Eu vi “A Entrevista” para que você não precise

Os personagens Dave e Aaron testam seus receptores e relógios.

O cinema muitas vezes é entretenimento. Pode ser arte, também — a sétima, como dizem. Às vezes, um ato político, uma crítica ou uma chamada de atenção a problemas urgentes que estão sendo ignorados. Em 2014, a lista de utilidades da telona aumentou: com A Entrevista, passou a poder ser o estopim de crises internacionais.

Diz-se que a Sony Pictures sofreu uma das maiores invasões virtuais da história por causa desse filme estrelado por Seth Rogen e James Franco. O grupo hacker responsável pelo ato, os Guardiões da Paz, alegou em algumas mensagens que A Entrevista, uma comédia que mostra o assassinato de Kim Jong-un, o ditador que dá as cartas na Coreia do Norte, por jornalistas espiões norte-americanos, foi o que motivou os ataques e consequentes vazamentos de informações confidenciais, coisas que vão de trocas de e-mails entre altos executivos a fofocas, diferenças salariais e dados privados de todos os funcionários do estúdio.

Apesar da confirmação pelo FBI do envolvimento da Coreia do Norte no ataque, há motivos para suspeitar dessa história. Os Guardiões da Paz só citaram o filme depois que a mídia começou a apontá-lo nas primeiras matérias sobre a invasão à Sony Pictures. A história ganhou contornos mais sérios depois que os (a essa altura) terroristas ameaçaram atacar salas de cinema nos EUA que exibissem A Entrevista. Diversos cinemas cancelaram a premiere, a Sony Pictures cancelou o lançamento nos EUA, mas depois que Barack Obama tratou da situação em rede nacional, voltou atrás. Não só: além de estrear em 300 salas de cinema, o filme foi lançado simultaneamente em diversos serviços de streaming, como YouTube, Google Play, Xbox Videos e Kernel. Aos trancos e barrancos, a data original se manteve e o filme ganhou mais alcance graças aos serviços de distribuição digital e, claro, toda a polêmica que precedeu sua estreia.

Em um ato de protesto e apoio, muita gente recorreu a sites sobre cinema, notadamente o IMDb, e deu nota 10 ao filme A Entrevista antes mesmo da conferi-lo. Eu assisti ao filme e adianto: com muita boa vontade e já considerando o protesto e tudo mais, ele não merece nem metade disso.

Uma comédia sem graça

https://www.youtube.com/watch?v=QeFtkFpfP-Q

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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Dirigido por Evan Goldberg e Seth Rogen, A Entrevista é uma comédia bem ruim. No filme, James Franco interpreta Dave Skylark, meio que um João Kleber da TV dos EUA — apelativo ao extremo. Rogen é o produtor Aaron Rapaport. Na festa do milésimo programa exibido, Aaron encontra um ex-colega de faculdade, hoje produtor do 60 Minutes (um programa jornalístico da CBS) e através desse diálogo ele se dá conta de que não tem exatamente motivado a reflexão e o engrandecimento dos seus espectadores com as entrevistas sensacionalistas que produz. (Nessas, aliás, temos algumas participações especiais como as de Eminem e Joseph Gordon-Levitt.)

A chance de dar a volta por cima aparece quando uma reportagem do New York Times sobre o ditador norte-coreano Kim Jong-un diz que o programa de Dave é um dos seus favoritos. Aaron, então, agenda uma entrevista com ele (“a entrevista” do título) e a dupla viaja à Coreia do Norte para bater um papo com o ditador. Nesse meio tempo a CIA intervém e convence os dois a executarem um plano de assassinato de Kim durante a entrevista.

Se você viu É o Fim, de 2013, já tem uma boa noção do que esperar de A Entrevista. James Franco e Seth Rogen parecem ser grandes chapas fora das telas, do tipo que gravam clipes-paródia e fazem piada com o que sai na mídia. Ambos os filmes devem ser muito engraçados para eles e para quem é do seu círculo de amizades. Parecem ter sido feitos por eles e para eles, apenas “pela zuera” ou qualquer coisa do tipo. Só isso explica.

A Entrevista é um tipo de humor tacanho, cheio de piadas de quinta série: trocadilhos com “ânus”, ereções, objetos no ânus, sangue esguichando em grande quantidade, cocô nas calças. Rogen, que costuma ser engraçado, fica em segundo plano — o que é uma pena. Franco parece o personagem de É o Fim, que por sinal era ele mesmo, só que agora com um emprego de apresentador. Além de forçadas e muitas de mau gosto, a maioria das piadas não funciona. Digo, não se você já passou da quinta série.

Existem algumas partes que se salvam. A amizade entre Dave e Kim Jong-un (interpretado por Randall Park) e o dia que eles passam juntos consegue tirar algumas risadas pela caricatura e nonsense da situação. “Quer ver algo legal?”, pergunta o ditador norte-coreano. Em seguida a tela mostra uma coleção de carros esportivos e um tanque de guerra no fundo da sala. “Presente de Stalin para o meu pai”, diz ele. Dave o corrige: “Nos EUA a gente pronuncia ‘Stallone'”. Corta para um passeio de tanque com disparos de canhão ao som de Katy Perry. Infelizmente esse bom momento é meio que isolado do restante do filme. Foi difícil chegar ao fim.

Kim Jong-un e militares norte coreanos.
Minha expressão enquanto assistia ao filme.

É bem provável que A Entrevista passasse batido não fosse toda a polêmica que o envolveu. As circunstâncias, aliás, são bem mais interessantes que o próprio filme e todo o estardalhaço talvez pudesse ter sido evitado com nomes fictícios para o país e o ditador — o que não alteraria nada significativo no enredo. Kim Jong-un é apresentado como um playboy mimado e inseguro, porém bastante astuto na arte de manipular. Não há nada do verdadeiro imprescindível ao personagem, até porque pouco se sabe do verdadeiro Kim Jong-un. Qualquer ditador funcionaria.

A melhor parte de A Entrevista é a sua distribuição, com lançamentos simultâneos nos cinemas e por streaming. É um marco e seria legal se futuros filmes seguissem essa linha. Melhor que isso só se as travas regionais caíssem também, mas aí é querer muito no momento.

Ainda não se sabe quando ou mesmo se A Entrevista estreará no Brasil. A data original, 29 de janeiro, foi suspensa pela Sony Pictures do Brasil. Por ora, o jeito é apelar para algum proxy e comprar/alugar o filme lá fora, ou correr para os sites de torrents — segundo o TorrentFreak, em menos de 24h mais de 750 mil pessoas baixaram o filme. Mas, na real? Não vale o esforço. As expectativas aumentaram muito, é verdade, mas mesmo que fosse uma comédia despretensiosa, sem todo esse incidente envolvendo invasões ao estúdio e declarações presidenciais, ela não se sairia muito melhor. A Entrevista é aquela piada que você não entende direito e, quando sim, não vê muita graça e/ou fica constrangido.

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16 comentários

  1. Ghedin, no começo da matéria tá escrito Kim Kong-un.
    Confesso que gostei bastante do filme, bem besteirol mesmo, mas sempre gosto do Seth Rogen.

  2. Assisti, gostei de “A Entrevista” mesmo cheio de clichês arrogantes típicos dos besteiróis de Hollywood mas o filme em si não faz justiça à confusão toda em torno do ataque à Sony.

  3. Assisti e confesso ter gostado sim, e muito. É realmente a clássica comedia pastelão Norte Americana, mas não se vê filmes assim hoje em dia (devido a criticas como a dessa matéria), mas creio que o filme foi TÃO APELATIVO, que acabou se tornando engrassadíssimo. Recomendo forte, e assistam sem medo de rir de piadas de quinta série

  4. Não vejo o motivo para tanto estardalhaço por causa deste filme. Sincera e honestamente, não faço a menor questão de vê-lo, ainda mais por se tratar de um filme onde, mais uma vez, os EUA levam vantagem sobre as outras nações, mesmo sendo elas regidas por governos ditatoriais. Clichê? Acho que Sim.

  5. Ainda não assisti, embora acredito que não irei gostar pois sou meio crítico quanto a comédias ainda mais besteirol, porém vi uma crítica positiva de um comentarista do Estúdio I da Globo News dizendo que há críticas a mídia e que é mais inteligente do que aparenta ser, fiquei mais curioso…

  6. Assisti e gostei muito, eu ri, ri bastante. Curti.

    A minha maior dúvida é porque a Sony lançou o filme em vários lugares menos na PSN… até no Xbox ela lançou… como diabos funciona isso?

  7. Ghedin, vi o filme ontem e adorei. Cresci vendo filme besteirol e a dupla Rogen/Franco leva isso para outro nível (baixo, óbvio). E ainda é melhor que é o fim. (depois procura uma versão inglesa de nome similar e lançamento próximo, chamada World’s end com o Simon Pegg)

    1. The World’s End faz parte da Blood and Ice Cream Trilogy, sendo os filmes Shaun of the Dead e Hot Fuzz os dois primeiros.

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