Coloque o smartphone no peito, continue vendo o que você está filmando.

O app que quer mudar seu jeito de compartilhar experiências online


30/7/15 às 9h25

Sempre temos uns momentos de epifania no transporte público, como quando olhamos em volta e percebemos que a maioria dos passageiros do ônibus está mexendo no celular. Daí começamos a pensar sobre o tal zeitgeist, sobre como estamos realmente vivendo a era da conexão. Mas não dá para se demorar muito no raciocínio porque o alerta do WhatsApp apita e queremos responder logo à mensagem que chegou.

Mesmo sem olhar, você sabe que quase todos estão checando alguma rede social. Facebook, Instagram, Twitter, Snapchat… dá para ficar aqui até amanhã. Não é de se estranhar que a gente note esse movimento no nosso cotidiano, qualquer estatística sobre uso de redes sociais no Brasil confirma o que percebemos. Entre 2012 e 2014, nos tornamos o segundo país com o maior uso de sites como Facebook, Twitter e YouTube. Já reparou na frequência com que brasileiros sobem uma hashtag para os Trending Topics mundiais no Twitter? Estamos em toda parte, de montão e gostamos de nos engajar.

Existem dois grandes eixos que explicam, de uma maneira bem simplista, a popularidade das redes sociais. Nós gostamos de mostrar para os outros o que estamos fazendo, ouvindo e pensando; temos, também, curiosidade sobre a vida das outras pessoas. Compartilhar, mesmo que banalidades, é uma forma de dar sentido à vida. Enxergar padrões que se repetem nos nossos feeds e timelines nos ajuda a entender e internalizar comportamentos que nos rodeiam. Parece viagem, mas compartilhar é, de fato, tudo. Saussure, um grande mestre da semiótica, defendia que produtos da interação social são instrumentos essenciais pelos quais constituímos e articulamos nosso mundo.

Outro grande motivo do sucesso dessas plataformas é a possibilidade de curadoria. Escolhemos o que mostrar, com qual enquadramento, brilho e saturação. Ter um perfil de Instagram com estética atraente é preocupação para a maioria das pessoas que usa a ferramenta com frequência. Dá para notar isso pelo número de tutoriais sobre tratamento de fotos no celular, que achamos espalhados pela internet — e pelo tempo que meus amigos gastam editando qualquer clique que vai ser postado. Esse fenômeno é chamado de Curated Self.

Um novo aplicativo, o Beme, quer desconstruir isso. Criado por Casey Neistat — uma figurona do YouTube — para competir com o Snapchat, o Beme exclui a parte na qual você esculpe o conteúdo postado. Em um vídeo apresentando o app, Neistat diz que nas mídias sociais prevalentes criamos uma “versão calculada e calibrada de nós mesmos”. O Beme surge na contramão: é um dos únicos aplicativos que limita o poder de mediação por parte do usuário.

Para gravar um vídeo, basta segurar o celular junto ao peito – ou seja, é possível manter os olhos na “real experiência”, outro grande ponto feito por Neistat. Você irá ouvir dois sinais: um avisando que a gravação começou e, alguns segundos depois, outro beep informa que o vídeo foi finalizado e automaticamente postado. A logística é simples: o app usa o sensor de proximidade do celular como substituto do botão “gravar”. Seus amigos poderão ver o “Beme” apenas uma vez, assim como no Snapchat.

Apesar de parecer descomplicada, a ferramenta deixa algumas brechas. Como bem notou Casey Johnstone, uma jornalista americana que escreve sobre tecnologia, o aplicativo foi pensando para homens. Ela diz: “Não é tão simples quanto ‘pressionar o celular contra seu peito’, uma vez que meu peito, como o da maioria das mulheres, não é reto. Assim como vários outros produtos de startups de tecnologia, esse é só mais um que requer maior esforço por parte das mulheres”.

Tem mais: por enquanto, o aplicativo é exclusivo para quem usa iPhone. O problema disso é que novidades no mercado da tecnologia têm que se fiar no boca a boca: seu amigo usa o app e te recomenda. Aplicativos exclusivos para iOS acabam criando um círculo exclusivo de quem pode testar e recomendar a ferramenta. Afinal, fora dos EUA a fatia de mercado do Android é muito maior.

Casey explica como o Beme é diferente de outras redes sociais.

Mas o Beme tem outro grande problema — o maior, diga-se de passagem — para encarar. Nossas noções enquanto usuários de redes sociais foram todas construídas com base na curadoria que falei lá em cima. Espontaneidade soa como algo muito bonito, mas pode gerar coisas que são bem…chatas. A ideia de compartilhar pedaços do seu cotidiano sem antes “calibrar e esculpir” parece encantadora e até meio utópica. Mas o dia da maioria das pessoas simplesmente não é composto por atividades emocionantes. Seu prato de macarrão não seria tão bonito para a vista se você não tivesse alterado a saturação da imagem no Instagram. E, sem um enquadramento bacana, a foto daquele prédio do centro da sua cidade seria só mais uma foto de prédio.

É bom lembrar que algo na mesma linha já foi feito antes. No ano passado, uma startup lançou o Narrative Clip: uma câmera em miniatura, pequena o suficiente para ser anexada à roupa. Durante o decorrer do seu dia, o aparelho tira fotos automaticamente. O objetivo seria fazer um diário imagético do cotidiano do usuário. As fotos, que são tiradas a cada 30 segundos, vão direto para o app, o Narrative Cloud, que deve ser usado juntamente ao clip.

O conceito é interessante e surge da noção de que, em meio à nossa rotina monótona, podem surgir momentos especiais e inusitados, merecedores de um registro. Mas, no fim das contas, o trabalhador médio que usar o Narrative Clip vai ter muitas fotos de um ônibus lotado e do almoço no self-service perto da firma. Coisas que, sejamos sinceros, não conseguiriam muitas curtidas nas redes sociais.

A vida é mais interessante quando podemos editá-la. O Beme mira em um nicho que, de fato, é uma lacuna no mercado. Mas talvez nunca se torne tão popular quanto aqueles aplicativos que nos permitem criar uma persona online, com fotografia digna de filme do Wes Anderson. Ou algum outro diretor da sua preferência. Como todo o resto, você decide.

Texto revisado por Guilherme Teixeira.

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17 comentários

  1. Cara, eu achei a ideia ótima, pq ela pode não ter valor agora, mas no futuro será de um valor inestimável, pq uma das coisas mais difíceis é saber “como se vivia no passado”. Como do nosso passado – e bem antes – temos pouca coisa em vídeo, qdo algo aparece é muito foda. De tudo que gravamos hj vai sobrar bem pouco provavelmente, em parte pq haverá muita perda e pq haverá muito descarte voluntário. Mas vejam isso: https://www.youtube.com/watch?v=VU8fX2OYe9E
    É um vídeo provavelmente considerado besta se fizermos algo do tipo hoje. Mas quando vc pega um google street view e vê q de, sei lá uns três anos pra cá, as coisas nas ruas já mudaram, ter esse material meio bruto assim, no futuro, vai ser um espetáculo. Somado àquilo q ainda será criado pra “reanimar” esses vídeos, as chances são grandes. Meio Holodeck até, vai saber. Eu como tenho poucos registros do meu passado e infância tenho q apelar à memória, aos parentes e a alguns registros perdidos na internet… Se tivesse algo mais, isso teria um valor inestimável pra mim… Acho q subestimamos um pouco essas ferramentas por q estamos muito no presente, com pouco interesse no passado, e achando q o futuro tá longe.

      1. Se tiver uma opção de “salvar para a posteridade”, seria interessante. Acho que é isso que o Fábio quis chegar :)

        Mas acho que no final concordamos com o Fábio: o passado não tem muita informação… e isso faz falta mesmo.

        Uma história pessoal: editei uma vez um vídeo com a história da cidade onde atualmente moro. Achei um trabalho bacana, e como meu amigo que pediu a edição conhece a cidade, ele me falava sobre detalhes da cidade, dos moradores e tudo mais.

          1. do q é produzido hj e até mais adiante. esses q nasceram e nascem agora com o formato digital a todo vapor terão apenas fragmentos desses registros, já q não há uma preocupação geral com preservar isso. sem falar na volatilidade das propostas, de produzir algo q vai desaparecer em seguida. acho essa lógica bem equivocada.

          2. É bem por aí. Só não creio q a solução vai sair de um “pergaminho”, códice ou algo parecido com o livro… Vai ser necessário algo novo mesmo pra conseguir ler todos os formatos, não ter galho com caracteres etc. Vou ficar de olho nesse Mahadev Satyanarayanan, apesar de não conseguir pronunciar o nome dele direito ainda, quem sabe ele não tira esse “algo novo” da cartola.

    1. Qualé, Louis!? Vc precisa tomar uma vitamina com Neston qdo acorda, cara… O presente é a melhor época pra se viver!

  2. Tem um aspecto interessante nessa discussão, que acabei não levantando quando conversamos sobre a pauta, que é o sucesso do Periscope e do Meerkat, apps que, além de transmitirem realidades cruas, ainda são ao vivo.

    O Beme tenta levar esse aspecto à comunicação assíncrona (como a que rola no Snapchat e no Vine). A mim, essa conta parece não fechar. Nas vezes em que usei o Periscope/Meerkat, tanto produzindo vídeo quanto consumindo, achei legal apesar de ser do jeito que é, sem filtro, sem edição, cru, e atribuo muito disso ao fator ao vivo — que se perde no Beme.

    Mas… né? Eu é que não vou fazer apostas. Tanta coisa que a princípio achei boba, do Twitter ao Snapchat, e hoje uso. Talvez daqui a alguns meses eu esteja andando por aí com o celular no peito; não quero morder a língua (de novo).

    1. Como a menina falou no texto, o ponto é justamente entre o cru e o assado-e-temperado.

      A realidade crua não tem sabor pois as pessoas desaprenderam a gostar disto. De alguma forma, quando descobrimos os temperos, queremos colocar para dar um “tchan” a mais. Vale para tudo.

      O que temo com isso é que a realidade crua também tem seus males. Uma pessoa pode usar o Beme (ou já deve ter ocorrido isso nos outros apps citados) para também servir como mostra de coisas prejudiciais, de amargor. A vida crua é geralmente insípida (quando é comum), amarga, azeda e as vezes até podre (quando tem seu lado prejudicial). Não é 100% doce natural feito do frutose :). Violência, erros humanos, etc… Muita gente compartilha isso por várias redes sociais…

      PS: não costumo usar este tipo de app social. Sério. Acho que devido a situações anteriores, também me amargurei um pouco…

      1. Vagner, acho que é isso mesmo. Como eu disse no texto, usamos e gostamos de redes sociais porque podemos colocar um “tempero” na nossa vida. Escolhemos o que vamos compartilhar e cada detalhe de como vai ser compartilhado. Por enquanto, eu tenho a visão de que o Beme seria legal de usar pelas questões logísticas mesmo. Quando eu não quiser ficar olhando para o celular enquanto gravo algo, por exemplo. Mas seriam situações bem pontuais, por isso minha aposta é de que ele talvez nunca seja tão popular quanto aplicativos que nos permitem mediação sobre o que vai ser postado.

  3. Gosto muito do Neistat, acompanho todos os vlogs dele (único vlog na internet que eu vejo), fora os “filmes” pro youtube etc, mas esse app não me convence, apesar de todos os textos etc, eu era relutante por exemplo para usar o Snapchat, agora que comecei a usar, acho difícil largar por algo que faça coisas “semelhantes” a ele.

    1. Eu também acompanho – e adoro- os vlogs dele (que inclusive foram feitos com o intuito de promover o Beme, sabia? Um mega plano de marketing). Tenho minhas dúvidas sobre o quanto esse app vai pegar pelos motivos que falei lá no texto, mas o mercado da tecnologia é uma grande “vai que”, né? haha No começo eu também era das pessoas que não entendia o Snapchat, achava meio inútil, e agora checar snap é igual ler a timeline do Twitter, virou ritual.

  4. Gosto muito do Neistat, acompanho todos os vlogs dele (único vlog na internet que eu vejo), fora os “filmes” pro youtube etc, mas esse app não me convence, apesar de todos os textos etc, eu era relutante por exemplo para usar o Snapchat, agora que comecei a usar, acho difícil largar por algo que faça coisas “semelhantes” a ele.

  5. Gosto muito do Neistat, acompanho todos os vlogs dele (único vlog na internet que eu vejo), fora os “filmes” pro youtube etc, mas esse app não me convence, apesar de todos os textos etc, eu era relutante por exemplo para usar o Snapchat, agora que comecei a usar, acho difícil largar por algo que faça coisas “semelhantes” a ele.