Este site apaga seus posts antigos no Twitter de graça, mas só se você não curte fascistas

Pássaro com faixa preta nos olhos, mascote do Semiphemeral, olhando para uma linha do tempo do Twitter do @ghedin com um gradiente na base, sugerindo que conteúdo antigo está sendo excluído.

Quando o Cardigan encerrou suas atividades, deixei de apagar automaticamente posts antigos no meu perfil pessoal no Twitter. Foi uma decisão pragmática: somente alguém lacônico e extremamente organizado conseguiria apagar seus próprios posts de uma rede social em intervalos regulares. O Cardigan fazia isso, tão bem que eu havia pago uns trocados pelo serviço. Após um tempão sem ter meu perfil limpo automaticamente, encontrei um ótimo substituo, o Semiphemeral.

Em muitos aspectos, o Semiphemeral é superior ao Cardigan e a todas as outras soluções do tipo que já vi por aí — boa parte delas um tanto suspeita e/ou perigosa de se usar. Criado por Micah Lee, ex-Electronic Frontier Foundation (EFF) e atual diretor de segurança da informação do The Intercept norte-americano, o serviço é bem pensado, tem configurações flexíveis e… funciona. Pode parecer bobagem, mas consideradas as restrições severas que o Twitter impõe e que o ato de excluir conteúdo deve ser mal visto pela empresa, funcionar já é uma grande conquista, um diferencial.

Usar o Semiphemeral não tem muito segredo. Você faz login com sua conta no Twitter, momento em que concede ao serviço o privilégio de excluir posts e desfazer curtidas e RTs. Imediatamente após a autenticação, o Semiphemeral começa a baixar seu histórico no Twitter. Essa parte pode demorar porque o Twitter impõe limites a esse tipo de coleta de dados, então a depender do tamanho do seu histórico, é preciso ter paciência.

A demora não é de todo ruim, porque antes de ativar o serviço, existem algumas configurações que merecem a sua atenção. (De qualquer forma, ele não começa a trabalhar imediatamente; é preciso ativá-lo, clicando em um botão, para que o Semiphemeral comece a operar.)

Na aba Settings, por exemplo, a usuária define o “prazo de validade” dos posts (em dias) e critérios de exceção para a exclusão dos mesmos, com base no número de RTs e de curtidas. O mesmo vale para o desfazimento de RTs e curtidas.

Já a aba Tweets lista todos os seus posts e permite selecionar, manualmente, aqueles que devem ser ignorados pela rotina de exclusões. Em outras palavras, mesmo que um post não se enquadre nos critérios de preservação definidos acima, na aba Settings, ele pode ser salvo da exclusão automática do serviço. Tenha cuidado, porém, com o “peso” desta aba: como ela carrega os posts direto do Twitter, e são dezenas deles em cada página, as coisas podem ficar bem lentas se o seu computador e conexão não forem rápidos.

Opcionalmente, o Semiphemeral pode excluir mensagens diretas (DMs). É preciso entrar na aba DMs e conceder uma permissão extra, exclusiva para DMs. O Twitter só permite que serviços externos acessem até 30 dias de DMs, então mensagens antigas não são excluídas de pronto. Se você quiser excluir tudo, porém, é possível, só é um pouco mais complicado. As instruções estão na própria página. Em resumo, elas explicam como fazer um backup do seu perfil no Twitter e enviar ao Semiphemeral os pedaços/arquivos referentes às DMs, que funcionarão como uma espécie de “mapa” e atalho para que ele consiga apagar todas.

Print do Firefox, do perfil @ghedin logado no Semiphemeral, mostrando um relatório de exclusões diárias das últimas semanas.
Imagem: Semiphemeral/Reprodução.

Estou rodando o Semiphemeral há pouco mais de um mês no meu perfil pessoal, e — repetindo-me — ele simplesmente funciona. Depois de fazer a configuração inicial e ativá-lo, ao logar novamente você encontra um relatório das tarefas diárias. O Semiphemeral é executado uma vez por dia. Se por qualquer motivo você quiser suspender temporariamente a exclusão de posts/RTs/curtidas antigas, um grande botão (Pause Semiphemeral) está disponível no topo da página.

Um serviço antifascista

Micah informa, na página inicial do Semiphemeral, que trata-se de um “serviço antifascista”. A explicação é bem didática, por isso traduzo-a na íntegra:

A fim de impedir que fascistas usem este serviço gratuito de privacidade, o Semiphemeral mantém um registro de contas no Twitter usadas por racistas proeminentes, misóginos, antissemitas, homofóbicos, neonazistas e outros fascistas.

Se você curte tuítes postados por essas contas de influenciadores fascistas, o @semifemeral o bloqueará e você não será elegível a usar o serviço até que seja desbloqueado. A menos que você tenha o hábito de curtir regularmente conteúdo fascista no Twitter, é fácil ser desbloqueado e continuar usando o serviço.

Todos merecem privacidade nas redes sociais, mas nem todos têm direito a obter essa privacidade usando este serviço gratuito.

Quem seriam esses fascistas? No post em que apresenta o Semiphemeral, em seu blog pessoal, Micah deu alguns exemplos:

Demagogos extremistas como Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil e Modi na Índia; personalidades neonazistas da imprensa como Tucker Carlson ou Ben Shapiro, e outros.

Um algoritmo simples verifica se a conta que solicita cadastro no Semiphemeral curtiu com frequência nos últimos meses tuítes dessa galera. Se sim, ela é bloqueada. O objetivo é bloquear quem “demonstrou um padrão claro de curtir o que fascistas estão vomitando no Twitter”. Caso você seja bloqueado e considere isso injusto, pode apelar enviando um e-mail ao Micah.

Em uma conversa com ele (via Twitter!), perguntei se a política antifascista já lhe causara algum tipo de dor de cabeça: “Houve algumas reclamações ruidosas no passado, mas elas sempre vieram de fascistas nervosos e pilhados, então no geral achei apenas divertido.”

Aproveitando a menção ao presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (sem partido), como exemplo de fascista, perguntei se ele tem conhecimento de bolsonaristas que foram impedidos de usar o Semiphemeral. Micah afirma que sim, “a muitos apoiadores de Bolsonaro”, mas não soube precisar quantos porque criou o serviço de modo a coletar o mínimo de dados possível: “O sistema apenas mantém os registros de uma pequena quantidade de usuários bloqueados recentemente, e periodicamente exclui todos os antigos usuários bloqueados.”

Gratuito e sustentável

O Semiphemeral foi criado como uma solução “self-hosted”, ou seja, que precisa ser instalada em um servidor, o que demanda conhecimento técnico e algum investimento financeiro. Ela segue disponível dessa forma, mas em algum momento Micah sentiu a necessidade de subir uma versão destinada a usuários finais. Daí surgiu o Semiphemeral.com. (A versão de código aberto, self-hosted, pode ser baixada aqui.)

“Criei o Semiphemeral.com basicamente para eu mesmo usar, e então decidi que fazia sentido torná-lo um serviço público”, explicou-me. “Uma vez que havia usuários o bastante, todo o sistema entupiu e as pessoas ficaram presas na fila do Semiphemeral por até algumas semanas. Levou muito tempo e esforços de reengenharia do sistema para lidar com a demanda, mas desde então tem funcionado muito bem. A maior parte do tempo que passei trabalhando nele recentemente foi para fornecer suporte aos usuários que têm problemas.”

Chama a atenção o fato do Semiphemeral ser gratuito, o que é ótimo. Para cobrir os custos operacionais, de cerca de US$ 60 por mês (~R$ 320), Micah aceita gorjetas. Uma parte dos pouco mais de 4.700 usuários ativos tem contribuído, e o custo operacional já é coberto com folga. “Nos últimos meses, tenho recebido entre US$ 200 e US$ 300 em gorjetas por mês. É o bastante para eu provavelmente ter que pagar imposto ano que vem”, brinca. “No momento, estou recebendo [esse dinheiro] como gorjetas e, acredito, pagamento pelo meu tempo desenvolvendo e rodando o serviço. É legal que as pessoas gostem dele tanto a ponto de mandarem gorjetas.”

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24 comentários

  1. O serviço é bacana, mas não entendi qual a vantagem de se apagar tuítes antigos? Eu só público coisas efêmeras datadas… Então, não visualizo, pra mim, necessidade deste tipo de serviço. Mas é bom saber que ele existe!

    1. Se a pessoa é uma “persona de interesse”, apagar twitts antigos ajuda a evitar acusações levianas, como alguma mudança de opinião por correção ou comentário que ” datou”, ou seja, a informação já perdeu a relevância e republicá-la geraria alguma confusão.

  2. Lendo os comentários de alguns aqui sobre terem implicado com fato da responsável pelo serviço gratuito a ofertar apenas se a pessoa não apoia fascistas (e o engraçado é que esta é uma opção interessante, afinal, quem aí gosta de ser fascista?), aí me veio a mente que esta questão da “gratuidade por uma condição cultural / social” já vir de tempos atrás, e ser mais comum do que pensa.

    Há fóruns e comunidades que só entram indicados por quem já está dentro. Não diferente de algumas seitas (inclusive maçons e mórmons).

    Há serviços de internet que permite a operação de um serviço “gratuito” EM TROCA (note a ênfase) de fazer algo similar ao que você está atrás. Soulseek tem este costume – em algumas buscas ou grupos / usuários / servidores, você deve ofertar alguma música para ser compartilhada em troca de poder puxar músicas.

    O Torrent em si tem dessa também: você tem mais prioridade em downloads se você está semeando, ou seja, ofertando uploads também.

    Comentar no manual é gratuito – a única condição óbvia é evitar comentários na qual a moderação não aceita, tipo “ameaçar bater, xingar, morder, cuspir ou matar o amiguinho :p”. É uma condição justa, não?

    “Não ser fascista” é uma condição minimamente justa para certos tipos de serviço. Creio que talvez comigo eu falharia em ser permitido no serviço pois não nego que já ameacei matar um ou outro, ou falei alguma besteira acima do limite – ameaçar de morte não deixa de ser algo que se não beira, já o é um fascismo, dado que falamos de condicionar alguém a uma regra sob pena de morte caso não a siga.

    Mas agora relendo o “O que é o Fascismo” de George Orwell , e as definições de fascismo por Umberto Eco, acho que a melhor definição para Fascista é “O ser que pensa que ‘a verdade’ – ou o conceito próprio do que lhe o é verdade – é apenas o que lhe foi repassado como tradição, com manutenção de preconceitos e atitudes arcaicas e prejudiciais a coletividade, nisso posto o racismo / xenofobia / homofobia / machismo, e a ideia de que força física, ‘mérito’ e oportunidades são condições iguais a qualquer um, sem mensuração das diferenças sociais ocorridas e suas condições que lhe foram postas.”

    Então tipo, se tu que leu isso:
    – Acha que no momento o conceito de “mérito” é válido;
    – Supõe que homens serão eternamente as lideranças de um povo;
    – Não gosta de certos tipos de pessoas por causa de seus traços, cores e/ou origens sociais/espaciais
    – Subjulga mulheres e pessoas trans / não binárias / fora do estereótipo padrão masculino/feminino.

    Sua chance de ser um fascista é alta. Ou ao menos, tradicionalista, que é a base de um fascista.

    1. Aproveito a discussão sobre fascismo aqui para indicar o livro “Tempestade ideológica. Bolsonarismo: a alt-right e o populismo iliberal no Brasil” (2021), escrito pela Michele Prado. O bolsolavismo é uma corrente de direita radical/extremista com características de seita.

    2. Acredito que chamar Mórmons de seita seja uma falta de respeito, intolerância religiosa inclusive.

      1. Até onde eu sei, o conceito de seita não é necessariamente pejorativo, apesar de poder ser em certos contextos.

  3. Queria que tivesse algo assim pro Instagram. Obrigado pela indicação de mais uam ferramenta legal!

  4. excelente modelo de negocios. Por mais anti-facismo! Racistas, misóginos, xenófobos, neonazistas e outras pragas supremacistas sairam da toca.

  5. Em resumo: use meu serviço que disponibilizei APENAS se você gostar do que eu gosto. E fod*-se o bom senso.

    1. Discordo, acredito que tudo que se usa, principalmente na internet se foi criado por alguém pode ter suas regras, e você é livre para não usar/ou criar o seu próprio sem nenhuma restrição…

    2. Critique-se o modelo de gratuidade do serviço, mas, fora dessa discussão, acho que classificar o apoio a fascistas como “gosto” é forçar um pouco a barra, não? “Gosto” é eu gostar de morango e você de uva, ou eu de azul e você de vermelho.

    3. Pois é. A lacração né. E pior: as pessoas aplaudem esse tipo de coisa.

      “Todos merecem privacidade nas redes sociais, mas nem todos têm direito a obter essa privacidade usando este serviço gratuito.”

      Diz ele que proíbe fascistas, né? (aliás, o que é fascista? ele que decide o que é fascista e o que não é? enfim) Imagina se, sei lá, ele proibisse o público LGGTBSUAHQWD+ de usar o serviço. A liberdade é a mesma: eu crio meu serviço, vc usa se quiser. Ou, como disse um outro comentador aqui “você é livre para não usar/ou criar o seu próprio sem nenhuma restrição”.

      Mas aí ia ter textão, ia ter toda uma máquina, reportagem, órgãos públicos, etc. Daria até prisão. MAS, como to proibindo apoiadores do bozonaro, aí tudo bem. Aí pode. Aí é legal. Quem é contra isso é que é fascista. Enfim… uma imbecilidade sem tamanho. É tipo a fábula do vizinho.

      O que temos de fazer é nos preparar pro colapso mesmo, pra assistir de camarote.

      1. Há um recorte muito óbvio aí que você não considera (ou faz questão de não considerar). Os fascistas que ele usa como exemplo são abertamente contra minorias e pessoas que pensam diferente deles. São hostis, agressivos, violentos. O nosso fascista já falou várias vezes coisas como “metralhar a petralhada”, “levar à ponta da praia” e coisas do tipo. Nunca vi uma liderança LGBT+ pregar a morte de alguém. Ao traçar a linha para gente como Bolsonaro, o que se desenha é uma reação. Legítima, pois.

        1. “Os fascistas que ele usa como exemplo são abertamente contra minorias e pessoas que pensam diferente deles. São hostis, agressivos, violentos.”

          Engraçado como essa definição TAMBÉM (ênfase no também) se encaixa nos wokes e SJW. “Ah, mas eles não pregam a violência nem a morte de ninguém”. E as campanhas de difamação e cancelamento? Não param até ver um indesejável perder o emprego, ser isolado, tratado um criminoso ou levado ao suicídio, enquanto dão tapas nos seus próprios ombros acreditando ser os salvadores do mundo.

          Assim como comentado acima, é se preparar pro colapso. Enquanto perdurar esse nós versus eles, estamos destinados à barbárie.

          1. Você atribui o mesmo peso a duas coisas de gravidade distinta. Sim, a “cultural do cancelamento” é, em alguma medida, ruim — já escrevi sobre isso, aliás —, mas não se compara a pregar o extermínio/a morte de quem pensa diferente. Pelo amor de deus, é básico, é óbvio.

            (E a depender do motivo do cancelamento, acho é pouco; quer ser racista, misógino, em resumo, ser um baita cuzão? Sinta-se à vontade, mas encare as consequências — entre elas ser isolado da vida em sociedade.)

        2. Mas Ben Shapiro Neonazista?! O sujeito é um judeu praticante!!

          Concordo que fascistas não devem ter suas postagens preconceituosas omitidas, mas acho que estão exagerando nessas definições ou classificações aí.

          1. No Brasil, temos um preto racista no comando da Fundação Palmares 🤷‍♀️

            Eu não sei falar muito do Ben Shapiro (quem o definiu como tal foi do Micah, criador do Semiphemeral), mas do pouco que tive contato com a “obra” do Ben, algo meio inevitável na minha passagem pela Gazeta do Povo, que fazia (faz?) o desfavor de traduzi-lo e publicá-lo, achei o sujeito e suas ideias absolutamente desprezíveis.

      1. Ghedin, aproveitando o ensejo de estarmos falando sobre redes sociais, o que vc achou do posicionamento do Glenn Greenwald contra a prisão do Allan dos Santos? E sobre ele esta perplexo pela ala progressista apoiar a curadoria das grandes corporações (Facebook, Google, Twitter) definindo o que é discurso de ódio e censurando contas? Se não estou enganado, ele também foi contra banir o Trump das redes sociais. Fiquei surpreso vindo de quem vem.

        Abs.

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