Na tentativa de consolidar poder sobre a distribuição de apps no Android, Google enfrenta resistência

Existem muitas diferenças entre Android e iOS. Uma fundamental é a disponibilidade do código-fonte: enquanto o iOS é fechado/proprietário, ou seja, só a Apple tem acesso, o Android é aberto. Qualquer um pode olhá-lo e modificá-lo.

A gente sempre ouve isso, mas a realidade — como sempre — é um pouco mais complexa. O Android é, de fato, aberto, mas o sistema que a maioria das pessoas usa no dia a dia em seus celulares tem muitas camadas extras de software proprietário do Google. As diferenças são tantas que o Android base, a parte FOSS (sigla em inglês para “software livre e de código aberto”), tem até um nome próprio: AOSP, ou Android Open Source Project.

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Sua vida digital não é sua: a batalha oculta pela liberdade do software  fsf.org

Sou muito simpático ao software livre. (E lamento não usar mais softwares do tipo.) No blog da Free Software Foundation, Jason Self reforça a importância das quatro liberdades do FOSS em face do aprendizado de máquina — que, neste contexto, se confunde com o que chamam por aí de “inteligência artificial”. Ele o define assim:

[…] software que não apenas segue instruções, mas aprende e toma decisões autônomas. É um novo e poderoso tipo de código, e se tornou a caixa preta mais profunda já criada.

O texto apresenta a IA como uma ameaça para revisitar as bases do movimento. O que é sempre bom e, vez ou outra (como neste caso), revela histórias desconhecidas do público (ou a mim, pelo menos). É por uma dessas, a da criação do conceito de software livre, que trouxe este link para cá:

No Laboratório de Inteligência Artificial do MIT, um programador chamado Richard Stallman ficou frustrado com uma nova impressora a laser da Xerox que vivia emperrando. Sua solução era simples: modificar o programa para notificar automaticamente os usuários na rede sobre o congestionamento, economizando tempo e frustração de todos. O problema era que ele não tinha permissão; o código-fonte do programa era um segredo. Embora um programador em outra universidade tivesse o código, ele estava vinculado a um acordo de confidencialidade e se recusou a compartilhá-lo. Isso não foi apenas um inconveniente; foi uma crise ética em miniatura. Um problema prático se tornou impossível de resolver, não por razões técnicas, e definitivamente não porque era melhor assim. Uma barreira foi colocada intencionalmente para negar aos usuários o controle sobre o software que eles usavam.

Esse momento de frustração acendeu a centelha para o movimento do software livre.

Na próxima vez que a minha impressora emperrar, encararei a situação com um pouco mais de animação. Forçando um pouco a barra, ela tem um quê de sagrado, pois reproduzem o momento da criação do software livre. Amém!

Home Assistant Voice Preview Edition, a alternativa livre às Alexa e Siri para controlar casas inteligentes

por James Pond

Quando o assunto é caixas de som inteligentes, a Amazon tem a Alexa, Apple tem o HomePod e o Google tem o Nest. Se você quiser algo privado — que rode localmente — para controlar a sua casa, não existem alternativas.

Ou não existiam. Para fechar essa lacuna, a Nabu Casa, patrocinadora do projeto de código aberto Home Assistant, lançou o Home Assistant Voice Preview Edition.

Comprei seis desses aparelhos para substituir seis HomePods que tinha espalhados pela casa. Depois de algum tempo de uso, a pergunta que fica é: dá para confiar nesse para o uso no dia a dia, ou é melhor esperar por uma versão que não tenha “preview” no nome?

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Como projetos de software aberto devem lidar com código gerado por IA?

O ótimo KeePassXC, gerenciador de senhas offline e de código aberto, está no centro de uma polêmica envolvendo o uso de código gerado por IAs desde que a política de colaborações e o “leia-me” do projeto ganharam este parágrafo (tradução livre):

A IA generativa está rapidamente se tornando um recurso primário na maioria dos ambientes de desenvolvimento, incluindo o próprio GitHub. Se a maior parte de um envio de código for feita usando IA generativa (por exemplo, codificação por “agente” ou “vibe coding”), documentaremos isso no pull request (PR). Todos os envios de código passam por um rigoroso processo de revisão, independentemente do fluxo de trabalho de desenvolvimento ou do remetente.

A reação de usuários e críticos foi tão intensa que, no domingo (9), um dos mantenedores do projeto, Janek Bevendorff, publicou um post no blog oficial detalhando o posicionamento deles em relação ao código gerado por IA.

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Offline Translator funciona offline graças ao uso dos modelos de tradução da Mozilla

Ícone do Offline Translator: caractere japonês e letra “A” contra fundo salmão.

Sim, é verdade: a Mozilla está metida com esse negócio de inteligência artificial. Apesar do desgosto de parte dos usuários do Firefox, nem tudo são mãos com sete dedos.

Uma das primeiras iniciativas da Mozilla em IA generativa foi desenvolver modelos de tradução eficientes a ponto de rodarem no próprio dispositivo. O recurso já existe no Firefox e está disponível para quem quiser usar.

É a melhor tradução do mundo? Longe disso, mas quebra o galho quando trombamos com uma palavra esquisita ou caímos em uma página escrita em idioma desconhecido.

David Ventura pegou os modelos de tradução da Mozilla e os empacotou em um aplicativo para Android. Melhor desenvolvedor que marketeiro, batizou-o de Offline Translator.

O principal chamariz e diferencial para o Google Tradutor é que as traduções acontecem no próprio dispositivo, localmente. Em outras palavras, o texto não é enviado à nuvem para ser traduzido.

Além de trabalhar com frases digitadas pelo usuário, o Offline Translator oferece OCR (traduz textos presentes em imagens) e faz a transliteração de idiomas não-latinos.

Ao todo, são 52 idiomas suportados. Deve-se fazer o download dos modelos/idiomas desejados de antemão (o tamanho varia de 30–60 MB cada). Em celulares que oferecem o recurso, os modelos podem ser baixados na memória externa (cartão microSD).

O Offline Translator é gratuito e tem o código aberto. Está disponível para baixar apenas na loja F-Droid.

uBlock Origin Lite para Safari

O melhor bloqueador de anúncios do mercado, o uBlock Origin, acaba de ganhar uma versão para o Safari, navegador web da Apple, funcional tanto no iOS quanto no macOS. É a versão “lite”, aquela do Chrome pós-encerramento do Manifesto V2. O uBlock Origin Lite para Safari é gratuito e tem o código aberto.

Wallabag é boa alternativa aos órfãos do Omnivore e Pocket

A época não é das melhores para quem se habituou a usar serviços do tipo “para ler depois”. Em um intervalo de seis meses, Omnivore e Pocket, duas alternativas populares, foram encerrados.

Quem apoia o Manual tem acesso a uma instância do Wallabag, outra alternativa do tipo, de código aberto/livre. É um dos poucos serviços restritos a assinantes do PC do Manual, o nosso servidor de aplicações FOSS.

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FAIR para descentralizar o WordPress

A confusão desencadeada em 2024 pelo co-fundador do WordPress e CEO da Automattic, Matt Mullenweg, pode acabar rendendo um bom fruto. Na sexta (6), um grupo de ~300 colaboradores experientes no ecossistema, com o apoio da Linux Foundation, anunciou o FAIR, uma iniciativa para descentralizar componentes críticos do WordPress.

Ao longo do embate entre Matt e a WP Engine, o controle exacerbado do executivo de recursos críticos, em especial o WordPress.org, que distribui atualizações do sistema e o diretório de plugins, ficou explícito. O controle do .org dá a Matt um poder desmedido, como ficou evidente na apropriação do plugin ACF, da WP Engine, e na expulsão de desenvolvedores de plugins que se indispuseram com o executivo.

O FAIR, sigla em inglês para “repositórios independentes e federados”, tomará a forma de um plugin que substitui todas as APIs relacionadas ao WordPress.org e descentraliza a distribuição de plugins, temas e do próprio “core” do WordPress.

A iniciativa também visa instituir uma governança democrática ao ecossistema, algo inexistente no WordPress até então, onde vale a lógica do “ditador benevolente vitalício” na figura de Matt.

O FAIR é coordenado por Joost de Valk e Karim Marucchi. Os debates e todo o código estão no Github.

Com informações do The Repository.

Paleta de Comandos é melhor que o menu Iniciar

Logo do Microsoft PowerToys.

Entendo que tradição e poder de marcar têm muito peso, o que explica a comoção em torno de qualquer mudança envolvendo o menu Iniciar do Windows.

O que não entendo é a Microsoft escantear uma ferramenta aparentemente tão legal como a Paleta de Comandos, o mais novo integrante dos PowerToys, conjunto de utilitários (de código aberto!) da própria Microsoft para o Windows. Ela foi lançada na versão 0.90, do final de março.

A Paleta de Comandos é um “lançador”, similar ao Spotlight do macOS. Aperte Win + Alt + Barra de espaço para invocá-lo e digite o que deseja. (É possível mudar esse atalho no teclado nas configurações.)

À primeira vista, não é nada muito diferente de apertar a tecla Win e começar a digitar o nome de um aplicativo ou arquivo. A Paleta de Comandos faz isso também. Só que ela faz muito mais:

  • Executar comandos (usando o comando >).
  • Alternar entre janelas abertas.
  • Realizar cálculos.
  • Acessar sites ou fazer pesquisas na web.
  • Executar comandos do sistema.

Outra característica legal é que ela é extensível. A própria Paleta de Comandos tem um “criador de extensões” baseado em perguntas de um formulário. Quem tem intimidade com código pode criar com mais precisão. Não manja nada? Dá para pesquisar e instalar extensões.

Aqui do outro lado, no macOS, nunca uso o mais próximo que a Apple oferece do menu Iniciar, o Launchpad. (Ou é a Dock?) Sempre uso o Spotlight mesmo e, salvo raras ocasiões em que me esqueço do nome de um app de uso esporádico, é o modo mais rápido de abrir qualquer app no computador.

Meu comportamento é fora da média? As pessoas realmente abrem o menu Iniciar (ou o Launchpad), encontram o ícone do app que querem e clicam com o mouse?

Enfim, fica a dica para quem usa Windows: Paleta de Comandos. O app é gratuito.

O criador do cURL, Daniel Stenberg, subiu barreiras contra a avalanche de relatórios de segurança produzidos por ou com a ajuda de inteligência artificial generativa. Além do volume, eles são inúteis: “Ainda não vimos um único relatório de segurança válido feito com a ajuda da IA.”

A maioria dos usos inadequados de IAs já era possível antes. O que muda com a IA é a escala da coisa.

End of 10: Troque o Windows 10 por uma distro Linux

O suporte ao Windows 10 termina no dia 14/10/2025, ou seja, daqui a alguns meses. Uma galera envolvida com distros Linux subiu o site End of 10 para ajudar aqueles que quiserem trocar o Windows pelo Linux em vez de seguir a orientação da Microsoft, que é descartar um computador funcional e comprar outro com Windows 11. O End of 10 reúne instruções e locais e eventos em que voluntários instalam uma distro Linux nos computadores de quem não tem familiaridade com o assunto.

Super iniciativa. Só falta agora traduzirmos o site para o português e cadastrarmos mais locais e eventos. (Até o momento, só tem um pessoal da USP de São Carlos na lista de locais.)

O batismo por analogia em dois níveis do GNU nano

O povo do software livre é cheio de gracinhas na hora de batizar suas criações. Estão aí o GNU (GNU’s Not Unix) e o Wine (Wine Is Not an Emulator) de provas.

No Mastodon, Simon Tatham contou a história do nano e seu batismo por analogia duplo:

O editor de texto GNU nano recebeu seu nome por analogia inspirado em um editor anterior (não livre) com uma interface muito semelhante, chamado pico. O nome faz um trocadilho com prefixos do Sistema Internacional de Unidades: “Tipo o pico, mas um pouco maior.”

O pico foi derivado do cliente de e-mail Pine [descontinuado]: é o editor embutido que o Pine usava para compor e-mails, que foi retirado e transformado em uma ferramenta independente. É uma abreviação de PIne COmposer, até onde eu sei.

E o Pine também foi batizado por analogia, a partir de um cliente de e-mail mais antigo chamado Elm. [São árvores em inglês, pinho e ulmeiro.]

Portanto, o nano tem dois níveis de “batismo de aplicativo por analogia a um anterior” em sua história. (Sem contar a etapa intermediária em que o Pine deu origem ao pico, porque esse não foi por analogia.)

Alguém consegue pensar em uma cadeia mais longa do que essa, envolvendo três ou mais níveis de batismo por analogia? Ou o nano é recordista?

Nas respostas, lembraram ainda do Micro, outro editor que se propõem ser um pouco mais completo que o GNU nano.

Fedora Linux 42

Já está disponível a versão final do Fedora Linux 42, trazendo o Gnome 48 na edição Workstation e a nova baseada no KDE Plasma (versão 6.3.4), promovida neste ciclo ao mesmo status da Workstation. Apesar do mesmo status, a lógica dos nomes é diferente; o povo lá está ciente da confusão e afirma que “vamos resolver isso em algum momento”.

O Anaconda, instalador do Fedora, ganhou uma grande atualização que torna o particionador automático do disco mais esperto, traz a opção de reinstalar o sistema e lida melhor com “dual boot”. Por ora, o novo Anaconda só é padrão no Fedora Workstation (a edição com Gnome).

Ah, e uma falha de última hora acabou ficando:

Apenas inicializar o sistema direto do pen drive (“live media”) adiciona uma entrada inesperada ao boot loader UEFI, mesmo quando o Fedora Linux 42 não esteja instalado no computador local.

O transtorno é apenas cosmético, mas é bom saber de antemão. Aqui tem a orientação de como remover a entrada (em inglês).

Pinta 3.0

Logo do Pinta: pincel inclinado ao lado de uma bisnaga de tinta.

Saiu o Pinta 3.0, nova versão do editor de imagens levinho, tendo como destaque a migração para o GTK 4 e a Libadwaita — em outras palavras, a bem-vinda modernização do aplicativo para o Gnome.

Embora isso, por si só, já traga uma série de melhorias “de graça” ao Pinta, não é a única. Há novidades visíveis (novos ícones, menu, seletor de cores e camadas inteligentes) e por baixo dos panos (ajustes dinâmicos para diferentes tamanhos de e orientações de tela, suporte a gestos, mais velocidade e, espera-se, menos falhas).

O suporte a add-ins, que havia sido removido temporariamente na série 2.x, está de volta. Por ora, apenas dois fizeram a “passagem”, mas os desenvolvedores dizem que “é provável que mais sejam portados para esta versão e lançamentos futuros”.

A origem do Pinta remonta ao Paint.NET do Windows, ou seja, a proposta é ser um editor de imagens simples, mas nem tanto; o elo perdido entre o Paint e o Photoshop. O código é aberto e o app é compilado para Linux, macOS (agora com suporte a chips Apple), OpenBSD e Windows.