A odisseia da autopublicação: como lançar um ebook no Brasil

Impressão. Gravura do século XIX. Autor desconhecido.

Relato de Wagner Ribeiro

“Nasci em 1969, ano em que a Apolo 11 pousou na Lua, e algum tempo depois, ali pelos meus seis ou sete verões de idade, eu passeava de mãos dadas com uma tia minha por uma cidadezinha litorânea aqui do Rio de Janeiro, localidade, na época, bucólica e muito pouco iluminada por lâmpadas elétricas. Era noite e essa querida tia, então, me fez olhar diretamente para cima e me disse “aquela é a Via Láctea, nosso Sol é um desses pontinhos de luz que você tá vendo”. E eu nunca mais fui o mesmo, as estrelas reclamaram minha pequenina alma e nunca mais devolveram!

A partir de então tudo que tinha haver com o espaço foi, aos poucos, me fascinando e absorvendo. Li, assisti e pensei em ficção científica desse que me entendo por gente. Eu não queria “só” ser astronauta, eu tinha certeza que, se pudesse, eu conquistaria minha cadeira de comando em uma nave da Frota Estelar (de Star Trek)! Logo passei a desenhar, ler sem parar e escrever (canhestramente a princípio, é claro) ficção científica, até que, num impulso inexplicável de falta de senso, eu participei do concurso da antiga e saudosa Isaac Asimov Magazine, onde evidentemente não consegui nada além de ser listado entre os participantes.

Mas nunca desisti. Mesmo não sendo o melhor nadador, como um peixe pode desistir de viver na água? Fui em frente, lendo e rabiscando ideais, até que fui convidado pelo Diretor da primeira websérie brasileira de ficção científica, Onda Zero, a ajudar com o roteiro desta incrível e desafiante produção, e logo eu me vi assumindo o papel de roteirista principal. O retorno que tivemos do público foi tão empolgante, tão gratificante, que tomei novo impulso e nova coragem e, incentivado por grandes amigos que são os melhores jogadores de RPG do mundo (ao menos que eu os vejo assim!), romanceei uma série de aventuras de RPG que jogamos desde o final do século passado. Nascia o Código 7 Infinidade.

Capa de Ato de Fé 1, primeiro livro da coleção Código 7 Infinidade.
Foto: Amazon/Reprodução.

C7i, como costumo chamar abreviadamente e carinhosamente, não é um livro-jogo, e sim é uma versão em prosa, romanceada, de uma série real de jogos de RPG que acontece (hoje muito esporadicamente) desde 1998, e eis o que torna essa série de ficção científica sui generis: na maioria das vezes em que você vê um personagem enfrentando uma situação difícil, ali não está somente a escolha do autor, mas sim uma jogada, com dados, ou seja, se um personagem sobrevive, aquilo foi de fato tirado “na sorte”! Outro fato curioso é que o RPG, diferente do cinema, é onde as pessoas vão buscar não exatamente novidades, no sentido de coisas jamais vistas antes, mas sim a oportunidade de vivenciarem coisas que viram seus “heróis” fazendo em outras mídias.

Então C7i foi um tremendo desafio, pois me obrigou a construir um texto o mais inovador que eu pude fazer, sem negar sua origem e as grandes quantidades de referências nele presentes. A certa altura das próximas temporadas, por exemplo, os leitores encontrarão lajes negras que, embora tenham outro objetivo e funcionamento em Código 7, são claras referências a 2001: Uma Odisseia no Espaço. Séries de “scifi”, animes, mangás, livros e outras tantas fontes vão surgindo no decorrer da série, quem ler verá. Já o arco principal da primeira temporada (que ao fim desta deve perfazer uns trinta volumes) nos mostra uma humanidade que coloniza todo o nosso Sistema Solar, mas que ainda não alcançou as estrelas, e nos explica o porquê: as autoridades da Terra sabem que o Universo é repleto de espécies que podem, facilmente, nos destruir, então nossos líderes pretendem manter a humanidade escondida em seu planeta natal até ela ser forte o suficiente para enfrentar o que há entre as estrelas. No entanto um evento ocorre, e, por meio de uma traição, um ser alienígena invade o nosso espaço. Ele não é um vilão, muito pelo contrário, se fosse humano, poderia ser um jovem de boa fé, mas ele crê que precisa levar a salvação aos humanos, e se ele alcançar a Terra, sua simples presença entre nós pode nos destruir completamente. Então tem início uma eletrizante corrida contra o tempo, para impedir que esse apocalipse alienígena aconteça.

Na verdade eu já escrevi e fui ao mesmo tempo publicando, a princípio, gratuitamente, para leitura direta via site na Internet. No entanto o formato despertou apenas um interesse moderado, e eu estou alcançando maior resposta do público agora que tangibilizei a obra e a publiquei via KDP na Amazon, sendo que toda a editoração e arte das capas são também de minha autoria. Eu não tentei buscar editoras e publicar direto em papel por entender que seria um caminho extremamente difícil para um iniciante, ainda mais no gênero no qual eu gosto de escrever. Também invisto no e-book por acreditar no formato, e na autopublicação.

O retorno, mesmo sendo ainda tímido, me deixa exultante, pois cada pessoa cuja mente e coração eu toco, divirto e faço sentir e pensar, me traz uma gratificante sensação de dever cumprido, pois de fato o meu objetivo no momento não é o lucro (mesmo que ele seja bem-vindo, pois me possibilitaria escrever mais e melhor para vocês) mas sim fomentar a ficção científica no Brasil, onde existem grandes autores, alguns muito consagrados, mas cuja penetração no grande público é pequena. Nós apoiamos, valorizamos mais e assistimos mais os grandes produtos (livros, filmes, séries, etc) de ficção científica dos EUA, por exemplo, e enquanto cultura geral, assistimos, lemos e acompanhamos produções nacionais que em sua esmagadora maioria são novelas, livros e séries de época ou que retratam nossa atual realidade.

Então, enquanto nós nunca nos perguntamos como será o Brasil daqui há 10, 20, 50 ou cem anos, o americano médio se vê lá, o tempo todo, através do “scifi” deles, daí eles vendem computadores, celulares, e nós compramos. Os orientais valorizam, através de seus mangás e animes, a ficção científica, então eles vendem celulares e computadores, e nós, novamente, apenas compramos. Acredito piamente que há uma direta relação aqui. E acredito ser urgente que levemos o Povo brasileiro a respeitar o passado, valorizar seu presente, mas também a olhar para frente, para o futuro! Quem não se vê no futuro, não vai estar nele. Portanto escrever e contar histórias me faz sentir fazendo o que fui “fabricado” para fazer, e escrever ficção científica, além de ser natural para mim (o que, eu sei, não implica em qualidade, mas é muito bom de se fazer) é também parte de algo que creio ser importante: falar sobre os NOSSOS amanhãs!

No momento publico apenas na Amazon, mas estudo outros canais, inclusive alcançar o mercado internacional, via tradução de alta qualidade para o inglês (está difícil achar uma relação custo/benefício razoável, mas vou acabar conseguindo), o que a princípio pode parecer um conflito com o que acabo de afirmar acima, mas que é uma estratégia para, com o apoio de um público global, poder fomentar melhor um público local.

Apesar de estar “dobrando o Cabo da Boa Esperança”, como dizia minha avó, e de estar já com meus 44 anos, a bem da verdade eu próprio sou um escritor iniciante, visto que C7i é meu primeiro trabalho publicado (eu tenho um outro na manga, chamado O Tesserato, que fala sobre jovens brasileiros bem “comuns”, que são, sem saber, “desenhistas de universos”, mas isso é papo pra outra hora). No entanto, se devo falar para quem quer escrever, digo: leia, escreva e apoie todos os que escrevem também. Explico: não se escreve nada com qualidade se não se lê (muito!) material de qualidade. Lendo bastante, escreva mais ainda, pois só o treino intenso nos faz descobrir maneiras cada vez melhores de escrever histórias. Até aqui nada de novo, eu sei, mas certamente são posturas essenciais.

Por fim, eis algo fundamental e que raramente vejo sendo sugerido: apoie, pois somente se nos apoiarmos mutuamente, ativamente, divulgando, sem egocentrismos, os trabalhos uns dos outros, fortaleceremos este mercado, que certamente tem espaço para todos! Eu mesmo, sempre que esbarro com um material legal de outro autor, até melhores que os meus (o que, risos, infelizmente não é tão difícil quanto eu gostaria), faço questão de divulgar na página de C7i no Facebook.”

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30 comentários

  1. Este ano publiquei meu livro, em capa comum e ebook, na Amazon. ´É sobre o tema desenvolvimento pessoal (autoajuda). Trata-se de um método que elaborei, e sempre funcionou comigo para atingir minhas metas, realizar meus sonhos. Por isso, decidi colocá-lo por escrito e desse modo ajudar meus semelhantes a realizarem seus sonhos, alcançarem seus objetivos, atingir suas metas, de modo simples, intuitivo e eficaz. Quem comprar o livro em papel, recebe o ebook grátis.

    Deixo abaixo o link para pesquisarem :

    https://www.amazon.es/dp/1976851432

    Felicidades à todos.

  2. Puxa, não consegui parar de ler. Obrigado pelas informações, são extremamente úteis. Vale lembrar que não há um vencedor que não tenha incorporado o espírito da perseverança. Mesmo os grandes começaram pequenos!

  3. Sou designer e comecei a escrever. Pensei no amazon e nessas outras editoras em que você envia o arquivo e eles publicam. Mas achei o lucro extremamente pequeno. Criei um site e estou pensando publicar por la mesmo sabendo da pouca visibilidade. Posso pagar alguem pra traduzir em ingles e publicar nessas redes sociais de autores. Otimo texto, muito obrigado!

  4. Parabéns Marcellus,
    muito elucidativo teu texto. Tenho uma obra que já foi publicado online, já foi publicado por uma editora física, já comercializei, acho que devo ter vendido cerca de 400 exemplares. Mas estou muito a fim de publicar no formato e-book, recebo propostas de editoras online que pedem uma grana pra formatar e etc e depois publicar, divulgar e vender. Ainda estou estudando se esse é o melhor caminho ou simplesmente faço a autopublicação, o que vc sugeriu. Veja no link https://www.facebook.com/aanatomiadodivorcio/?fref=ts

    Abraço!
    Maik Oliveira

  5. Sou leitor assíduo de C7 e recomendo a todos que gostem de ficção científica. E até os que não curtem muito, pois a série é divertida para todos os gostos e é impossível não se apaixonar pelos personagens. Aprendiz, bjo, me liga! Rs! :-)

  6. Olá a todos.
    Achei muito interessante ler os prós e contras da publicação e da autopublicação online. Gostaria de poder compartilhar aqui com vocês, até mesmo numa tentativa de incrementar o post: a plataforma XinXii também atua na autopublicação de eBooks de maneira gratuita.
    Para eBooks de ficção, o ISBN sai de graça. Basta você fazer o upload e seguir as instruções.
    Para saber como publicar no XinXii, basta clicar no link. São somente 3 passos e você já estará com seu conteúdo online.
    Grata
    http://www.xinxii.com/gd_cms.php/pt?page=publish_pt

  7. Excelente texto, parabéns. Você explica de uma forma tão clara que só não entende quem não quer.
    Quanto ao GOOGLE PLAY realmente é uma complicação miserável.Consegui disponibilizar parte dos textos dos meus livros no GOOGLE BOOKS, mas queria comercializá-los no google play e não consegui. Eles disseram que o google ainda não está vendendo livros de autores brasileiros. Só que no site deles tem vários livros de brasileiros.

  8. Olá pessoal,
    achei o psot maravilhoso, bastante didático e de muita ajuda para quem quer começar a autopublicar mas não sabe quais os primeiros passos para isso.
    Eu gostaria de sugerir aqui também uma plataforma gratuita pela qual publiquei um livro infantil, a xinxii.com/pt
    É tudo gratuito, ISBN também é grátis para a categoria ficção e você ainda venda nas lojas parceiras como Amazon, Kobo, livraria cultura, tudo através do único perfil no XinXii. Acho uma boa oportunidade também, já que a dificuldade para nós é bem grande.
    Sorte a todos! Abraços
    Verô.

  9. É possível e viável publicar obras de domínio público?? A minha ideia era fazer uma boa capa e uma diagramação e colocar alguns livros a venda por um bom preço.

  10. Marcellus,

    Eu tenho pretensões de autopublicação um livro didático. Você acha que é uma ideia razoável? Imagino que exista uma grande dificuldade na formatação dele (matemática) e ainda não fui atrás desses detalhes.

    1. Olá, Eloy, há quanto tempo, hein?! :-)

      O problema da formatação de fórmulas matemáticas foi um dos pontos de discussão da versão 3 do formato epub. Nunca fiz o teste, mas a especificação diz que há suporte a MathML, o que deve fazer com que equações e gráficos apareçam como o autor imaginou.

      Infelizmente, o Kindle não suporta o formato e, pelo pouco que li, você teria que enfiar as fórmulas como imagens PNG. Não é o melhor dos mundos…

      Agora, sobre o mercado, sinceramente não sei dizer. O que tenho visto na faculdade de engenharia é desalentador: a maioria não tem noção do que seja um Kindle e já houve casos de *professores* divulgando sites onde é possível baixar cópias digitalizadas. Então, comercialmente talvez não valha a pena.

      Por outro lado, como realização pessoal é uma coisa fantástica! Se eu fosse você, tocaria como um projeto de final de semana. Mal não fará. ;-)

      1. Sem dúvida!
        Você sabe se existem empresas que formatam o livro em Epub3 a partir de originais em word?

        1. (Muito tempo depois, olha eu aqui!)

          Eloy, o iBooks Author que o Marcellus cita no texto, embora possa ser usado para diversos fins, foi concebido para a criação de livros didáticos. Não sei se usa ou se tem pretensões de usar um Mac, mas dependendo da importância desse projeto, pode ser uma boa.

          1. O projeto é importante (target: jan/2015), e acredito que seja quase impossível levá-lo sozinho; precisarei contratar uma empresa ou um digitador/diagramador competente e dedicado. :-)

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