WhatsApp está virando uma mistura de shopping com SAC
O marketing do WhatsApp é todo voltado às relações próximas, pessoais.
No site do aplicativo da Meta, uma mensagem grande diz que “com mensagens e chamadas privadas, você pode ser quem realmente é, conversar com liberdade e se aproximar das pessoas mais importantes da sua vida, não importa onde estejam”.
Quase escapou uma lágrima aqui.
Seria ótimo se fosse verdade, mas, sendo generoso com a empresa, isso é no máximo uma meia verdade.
Nesta semana, a Meta organizou um evento na Índia para anunciar oFlows, uma nova ferramenta de personalização para grandes empresas.
Com ela, companhias aéreas, bancos, redes de restaurantes e varejistas poderão criar formulários de venda sob medida no WhatsApp, fechando a “jornada do cliente” dentro do aplicativo, da prospecção ao pagamento.
Os exemplos dados pela Meta vão da escolha de assentos ao comprar uma passagem de avião a detalhes de reservas em restaurantes, passando pelo checkout em varejos online.
Em outras palavras, é a maior investida da Meta para transformar o WhatsApp em um “super app”.
É irônico que o sonho dos empresários mais bem sucedidos do Ocidente, de Zuckerberg a Musk, seja replicar o modelo totalitário do WeChat, o “super app” chinês. Seriam eles comunistas? Ou só avessos à competição, com fortes tendências monopolistas?
Também na Índia, a Meta anunciou que lançará, em breve, uma assinatura paga para empresas que usam o WhatsApp, com benefícios como selo de verificação, suporte com pessoas de carne e osso e proteção contra falsários — o pacote de serviços que deveria ser básico.
A mensalidade do WhatsApp é uma espécie de aluguel para empreendimentos que não desejam vender seus produtos e serviços na calçada digital, serem os ambulantes do metaverso.
Em 2014, a Meta comprou o WhatsApp, então um pequeno negócio com meia dúzia de funcionários e, já àquela altura, centenas de milhões de usuários, por ~US$ 20 bilhões.
A Meta pagou essa bolada porque o Onavo, um aplicativo de espionagem em massa, apontou que o crescimento acelerado do WhatsApp era uma ameaça à empresa.
Apesar da natureza defensiva da aquisição bilionária, o pouco dinheiro que a Meta fez com o WhatsApp desde então é quase um ultraje aos acionistas.
O único truque que Mark Zuckerberg sabe fazer para gerar receita — sugar dados dos usuários para esfregar anúncios na cara deles — é meio complicado no WhatsApp.
Muito antes de fechar negócio com o capeta, digo, com Zuck, os co-fundadores do WhatsApp prometeram que o app jamais teria anúncios.
Ainda que nos bastidores executivos da Meta tenham suscitado quebrá-la, a promessa continua de pé.
Sem anúncios, a Meta decidiu cobrar pedágio de empresas que usam ou queiram usar o WhatsApp para vender e falar com clientes, ou seja, transformar o WhatsApp em um grande shopping misturado com SAC.
O fato do WhatsApp não gerar receita não significa que a Meta esteja mal das pernas. A venda de anúncios em suas outras propriedades — Facebook e Instagram — é altamente rentável. Só no trimestre mais recente, encerrado em 30 de junho, a Meta faturou US$ 32 bilhões e lucrou US$ 7,78 bilhões.
Só que, para empresas de capital aberto, como é o caso da Meta, gerar “valor” — um eufemismo cretino para “dinheiro” — aos acionistas é prioridade. Tudo gira em torno desse objetivo por definição inalcançável; quanto mais, melhor.
O uso intenso que o mundo faz do WhatsApp — à exceção de EUA e China — é, aos olhos dos executivos e acionistas da Meta, uma montanha de “valor” deixada sobre a mesa. É inadmissível.
No mundo dos negócios, no capitalismo tardio em que estamos metidos, o único desfecho possível é transformar tudo e todos, até as conversas com “as pessoas mais importantes da sua vida”, em consumo, em faturamento, em fontes de “valor”.
Aqui no Japão o Line já cumpre esse papel há tempos. Mensagens, notícias, compras. Não chega a ser onipresente como o WeChat é na China, mas chega perto. Zap aqui é coisa de estrangeiro, latino ou europeu. Norte americanos usam mesmo o imessage da Apple.
Tomara que alguém desenvolva uma interface milimalista para o whatsapp, com acesso somente ao mensageiro… Nem sei se isso é tecnicamente possível.
Por essas e outras que acredito que não usar WhatsApp é uma questão política, um protesto. O Zuckerberg vem mostrando ano após ano, por muito tempo, que não é nada confiável e não está interessado em mudar.
A União Europeia está em vias de colocar pra valer o projeto que obriga todos os comunicadores instantâneos, como WhatsApp, Signal, Telegram, etc, a terem protocolo aberto para que possam ser integrados num app único. Nesse caso daria pra não usar o app WhatsApp (que é uma porcaria inenarrável) e ainda assim falar com as pessoas que o utilizam. Infelizmente nossas mensagens continuariam a ser lidas pelo servidor do Zuckerberg (porque afinal quem acredita em criptografia ponto a ponto em aplicações de código fechado…?).
Só não entendi porque o WeChat é o totalitário?
Mesmo não querendo, muitos de nós usam o Whatsapp por obrigação, então totalitário é o Whatsapp. Certo?
Neste caso, acredito que o termo totalitário foi em relação à China, onde o app é onipresente.
Eu sei. Mas dizer que a China é totalitária é o mesmo que dizer que os EUA é democrático.
Até o povo começar a migrar do whatsapp… Nada é eterno. Porém, não vejo isso acontecer num espaço de tempo tão curto. Não me recordo de nenhum serviço on-line que se tornou tão onipresente quanto o Whatsapp… Nem msn, nem orkut, nem facebook. Nem e-mail, nem torpedos. Pessoas que nunca mexeram direito na internet estão lá pau e pau compartilhando fake news no zap. O zap virou “app de delivery”, central de agendamento de consultas, exames, serviços etc. como o sms nunca foi.
Penso que foi uma questão de timing, pois o whatsapp surgiu quando as operadoras ainda cobravam para enviar sms, e o zap veio como forma de burlar essa cobrança. Também lá no início lançaram aplicativo para vários aparelhos antes da era do smartphone.
Se for pensar a presença do whastapp hoje, o preço pago por ele foi até barato. Aqui no Brasil ele assumiu o lugar dos torpedos de forma absoluta. As pessoas veem o app de torpedos apenas como o app que recebe autenticação em 2 fatores e spam.
Estava conversando com um colega sobre isso. Hoje as pessoas não passam o número de contato, mas sim o “zap”.
Não sei se em algum momento teremos a alteração desse comportamento, principalmente no Brasil, no qual o WhatsApp virou sinônimo de comunicação e entretenimento.