que depender de um ditador benevolente para mediar questões.
Por isso precisamos é de leis e regulamentações. Boicote é o que os liberais falam pra gente fazer no lugar disso porque sabem que não funciona (e quando funciona chamam de cultura do cancelamento)
Concordo totalmente.
Mas me pergunto se o próximo passo dessa galera não seria entrar de vez na politicagem, para tirar todo o proveito possível.
O capitalismo é isso, e é sem fim.