Aplicativos para escrever roteiros comentados por um roteirista profissional

por Nigel

Existem milhões de aplicativos de escrita, seja de roteiro ou de “romances”. Se você quer ser um roteiristas, provavelmente já deve ter baixado algum desses apps de que vou falar. Ou está um pouco perdido. Vou listar os que eu uso, já usei e os que acho que valem a pena mencionar porque sei que alguém usa.

Nigel Goodman é roteirista profissional desde 2009, mas já escrevia roteiros antes de começar a receber por eles, antes de ser trabalho. De lá pra cá, escreveu um montão de coisas que você pode ver aqui. Também escreveu um livro, Entrevista com a Pedra e outros contos, publicado pela Editora Patuá em 2011 (hoje disponível apenas em ebook), está na antologia Vias Obscuras da Editora Pesadilla e já teve alguns contos publicados em revistas.

A maioria dos aplicativos de roteiro é paga, mas existem algumas alternativas gratuitas ou até versões freemium (grátis, mas com recursos pagos). Meu conselho: se você não tem que pagar a licença de um app de roteiro, não pague. “Ah, mas é importante entregar os roteiros em Final Draft.” Calma. Às vezes é importante entregar os roteiros no formato *.fdx (o padrão do Final Draft) e isso muitos aplicativos conseguem fazer. Na maioria das vezes você vai entregar em *.pdf mesmo, então relaxa e só compre um desses quando você realmente tiver que comprar, ou se quiser.

Fade In

Print do Fade In rodando no Ubuntu Linux.
Imagem: Fade In/Divulgação.

É o que eu mais gosto de usar atualmente. É uma alternativa viável ao Final Draft, mas roda melhor no Windows e simplesmente roda no Linux. (Tem para macOS também.) Além de rodar no meu sistema operacional, ele é mais barato que o Final Draft e as atualizações estão incluídas na licença, ou seja, você paga uma vez e pronto. Ele exporta e importa vários tipos de arquivo diferentes (inclusive *.fountain). Ah, e você pode baixar a versão gratuita para testar (não tem colaboração online e coloca uma marca d’água no seu PDF). A licença custa quase US$ 100.

Final Draft

É o padrão do mercado. Roda mal no Windows e não tem versão para Android nem para Linux. (E esse foi um dos motivos que me fizeram ficar no Windows tanto tempo.)

Quem só usou a versão para os sistemas da Apple não vai me entender muito, mas me irrita que um app tão mal feito seja tão caro. A cada atualização você precisa comprar uma licença nova. (Precisar, precisar… não precisa, mas vai ficar sem as novidades.) O Final Draft 13 custa US$ 250 ou ~US$ 130, se você já tiver uma versão antiga.

WriterDuet

Eu cheguei a usar muito o WriterDuet antes de comprar o Final Draft. No início ele era grátis e conseguia importar e exportar os arquivos *.fdx e exportar *.pdf — tudo que você poderia querer. Ele ainda tem uma versão grátis que eu acho que tem todas as funções mais importantes, mas só te deixa criar três projetos e não inclui o aplicativo para desktop (você usa pelo navegador).

Na última vez que usei o WriterDuet, ele só tinha um plano pago. Agora tem três planos pagos diferentes com algumas funções extras a cada degrau, com preços que variam de US$ 10 a US$ 14 por mês. Isso, por mês. Tem um desconto pagando por um ano inteiro de uma vez, mas eu iria direto para o Fade In.

Celtx

Foi o primeiro programa de roteiro que eu usei e, apesar de nunca ter me dado nenhum problema, os outros que surgiram eram melhores que ele. Não sei como está hoje mas, levando em conta que a versão grátis só te deixa criar um roteiro, nem perdi tempo olhando.

Os planos pagos são em reais, pelo menos: R$ 78/mês para poder criar até três roteiros (uhum… sem falar em outras limitações), R$ 130 na versão ilimitada no número de roteiros, mas precisando pagar por fora para ter outras funções e R$ 312 na versão com cinco licenças e todas as funcionalidades liberadas. Quem sou eu pra acusar alguém, mas se eu fizesse um negócio desses ia ser pra lavar dinheiro.

***

Agora vou te contar um grande segredo: eu já trabalhei em muitos programas que usavam o Microsoft Word com estilos e macros pra criar a formatação e o Google Docs, principalmente em programas de variedades em que várias pessoas editam o mesmo arquivo até segundos antes da gravação.

E se por acaso você só tiver um Bloco de Notas e um sonho, ainda consegue escrever o seu roteiro e exportar ele em *.pdf, bonitinho. É só você escrever seguindo as regrinhas do Fountain.

O Fountain é um conjunto de regrinhas do tipo: escrever o nome do personagem todo em maiúsculas, começar certas linhas com um ponto, etc. Um exemplo do próprio site:

INT./EXT.  BLOOM HOUSE - (PRESENT) DAY

The front door opens to reveal Will and Josephine on the porch with their bags.  REVERSE to Will's mother Sandra (53), surprised and a little annoyed. 

SANDRA
How did you get here?

WILL
We swam.  The Atlantic, it's not that big really.

Aí você salva o seu arquivo *.txt como meu-roteiro.fountain e pronto.

Lembra que o Fade In também pode importar e exportar esses arquivos? Há vários aplicativos que conversam com o Fountain. Existem também alguns sites que convertem esse formato para *.pdf (mas vai saber a segurança disso).

Algumas ausências foram sentidas nesta lista. Pra não deixar ela capenga logo no nascimento, estou acrescentando aqui os programas que mais fizeram falta para quem comentou comigo.

STARC

Abreviação de Story Architect. Eu não conhecia, e parece que ele é bem novo mesmo. No blog deles, o beta abriu para o público em 2022. Segundo o Matheus Borges:

Eu particularmente tenho gostado de trabalhar com o Story Architect (Starc). É gratuito, fácil de usar e muito versátil. Últimos dois longas que escrevi foi com ele.

Realmente, o programa parece bem capaz de dar conta de qualquer coisa que você possa precisar, com um plano gratuito que garante tudo que você realmente vai precisar. Pra ter acesso completo você pode escolher o plano PRO por US$ 4/mês ou US$ 150 pela vida toda. Ele ainda tem uma assinatura de nuvem por quase US$ 9/mês e uma IA integrada que você precisa comprar tokens para usar. Isso da IA eu acho bem curioso levando em conta toda a questão sobre os direitos autorais de roteiristas e escritores que são violados por essas IAs.

Scrivener

Esse eu até sabia que existia, mas achava que era um editor mais voltado para quem quer escrever um livro. Inclusive, se você clicar no link, vai demorar até ver qualquer imagem ou menção a um roteiro, mas ele consegue sim, inclusive o site deixa claro que ele consegue exportar para o Final Draft. Quem me avisou da falta primeiro foi um amigo meu e também roteirista, o Nix:

Scrivener pra tudo o que não é dia a dia de roteiro pra TV. Roteiro, conto, livro, organização… e não precisa pagar mensalidade.

Realmente, não precisa pagar mensalidade, mas precisa comprar a licença que é R$ 280. Gratuito mesmo só o teste de 30 dias. Não acho que seja um programa pra mim, mesmo escrevendo um pouco de tudo, porque eu tenho outros fluxos quando escrevo coisas que não são roteiros. E não suporta Linux.

Outro que comentaram foi o Trelby, que é grátis, tem suporte ao fountain, mas não é atualizado desde 2012 (data do último post no blog deles, avisando da última versão). Tem pra Linux, mas não tem para macOS.

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10 comentários

  1. Tem um muito bom e novo que é o Starc. Tem para Linux, Windows e Max e exporta até .fdx perfeitamente. Tenho usado ele para escrever curtas e testando. Outras alternativas é o Trelby, bom mas não muito amigável e o WriterSolo (versão “solo”) do WriterDuet.

    1. Esse starc comentaram no bsky. Esse eu não conhecia mesmo. Outro que eu descobri que um amigo usa e eu não sabia é o scriviner

      1. O Scrivener é muito bom também, uma alternativa ao Scrivener que é pago é o WonderPen que é basicamente um clone indiano e livre do Scrivener.

    1. Tem um jeito de converter com o pandoc também que eu descobri esses dias, mas vou ser sincero e dizer que ficou mais complicado do que eu sou capaz de fazer confortavelmente.

  2. Tem muitos anos que tô fora do mercado, então não sei o estado atual desses softwares. Pra escrever era bem por aí. Escreve com o que tiver e tomara que exporte FDX.

    Já pra produzir, quando precisava tinha sempre um Final Draft pirata pra fazer análise técnica com o Tagger, um programa que acompanha(va?) o editor pra isso mesmo. Matava 60 páginas em 20 minutos, muito mais ágil que marcar pdf ou papel. Depois apareceu o studiobinder que fazia a mesma coisa.

  3. uma curiosidade: só pode usar courier mesmo? ou pode alguma outra fonte monoespaçada (ou mesmo fontes com espaçamento variável)? isso vale pro mundo inteiro?

    sei que tem aquela coisa de que uma página nessa formatação equivale mais ou menos a um minuto de tempo de tela, mas isso não é algo muito próprio do mundo hollywoodiano e da língua inglesa?

    1. Só pode usar courier. Tipo, dá pra mudar nos programas, mas ninguém vai te recomendar fazer isso. É o tipo de coisa que só vai causar estranhamento em quem estiver lendo. E tem essa coisa do 1 minuto sim. Apesar de não ser científico, acaba sendo uma boa referência. Geralmente em uma série você tem um numero alvo de páginas que é o ideal pro tempo de arte daquele programa, como ele é editado.

    2. Já trabalhei como roteirista e como assistente de direção. Principalmente como esse último, peço, por favor, não mude a fonte. Principalmente se só tiver como enviar o arquivo em PDF. Só vai dar mais trabalho pra quem for trabalhar com esse arquivo, como assistentes de direção e continuístas.

      A formatação é importante pra gente porque agiliza a análise técnica. Só de bater o olho num roteiro seguindo o padrão, já dá pra identificar um monte de elementos que precisam ser anotados. Além disso, a gente divide a página em oito parte, com régua mesmo, e cada parte tem uma polegada de altura. Usa-se isso pra calcular quanto tempo vai levar pra filmar.

      Agora, se tiver como exportar em .FDX, vai dar o trabalho de ter de abrir o arquivo no finaldraft pra desfazer, pra quando precisarmos imprimir.