A Amazon avisou alguns clientes que, no dia 28/3, removerá a opção de não enviar gravações de voz de conversas com a Alexa à nuvem. O pessoal ficou bravo — vide o texto do Cory Doctorow.

Fiquei intrigado com a mera existência dessa opção. Depois, olhando mais a fundo a documentação de ajuda do serviço, descobri que ela só existe em três dispositivos — Echo de 4ª geração, Echo Show 10 e Echo Show 15 —, para quem vive nos Estados Unidos e conversa com a Alexa em inglês.

Google veiculou dado inventado pelo Gemini em anúncio que vende o Gemini para criar anúncios

O Google preparou um anúncio do Gemini para o Super Bowl, aquele evento de publicidade que, salvo engano, tem algum tipo de esporte nos intervalos. A peça é voltada a pequenos comerciantes interessados em usar a IA para escrever anúncios.

No vídeo, o Gemini alucina e diz que o queijo gouda é o mais consumido do mundo, respondendo por 50–60% do mercado. O dado é questionável (já viu o preço do queijo gouda!?), provavelmente errado, tanto que o Google refez o anúncio e o removeu.

Alguém que quisesse sabotar as IAs generativas não pensaria numa situação tão ridícula e improvável. E provavelmente teremos mais: a OpenAI também vai veicular um comercial no evento.

A Meta baixou pelo menos 81,7 TB (terabytes), por torrent, de materiais piratas em sites como LibGen, Anna’s Archive e Z-Library, para treinar inteligência artificial. O número apareceu em novos documentos revelados no processo que autores estadunidenses moveram contra a empresa.

O pior é que a Meta teria agido para “‘semear’ [compartilhar] o mínimo possível” a fim de cobrir os rastros do uso ilegal do material, protegido por direitos autorais.

Gente que só baixa e não faz seeding: piores usuários de torrent.

Via Ars Technica.

IA chinesa censura temas sensíveis na China e água é molhada

Às vezes a imprensa descobre (ou finge que descobre) que a água é molhada e publica coisas como esta, que estampou todos os jornais semana passada: “DeepSeek se autocensura quando perguntado sobre alguns temas políticos da China.”

Vindo de onde vem, seria notícia se uma inteligência artificial generativa chinesa não censurasse tais temas.

Não me recordo (e fiquei com preguiça de procurar) se, nos últimos dois anos e meio, alguém se deu ao trabalho de testar o Copilot da Microsoft na criação de códigos que mencionem palavras como “sexo” ou “gênero”. Até duas semanas atrás, a IA cruzava os braços (figurativamente falando) ao topar com elas, segundo esta conversa no GitHub, um serviço da Microsoft.

E, veja: longe de mim defender a China, o PCCh ou quem quer que seja. É que, embora às vezes se tenha a impressão de que não, todo mundo tem teto de vidro.

Aliás, dado que o novo governo estadunidense tem como principal política pública destruir dados e documentos de gente que eles odeiam, quanto tempo até as big techs de lá, todas em lua de mel com Trump, dizerem “amém” e fazerem o mesmo?

Via Baldur Bjarnason (em inglês).

Google Maps e o Golfo da América

O Google anunciou que vai trocar o nome do Golfo do México, nos EUA, para Golfo da América no Google Maps, alinhando o aplicativo a uma das grandes ideias do presidente Donald Trump. / theverge.com (em inglês)

Alguém desencavou um post de 2008 do blog de políticas públicas do Google, em que o então diretor global do setor na empresa aborda essa questão — “Como o Google determina os nomes dos corpos d’água no Google Earth”. / publicpolicy.googleblog.com (em inglês)

O Google aplica uma política uniforme que chama de “Primary Local Usage”, ou “uso local primário”:

Sob esta política, o cliente [app] em inglês do Google Earth exibe o(s) nome(s) primário(s) comum(s) local(is) dado(s) a um corpo de água pelas nações soberanas que lhe fazem fronteira. Se todos os países vizinhos concordarem com o nome, o nome único comum será exibido (por exemplo, “Caribbean Sea” em inglês, “Mar Caribe” em espanhol etc.). Mas se diferentes países contestarem o nome próprio de um corpo de água, nossa política é exibir os dois nomes, com cada rótulo colocado mais perto do país ou países que o usam.

Em outros idiomas, adota-se o nome de uso comum na língua em que o Google Maps/Earth estiver sendo exibido, com um botão expansível que informa que o nome não é consenso e os outros também usados.

É aí que o pessoal está pegando no pé do Google, que tem (ou tinha?) em sua política a adoção do critério de nomes ”primários, comuns e locais” para corpos d’água:

[…] Por “comum”, nos referimos a incluir nomes que estão em uso comum em vez de reconhecer de imediato qualquer novo nome dado pelo governo de forma arbitrária. Em outras palavras, se um governante anunciasse que, a partir de agora, o Oceano Pacífico seria rebatizado em homenagem à sua mãe, não usaríamos esse nome [no Google Maps/Earth] a menos e até que ele passasse a ser usado no dia a dia.

No X, a empresa rebateu as críticas dizendo ter “uma prática consolidada de aplicar alterações em nomenclaturas quando elas são atualizadas em fontes governamentais oficiais”. / @NewsFromGoogle/x.com (em inglês)

No caso dos EUA, seria o Geographic Names Information System. Note que as duas alterações — do Golfo do México e Denali — ainda não foram publicadas pelo GNIS e, portanto, o Google Maps ainda mostra os nomes “antigos” por lá. / usgs.gov (em inglês)

Entendo a frustração com decisões arbitrárias e de ofício de um presidente errático, mas essa parece ser uma… “não-tícia”? Se o governo mudar os nomes de corpos d’água, como o estadunidense pretende fazer (a ordem executiva foi publicada por Trump em 20 de janeiro), o Google está certo em refleti-la no Maps. / whitehouse.gov (em inglês)

Nas poucas horas em que o TikTok ficou indisponível nos EUA, os rivais Bluesky, X e até Flipboard (com o novo app Surf, em testes) lançaram “feeds de vídeos” tentando capitalizar o momento. Concorrência justa, como se sabe, é um dos pilares do capitalismo estadunidense. / @bsky.app/bsky.app, @X/x.com, techcrunch.com (todos em inglês)

A Meta entupiu o Instagram de novos recursos — que, de verdade, quem se importa? — e anunciou um clone sem vergonha do CapCut que só será lançado em março. / @mosseri/threads.net (em inglês)

A grande ironia é que o TikTok voltou ao ar por iniciativa da mesma pessoa que, muitos anos atrás, deu início à caça às bruxas que culminou no seu banimento. / g1.globo.com

WP Engine consegue liminar contra Automattic e Matt Mullenweg

A Justiça da Califórnia concedeu uma liminar que obriga a Automattic e o CEO, Matt Mullenweg, a reverterem todas as ações infligidas contra a WP Engine desde setembro, quando Matt deflagrou uma guerra comercial contra a rival. / storage.courtlistener.com (PDF), wptavern.com (ambos em inglês)

A Automattic e Mullenweg têm 72 horas, a partir da publicação da decisão, para:

  1. Restaurar o acesso da WP Engine e seus funcionários aos sistemas do WordPress.org;
  2. Restaurar o acesso da WP Engine ao plugin Advanced Custom Fields (ACF); e
  3. Remover a declaração obrigatória de ausência de vínculo com a WP Engine da tela de login do WordPress.org;
  4. Remover os dados de clientes da WP Engine do site WP Engine Tracker.

Segundo a 404 Media, Mullenweg pediu para ter sua conta excluída do Post Status Slack, uma comunidade de ferramentas de código aberto para WordPress. / 404media.co (em inglês)

Antes de sair, ele teria escrito:

É difícil imaginar querer continuar trabalhando no WordPress depois disso. Estou farto e enojado por ser legalmente obrigado a fornecer mão de obra gratuita a uma organização tão parasitária e exploradora como a WP  Engine. Espero que todos vocês consigam o que você e a WP Engine queriam.

O julgamento do processo ainda não tem data para acontecer.

Nos EUA, a editora HarperCollins está oferecendo US$ 2,5 mil a alguns autores em troca do licenciamento de suas obras para treinar IAs generativas por três anos. Os autores não estão contentes com a proposta. / pivot-to-ai.com (em inglês)

E o Signal?

Estadunidenses de grupos minorizados estão sugerindo o uso do Signal diante do resultado da eleição presidencial de lá.

Usar o Signal é uma boa prática de segurança e privacidade digital, com Trump no poder ou não, nos EUA e em qualquer outro país.

No final de maio, em meio a uma onda de ataques esquisitos contra a direção do Signal por sujeitos como Pavel Durov (Telegram) e Elon Musk (X), migramos o grupo do Manual para o Signal. (Até então, usávamos o Telegram.)

Dia desses, o leitor Tasso sugeriu “um texto de reflexões sobre a mudança do grupo para o Signal, alguns meses depois”. Achei boa ideia! Cá está o texto.

A mudança transcorreu sem maiores transtornos, ainda que não sem perdas. No Telegram, éramos mais de 120 pessoas, se não me falha a memória; no Signal, nesta quarta (6) estávamos em 94.

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