A hipermetáfora do app de máquina de escrever do Tom Hanks

O app de máquina de escrever do Tom Hanks.

Tom Hanks, ator de filmes memoráveis e sempre disposto a fazer uma zoeira com os fãs, tem ele próprio seus ídolos. Máquinas de escrever, por exemplo. Hanks é aficionado por elas.

Junto com a agência Hitcents, Hanks lançou o Hanx Writer, um app gratuito (com compras in-app) para iPad. Ele imita com perfeição a digitação em máquinas de escrever. Aquele barulhinho característico? Está lá. O visual também: o teclado do iOS usa skins que imitam o visual original das máquinas. Opcionalmente, o usuário pode desabilitar a tecla backspace e o cursor digital. Até enroscar os tipos essa máquina de escrever digital enrosca. Só ficou faltando o feedback tátil, mas aí seria exigir demais.

Entendo a questão nostálgica, ou talvez a homenagem que Hanks quis fazer às suas amadas máquinas de escrever. Tirando esse detalhe da equação, o Hanx Writer serve como um ótimo exemplo de como a metáfora perfeita é, em última instância, uma imperfeição em si mesma.

Quando as interfaces modernas surgiram, a metáfora da mesa de trabalho foi adotada para acelerar a familiarização dos profissionais de então à nova ferramenta. Recentemente, um paralelo foi visto com as interfaces sensíveis a toques: o esqueumorfismo do iOS ajudou as pessoas a localizarem e interagirem com as partes do sistema que faziam alguma coisa. Após  quase seis anos de uso intensivo, a Apple pode enterrar essa metáfora e abraçar uma abordagem mais limpa, mais digital, sem tantas amarras com o mundo físico. Você pode achar o iOS 7 feio ou implicar com os botões-que-não-são-botões-mas-texto, só que dificilmente não saberá o que fazer se cair um iPhone ou iPad na sua mão.

Voltando mais uma vez no tempo, temos o Bob, a famigerada interface alternativa da Microsoft desenvolvida por Melinda French, que mais tarde viria a ser a Sra. Gates. O Bob abusava da metáfora de objetos reais a ponto de atrapalhar o uso do computador. Foi um fiasco. Quando a metáfora existe como fim, a sua utilidade no meio digital, que é facilitar a adaptação do usuário, se perde.

(Fato divertido: a odiada fonte Comic Sans foi criada especialmente para o Bob, porém não chegou a ser usada nele.)

Imagine usar seu computador, hoje, com essa interface.
Imagem: Microsoft/Wikipedia.

No livro A Cultura da Interface, Steven Johnson trata desse tema e chama o Bob e outros exemplos similares, como o assistente pessoal Magic Cap, de “hipermetáforas”. Para ele:

O que essas hipermetáforas tinham de paradoxal era o fato de não serem suficientemente metafóricas. Na Poética, Aristóteles definiu a metáfora com o ato de “dar a uma coisa um nome que pertence a outra coisa”. O elemento-chave nessa fórmula é a diferença que existe entre “a coisa” e “outra coisa”. O que torna uma metáfora poderosa é o hiato entre os dois pólos da equação. As metáforas criam relações entre coisas que não são diretamente equivalentes. Metáforas baseadas em identidade completa nada têm de metáforas. No design de interface tradicional, uma “janela” de computador exibe uma espécie de semelhança superficial com uma janela do mundo real, mas é a diferença que assegura o sucesso da metáfora. (Examinaremos isto melhor no próximo capítulo.) Obviamente não podemos sobrepor as janelas de nossa cozinha umas às outras, nem “rolar” a vista que oferecem. Entre a janela real e a virtual há uma distância necessária, que torna a analogia útil para nós.

Ou seja, se for para usar um app que simula fielmente, em todos os detalhes, uma máquina de escrever, é melhor… usar uma máquina de escrever.

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Ficou com vontade de ouvir o “tec tec tec”, né? Utilitários que fazem teclados de computadores emitirem esses e outros sons existem desde a era mesozoica. Aqui tem uma lista deles, para Windows e OS X.

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2 comentários

  1. Imagino alguém batendo a mão com força da direita pra esquerda no iPhone/iPad pra voltar pro início da linha e arremessando o gadget longe haha

  2. Eu baixei… fazer o quê? a curiosidade foi mais forte. E o app é isso, uma curiosidade. Já desinstalei depois de escrever uma frase com três palavras e ouvir os tlecs.

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