Um guia para prevenir um naufrágio algorítmico

Foto em close do título do prefácio e nome da Yasmin Curzi. Ao fundo, desfocados, pen drive e celular.

por Yasmin Curzi

Nota do editor: Tive a felicidade de ter o prefácio do livrinho Outros jeitos de pensar a tecnologia, Volume II escrito pela Yasmin Curzi. Suas palavras gentis captam bem o espírito dos textos — ou a minha intenção ao escrevê-los. Ainda há cópias da primeira tiragem disponíveis, para envio imediato. Para comprar o seu, envie um e-mail ou uma DM no Instagram ao Felipe Moreno, da editora Casatrês. O preço é R$ 40 e o frete é grátis para todo o Brasil.

A sobrecarga de informação, a economia da atenção e a ascensão do marketing predatório são sintomas de uma era definida pela lógica algorítmica embutida na plataformização da web. Este é um tempo onde a informação não apenas flui, mas nos inunda, desafiando a nossa capacidade de discernir o essencial do supérfluo. Ninguém quer ficar de fora das redes do momento. Há pressão social para que se saiba tudo o que acontece, o tempo todo. Ainda, se a promessa do início de vida das plataformas de redes sociais era que todos seriam “broadcasters”, isto é, todos produziriam conteúdo e teriam capacidade de serem ouvidos por outras pessoas, a promessa do período mais recente era de que todas as pessoas poderiam ser influenciadores — de moda ou da opinião pública. Muitos conteúdos, muitas vezes superficiais, mas cujo ruído agregado causa um barulho imenso. 

Neste cenário — de amontoados de ideias, de notícias, de imagens, de músicas, de vídeos e de promessas das big techs —, desvendar as camadas de complexidade e consequências da nossa imersão quase que total na tecnologia é uma tarefa árdua, mas que a editoria de Rodrigo Ghedin tem realizado com maestria. Nestas páginas, encontramos reflexões certeiras sobre o que significa viver sob o jugo de algoritmos cada vez mais intrusivos, que moldam nossas preferências e comportamentos, influenciando não apenas o que compramos, mas como pensamos e interagimos. Ghedin, com seu olhar crítico, nos guia por uma avaliação cautelosa da promessa de conectividade e eficiência que as plataformas digitais oferecem, confrontando-a com a realidade de um cenário onde a atenção é o ativo mais valioso e cobiçado por essas plataformas. 

O tema da inovação surge como um fio condutor que desafia o otimismo tecnológico. Indagações que ressoam sobretudo no Sul Global — o laboratório experimental de práticas algorítmicas das big techs —, incentivam um olhar crítico sobre quem realmente se beneficia do tecno-chauvinismo. Ghedin nos leva a ponderar se a inovação serve ao bem coletivo ou se apenas reforça as estruturas de poder existentes. Também fornece insights sobre como podemos navegar neste mar tecno-turbulento. Ele não nos pede para renunciar à tecnologia, mas para nos engajar com ela de forma mais informada e crítica, reconhecendo os limites de nossa agência e a importância de buscar um equilíbrio entre a adesão irrefletida e a resistência às tendências dominantes.

Ursula Le Guin, em The lathe of heaven, ficção científica sobre um homem cujos sonhos alteram profundamente a realidade, George Orr, e um médico, Dr. Haber, cujo invento procura controlar a subjetividade de Orr e forçar mudanças positivas para a sociedade — de acordo com a sua compreensão sobre o que é positivo —, destacou a neutralidade das máquinas dizendo que “uma máquina é mais inculpável, mais sem pecado, até do que qualquer animal. Não tem intenções quaisquer além das nossas próprias”. Assim como Le Guin, Ghedin sugere que devemos direcionar nosso olhar para os operadores das máquinas: nós mesmos e os conglomerados de tecnologia que moldam suas funções a partir de nossos comportamentos e, na mesma medida, nossos comportamentos a partir de suas tecnologias. 

Este zine é, portanto, uma jornada essencial para todos aqueles que desejam compreender os desafios e oportunidades apresentados pela tecnologia contemporânea. Ele nos ensina que, embora possamos ser usuários da tecnologia, não precisamos ser usados por ela. Neste sentido, Ghedin não apenas documenta os tempos em que vivemos, mas também sinaliza caminhos para navegarmos por eles com integridade e autenticidade.


Yasmin Curzi é professora na FGV Direito Rio, pesquisadora de seu Centro de Tecnologia e Sociedade e coordenadora de seu Programa de Diversidade e Inclusão. É também co-coordenadora da Dynamic Coalition on Platform Responsibility (DCPR) do Forum de Governança da Internet da ONU (IGF-UN).

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3 comentários

  1. Que texto maravilhoso! O livro possui formato digital?

    1. Ainda não, Eric. Cogitamos fazer uma versão digital, mas como estávamos com o tempo curto, focamos só na impressa. Não sei te dizer se a digital sairá.