Tentei criar um bot no WhatsApp. A Meta me baniu antes que ele saísse do papel

por Alessandro Feitosa Jr

Parte da jornada de aprendizado da maioria das pessoas que começam a meter a mão em código é tentar criar projetos que, com sorte, possam virar algo útil para si e para os outros. Em maio, quis entender melhor a API do WhatsApp. Configurei meu ambiente local, loguei na plataforma de desenvolvimento da Meta e comecei a mexer aqui e ali.

Peguei um número de testes que a própria plataforma ofereceu, mandei um “Hello World” e testei alguns comandos básicos da arquitetura que estava desenhando. Poucas semanas depois, precisei deixar o projeto de lado.

Ao tentar retomar essa ideia há algumas semanas, me assustei com a mensagem na página de desenvolvedor da Meta:

Mensagem da Meta: “Não é possível acessar este serviço. Para mais informações, consulte os Termos de Serviço da Plataforma e a Política do Desenvolvedor da Meta. Se você acha que recebeu esta mensagem por engano, envie uma solicitação de suporte.”

Clicando no link para solicitação de suporte, outra mensagem, informando que a minha conta de desenvolvedor estava suspensa pelo “Termo da Plataforma 7.e.i.3”. Eis o que diz o documento:

Você criou ou manteve Apps para burlar, ou tentar burlar, nossas ações de monitoramento (que pode incluir a criação ou manutenção de Apps para burlar quaisquer restrições ou monitoramento que realizarmos em seus outros Apps ou conta devido a uma violação de nossos termos e políticas).

Fiquei surpreso com a mensagem porque:

  1. Eu não recebi e-mail de aviso sobre a suspensão ou pedindo algum ajuste.
  2. Não tive nenhuma chance de entender por que meu app, em ambiente de desenvolvimento, feriu qualquer termo da plataforma.

Preenchi o tal formulário para apelar da decisão, mas ele parece levar do nada a lugar nenhum. Não existe nenhum indicativo de prazo para que alguém ou algum sistema revise o meu pedido, por exemplo. A cada dia, o formulário reabre para que eu possa enviar uma nova solicitação, com a apelo do dia anterior registrado logo abaixo.

Um dos campos no formulário pergunta: “Você fez as alterações necessárias? Explique as alterações que você fez para cumprir este Termo da Plataforma.” A ironia é que eu nem tenho como fazer alteração alguma, já que estou trancado para fora da plataforma, e meu app está em um ambiente de desenvolvimento (ou seja, não foi publicado em lugar algum, não está disponível para absolutamente ninguém).

Página de apelações da plataforma de desenvolvimento do Facebook.

Dezenas de outras pessoas estão nessa mesma sinuca de bico e não há relatos de sucesso no restabelecimento da conta. É o caso do desenvolvedor João Filipe, que também teve sua suspensa e me contou ter enviado pelo menos 15 solicitações de revisão à Meta. Segundo ele, a página de suporte exclui as apelações, como se ele nunca as tivesse enviado.

Filipe empreende e perdeu acesso ao aplicativo de sua empresa. Embora o app continue funcionando, somente as pessoas que trabalham com ele conseguem acessar os recursos de desenvolvimento. Se não fosse por isso, ele acredita que teria perdido sua empresa.

Outro efeito colateral da suspensão envolve não conseguir usar a API de Conversões para anúncios nas plataformas do Facebook e Instagram.

No Reddit, pelo menos três threads distintas relatam a mesmíssima situação.

Na própria comunidade de desenvolvimento da Meta, existem vários posts sem nenhum retorno de representantes da companhia há meses. Até no LinkedIn encontrei relatos similares.

Mais do que a frustração de não conseguir levar adiante uma ideia, fica a sensação de impotência diante de um sistema em que nenhuma regra é clara e nenhum canal de contato existe de fato. A Meta detém o aplicativo mais popular do país, mas oferece aos desenvolvedores o oposto de transparência. Procurei à beça alguma forma de falar com um humano, sem sucesso.

O que era para ser uma tentativa de construir algo legal virou um lembrete de como depender da boa vontade de uma plataforma colossal como a Meta expõe uma fragilidade no ecossistema sobre o qual a internet se apoia. E um gostinho amargo de injustiça, afinal, não dá para dizer que infringi algum termo ou fiz algo de errado.

Procurei a assessoria de imprensa da Meta para um posicionamento mas não obtive nenhuma resposta.

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9 comentários

  1. A Meta é oque há de mais nocivo na Internet. E não precisamos desenhar isso oque vemos em todas as suas redes sociais.

  2. “A Meta detém o aplicativo mais popular do país, mas oferece aos desenvolvedores o oposto de transparência. Procurei à beça alguma forma de falar com um humano, sem sucesso.”

    A essa altura dos acontecimentos e do histórico da empresa, so vão prestar atenção nisso quando ocorrer algo no nível “Bloqueio do X”, igual no ano passado. Aí depois vão choramingar que estão ferindo a liberdade de expressão e tudo mais.

  3. Ouvi de um amigo advogado que onde ele trabalha há inúmeros processos de pessoas que buscam o desbloqueio de contas contra big techs pelos mais diversos motivos.

    Só consigo pensar que a sociedade não está prestando atenção que colocaram sua imagem, voz, renda e meios de pagamento nas mãos de terceiros que podem simplesmente apertar um botão e os colocarem em uma situação de perigo, como exposição da imagem, bloqueio de acesso de e-mails usados para recuperar contas, bloqueio de contas e cartões… As possibilidades de dano são enormes.

    1. Só pra lembrar também: O WhatsApp Pay chegou a ser lançado por aqui antes do PIX, mas acabou sendo barrado. E o PIX acabou pegando.

      Agora imaginem se não tivesse sido barrado…

  4. É porque você é uma pessoa honesta. Se fosse um golpista, nada aconteceria contigo.

    Agora invente de escrever algum texto sem ser obrigado a m15tur4r núm3ros em palavras que nem sensíveis são pra ver o que acontece com tua conta.

  5. > Mais do que a frustração de não conseguir levar adiante uma ideia, **fica a sensação de impotência diante de um sistema em que nenhuma regra é clara e nenhum canal de contato existe de fato.**

    Kafka enviou o arquivo o-processo.pdf

    1. Isso deveria ser o ponto #1 de qualquer regulação de redes sociais. Esse negócio de como as big techs aplicam as regras de uma forma sem critério uniforme, sem clareza, com processos todos automatizados sem direito a recurso é uma vergonha. As regulações deveriam consertar neste ponto.