Personagem principal do episódio "Crocodilo", da quarta temporada de Black Mirror.

Na quarta temporada, “Black Mirror” parece preso dentro de um episódio de “Black Mirror”


9/1/18 às 15h26

Já li mais de uma vez gente recomendando não começar Black Mirror pelo começo, ou seja, pelo primeiro episódio da primeira temporada. Tecnicamente, não há prejuízo: todo episódio contém uma história independente com personagens que jamais aparecerão em outro e cada um é hermeticamente fechado, com começo, meio e fim.

Acho que dois fatores motivam esses conselhos para evitar o primeiríssimo logo de cara. Um é o grotesco do argumento (pode chocar alguns). O outro, e talvez o mais forte, é a falta de tecnologia futurista, coisas que estão fora do nosso alcance. Em essência, trata-se de um episódio sobre o Twitter.

Essa ausência de gadgets mirabolantes que fazem coisas surreais está em leve descompasso das demais histórias, todas repletas de bugigangas high-tech que lembram coisas que já temos, mas de que ainda não dispomos em estágio tão avançado. “Estamos quase lá, mas ainda não, então veja o que pode acontecer se não tivermos cuidado”: eis a fórmula básica de um episódio de Black Mirror.

O episódio de estreia, O Hino Nacional, é desconfortável, não tenta dar lição de moral nem oferece respostas fáceis. É, pois, uma excelente introdução ao que esperar da série, ou ao que se costumava esperar dela.

A quarta temporada de Black Mirror estreou no último dia 29 de dezembro. É a segunda distribuída pela Netflix (as duas primeiras foram exibidas pelo Channel 4, do Reino Unido) e, mesmo contando com a participação do criador da série, Charlie Brooker, as mudanças da transição, já sentidas na temporada passada, estão mais acentuadas.

Não significa, porém, que tenha ficado mais fácil apontá-las. É difícil tocar nesse assunto por uma série de motivos, todos muito sutis. O mais forte, para mim, é a falta de imprevisibilidade e as situações complexas em que a tecnologia imaginada jogava as personagens. Black Mirror poderia superar esse problema com um pouco mais de ousadia. Não foi desta vez.

A culpa é sempre das pessoas

Personagens de USS Callister encaram a câmera.
Elenco do primeiro episódio da quarta temporada de “Black Mirror”. Foto: Netflix/Divulgação.

Alguém disse que Black Mirror é misantropia misturada com internet, ou a noção de como os usuários/as pessoas são ruins. A temática de boa parte da crítica se alinha a essa premissa. Uma perigosa e potencialmente equivocada, a de que a tecnologia é neutra e, portanto, é qualquer coisa que nós, seres humanos, fazemos dela.

Incomoda-me esse discurso porque ele carece de um elemento-chave: a indústria, o mercado. Black Mirror nunca ultrapassa a superfície das questões que aborda no âmbito individual e nunca debate outros entes dos seus universos, nem o tipo de sociedade em que aberrações como o dispositivo de monitoramento de crianças exibido em Arkangel, da nova temporada, são comercializadas como se fossem picolés na vendinha da esquina.

Mesmo ciente disso tudo e ainda ressabiado da fraca terceira temporada, vá lá: assisti a todos da quarta.

Nesta nova leva de episódios, Brooker, que assina todos os roteiros, optou por costurar uma temática comum em todos eles: a mente humana. Ou repeti-la, se lembrarmos de alguns sucessos passados como o especial Natal Branco Christmas ou o bom episódio de estreia da segunda temporada, Volto Já.

Vistos em sequência (é assim que usa a Netflix, certo?), a repetição cansa um pouco. E, não sei se por falta de criatividade ou se porque os riscos do excesso de tecnologia para a humanidade são, na realidade, poucos e profundos, a sensação de déja vù é permanente. E piora: torna-se indigesta quando a de que se está assistindo a uma tentativa de terrorismo barato começa a se manifestar, sem muita demora, a partir de decisões tomadas pelos personagens que, convenhamos, não é preciso ser um estudioso, um ativista de privacidade, nem mesmo uma pessoa imprudente para sacar de antemão que, hm… não parece uma boa ideia.

Pela ótica da quarta temporada de Black Mirror, o maior risco à nossa espécie é o de tomarmos decisões estúpidas frente a dilemas óbvios — ou não dilemas.

Breves comentários a cada episódio

Sem qualquer preocupação em evitar spoilers, segue uma sequência de análises em poucas palavras de cada um dos seis episódios da quarta temporada de Black Mirror:

No primeiro, USS Callister, vemos a dramatização do “Mr. Nice Guy”, o cara bonzinho que na real é um desajustado social e sociopata que você encontra com relativa facilidade em qualquer fórum de gamers ou board obscuro. Apesar disso, a homenagem às séries espaciais dos anos 1960 é bem feita e muito legal, só não o suficiente para salvar o episódio como um todo.

No segundo, Arkangel, temos mais uma prova (como se precisasse) de que instalar um sistema de vigilância em adolescentes não funciona porque as pessoas, mesmo as muito jovens, precisam de autonomia e privacidade para viverem. É o equivalente, no mundo contemporâneo, a instalar um app de GPS no celular do seu filho, só que muito mais invasivo e com um potencial gigantesco para gerar situações constrangedoras como flagrá-lo transando.

Crocodilo, o terceiro, é um dos mais deslocados de toda a série. Ele conta uma história de crimes acobertados que vira uma bola de neve e a que você já deve ter assistido algumas vezes quando ligou a TV despreocupadamente num fim de noite e não teve forças para trocar de canal. (Perde outros pontos pelo desfecho que se apega a uma arma de Chekhov ridícula.)

O quarto é seu tio dizendo que o Tinder é o fim da picada e só serve para pessoas que têm algum problema e não conseguem arrumar namorado “do jeito normal”. Hang the DJ é um algoritmo em funcionamento, coisa que, no tempo real das personagens, deve ter durado menos de um segundo — um pouco mais, se os celulares redondos deles usarem chips da Intel.

Metalhead, o quinto episódio, é o futuro que nos aguarda se ninguém fechar a Boston Dynamics. Do ponto de vista da perpetuação da espécie, talvez seja a maior contribuição de Black Mirror à humanidade — desde que encarado não como entretenimento, mas sim um alerta às autoridades para que tomem alguma providência. Digo, veja que horror:

E o sexto, Black Museum, é o que mais agradou nesta temporada. Tem um pano de fundo clichê e faz autorreferências dispensáveis, mas a estrutura narrativa é diferente de tudo que já se viu em Black Mirror, o que lhe confere um frescor atualmente meio raro na série e que, sim, faz falta.

Onde foi que erraram?

Existe a possibilidade de que a fórmula de Black Mirror tenha esgotado. Nesses seis anos, acostumamo-nos a apertar o “play” já com a expectativa de que o primeiro objeto tecnológico que aparecesse em cena viraria alguma coisa muito ruim no terceiro ato. (San Junipero deve boa parte do seu status de melhor episódio da temporada passada por subverter essa lógica — embora eu prefira a teoria alternativa de que ele não tem um final feliz.)

Mas talvez o problema de Black Mirror seja maior e nada tenha a ver com a série. Além do peso do seu próprio sucesso e da repetição da fórmula e das temáticas, a série parece vítima de externalidades. O mundo mudou muito em meia década, o equivalente a um século em tempo de internet, e, hoje, temos problemas mais sérios (e reais) decorrentes da tecnologia para lidar.

Vejamos: Amazon e Google estão enfiando câmeras e microfones dentro das nossas casas, o Facebook sabe mais de você do que você mesmo (e é bem bom em apontar quem será seu parceiro), participamos de um delírio coletivo ininterrupto plugados em uma rede abstrata onde comércio, transações financeiras e toda a sorte de atividades humanas acontece (também conhecida como “internet”) e estamos testando capacetes de realidade virtual porque quem precisa de corpos quando tudo acontece no virtual? E ainda tem aqueles robôs medonhos da Boston Dynamics!

Não é à toa que a expressão “isso é muito Black Mirror” já ultrapassou todas as fases de um meme e, atualmente, só faz revirar alguns olhos quando citada por um retardatário pela enésima vez. Ser “muito Black Mirror” não assusta mais. Não choca, não gera consternação, não faz refletir. A nova temporada não faz nada para mudar esse cenário.

Nessa transição, de um esperto prognóstico do possível apocalipse tecnológico para uma máquina de lições de moral bobas decorrentes de decisões questionáveis em histórias fracas, a série parece ter caído num limbo: ela não tem mais a força que tinha nas primeiras temporadas para gerar reflexões e debates e, ao mesmo tempo, também carece da inocência que dava o tom e transformou em atemporal Além da Imaginação, a série de Rod Sterling nos anos 1960 que inspirou Brooks a criar Black Mirror.

Black Mirror parece estar preso dentro de um episódio de Black Mirror.

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17 comentários

  1. Essa temporada me lembrou aqueles filmes b que a globo passava sábado à noite no Supercine. Todos os episódios com clima “louca obsessão”, mas nenhum com a profundidade antropológica de um San Junípero ou Nose dive. Mas valeu pelo entretenimento.

  2. Embora concorde que as primeiras temporadas fossem mais interessantes, discordo da maior parte das observações sobre esta. Queria apenas pontuar, contudo, o comentário sobre Black Museum:

    você acha mesmo que é um episódio “inovador” em sua estrutura narrativa? A estrutura é muito similar àquela do White Christmas. Aliás, acho que todas aquelas autorreferências também acabam sendo um comentário muito interessante (se não irônico na medida certa) do Charlie Brooker sobre a cultura do “fan service” tão em voga hoje em dia.

    1. Ah, sobre Crocodile: acho que o grande tema ali é o da memória individual (no fundo, o thriller com a bola de neve dos crimes acaba sendo apenas um bom pano de fundo, o que torna aquela situação ridícula com o porquinho da índia ainda mais interessante). O episódio se vendeu pra mim quando o dentista muda a memória dele no momento em que a moça fala que o casaco que ele estava lembrando era amarelo e não verde. Achei um comentário interessante sobre o caráter fugidio da memória, até mais que sobre as lágrimas de crocodilo.

  3. Gostei de todos, mas não como gostei da terceira temporada. Na verdade, prevalece um ar de “sei como vai acabar”. A maioria dos episódios foram previsíveis.
    O primeiro foi bom, e o cara que no começo senti pena acabou morto. Excelente.
    O segundo era óbvio que a garota iria se revoltar.
    O terceiro também, era esperado que a mulher fosse presa, como em um filme, e foi. Isso me deixou putaço. E fiquei mais ainda pq ela matou a criança que era cega. Vei…..
    O quarto, esse foi tipo San Junipero, foi calmo, feliz, interessante, quase real. É aquela quebra da natureza sofrível da série. E gosto disso.
    Metalhead foi interessantíssimo simplesmente pq é algo possível (não que os outros não sejam, mas esse tem algo a mais). E sendo P&B gerou aquela atmosfera entre o terror e o suspense, em que você não sente nenhum dos dois até algum momento X onde ambos afloram, aí no final tem a revelação, o ‘pq’ de tudo, algo tão simples, a tentativa de alegrar o resto da vida de alguém. Pq é isso que esse episódio mostra, que acima de tudo as pessoas continuam normais, adoecem, morrem, se sacrificam pelos outros. Um futuro onde isso não muda.
    O último não tenho nem o que dizer, foi referência atrás de referência, com explicações de tecnologias, ligações entre diversos episódios sem nem mencionar eles, e aí no final o plot twist, c@ralho, achei foda.
    Porém senti a falta de referências e contextualização em relação à nossa realidade, a terceira temporada mostrou isso com o primeiro episódio que mostra a superficialidade das pessoas nas redes sociais, ou o terceiro episódio que mostra a falta de proteção na Internet e como é fácil ser invadido. Até o último, que mostra as abelhas morrendo e o quão as pessoas são babacas na lixeira chamada Twitter; duas coisas que acontecem no tempo real nosso.

      1. E não há? Ok, ok, existe alguma coisa faltando, mas não é de todo mal. Abre caminho para possibilidades

  4. Black Mirror parece aquela série para pseudo intelectuais, pensadores de Facebook.
    Assisti duas temporadas, mas com um sofrimento psicológico absurdo, de tão ruim que achei a série.

    As críticas são tão rasas, que uma conversa no boteco com os amigos rende coisa muito melhor.

  5. Pô, Ghedin, eu entendo que alguns debates são rasos, mas em Arkangel rola a questão do dispositivo ter sido proibido, de ter sido só um experimento e a menina ser mal vista por ser a única do bando que tem o espião na cabeça.

    Digo, concordo com você que é uma baita oportunidade perdida não aprofundar nessas questões. Mas, a série também não é tããããão rasa assim, em alguns episódios ela trás essa questão de como a tecnologia é vista no mundo, mesmo que de formas sutis.

    1. Acho que é esse o meu problema com esses episódios e, em retrospecto, com a série: o que seria relevante, o principal assunto, acaba como um pouco secundário e tangencial ao conflito do episódio. Nesse sentido, foi mesmo uma oportunidade perdida de aprofundar essas questões.

  6. Pra mim o pior foi Metalhead, é como se você assistisse um episódio aleatório de uma série que você não acompanha. O ep termina sem explicar muitas coisas citadas nele.

  7. Creio que BM perdeu toda aquela atmosfera pesada e também não vi nenhum plot twist de verdade. Saudades White Christmas.

  8. Difícil voltar ao ápice da 2ª temporada, antes da venda, mas vale pela temática da série.

  9. Eu achei Metalhead e Crocodile muito bons.
    Tipo, são bons em conceito e poderiam ter virado filmes.
    Metalhead é quase um Mad Max.
    Crocodile é interessante pois começa a contar duas histórias totalmente separadas que vão convergindo. (é forçado, sim, mas eu falei que o conceito é interessante)