Blogueiro trabalhando com blusa do Blogger.

Blogs sobreviventes


31/8/15 às 10h00

É muito fácil criar um blog. Com uns três cliques e sem gastar um tostão, você pode começar a escrever para o mundo. Da mesma forma, é fácil largar um blog. Desde que comecei a acompanhá-los perdi as contas de quantos testemunhei perecer, alguns abruptamente, outros abandonados aos poucos.

Dia do Blog, 31 de agosto.Hoje é o “Dia do Blog”, escolhido arbitrariamente porque “31/08”, com alguma boa vontade, lembra a palavra “blog” — veja ao lado. Até uns anos atrás, era tradição, neste dia, blogueiros escolherem cinco blogs para indicar a seus leitores. Participo da brincadeira desde 2006, com apenas dois buracos (2011 e 2014) na série. Por ocasião da data, enquanto escolhia os blogs de 2015 comecei a pensar na efemeridade deles e nos que eu acompanhava e que acabaram. Então resolvi fazer um pequeno exercício: entre as minhas indicações de anos anteriores, quais ainda estão no ar?

Categorias e gráfico

Usando a boa e velha matemática básica, em sete anos de Blog Days contabilizei 36 indicações — em 2010 indiquei seis, em vez dos cinco que a regra estabelece. É uma amostra bem pequena, mas gosto de como ela reflete a evolução que o blog sofreu nesse intervalo de quase uma década.

Nas primeiras listas há diversos endereços do Blogger e subdomínios, indicando uma prática comum na época de grandes blogs hospedando menores e dos coletivos de blogs. (Eu fazia minha parte como incentivador da brincadeira, desenvolvendo temas para blogs de amigos na camaradagem e até hospedando um ou outro numa conta da Dreamhost, encerrada semana passada após dez anos de uso.) Já nas listas da atual década, blogs do Tumblr aparecem com força e há muito mais .com e .com.br no final dos demais.

Enfim, feito num serviço gratuito ou não, tocados com profissionalismo ou só nos fins de semana, eles eram/são blogs. Como estão hoje? Para responder a essa pergunta, primeiro categorizei os casos possíveis. Ficou assim:

  • Ativo. Continua no mesmo endereço, com a mesma proposta e sendo atualizado.
  • Transformado. As pessoas e a proposta seguem vivas, mas em outro endereço.
  • Inativo. O blog ainda está no ar, mas há muito deixou de ser atualizado.
  • Desfigurado. Ou o domínio expirou e alguém comprou para fazer algo totalmente diferente do que era antes, ou ele ainda é do dono original, mas o conteúdo da época se perdeu.
  • Fora do ar. Já era, não está mais na web.

E quando um blog passa por duas fases? Exemplo: um que se transformou e, em seguida, caiu na inatividade? Nesses casos considerei a última — inativo, pois.

Feita a análise e contabilizados os blogs de acordo com seus estados atuais, o gráfico ficou assim:

Status dos blogs indicados entre 2006 e 2013.

Mais da metade mudou de alguma forma, mas fiquei surpreso em constatar que quase metade ainda segue firme e forte. Ok, talvez não tão forte quanto na época em que os indiquei — vários apresentam atualizações mais espaçadas, menos frequentes –, mas… continuam. (O meu blog, aliás, é um exemplo desses que continuam na ativa, mas com outro ritmo, outra dinâmica.)

Os blogs do passado em 2015

Cartaz sobre blogs.
Arte: vaXzine/Flickr.

Todos os blogs de 2012 continuam sendo atualizados. Em contrapartida, dos sete anos de indicações o tempo foi mais duro com 2007. Daqueles cinco blogs, apenas um segue ativo, o Objetos de Desejo. Deixei de acompanhá-lo faz um bom tempo e, de todas as circunstâncias possíveis, a mais dramática ocorreu: em 2009, a publicitária Marisa Toma, criadora do blog, se suicidou. O blog seguiu pelas mãos da Ana Paula, ganhou um visual mais profissional (mas que, hoje, já dá sinais da idade) e continua com a premissa original, porém com bem menos posts que na época em que o indiquei.

Eu achava, aliás, que entre os sobreviventes a maioria seria de blogs profissionais, ou seja, que funcionam como ganha-pão para seus donos. Eles estão representados em alguns, como o ZTOP e o lolhehehe, esse com uma bem sucedida campanha no Patreon, mas muitos continuaram ou como vitrines para as habilidades dos seus donos, caso do Minimally Minimal, ou apenas hobby.

Entre os hobbistas, o tantos clichês da Renata chama a atenção por ser talvez o único remanescente com características de “diário”, com domínio blogspot e tudo. Esse formato, que por um bom tempo foi dominante e ajudou a criar um estigma duradouro no Brasil de que blogs se restringiam a ele, praticamente sumiu nos últimos anos. Ou melhor: foi substituído por redes sociais e pelos vlogs no YouTube. O que é uma pena. Ainda leio tudo o que a Renata publica e sinto falta de textos mais descompromissados e mais intimistas como os dela.

Blogs mantidos no Tumblr (Little Big Details, this isn’t happiness, Screenshots of Despair) seguem muito bem. Do primeiro ano, 2006, Marmota e Meio Bit ainda estão aí. Do último, 2013, o Caos Ordenado já retorna um erro 404 e o ótimo Oene, com seus posts aprofundados, está parado desde abril. Eu ainda acompanho várias pessoas que escrevem ou escreviam nesses blogs, mas em outros sites ou em redes sociais. Com algumas perdi contato, e… bem, faz parte.

Há futuro?

Há alguns dias, no Curitiba Social Media, comentei no início do painel que apresentei que me sentia, com meu blog, meio como um tiozão rodeado de tanta gente que se comunica e produz conteúdo na Internet em plataformas mais modernas — canais no YouTube, perfis no Instagram, Twitter, Snapchat. São plataformas sociais que, hoje, ocupam o espaço que o blog preenchia na Internet de dez anos atrás. A finalidade é a mesma, mas a forma, o meio, faz toda a diferença. E apesar de adorar viver nesse futuro (não tanto as redes sociais, mas a gente tolera), às vezes bate uma pontinha de saudade daquele tempOPA, melhor parar por aqui antes que eu comece a escrever de IRC, conexão discada e essas velharias. Enfim, embora coexistam e tenham ligações profundas, blog e redes sociais são bichos bem diferentes.

Felizmente, embora em menor número e sem o frescor da novidade de anos atrás, blogs ainda são uma coisa. O Manual do Usuário prospera nesse formato, o Não Salvo e diversos outros blogs de humor conseguem conciliar o formato arcaico com a rapidez das redes sociais, blogs de moda dispensam explicações e, lá fora, vez ou outra o formato volta às manchetes. O último “revival” se deu na Atlantic, publicação norte-americana com mais de 150 anos de história, que semana passada relançou seus blogs. Aliás, já falamos dessa polêmica no começo do ano, lembra?

Blog é uma conversa, e conversas não viralizam. As pessoas compartilham coisas que seus amigos entenderão, não coisas que exigem que você tenha lido outros seis posts para compreender. O blog incentiva interjeições nas conversas e prospera a partir da familiaridade. Redes sociais incentivam conteúdo que consegue existir por conta própria.
Ezra Klein.

Hoje é Blog Day e no meu blog você pode conferir as cinco indicações que tenho a dar em 2015. Apesar de em menor número, eles ainda existem.

***

Abaixo você confere a lista de todas as indicações e seus respectivos status:

2006

Cardoso, desfigurado
Fiapo de Jaca, desfigurado
Marmota, ativo
Meio Bit, ativo
Widgets Guru, inativo

2007

ARRE Égua!, fora do ar
Cataclisma 14, transformado
Nipofilia, fora do ar
Objetos de Desejo, ativo
Tiago Dória, inativo

2008

FAIL Blog, ativo
Infopod, ativo
istartedsomething, ativo
Ius Communicatio, inativo
Zumo Blog, transformado

2009

Fazendo Acontecer, inativo
lolhehehe, ativo
Quero ter um blog!, fora do ar
Smarterware, transformado
tantos clichês, ativo

2010

A Monga e a Executiva, fora do ar
Home Sweet Home, ativo
mnmlist, inativo
Negócio de Menino, transformado
Esmalte da Semana, fora do ar
Paulo Higa, fora do ar

2012

Aurelio Jargas, ativo
Boobstagram, ativo
Little Big Details, ativo
Screenshots of Despair, ativo
Retina Desgastada, ativo

2013

Caos Ordenado, fora do ar
Explore, ativo
Minimally Minimal, ativo
This isn’t happiness, ativo
Oene, inativo

Foto do topo: Jacob Bøtter/Flickr.

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73 comentários

  1. Acho que os blogues brasileiros passaram por três grandes fases — e é obviamente só achismo, então posso estar falando uma grande bobagem…

    A primeira seria — é claro — a fase dos blogues pessoais (um período mais ou menos entre 1999 e 2005), marcada pela multiplicação dos serviços de hospedagem amadora e da gênese do miguxês. Na outra ponta, a terceira fase (mais ou menos de 2010 ou 2011 para cá) seria a da completa profissionalização dos blogs sobreviventes, transformados ou em grandes portais de nicho ou mesmo em empresas bem sucedidas em atividades variadas.

    A fase intermediária (mais ou menos entre 2006 e 2010) é a que eu chamaria de “era de ouro do blog nacional” — não tanto pela qualidade (muitas vezes amadora, no pior sentido da palavra) dos blogs produzidos, mas da “cultura” que eles desenvolveram e das “vizinhanças” que eles criaram. É dessa fase que, às vezes, sinto saudades e a que o Manual do Usuário me faz referência (motivo, aliás, que me faz voltar com frequência a este blog). Muitos blogs dessa segunda fase foram criados na primeira como experiências amadoras que, mais tarde, se profissionalizaram e viraram as grandes empresas que são hoje. Outros surgiram por ali e seguiram o mesmo caminho. Outros simplesmente desapareceram e seus autores passaram a produzir conteúdo nas redes sociais — e é destes blogs que sinto mais falta.

    Os temas eram vários: política e sociedade (NPTO, hermeneuta, ao mirante nelson, até mesmo o biscoito fino e a massa); cultura (blogs da rede pensador selvagem, catatau, bsf, parede de meia, entre outros), tecnologia e sociedade (pedro doria, tiago doria, etc), entre outros. Alguns destes blogs eram de jornalistas profissionais, outros de entusiastas. Até mesmo os blogs político-partidários mais rasos e medíocres da época possuíam um público cativo diferente do público raivoso de hoje (luis nassif, paulo henrique amorim, reinaldo azevedo, nariz gelado e similares, seja no campo do governismo, seja na da oposição).

    É curioso que a maioria tenha desaparecido no fim da década passada — mais ou menos na mesma época em que vloggers viraram celebridades e alguns dos blogs mais antigos já se profissionalizavam completamente.

    Sinto, porém, que o clima daquela época foi substituído — guardadas as devidas proporções — pela atual cultura dos podcasts (que, aliás, surgiram justamente naquela época). Diferente de canais de youtube, os podcasts brasileiros mantém, na média, um jeitão “meio amador, meio profissional” similar ao daquele período.

    Mas, enfim, são só meus dois centavos.

    1. Dois centavos é o blog do Juan Lourenço e uma turma que se conheceu no Gizmodo, a propósito :3 http://2centavos.com.br/

      Não acompanho tanto, mas tenho respeito por eles. :D

      Interessante que não consigo acompanhar podcasts… Acho que o fator “escutar” ao invés de “ler” me dá uma travada. Ler consigo fazer rápido. Escutar e deixar processar a informação durante a escuta sei lá, fico sem paciência :)

  2. Já que volta e meia aparece alguém falando que “o blogue morreu, vida longa ao blogue”, fica a minha dúvida:

    o medium já morreu? vida longa ao medium? ele vai conseguir substituir o papel que alguns blogs tiveram alguns anos atrás?

    1. Noto que o Medium é uma boa plataforma de debates e conversas-cabeça. Foi assim que no final ficou definido. O ambiente lá não permite virar um “tumblr” (Que tentou ser sério, mas o pessoal não levou a sério :p ).

  3. Antes os blogs eram a representação de cada um na internet. Mas veio o Orkut, FB, etc etc e sua representação digital se diluiu por toda a internet. Os comentários rarearam, e desestimulou muita gente. Hoje, só faz blog quem faz, e para um nicho de público. Mas felizmente ele ainda existe. Eu estou a 14 anos no mesmo lugar, amtonline.com.br :)

    1. vi teu post das mais ouvidas…, porra, Congragation do FF é foda pra caraleo!
      tomanocú! eu achei que era o unico que curtia Hellacopters! hauhauah

  4. E, claro, parabéns pelo seu autêntico blog! O conteúdo é de primeira e aprendo uma penca de coisas por aqui. Pô, é raro achar um blog q tem reflexão, brechas pra interpretação e com bom estilo de modo tão consistente… Além, evidentemente, do cultivo de um ambiente bastante favorável a troca de opiniões – com bastante liberdade, diga-se. É salutar essa sua empreitada!

      1. Valeu, caras! Eu ainda vejo potencial no Manual para ser muito mais blog, mas falta tempo para botar em prática.

        Essa conversa nos comentários, por exemplo, é algo quase paralelo ao post, que no fim funciona como espaço para eu divagar e para os leitores, como um ponto de partida. Falta um tom mais blog no próprio blog — não sei se me fiz entender. Talvez quando terminar a faculdade eu consiga melhorar esse aspecto.

        1. A graça acho que está aí, Ghedin.

          Tu montou um blog, que ao meu ver também nada mais é que uma coluna de jornal opinativa. Ponto. Seu estilo de texto não é extremamente pessoal, nem também extremamente técnico ou jornalístico.

          Tipo, é convidativo, mas não é informal. E é informativo, mas não é formal. :)

  5. Nada melhor que um blog pra desbaratar as milhões de certezas absolutas que percorrem toda a mídia tradicional (de todos os segmentos adeptas elas próprias ou não de ‘blogs’ em seus sites)… Mas tb me preocupa o fato de muitos blogs serem usados pra orquestrar parcelas substanciais da população com acesso à internet para a confusão e completa desinformação – em compasso com as redes sociais…

    E tb não vejo uma forma de um blog pequeno (feio, sem tema nem nada, apenas texto de qualidade), às vezes com coisas vitais sendo ditas, ganhar visibilidade em meio a isso tudo. Acho uma pena q coisas legais fiquem invisíveis e só os acaso leve vc até elas.

  6. Ótimo texto, Ghedin, e boas indicações que eu não conhecia. E o Oene está hibernando. Espera 2016!

    (O que me lembra que o post mais comum em qualquer blog que jamais segui é “as coisas tão paradas por aqui, né? Desculpa o sumiço.” Aí vem um post enorme, outro dois dias depois e mais silêncio… =))

  7. Havia uma cena ótima de blogs em 2004, e me refiro a blogs de interesse geral, não de informática. Blogs pessoais onde se falava de tudo, arte, política, cotidiano, e havia muita interação entre nós, e também uma comunidade de leitores que faziam da caixa de comentários um espaço de discussões que muitas vezes eram mais legais que os posts que elas comentavam.

    Infelizmente isso dá muito trabalho, e muita gente rareou e parou com seus blogs, inclusive eu. Hoje é muito mais fácil interagir no Twitter, e quase todos os blogueiros da época estão lá agora.

    1. Um ponto extra a se pensar: na verdade, a comunidade de leitores acabou migrando de espaço, se analisar.

      Parte foram (ou montaram) para fóruns espacializados ou comunidades em alguma rede social. E alguns outros foram parar em redes sociais comuns e conversam de forma não pública – chat, mensagens particulares, etc…

  8. Tenho preconceito com blogs com tom extremamente pessoal ou que desafia com tom de “dono da razão”/”sou parte do senso comum” em relação ao meio. Já elimina o (qualquer) blog do (ou com participação do) Cardoso, o que tu indicou deste ano no seu blog (me recuso a citar nomes), NãoSalvo e outros. Acabo indo ler mais blogs um pouco mais “populares” ou com textos bem elaborados.

    Em tempos: na verdade, isso prova que odeio qualquer humor extremamente sarcástico/irônico ou humilhante. Quando comecei a comentar, eu tinha este estilo de escrita em alguns momentos, mas fui sempre “jogado de lado” quando o usava, ou era xingado e tudo mais. Mudei meu estilo e sinto que estou um pouco mais respeitoso, porém parece que as pessoas gostam de ofensa nas palavras…

    Na verdade, nem sei mais o que considerar ou não blog. (PS: fiz uma leitura dinâmica na matéria que linkou sobre “o que é um blog” – está em processamento no cérebro…) Já até tentei escrever um (e tenho um perfil no Medium), mas bem, sinto que é difícil agradar o meio ou chamar a atenção para algo que a pessoa acredita. Tem que ter algum carisma nas palavras para poder conquistar leitores. Não é só escrever algumas palavras e tentar ou não colocar argumentos. E principalmente, ter paciência com pessoas que adoram dizer que “você está errado”.

    Sobre o Oene, ao que notei, está inativo pois o Burgos está se matando nos estudos, e no final ele acaba jogando textos no Medium ou outro lugar (Como o Papo de Homem), e o Beguoci montou o Outra Cidade.

    Sobre o Paulo Higa, ele está no Tecnoblog, né? Acho que eu tinha visto um outro bl… ah sim, é uma página de perfil pessoal – https://higa.me

      1. Fenômeno interessante. Eu também lia o Meio Bit só o que não era do Cardoso, até que, depois de um tempo, a maior parte dos posts tem o mesmo tom do Cardoso, o que deve agradar muita gente visto que virou um padrão do site. Hoje em dia é um outro post – usualmente os do Nick Ellis ou do Dori Prata – que fogem do padrão Cardoso.

        Uma grande pena, pra mim, que tenha ocorrido isso, eu gostava da opinião mais próxima que se trazia no site. Hoje substituí pelo Manual do Usuário a minha leitura de blogs nacionais diária.

          1. Textualmente falando, a qualidade dos textos dele é ótima.

            Ideologicamente falando, ele é um boçal – do meu ponto de vista, óbvio. Então não me passa na garganta as opiniões dele. Cheguei a ler bastante coisa dele, pra poder ter a minha opinião fora do espectro da implicância, mas a verdade é que o viés ideológico que ele coloca nos textos não me desse.

          2. Uma das coisas que me fez parar a leitura é a pseudo-posição dele em favor da ciência, afinal, entende-se ciência (para ele) apenas o que ele gosta. Nisso ele coloca toda e qualquer ciência humana, por exemplo, como sendo algo execrável. Me faz ter a impressão que é o tipo de pessoa que acha que ciência é só o que aparece no Cosmos.

            Isso passa por opiniões mal educadas e colocadas sempre de modo violento – como um texto pode ser, no limite sempre da má educação. Ainda mais quando ele desconhece o assunto em questão – falando coisas erradas e agindo de modo condescendente [um exemplo é o Nerdcast que ele participa, sobre economia, onde ele chega numa semi-discussão dessas (passivo)agressivas com o Marco Gomes].

            Ainda sobre isso, ele não aceita nenhuma discussão – e quase todos, senão todos exceto ele, dos redatores do Meio Bit discutem com os leitores nos comentários de boa – e usa a penetração dele seguidamente para ridicularizar opiniões opostas. Isso é notório no Twitter (que eu inclusive cheguei a seguir e até concordar algumas vezes com ele, interagindo e tudo mais).

            No fundo acredito que isso seja apenas o personagem dele que traz muitos page views pro blog, mas, é intragável, na maioria das vezes, pra mim.

          3. Acho engraçado que, cientificamente falando, é comprovado que postura combativa não ajuda a convencer pessoas. Ou seja, rechear textos de divulgação científica com ironias e sarcasmo não é uma estratégia boa. Fora isso, suas opiniões sobre a Microsoft parecem meio distante da objetividade científica assim como sobre o software livre.

            Eu até concordo com o Cardoso em relação a questão das ciências humanas serem muito frágeis e não admitir, mas longe de achar desimportante como ele coloca.

          4. A dificuldade das ciências humanas é que é mais difícil, em alguns casos, impossível, replicar pesquisas como se faz nas exatas e biológicas. Existe essa fragilidade, mas ao mesmo tempo é o que torna a área tão instigante. E deve-se levar em conta que alguns campos são bem recentes; a pesquisa em comunicação, por exemplo, começou quase na metade do século XX. É pouco tempo, e é uma área que muda muito e com velocidade. Não é fácil.

          5. Acho que outro ponto também, e nisso peço licença pois não sou entendido do assunto, é que ciências humanas cai muito em coisas subjetivas. Quando se coloca muita lógica, comum a quem pensa voltado a lógica, no final é que acaba rechaçando isso. Pois em ciência comum, vai se buscando denominadores exatos, enquanto que nas ciências humanas, é mais explicações toleráveis.

            (Espero não ter falado besteira aqui :) )

          6. Respondendo um pouco aqui: @paulopilotti:disqus

            Meu problema é simplesmente em admitir essa fragilidade, isso não invalida o trabalho e, essa característica inclusive, torna importante que haja uma grande diversidade de trabalhos e opiniões.

            Não sei se você leu Capital no Século XXI ou lembra do texto que escrevi no Medium, mas acho que é o exemplo de como ciências humanas deveria tentar ser: um estudo extenso, baseado em dados e pouco conclusivo como infelizmente precisa ser.

            Outro trabalho interessante, menor mais ilustrativo, é o que comparou a efetividade de manifestações pacíficas contra manifestações violentas: analisou um período de tempo os resultados das manifestações e suas características e conclui que, em geral, as pacíficas funcionam melhor.

            Karl Popper teve seus motivos pessoais, mas como filósofo do pensamento científico, ele debulhou o marxismo. Isso não torna o trabalho de Marx inválido, apenas deixa claro que ele não passa no crivo da ciência para colocar o sufixo de “científico” em sua teoria. Não é baseado em dados, parte de premissas não validadas.

            É difícil reproduzir experimentos e ter dados em humanas, mas ciência é basicamente isso, precisa ser refutável. Inclusive, o pessoal de humanas deveria ser muito melhor em estatística do que físicos por exemplo. De certa forma, é um absurdo o que é relatado nesse artigo: http://www.revista.ufpe.br/politicahoje/index.php/politica/article/viewFile/6/6

            Fazer uma discussão gigantesca e profunda de Freud é um trabalho interessante e importante, mas eu não enxergo como ciência. Acho que não faria mal se as humanas se libertassem um pouco desse rótulo.

            A discussão SOBRE ciência do Karl Popper é fundamental para isso que estamos debatendo, o texto que escrevi sobre questões da IA não é ciência à rigor mas é um debate que as cadeiras de filosofia devem levar para frente.

          7. Concordo com tudo.

            Não terminei de ler o Capital no Século XXI e não tinha lido o seu texto, marquei pra ler.

            Esse artigo da UFPE já tinha caído na minha caixa postal alguma vez, li pela metade, mas me lembrei agora de um acontecimento numa aula de Inglês 8 (final do curso) onde os colegas não queriam aprender Pearson para analisar os resultados de estudos de variação linguística e tradutologia comparada. A maior alegação era a de que o curso de Letras não teria a necessidade disso (mas, pensando bem, a maior parte dos estudos linguísticos é empírico, com grande coleta de dados e comparação).

            Enfim, tem um grande problema que eu aponto sempre que posso no ensino na graduação das ciências humanas: os professores tratam como colégio. É uma graduação, mas por vezes parece uma extensão do ensino médio, com rodinhas de discussão no último semestre e seminários sobre exercícios estúpidos (óbvio que as exatas tem problemas também, eu fazia Física antes de mudar pra Letras, e me lembro que a maior parte dos colegas apenas decorava as questões de Cálculo e Física fazendo provas anteriores a exaustão).

          8. Certamente são frágeis e muitas e muitas vezes se ocupam de coisas, no mínimo, questionáveis (e são essas pesquisas que ganham notoriedade, provavelmente pelo fator inusitado e pelo alto teor de humor contido nelas).

            Mas como formando de Letras e “pesquisador” (bolsista de IC e aspirante ao programa de mestrado) na área de PLN dentro de uma universidade federal, eu digo que tem muita ciência séria sendo feita dentro das ciências humanas, elas só não tem esse fã clube que a astronomia tem, por exemplo, em todos os blogs de ciência do país.

          9. Você mexe com PLN também? Eu mexo com análise de sentimentos em notícias no mestrando, classificando notícias em polaridade.

            OBS: respondi o resto lá com o Ghedin.

          10. Odeio a atitude condescendente do Cardoso. Até gosto de ler alguns textos dele naquelas vezes que ele não fala alguma besteira, mas sempre evito ao máximo comentar seus textos. Já fui bloqueado uma vez lá só por ter ido contra o que ele achou ser o ápice da ciência médica. Parece uma criança birrenta. Não sabe ouvir opiniões contrárias.

          11. Bom ponto o seu. Não tenho uma opinião sobre isso. Tendo a dizer que não ajude, não. Mas, como disse, eu apenas gosto de ler o cara, nada de mais profundo nisto :)

            Mas e você, o que me diz do sarcasmo?

          12. Então. Penso que o sarcasmo só é útil ou entre amigos conhecidos e que sabem os limites de cada um, ou quando é bem incisivo e consegue, com humor, fazer uma crítica construtiva.

            Como acho que até já dito uma vez pelo próprio Cardoso, “não existe ponto de ironia” (ou melhor, existe, mas é pago ؟ :p ) Aqui: https://en.wikipedia.org/wiki/Irony_mark

            O ruim do sarcasmo também é quando o alvo deste se sente ofendido, o que é bem comum e até válido, uma vez que o sarcasmo é uma forma de rebaixar o alvo e dizer que ele não tem um valor.

            Não que eu não goste do sarcasmo, da ironia. Mas sim que do jeito que hoje estou moldado, e noto como as coisas fluem nas conversas online, isso não funciona do jeito que quem é sarcástico gostaria que funcionasse (o alvo ri e muda sua conduta). Pelo contrário, o sarcasmo acaba muitas vezes criando ou forçando uma segregação.

          13. Esse é o ponto. Qual é a graça de rir pelas costas? Uma hora a vítima descobre, e dependendo de seu comportamento, ela se revolta. E isso, de alguma forma, tem consequências sérias.

            Na conversa entre amigos, o sarcasmo é uma forma de “quebrar gelo”, de como eu falei, ser uma “válvula de alívio”, mas também já é algo estabelecido na cultura.

            Não sei se em outras culturas fora a brasileira e a americana, o uso do sarcasmo é comum. Mas enfim, isso é pano para discussão sociológica :)

          14. Pois é. Eu também.

            Mas todo mundo começou a escrever no “estilo” dele. Com frases e “piadas” dele. Ficou muito chato e banal :(

        1. e do Laguna tambem são muito bons.
          mas nada contra o Cardoso em si, mas não gosto daquela ironia forçada. as vezes soa até pretensioso ou arrogante.
          já li textos muito bons dele e deve ter salvo alguns, mas parei de ler o resto faz tempo.
          interessante descobrir que não sou o único a não gostar do jeito que ele escreve.

          1. Uma grande parcela não gosta.
            Se não me falha a memória, o MeioBit chegou a ter um feed sem os textos dele – que eu acho meio demais e só alimenta o personagem dele.

            Pelo bem pelo mal, não sou eu que tenho que ficar resmungando no site, então, parei de ler o MeioBit faz um bom tempo, exatamente quando a “cardonização” se elevou.

          2. Como falei, não vale só para o Cardoso, e como bem dito – é o ponto de alimentar um personagem, como um Alborghetti. Carlos Cardoso, Alex Castro (do Papo de Homem), e alguns outros são bem neste estilo. Defende uma ideia e vilaniza os contrários a ideia.

            Ao que noto, as pessoas gostam sim de textos com tom irônico/sarcástico, e que de alguma forma aponta dedo para alguma coisa na qual o pessoal quer “pisar em cima”, falar mal. É uma espécie de “válvula de alivio”.

            Não é a toa que boa parte dos sites de humor nada mais tem que alguma coisa que serve de humilhação e fala “eu não sou vacilão, mas este cara alvo do post é”. Aí caí Não Salvo, Kibe Loco e qualquer outro baseado nestes… incluí as vídeocassetadas…

            Penso assim: não gosta? Beleza, não precisa humilhar. Ou não fale sobre, ou se sente que aquilo precisa melhorar, tente chegar de forma construtiva.

          3. tb não curto esse tipo de humor q humilha ou q usa material q, no fundo, busca a humilhação de alguém… apesar q pra se criar efeito cômico apela-se a esse expediente há tempos… mas em relação aos sites de humor q vc cita, conheço o kibeloco. sempre me pareceu uma espécie de central do bullying praticado por um marmanjão boçal em ambiente virtual.. o problema é q, pelo menos nesse caso, o marmanjão boçal está por cima da carne seca agora e pagando de crítico da sociedade…

        2. Era tão bom quando o “estilo Cardoso” era só do Cardoso.

          Hoje todo mundo escreve no “estilo Cardoso”. Ficou horrível.

          O Dori realmente se salva… mas as vezes tem pegadas do Cardoso também dentro :(