Sobre Taylor Swift e o Apple Music

A cantora Taylor Swift está se transformando numa espécie de porta-voz dos músicos frente à investida dos serviços de streaming — que, notoriamente, pagam mal mesmo fechando no vermelho. A última empresa a entrar na linha de disparo de Swift foi a Apple.

No fim de semana, Taylor Swift divulgou em seu Tumblr uma carta aberta criticando a decisão da Apple de não pagar royalties aos artistas durante o período de três meses grátis do vindouro serviço de streaming. Horas mais tarde, Eddy Cue, executivo da Apple, respondeu dizendo que tal decisão fora revista e os artistas receberão, sim, pelo período de degustação prolongado.

A carta, embora seja firme, o é de uma maneira… digamos… amigável. Em certo ponto, ela escreveu:

“(…) Digo isso com amor, reverência e admiração por tudo mais que a Apple tem feito.”

Swift também ressaltou que o trabalho da Apple em pressionar a indústria para se livrar do tier gratuito, sustentado por publicidade, é “um belo progresso.” Sua maior crítica ao modelo, representado mais fortemente pelo Spotify, é que ele desvaloriza a obra do artista ao “perpetuar a percepção de a música não tem valor e deveria ser gratuita.”

Após a manifestação de Cue, a cantora disse, pelo Twitter, estar “contente e aliviada,” mas não garantiu que 1989, seu último disco, sucesso de vendas (e fora dos serviços de streaming), integrará o Apple Music. A conferir…

No nosso grupo no Facebook (exclusivo para assinantes), o assunto está rendendo uma bela discussão. Trago aqui o que escrevi lá sobre as minhas perspectivas para o Apple Music:

Sobre o papel do Apple Music no ganha-pão dos artistas, depende muito de como será a adoção do serviço. Acho, porém, que a Apple chegou tarde e chegou oferecendo pouco. O que ela promete pagar a mais para as gravadoras e artistas é muito mais do que outros serviços concorrentes pagam. Antes dessa reviravolta do período gratuito, o 1,5% a mais da Apple após três meses de graça seria vantagem aos artistas apenas depois de oito anos:

Comparativo de rendimento aos artistas no Apple Music e concorrentes.
Imagem: @degusta/Twitter.

A conta acima ignora um monte de fatores, e alguns imprevisíveis e que podem subvertê-la completamente. Se o Apple Music tiver uma base de usuários parecida com a do Spotify ou maior, por exemplo, ele será mais vantajoso pelo simples fato de não ter um tier gratuito. A única saída da Apple para dominar esse segmento e ser uma alternativa mais rentável a quem faz música é essa aí: volume.

Ter uma conta bancária gorda facilita manobras para atingir esse fim (como a resposta do Eddy Cue à Taylor, ontem, mudando uma regra importante do jogo com um Tweet), mas é cedo para dar isso como certo. Tem gente da indústria que acha que não será tão fácil. E, no fundo, o que quebra a indústria da música não são os serviços de streaming, é o meio-campo, os acordos de distribuição das gravadoras. Existe uma cadeia muito grande entre artista e fã, e ela devora o faturamento, seja por streaming ou qualquer outro meio.

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20 comentários

  1. Nada de errado no discurso dela. Não que ela seja porta-voz de alguma coisa, apenas realmente tem o “poder” por ser a artista do momento, que está vendendo milhões de discos. O Spotfiy precisa ter medo? Acredito que sim.

  2. Entendo as reclamações da Taylor Swift, mas ela não está preocupada com os artistas indies que esperam pelo pagamento, e sim com a grana que ela deixa de ganhar como compositora/artista. Que como a artista com o álbum mais vendido há mais de 10 semanas na Bilboard, não vejo ela sofrendo por dinheiro. O que ela quer é ganhar dinheiro, e está usando de sua popularidade para tal, forçando, ou ao menos tentando, os serviços de streaming que a pague mesmo quando não está ganhando dinheiro.

    1. Essa postura meio cínica em relação aos artistas foi abordada lá no grupo. E concluímos que ela é meio errada, porque… bem, não há mal algum em querer ganhar dinheiro com seu trabalho. E, nesse caso, eu consigo enxergar nobreza no discurso da Taylor Swift porque, como você bem disse, ela não “precisa,” ela tem fãs que compram seu trabalho, pagam o que a artista acha que merece e ficam todos felizes.

      Nesse sentido, aliás, a intervenção dessa carta foi positiva — pode até ter sido por motivo egoísta (duvido), mas acabou respingando em gente (artistas indie) que se beneficiará bastante da mudança no modelo do Apple Music.

    2. Você escreve como se fosse vergonhoso trabalhar e querer direitos autorais só porque ela tem dinheiro e sucesso.

    3. Você escreve como se fosse vergonhoso trabalhar e querer direitos autorais só porque ela tem dinheiro e sucesso.

      1. Perdão! Não quis dar a entender isso, acho super válido, o que pega é que ela apenas quer ganhar dinheiro, no caso Taylor Swift, e isso já é algo que muita gente tem notado, ela é um fenômeno de mídia, vende tudo com o foco no público teen, só acho que ela está usando muito a situação de sou cantora indie, para reclamar quando ela não é paga. Ela mudou, algo que era muito bom, beneficiava tanto os fans quanto ela, ficar sem receber por 3 meses não é algo muito ruim, pois os cantores/compositores já estão em outros serviços, acho muito mimimi dela.

      2. Taylor Swift não defende direitos autorais. Ela defende propriedade intelectual — ou melhor, ela disputa com a Apple se a cerca que separa a propriedade de cada uma está mais para um lado que para outro.

        Música pop é commodity há muito tempo e sua venda a granel é inevitável. Swift não está lutando contra isto: só atua como porta-voz de um dos lados da disputa (empresas de tecnologia vs. gravadoras). O direito autoral do tal do “artista” não tem nada a ver com esta história.

  3. Eu não subestimaria esse serviço, mesmo sendo mais do mesmo, por vir embarcado nos iDispositivos e Macs.

    A única coisa que pode ser interessante nesse serviço, para mim, é se ele funcionar melhor com músicas baixadas offline: antes eu conseguia baixar uma música que não estava no acervo como se fosse do acervo do Spotify, caso ela estivesse no meu notebook, mas depois parou de funcionar e não consegui arrumar. :(

    1. Eu também tive problemas com arquivos offline. Tenho muitas músicas de artistas independentes que não estão no Spotify e disponibilizo offline no meu smartphone. Acontecia dessas músicas pararem de tocar de repente, como se os arquivos estivessem corrompidos, o que estranhamente não ocorria com as músicas do acervo do Spotify, que também torno offline. Na última versão do app, parece que resolveram esse problema, mas sei lá, já tinha acontecido antes e também parecia que tinham resolvido…

      Acho que deviam voltar com a opção de desvincular faixas. Às vezes o Spotify possui somente a versão ao vivo de uma música e eu quero escutar a versão original, de estúdio. Tenho o arquivo em mp3 e no computador consigo ouvir tranquilo, mas ao sincronizar com o smartphone o Spotify faz o download da faixa ao vivo. Antigamente a opção de desvincular resolvia esse tipo de situação.

  4. Na minha opinião a Taylor Swift tem uma postura dúbia. Enquanto ela critica os serviços de streaming, ela não diz um ‘A’ sobre as gravadoras, que historicamente exploraram e ainda exploram muito mais o trabalho dos artistas. Concordo que o modelo dos principais serviços de streaming ainda não é o ideal, mas é o futuro. Gostaria de ver uma conta que mostrasse quanto o artista ganha por cada pessoa que ouve uma música sua na rádio, e comparar com o quanto se paga no streaming. Aposto que não ficaria distante, mas não há nem houve cruzadas contra as rádios.

    Ela está certa em defender seus interesses, e tem esse direito. Minha postura, como consumidor de música, é continuar assinando o Spotify e simplesmente não consumir a música dela. Os serviços de streaming me fizeram sair da pirataria, passando a pagar pelo conteúdo que consumo, tal como o Netflix. Não voltarei à pirataria, e vou ignorar artistas que não estejam neste modelo.

    Hoje eu consumo e pago muito mais do que já paguei. Conheço muito mais bandas e músicas. Se os artistas resolvessem se unir pra acabar com o streaming, o que aconteceria é um aumento na pirataria ou níveis de faturamento semelhantes a década de 80, com menos gente ganhando dinheiro e fazendo sucesso. E eu poderia comprar, no máximo, um CD por mês, com o valor que pago no Spotify. Ao invés de beneficiar a indústria, beneficiaria no máximo os meus 10 favoritos, e olhe lá…

    1. Meus hábitos são semelhantes aos teus: também deixei de piratear e passei a pagar tanto pelo Spotify quanto Netflix, não apenas pela conveniência, mas a biblioteca que me possibilita conhecer outros artistas que normalmente não me interessaria.

      Pelo que andei lendo sobre esse caso na internet, ou você ama ou odeia a Taylor: eu não gosto da música dela, mas PQP, o que aconteceu ontem foi muito importante e acho sim que o “Ah ok” do CEO do Spotify no lançamento Apple Music tem potencial para virar “Oh crap”: se muita gente não estava nem aí para o serviço, ao menos agora vai dar uma olhada depois de ontem.

  5. a Taylor tá agindo igual ao Lars Ulrich quando ele combatia o compartilhamento de músicas. só que dessa vez ela ataca o fornecedor e nao o usuario. ela só tá defendendo o que vai dar um pouco mais de grana pra quem já é rico…., quem é pequeno ainda vai sofrer pra tocar e ganhar alguma atenção da mídia.

  6. Não acho que o Apple Music chegou tarde, vc mesmo falou que o Spotify chegou tarde no Brasil e hoje ele tá ai no topo. O mesmo vale pra Apple.

    1. Mas há uma diferença fundamental aí: chegou tarde no Brasil. O Spotify já tinha uma demanda reprimida aqui, suprida em parte pelo Rdio e outros, mas que dava margem para uma entrada tardia — o marketing e o boca a boca atenuaram o atraso. Já o Apple Music entrará em mercados saturados e dominados por outros players.

      Prova de que é um momento difícil é o Tidal, que mesmo com o apoio de vários artistas de renome, está patinando feio. Mas… o grande trunfo da Apple, como apontou o @google-c1e8c4d9f770b920ebf66bcdfb1f7dec:disqus, é já vir pré-instalado em milhões de dispositivos iOS e Macs. Isso pode fazer a diferença, mas tampouco é garantia de sucesso.

      1. Ah cara, você sabe como é Apple, venderam até o Apple Watch, é melhor nem ficar especulando muito, até ano que vem temos um cenário mais ou menos montado, a minha aposta é que vai ser um sucesso absurdo.

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