Sam Altman criou um blog com um texto intitulado “a era da inteligência” que, imagino, não foi revisado pelos marqueteiros da OpenAI. Não tanto por estar publicado em um domínio com o nome de Altman, mas mais porque é um texto medíocre, tão ruim e repleto de promessas grandiosas, vazias e/ou não verificáveis que acho que nem o ChatGPT seria capaz de gerar.

“É possível que tenhamos superinteligência em alguns milhares de dias (!)”, escreve Altman. “Alguns milhares de dias” significa uns bons anos em que ele poderá continuar engambelando meio mundo com uma IA que está longe de fazer qualquer coisa que promete. “Pode demorar mais, mas estou confiante de que chegaremos lá.” Opa, talvez demore um pouco mais, mas espere aí sentado que chegaremos lá. Um dia. Talvez. A gente vai se falando.

Vou te poupar de ler aquilo porque as +1 mil palavras podem ser resumidas em uma linha: “IA será revolucionária em breve, quero mais dinheiro.”

Como é possível tanta gente esperta não perceber que a maior “alucinação” expelida pela IA foi esse Sam Altman? / ia.samaltman.com (em inglês)

Em notas relacionadas:

  • OpenAI está se preparando para se livrar da parte sem fins lucrativos e assumir-se a empresa comum que é, sedenta por dinheiro e poder, e, no processo, dar a Altman um quinhão das ações. / reuters.com (em inglês)
  • Duas lideranças da OpenAI, Mira Murati (CTO) e Bob McGrew (CRO), e Barret Zoph (VP de pesquisa), anunciaram suas saídas da OpenAI. / cnbc.com, techcrunch.com (ambos em inglês)

Notícias da semana

Curadoria das principais notícias de tecnologia da semana.

Sexta, 18/7

O Google vai desativar seu encurtador de URLs, o goo.gl. Todos os links do tipo deixarão de funcionar em 25/8/2025. Encurtadores de URLs sempre foram uma má ideia. / developers.googleblog.com (em inglês)

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Segunda, 22/7

O Google desistiu de aposentar o bloqueio a cookies de terceiros no Chrome. Em vez disso, vai introduzir uma “nova experiência” que permita às pessoas fazer uma “escolha informada” que vale para toda a navegação web. Finja surpresa… / privacysandbox.com (em inglês)

O Pix Automático, modalidade de cobranças recorrentes do Pix, foi adiado outra vez, para 16/6/2025. O Banco Central anunciou também alguns reforços na segurança do Pix que passam a valer em 1º/11 deste ano. / bcb.gov.br

A União Europeia notificou a Meta de que seu arranjo de exigir uma assinatura paga como alternativa à vigilância dos usuários do Facebook viola os direitos dos consumidores do bloco. Note que essa rusga em nada tem a ver com a GDPR (lei de proteção de dados pessoais), ou seja, ainda há espaço para mais porradaria. / ec.europa.eu

A Meta liberou a sua assinatura paga, Meta Verified, para empresas no Brasil. São quatro planos, com valores que chegam a R$ 10 mil por ano. / oglobo.globo.com

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Terça, 23/7

A Meta expandiu sua inteligência artificial para mais países, incluindo vários da América Latina, mas deixou o Brasil de fora “devido a incertezas regulatórias”. / about.fb.com

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Quarta, 24/7

Sistema do governo atingido por ataque hacker foi criado no Judiciário e é usado em mais de 300 órgãos. folha.uol.com.br

A beleza da concorrência: na Europa, a AltStore PAL, loja de apps alternativa para o iOS, publicou seus primeiros apps de terceiros — incluindo dois clientes de BitTorrent, categoria de app vetada pela Apple em sua App Store. / fosstodon.org/@altstore (em inglês)

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Quinta, 25/7

A OpenAI anunciou um protótipo (beta) do SearchGPT, seu aguardado buscador web. Pelos vídeos, parece trazer novas ideias à mesa, com a vantagem de não ter que conciliá-las com experiências legadas, como Bing e Google. Tem fila de espera para testar. / openai.com (em inglês)

Saiu o Linux Mint 22 “Wilma”. Esta versão é baseada no Ubuntu 24.04 LTS e terá suporte até 2029. / omgubuntu.co.uk (em inglês)

Ouro de tolo

Foto em preto e branco de milhares de trabalhadores na Serra Pelada.

Se a inteligência artificial é a nova corrida do ouro, vale a velha máxima de que faz dinheiro de verdade quem vende pás e picaretas.

No caso, as pás e picaretas da IA (sem duplo sentido; acho) são os chips H100 e variações da Nvidia, empresa que vive tropeçando em mercado “revolucionários” que dependem de quantidades abismais de processamento computacional.

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Tecnologias anti-inteligência artificial

Uma nova rede social fez barulho esta semana com uma proposta diferente: ela é anti-IA. Chama-se Cara e é uma espécie de Instagram misturado com portfólio. Atraiu artistas — o que não é de se estranhar —, mas viralizou o bastante para ser comentada em outros círculos. (Ganhou um tópico no Órbita, aliás.)

Não me parece ser algo que valha o seu ou o meu tempo. É mais uma rede fechada que, se vingar — uma remota possibilidade —, será vendida, fechada ou corrompida por anúncios invasivos daqui a alguns anos. As defesas contra a coleta de imagens para treinar IAs são frágeis e não há qualquer garantia de que funcionem.

Em junho de 2023, uma construtora na Bélgica deu uma zoada no ChatGPT para se promover. Era marketing de ocasião, tipo quando perfil de empresa no Twitter pega carona em memes. Sinal de que o objeto da gozação chegou ao grande público — e, no caso dos memes, sua sentença de morte.

O caso da Cara chama a atenção porque não usa a IA como gancho para uma piada. Ela leva esse posicionamento a sério. É tipo quando alguém sai do Instagram ou do Twitter e vai para o Mastodon sem ter outro assunto que não falar de como o Instagram e o Twitter são ruins, ou seja, é insustentável.

Por outro lado, fico pensando se, em algum momento futuro, a IA não se transformará em uma espécie de gordura trans da tecnologia, um recurso indesejado, nada digno de se gabar, mas tolerado, mais ou menos como o assalto à privacidade que plataformas e aplicativos comerciais fazem e estamos aí, cientes e paralisados — ou quase; o dedão ainda se mexe para rolar a tela.

Sam Altman não sabe interpretar filmes — um problema para nós e a Scarlett Johansson

O fiasco da voz do ChatGPT “inspirada” na da Scarlett Johansson reforçou minha teoria de que as grandes mentes do Vale do Silício não sabem interpretar filmes e livros. Ou talvez não os assistam até o final. Ou as duas coisas.

De qualquer forma, o que poderia ser apenas um constrangimento se torna um problemão quando as obras favoritas desses ~gênios bilionários e poderosos são distopias.

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Também se poderia pensar no círculo [do ChatGPT] como um buraco de negro para a mídia e o conhecimento: todas as imagens e textos do mundo comprimidos em uma bola super densa da qual nenhuma informação sobre seus dados de treinamento consegue escapar (exceto em processos judiciais).

— Devin Coldewey, repórter do TechCrunch.

Devin comenta o novo logo (ou símbolo? Sei lá) do ChatGPT, um círculo preto que se transforma em ondas sonoras estilizadas quando ativo. Ainda tenho mais coisas a dizer sobre a apresentação bizarra da OpenAI na segunda (13) e do Google, no dia seguinte — ambas cheias de novidades que impressionam pela técnica e decepcionam pela falta de criatividade. Inscreva-se na newsletter gratuita para receber meus pitacos em primeira mão.

Primeiro o Reddit, depois o Quora e, agora, o Stack Overflow: as três empresas, criadas em cima de conteúdo gerado pelos usuários, com um forte apelo comunal, ou seja, de pessoas interagindo com pessoas, fecharam acordos com a OpenAI para fornecer esse conteúdo humano para treinar inteligências artificiais/grandes modelos de linguagem (LLMs).

É bem provável que os termos de uso dessas plataformas permitam tal atitude, mas não deixa de ser, para muitos, uma espécie de traição — piorada quando tentativas de mitigar o assalto de trabalho voluntário e desinteressado são combatidas a ferro e fogo pela plataforma.

E se a IA generativa não for tudo isso?

Fogueira em preto e branco, com efeito dithering.

Em novembro de 2023, em meio à confusão da demissão e readmissão de Sam Altman na OpenAI, saiu um rumor na imprensa de que a startup teria alcançado um novo patamar para a inteligência artificial (IA) generativa com um tal de Projeto Q*.

Segundo a Reuters, que deu a notícia em primeira mão, o Q* seria “um novo modelo capaz de resolver certos problemas matemáticos”.

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Como as gigantes de tecnologia dão um jeitinho para coletar dados para IA 

O New York Times publicou uma reportagem bombástica mostrando como, nos bastidores, as grandes empresas de IA dão um jeitinho (às vezes ilegal) de obter conteúdo para treinar seus grandes modelos de linguagem, base das IAs generativas.

A parte mais engraçada é o Google fazendo vista grossa para a OpenAI raspando 1 milhão de horas (!) de vídeos do YouTube para transcrever e alimentar o GPT-4 porque o próprio Google estava fazendo o mesmo para o Gemini. (A prática viola os termos de uso do YouTube.)

Detalhe: dois dias antes, o CEO do YouTube, Neal Mohan, disse à Bloomberg (sem paywall) que o uso de vídeos pela OpenAI para treinar a Sora seria contra as diretrizes da plataforma.

Estamos tristes por ter chegado a isso com alguém [Elon Musk] que admiramos profundamente — alguém que nos inspirou a mirar mais alto, depois nos disse que fracassaríamos, lançou uma concorrente e, então, nos processou no momento em que começamos a fazer progressos significativos na missão da OpenAI sem ele.

Sam Altman e outros executivos da OpenAI.

A frase acima fecha um post no blog da OpenAI que rebate os argumentos de Elon Musk no processo que o bilionário move contra a empresa que co-fundou. O texto é recheado de e-mails contraditórios de Musk — que, sem surpresa, tentou controlar a OpenAI e abandonou o barco quando fracassou.

Vinte empresas envolvidas com inteligência artificial — incluindo Google, OpenAI, Meta, Microsoft e TikTok — firmaram um acordo na Alemanha a fim de combater o uso enganoso de IA nas eleições em +40 países previstas para acontecer em 2024.

É tipo um “Conar da IA”, pautado por sete princípios e algumas promessas vagas de combate a maus usos, mais transparência e conscientização dos eleitores. Melhor que nada, mas parece pouco diante do potencial da IA gerativa para fins pouco ou nada democráticos.

A OpenAI revelou — com vários clipes — a Sora, sua nova IA que produz vídeos de até 1min a partir de enunciados. São surpreendentes. Fiquei pensando em quais os casos de uso possíveis. Por que alguém iria querer forjar vídeos, fora para fins de entretenimento (cinema/ficção)? Uma hipótese é porque tudo é entretenimento, como já alertava Neil Postman nos anos 1980. Alguém tem outra hipótese?