Apagão nos canais sociais do Manual
A solução que os executivos da Vice encontraram para tirar a publicação do buraco onde eles mesmos a enfiaram foi parar de publicar no site próprio e distribuir conteúdo nas plataformas dos outros.
Não, não estamos em 2012. A estratégia (se é que pode ser chamada assim) talvez seja o menor dos problemas da publicação canadense. Ou o último. Enfim.
Menciono esse episódio patético por ser o oposto da minha estratégia (será que é?) para março. Um experimento, na verdade. Durante um mês, o Manual do Usuário será publicado apenas em suas próprias plataformas, ou seja, no site e na newsletter.
Isso significa que passarei um mês sem divulgar o site em redes sociais (LinkedIn, Mastodon), aplicativos de mensagens (Telegram, WhatsApp) e, caso algum vídeo seja publicado, será longe do YouTube.
(Nas outras redes — Facebook, Instagram, TikTok e Twitter — o Manual já não atua há um bom tempo e, veja só, que surpresa: está tudo bem, seguimos por aqui.)
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Se você se lembra do experimento de julho de 2023, o que se inicia hoje é o contrário daquele.
Ousado? Maluquice? Não sei. A leitura que faço é de que pode ser ambas as coisas, ao mesmo tempo.
A web, nosso habitat, está implodindo sobre seu próprio peso, com toneladas de lixo de SEO criado para exibir anúncios, gerar vendas e criar funis de conversão — resumindo, ela foi exaurida pelo capital.
Esse problemão pode se revelar uma marolinha diante do tsunami da IA gerativa, que desdobra-se em duas frentes:
- O lixo de SEO deverá crescer exponencialmente, com as IAs geradoras de lero-lero cuspindo mais lixo em alta velocidade, sem parar; e
- As IAs gerativas no lugar de buscadores, em especial a do Google, que ameaçam “roubar” a maior (muitas vezes a única) vitrine dos sites.
A IA gerativa no lugar de buscadores é um caso peculiar porque gera um paradoxo: com menos acessos vindos de buscadores, os incentivos para publicar sites abertos diminuem, o que prejudica as próprias IAs que se “alimentam” de (eufemismo para “saqueiam”) conteúdo alheio publicado na web.
Há sinais de que a solução seja… mais dinheiro. A Automattic, que hospeda este Manual do Usuário, foi pega no pulo negociando a venda de blogs do WordPress.com e do Tumblr para empresas como OpenAI. Ninguém me ofereceu um centavo por isso.
Se dependermos apenas de acessos diretos e de aplicativos de mensagens, o tráfego da maioria dos sites cairá vertiginosamente. O do Manual, que nem é tão dependente do Google assim, encolheria ~64%, segundo estatísticas de janeiro.
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Quando penso nisso, sinto que estou fazendo o violinista do Titanic, tocando como se nada estivesse acontecendo enquanto o barco afunda.
E se for esse o caso, que pelo menos a música seja boa e as companhias, também.
Algumas regras do experimento:
- Nas últimas semanas, retomei o hábito de concentrar a publicação de conteúdo no site no início da manhã, por volta das 7h. Isso gera uma previsibilidade que recompensa quem visita diretamente o site do Manual. (Acho que o atalho Control + D ainda serve para adicionar um site aos favoritos do navegador. Use-o.)
- Pode ser uma ótima oportunidade de (re)descobrir o RSS. O feed do Manual fica em
https://manualdousuario.net/feed/. - A coluna de opinião (esta!) segue inteira, no site e no e-mail. Na newsletter, retomei os links para as coisas mais importantes e/ou interessantes publicadas no site. Sempre digo que a newsletter é o melhor meio de acompanhar o Manual; em março, será o único.
- A exceção para o experimento será para a divulgação de eventuais anunciantes do Manual. Afinal, é dinheiro. Antes disso, tentarei fechar patrocínios que não incluam plataformas de terceiros.
- No dia 5 de abril, relatarei os resultados do experimento em um novo texto no e-mail e no site.
Neste momento, estamos no parapeito do Titanic inclinado, meio navio embaixo d’água, ao lado do Jack e da Rose. Eu tenho a esperança (talvez por ainda não vislumbrar alternativa 🥲) de que o site e a newsletter possam ser um pedaço de madeira grande o bastante para sobrevivermos ao naufrágio.
Ótima atitude. Sigo firme acompanhando pelo RSS.
Eu achei que tinha comentado no dia, mas esqueci então se prepara para um RANT haha: não quero assinar newsletter de nada, não quero feed de nada. eu entendo querer diminuir dependência de redes sociais, mas me inscrever num canal do telegram pra receber atualizações é o equivalente desse momento da internet à se inscrever numa lista de emails/newsletter no passado. hoje em dia as caixas de email são repletas de lixo de todos os lados que se é incapaz de vencer à menos que você trate seu inbox como um bonsai que você investe horas semanais para cuidar e eu não estou na lista da galera que gosta de cuidar de planta (ou emails haha). no meu email eu pesco entre o lixo o que é importante e quando a caixa de entrada lota eu apago tudo. me parece muito que você tá transformando o seu fetiche com acordar de manhã, passar um café, ler newsletter e organizar pastas de email em algo como se fosse uma vantagem tecnológica quando é só um hobbie. eu entendo você achar que é muito bom assinar newsletters, feed RSS e eu entendo como é bom você publicar a sua obra/curadoria/trabalho em meios que se manterão estáveis porque são tecnologias abertas, independente do bilionário maluco que adquirir uma tecnologia/rede social, mas configurar um bot disparador de mensagens para o telegram é um negócio trivial. “ah, mas o telegram pode acabar com essa funcionalidade a qualquer momento ou o próprio telegram pode acabar” sim e aí a gente se concentra no próximo mensageiro, na próxima rede social que aglutinar um público que goste do site, o pomar das tecnologias é adubado com a carcaça das outrora excelentes que foram abandonados. pra mim, as redes sociais e a inscrição em canais/grupos de whatsapp/telegram não são a mesma coisa: nas redes sociais a gente depende da boa vontade do algoritimo de entregar seu conteúdo, nos mensageiros eu me inscrevo e eu acompanho, eu coloco os canais dentro das pastinhas temáticas dele e passo o meu café e vejo os meus conteúdos, exatamente como você já descreveu que faz com seus emails (não lembro se toma café, na real haha), mas bastante ciente de que essa forma que eu prefiro é só um hobbie também.
no final o Manual é seu, ainda que o Órbita também seja feito por nós, e é seu direito escolher fazer o que acha melhor com ele e eu espero que você tenha sucesso sempre, mesmo discordando nesse ponto. a sua voz é muito importante na internet, não tem as bilhões de visualizações, mas me lembra aquela frase: “A voz da razão é baixa, mas, persistente.”. Boa sorte (e não desativa o telegram não haha)
A essa altura, acho seguro afirmar que os canais do Telegram voltarão sim. Só vou tocar sem eles até o fim de março pelo bem do experimento.
Comentando aqui para engrossar o coro de desejo de sucesso. Reduzir a dependência de elementos externos parece mesmo o caminho. Como fazer isso é o que ainda não se sabe muito bem.
Finalmente configurei o rss 🙏
Aê! RSS é o futuro.
Tirar os mensageiros eu acho ideia ruim, adm. Faz isso não.
Ah, entendo o experimento com as redes sociais, que são restritas necessariamente a feeds coletivos e algoritmos, mas não entendo nos mensageiros. Digo, entendo ao envolver tecnologia proprietária de terceiros, mas a informação ainda vem em um canal exclusivo do site.
Ainda não consegui voltar à prática do RSS e o e-mail compete espaço com outros conteúdos, atropelando o foco em ler artigos objetivos. Lembrar de abrir o site é fora de cogitação – novamente, não por opção, mas por comportamento incidental.
Meu hábito de leitura do MdU se baseia em lembrar dele pelo Telegram, que eu tenho um uso super delimitado porém frequente. Para outras mídias, preciso necessariamente incluir algo a mais na minha rotina, que em termos práticos eu sei que não vai acontecer de forma efetiva.
Não inválida o experimento! Apenas compartilhando minha realidade.
Sigo na tentativa de abrir o Feedly (que mantenho como escolha de agregador) com alguma frequência. Uma hora isso vai precisar acontecer. A UX dele em relação a mensagens num canal de Telegram é muito melhor, só a rotina mesmo que não.
Entendo, Augusto. Acho que os mensageiros são menos problemáticos, mesmo, mas é aquilo: até 2016, o Facebook também era menos problemático. Nada garante que será sempre assim com Telegram e WhatsApp.
Talvez o experimento seja um incentivo extra para abrir mais o Feedly :)
Sim, faz sentido também. Eu já me blindei de todos os conteúdos de sites específicos que acompanho via redes sociais, justamente pra reduzir a relevância/uso delas. Então estava pensando que fazer isso com os mensageiros é uma motivação adicional para buscar os mesmos conteúdos em outro lugar (RSS) e criar o hábito.
Muito bom Ghedin. Sucesso no experimento. Aguardo apreensivamente os resultados.
Fiquei aqui pensando se alguém não pegou à referência do Titanic.
Gosto muito do”design clean” do MdU mas será que ajudaria se tivesse um link para o RSS? Ou RSS é um recurso que quem usa sabe como achar e usar e quem não usa ou nem sabe o que é vai ignorar de qualquer forma?
Boa pergunta, Antonio. Acho que a maioria (se não todos) os agregadores de feeds modernos são capazes de detectar feeds no código-fonte do site. Ainda assim, talvez o ícone ali, destacado, reforce a mensagem “este site oferece um feed”.
Acabei de incluir o ícone na reformulação do cabeçalho que estamos fazendo. Se tudo correr bem, deve estar no ar até o próximo fim de semana.
Alguém anda levando as ideias de Manuel Moreale muito a sério! hahaha
Boa sorte Ghedin, e para todos nós também. Estou torcendo para que os resultados desse experimento sejam melhores que as expectativas, por mais baixas que sejam.
Inclusive, acho que fará um bem para mim. Andei pensando que “perco tempo” com o telegram, sendo que vejo as mesmas postagens por email.
Distorcendo a coisa do Titanic, pra mim a gente tá é em uma canoa DIY já faz um tempo. E antes desses problemas de agora (mais graves), eram outros
Lá está Jack e Rose, cá estamos nós filmando
Por um instante, imaginei que você encerraria o MdU. :/
A comparação com o Titanic foi inesperada para mim. 😅 Ghedin, espero que não afundemos!
Em tempo – e só por curiosidade mesmo, pensando em SEO, o Manual é difícil de ser encontrado no Google. Digite Manual do Usuário e o que quer pesquisar e, na maioria das vezes, falharemos miseravelmente. Vem uma infinidade de links de manuais de produtos em Americanas, Magalu e Cia.
Sério!? Fiz um teste aqui, deslogado e em aba “anônima”, pesquisando por
manual do usuário, e este Manual é o primeiro resultado.(De qualquer modo, é um nome ruim mesmo, porém tarde demais para mudá-lo 🥲)
Para mim, é o primeiro resultado no Google, DuckDuck Go, Bing… Fiz o teste nas mesmas condições que você.
Creio que fui traído pelo histórico aqui mesmo, então. De fato já pesquisei algumas vezes por manuais de produtos, de fato.
Perdão por não ter feito na aba anônima. :-|
Tranquilo!
Ué, é o primeiro resultado sim
Lembro de ter conhecido o nome do Ghedin há MUITOS anos no site Gizmodo Brasil, salvo engano. Recentemente, lembrei do seu nome quando vi o projeto do Manual do Usuário. Me pareceu uma referência com credibilidade, comecei a acompanhar o conteúdo, que vai ao encontro da minha filosofia atual.
Detesto o feudo que se tornou a “internet”, com as big techs, redes sociais e esse tal de SEO. Com minha adesão ao Linux, abri meus horizontes e hoje vejo que é possível ter acesso à internet em sua acepção mais ampla, ainda que com um pouco de trabalho. O Manual é grande parte nesta empreitada.
Espero que o site tenha vida longa e estou certo que terá sempre um público fiel. Obrigado!
Violinista do Titanic? Pode ser. Pelo menos, o cara estava animando com música um cenário onde os outros só conseguiam ver sofrimento e feiura. E pelo menos o Manual é um dos espaços onde se procura manter a grande rede como um lugar interessante e aberto à descoberta. Como eu sou bem mais frequentador de newsletters e sites do que da mesmice das redes sociais, pra mim essa sua nova iniciativa está ótima.
Como os acessos via RSS impactam o manual? Sempre leio as publicações via “read you”. Isso gera números de acessos para vocês?
Fora isso, toda minha admiração pelo projeto e pelo experimento.
Acho que as redes acostumaram os usuários da Internet a números irreais. Mas ainda somos muito afetados com a queda deles.
Creio que não contem como acessos.
Acompanho por RSS, mas o Manual é um dos poucos que acesso quase todo post direto no site por conta dos comentários, o que o RSS não busca.
Não sei se deveria dizer isso, mas o Koreader (que é um aplicativo ótimo de ler livros que inclusive dá para colocar em leitores digitais como kobo e kindle), tem também um coletor de feeds RSS que é dos melhores que achei. Porque ele tem uma função de baixar o link do feed inteiro (escaneando a página) e salvar como um epub. E aí ele pega inclusive os comentários que estavam na página no momento do escaneamento, ao menos no MdU. Testa se quiser ter o melhor dos 2 mundos.
RSS não gera acessos, mas está tudo bem porque o Manual não vive de acessos, de grandes volumes de audiência.
E, sim, redes nos acostumaram a números irreais e, por vezes, mentirosos mesmo. Um exemplo de que gosto muito é o de quando a Apple mudou o comportamento do app Podcasts, em setembro do ano passado: ele parou de baixar podcasts que as pessoas se inscreviam, mas não ouviam. Teve podcast que perdeu 40% da “audiência”.
Curioso que não notei a mudança no Podcasts. Bem-vinda, inclusive. Porque às vezes me inscrevia em algum e esquecia de desmarcar para não fazer o download automaticamente e o espaço ocupado só crescia.
Mas de curiosidade, não conta nem como 1 acesso quando o programa escaneia o Feed ? Porque ele tem que se conectar à internet e acessar o endereço RSS ao menos 1 vez, para receber o feed. Cada vez que eu mando escanear, não seria 1 acesso ?
Conta como um hit no servidor, mas não conta como acesso. Para contar como acesso, é preciso acessar por um navegador que tenha JavaScript, o que não é o caso dos crawlers. No caso do feed, pior ainda: o cliente não acessa a capa do site, mas sim um arquivo
*.xmlque contém todos os posts estruturados.Até o app Telegram que eu gosto bastante logo deve ter um futuro tenebroso, soube que logo terá ADs em canais e grupos com muitos usuários e os administradores vão ganhar algumas moedas $ se habilitar ADs nos canais e grupos que administram.
Hoje vi que o Facebook vai encerrar a sua tab news do site e parar de pagar os publishers pelo seu conteúdo criado.
Difícil de ver uma luz no fim do túnel sobre essa situação toda.
Eu não sei se é interessante comentar que o seu site aparece também no google news (além de tudo isso mencionado aí em cima).
Pois é. O surrupio do conteúdo precede os GPTs da vida…
Justiça seja feita, a inclusão no Google News foi por iniciativa minha. A lógica é a mesma do Google buscador: o News varre o site e aponta links para cá. O que é válido, acho.
Ninguém deveria precisar de nada além do RSS (e de 640 kbytes de memória).