Fabricantes de celulares, não tentem enganar o consumidor

Em dezembro de 2017, os desenvolvedores do aplicativo Geekbench revelaram que a Apple diminuía o desempenho de modelos velhos do iPhone 6 caso a bateria do mesmo estivesse degradada, uma medida tomada preventivamente para evitar desligamentos aleatórios do celular.

Ainda que a motivação fosse válida e a solução, adequada, a falta de transparência causou alvoroço e demandou uma série de desculpas e medidas por parte da Apple para superar o chamado Batterygate — entre elas, incluir no iOS uma opção entre desempenho e estabilidade e oferecer descontos generosos na troca de baterias por um ano.

Agora, a Samsung enfrenta uma crise parecida. Youtubers sul-coreanos descobriram que celulares da marca — incluindo os mais caros, como os da linha Galaxy S — têm um software chamado Game Optimizing Service (GOS) que limita o desempenho de cerca de 10 mil aplicativos, alguns deles populares (Instagram, TikTok, Genshin Impact), presumivelmente para estender a duração da bateria.

A exemplo do caso da Apple, a estratégia faz sentido, mas a implementação na surdina deixa uma sensação ruim em quem paga alguns milhares de reais por um celular que não entrega todo o desempenho prometido.

Piora a situação o fato de que aplicativos de benchmarking, que testam o poder de processamento de celulares, não constarem naquela lista de 10 mil afetados pelo GOS. A Samsung deliberadamente oculta o fato do seu software interferir no desempenho, ainda que o fim (preservar bateria) seja compreensível e, para muita gente, desejável.

Pega no pulo, a Samsung disse, em nota ao The Verge, que “após uma análise cuidadosa”, em breve lançará uma atualização de software para dar aos usuários o poder de ligar e desligar o GOS.

Existe um equilíbrio entre tomar decisões supostamente óbvias em favor do cliente e enganá-lo, mesmo quando as intenções são as melhores. Em qualquer caso, ser transparente é imprescindível. Via Android Authority, The Verge (ambos em inglês).

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5 comentários

  1. Uns anos atrás a Apple se envolveu numa polêmica muito parecida

  2. Só para pontuar: essa lista de 10.000 apps não necessariamente tem limitação de desempenho. Segundo a Samsung, é uma lista para identificar os tipos de aplicação que não tem relação direta.

    Ultimamente, tem me fascinado essa questão de quanto os dispositivos tem se tornado cada vez mais opacos e tratados como serviço. Por um lado, democratiza o acesso e por outro gera raiva dos entusiastas.

    Nesse caso em específico, me incomoda mais a origem do problema: esses processadores em smartphones high-end não se justificam, os ganhos de desempenho alardeados não são realistas, por gerarem muito calor e consumo de energia.

    1. Achei contorcionismo retórico da Samsung, não? A lista, segundo essa explicação, aponta o que é game ou não e, portanto, o que está suscetível à limitação de desempenho. Em resumo, o problema continua existindo.

      1. Nas primeiras reportagens, eu entendi que ela estava cortando desempenho para todos esses apps e não apenas para os jogos identificados pela lista. Ambos os cenários são ruins, mas o primeiro caso representaria um cenário muito mais grave ao meu ver.

        Uma coisa é o processador ser sufocado em aplicações pesadas e contínuas como jogos, outra é não conseguir nem lidar com apps comuns.