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A realidade como um serviço

Mulher com headset de realidade mista e ao fundo montanhas e monumentos peruanos.

Sempre vi a realidade como mista, então quando soube que a Microsoft lançaria uma linha de Headsets Windows de Realidade Mista, fiquei animado. Todo mundo que colocasse esse capacete, presumi, veria o mundo exatamente como eu vejo. Era um sonho tornado realidade. A subjetividade seria finalmente resolvida, e a meu favor. Aqui, finalmente, um gadget — de ninguém menos que da Microsoft — que eu poderia endossar.

Então, li que a Microsoft “define Realidade Mista como qualquer coisa que inclua ou que fique entre a Realidade Virtual e a Realidade Aumentada”. Minha animação evaporou como o orvalho em uma manhã de verão. O que quer que esses headsets fossem revelar, não seria a minha realidade. Não seria nem mesmo uma realidade. Seria um monte de realidades agregadas em uma meta realidade.

Parece que, de repente, temos uma abundância de realidades. É como se os yippies tivessem conseguido, enfim, completar seus planos de colocar ácido no sistema de distribuição de água. Sinto-me sobrecarregado. Não sabia nem que existia uma lacuna entre Realidade Aumentada (AR) e Realidade Virtual (VR) em que outras realidades poderiam se espremer. Para mim, era óbvio que a VR começava exatamente onde a AR termina — que elas compartilham uma fronteira. Eu estava errado. Realidade Mista (MR) engloba AR e VR, mas também inclui muitas outras, as R ainda sem uma marca. Conceitualmente, é algo como o multiverso. No momento em que você admite a existência de duas realidades, você acaba com uma multiplicidade de realidades, todas desordenadas.

“A humanidade não pode suportar muita realidade”, escreveu T. S. Eliot. Ele não estava usando um Headset Windows de Realidade Mista.

Vejo aonde isso nos levará. A realidade está prestes a virar plataforma. A realidade, na verdade, virará a plataforma definitiva: a Super plataforma. Você terá a Realidade Apple, a Realidade Facebook, a Realidade Google, a Realidade Amazon e a Realidade Microsoft, e cada uma delas será fechada em muros do tamanho de Trump. A Guerra das Realidades será a guerra que porá fim à Guerra das Plataformas.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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A quem quero enganar? Não haverá guerra alguma. A competição é para os perdedores, especialmente quando estamos falando da construção de realidades. O que veremos é a ascensão do Oligopólio da Realidade: cinco grandes e lucrativos Monopólios da Realidade fingindo rivalidade, mas existindo confortavelmente lado a lado. Espero que as paredes entre eles terminem sendo levemente porosas — apenas o suficiente para permitir um tiquinho de saltos de realidade. Você pode ser um membro da Realidade do Facebook, mas poderá tirar férias na Realidade da Amazon. Algum tipo de sistema de pagamento cruzado será posto.

Pode parecer estranho pensar na realidade como sendo baseada em anúncios, mas suponho que alguém cínico diria que tem sido assim já faz algum tempo. De qualquer modo, não posso evitar o vislumbre de um movimento de protesto emergindo: um pequeno grupo de esquerdistas e libertários, marchando unidos sob a bandeira da Neutralidade da Realidade. “A realidade quer ser livre!”, declararão em um manifesto. A quem os Monopolistas da Realidade, silenciosamente, responderão: “Você tem direito a seus próprios fatos, mas você não tem direito à sua própria realidade”.


Nicholas Carr escreve sobre tecnologia e cultura. Já publicou quatro livros, entre eles A Geração Superficial: O que a Internet está fazendo com os nossos cérebros (Editora Agir, 2011) e Utopia Is Creepy: And Other Provocations (sem tradução no Brasil), uma coleção de ensaios publicados em seu blog, Rough Type.

Publicado originalmente no Rough Type em 1º de setembro de 2017.

Foto do topo: Foto: Microsoft/Divulgação.

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