Nem mágica, nem IA: PresenteIA, do Marcos Mion, explicita a devassa dos nossos dados
Estava zapeando a TV no último sábado quando topei com Marcos Mion anunciando o PresenteIA, uma solução para “nunca mais esquecer o aniversário de quem é importante pra você”.
O serviço não tem aplicativo e o site é meramente promocional. Tudo acontece com um chatbot no WhatsApp. Você compartilha os contatos de que deseja ser lembrado dos aniversários na conversa, o PresenteIA “adivinha” as datas e te lembra na véspera. Se você quiser, compra um presente na própria conversa. A entrega é garantida mesmo que você não saiba o endereço da pessoa, uma cortesia do iFood, que também está metido no negócio.
O slogan do Presente IA diz que “parece mágica, mas é IA”. Sem conhecer mais detalhes do serviço, poderia apostar que não tem IA alguma ali, mas sim a velha devassa da privacidade normalizada por empresa de tecnologia nos últimos 15 anos.
O PresenteIA é uma investida da CRMBonus, empresa especializada em “atrair, converter e fidelizar” consumidores. (Parece a descrição de um negócio de venda de drogas.) Mion é “embaixador” do PresenteIA e sócio no projeto.
O iFood é dono de 20% da CRMBonus, fatia comprada em julho de 2025. Segundo o site Meio&Mensagem, é a primeira marca parceira do PresenteIA, o que lhe garante “acesso à base proprietária da CRMBonus, que reúne mais de 100 milhões de históricos de compras”. Futuras marcas parceiras também terão direito a esse oceano de dados.
A divulgação, assinada pela agência Tech & Soul, explora a imagem de famosos em stories no Instagram. Eles lamentam terem se esquecido do aniversário de alguém famoso ou cobram amigos esquecidos. Essa foi a deixa para Mion abordar o PresenteIA em seu programa televisivo, com um vídeo de Michel Teló cobrando o apresentador pelas felicitações que (supostamente) não recebeu.
A falta de transparência é alarmante. De onde vêm as datas de aniversário que a “IA” adivinha? Como saber se a minha está nesse banco de dados? O endereço vem do iFood; Diego Barreto, CEO do iFood, diz com todas as letras em um vídeo de divulgação que “eu sei o seu endereço”. Quem deu permissão para esse uso no PresenteIA?
Durante o programa, Marcos Mion orientou os telespectadores a consultarem a política de privacidade do PresenteIA. É impossível. Os três links no rodapé do site — Política de privacidade, Termos de serviço e configurações de cookies, escritos em inglês — não levam a lugar nenhum. No site da CRMBonus, todos os links para o PresenteIA estão desativados.
Atualização (12/2, 11h10): Alguém da CRMBonus deve ter lido este post, porque após a publicação os links do rodapé — incluindo a política de privacidade — passaram a funcionar. Prova de que estavam quebrados (apontavam para #, ou seja, nada) pode ser consultada no Archive.org, em um snapshot de 10/2.
É desalentador — embora não surpreenda mais — iniciativas questionáveis do tipo. A “IA” faz aqui uma lavagem de imagem de um negócio super suspeito que, além de ser mais um canal de vendas para o iFood e outras empresas dessa laia, a CRMBonus provavelmente usará para enriquecer o seu banco de dados. Os participantes podem complementar as datas de aniversários que a “IA” não adivinhar.
Se bobear, acaba candidato a candidato a presidente como o primo… Mas por ora esse banco de dados deve falar alguma coisa em ano eleitoral.
A pergunta principal é como se “auto-excluir” dessa aberração?
Nao quero minha data de aniversário nem endereço sendo utilizado por ai, sem meu consentimento expresso.
A palhaçada, ela não tem fim.
Informação fundamental para cidadãos ficarem conscientes da devassa que se faz em nissas privacidades. Parabéns
No site do presente.ia dá pra baixar um PDF com a política de “privacidade” deles. E tem aqui o [aviso de privacidade](https://dpo.privacytools.com.br/policy-view/0m1r1wgW8/1/aviso-de-privacidade-/pt_BR)
Pelo que sei, eles tem contratos com operadoras de celular. Pelo menos o da Vivo, eu sei. Já ganhei pontos em maquininhas de cartão também, em lojas aleatórias. Para receber os pontos, precisa de um cadastro do tal CRM bônus.
Se esses dados estão sendo utilizados para outra finalidade, estamos diante de um escândalo cabuloso.
Agora, será que exploraram alguma brecha? Todo esse banco de dados sobre as pessoas, será que foi coletado sorrateiramente com “consentimento” ?
No site deles, eles deixam aberto pra caso queira pedir apagamento de dados pessoais. Por curiosidade, vou enviar um e-mail pra saber que tipo de dado meu eles têm e como está sendo utilizado.
Alguém deve ter lido meu post e agilizado esses links, porque antes da publicação os três links do rodapé apontavam para
#(nada). (Snapshot da Wayback Machine como prova, do dia 10/2.)Essas “iscas” para pegar informações têm aos montes e o apelo é enorme. Um exemplo é esse Familhão: antes, era preciso fazer uma assinatura de R$20,00 para participar, hoje isso extrapolou o virtual e não raro ir ao mercadinho de bairro e encontrar anúncio em embalagem de pão de marca parceira para adquirir duas unidades e cadastrar a nota fiscal para obter um mês de assinatura. Não duvido o dia que vai dar um problemão! Tô fora!
Tai outra pauta que me interessa. O que é, no fundo, esse Familhão ?
Só uma cópia do Baú da Felicidade em versão digital?
Você quase acertou, mas é um Baú da Felicidade piorado, ao invés da certeza de comprar um produto usando o “que você pagou” durante os 12 meses, você recebe cupons de desconto e pontos que podem ser acumulados e trocados na loja deles.
Enquanto que o Baú é um compromisso de 12 meses e tinha sorteios semanais, o Familhão é tipo Netflix, cancela quando quiser mas apenas 1 usuário é contemplado de verdade por mês…
Do mais absoluto nada, no dia 29/Dez eu recebi essa aberração de mensagem: https://postimg.cc/7fVkcVKW [print do WhatsApp]
Fico até em dúvidas se a pessoa em questão realmente me cadastrou ali. Sei lá, achei um negócio meio bobo para tal pessoa ter usado, me fazendo pensar se os dados não foram importados de algum lugar (tipo Facebook) de uma forma pouco clara.
Não bastando ser invasivo, o negócio é extremamente mal apresentado! Só fui entender quando vi menções à internet, depois de surgir com seu _ótimo_ garoto propaganda.
> A entrega é garantida mesmo que você não saiba o endereço da pessoa, uma cortesia do iFood, que também está metido no negócio.
Em tempo, não lembro se usei o iFood desde que me mudei de cidade. Sair da capital me permitiu desinstalar essa desgraça do capitalismo.
Seria “engraçado” essa ser a única base de dados (duvido), gerando frustração na entrega. heheheh
Essa CRMBonus é a empresa por trás do famigerado “Vale Bônus”, em que você tem que passar seu CPF e seu telefone para obter “vale descontos” em empresas por certas compras. Se eu não me engano uma penca de lojas em Ciudad del Este, Descomplica, e também todas as transações nos cartões usando Safra Pay.
Aí com essa base massiva, é moleza…
Essa empresa aí é a mesmíssima que em vôos da Azul DO NADA mandava promoções literalmente na hora que o avião pousava. SE havia algum consentimento envolvido na compra da passagem etc, poderia ter não sei, estava escondido. E você recebia um whatsapp bonitinho quando religava o celular.
A LGPD é clara ao proibir o uso de um dado pessoal para uma finalidade diversa daquela para qual foi coletado. Porém, se o próprio poder público não cumpre essa regra, coletando os dados pessoais para uma finalidade e usando-os para outra, não se pode esperar que irá fiscalizar quando entes privados fazem o mesmo.
Não sei o que foi mais surpreendente: saber que o Ghedin zapeia TV aberta, tal qual os antigos babilônios antes da queda de sua civilização, ou que teve sua atenção retida pelo Mion!
Soa tão “absurdo” que eu cogito tratar-se de liberdade criativa, só para introduzir o assunto de forma simples! hahahahahah
Sou um homem simples de hábitos mundanos, Augusto.
Por isso nós te amamos.