A última rede social “good vibes”

Print do feed da rede social Posts.cv em uma janela do Safari do macOS.

Tenho a teoria de que o destino de toda rede social é se afundar em tretas. O que não deveria ser surpresa quando juntamos milhões de pessoas no mesmo ambiente e as estimulamos a opinarem sobre tudo.

O Posts.cv é a exceção que confirma a regra. Despretensiosa, com foco em design, arte digital e carreira e uma curadoria humana, os posts mais polêmicos que vi nos meses em que frequento o local são de gente frustrada com empresas que não retornam entrevistas de emprego. Mesmo esses são raros e o tom deles, ameno.

A Posts.cv foi vendida à startup de IA Perplexity e será encerrada no primeiro trimestre de 2025.

À primeira vista, parece um clone do finado Twitter, da disposição dos botões aos recursos. Coisas como menções, curtidas e DMs, o que se espera desses ambientes, estão todas lá. Convenhamos, é difícil fugir da rolagem infinita, ainda que no Posts.cv, talvez pelo baixo número de usuários, chegar ao final dos posts não lidos não é tarefa difícil — a menos que você se perca admirando os trabalhos e fotos alheios.

A semelhança para no visual, porém. A aba “Highlights” (destaques), que reúne o melhor da rede, exibe projetos e testes de interfaces digitais, experimentações artísticas, falam muito de Figma e outras ferramentas gráficas e — não podiam faltar — fotos de comida e de lugares bonitos.

O Posts.cv é uma espécie de produto derivado do Read.cv, “uma maneira super simples de criar um currículo digital” lançada em 2020, disse-me Andy Chung, um dos três fundadores da plataforma, em uma conversa por e-mail.

Andy vive em Berkeley, na Califórnia, e tem bagagem no design, mas desde a fundação do Read.cv divide seu tempo entre produto, engenharia e design.

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A comparação inevitável, com o LinkedIn, vai além da ideia do “currículo digital” — embora eu goste de pensar no Read.cv como sendo uma versão menos tosca do LinkedIn.

Uma das fontes de receita da empresa de Andy é uma espécie de classificados de empregos, que empresas pagam para anunciar em um quadro na web e na newsletter semanal.

O Read.cv também gera receita com assinaturas pagas (a partir de US$ 6/mês) e patrocínios da newsletter.

O ~conglomerado virou, nas palavras do co-fundador, “uma comunidade de design onde você encontra inspiração, oportunidades de emprego, contrata colaboradores ou compartilha e colhe feedback do seu trabalho em andamento”.

Homem com traços orientais sorrindo, usando boné, camiseta clara e segurando um copo.
Foto: Andy Chung/Arquivo pessoal.
Curioso com a motivação para arriscar a criação de uma rede social a essa altura, perguntei se a do Posts.cv teve algo a ver com a aquisição do Twitter por Elon Musk, no final de 2022. Sem surpresa, teve:

“Na verdade, durante muito tempo não quisemos nos tornar uma plataforma social porque sentíamos que essa necessidade já era atendida pelo Twitter. Quando Elon assumiu, sentimos que havia uma oportunidade de conquistar parte da galera do design e da tecnologia, já que já éramos um provedor de identidade profissional.”

O formato, que se reconhece é lugar comum, agrada a Andy: “O ‘microblogging’ dos primórdios sempre pareceu algo análogo ao ambiente de trabalho, no sentido de que as conversas podem gravitar de forma natural entre assuntos da indústria e brincadeiras. Isso ajuda você a conhecer pessoas profissional e pessoalmente, o que se alinha à nossa missão.”

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Não é preciso pagar para usufruir da plataforma. Há algumas vantagens vinculadas à assinatura, mas a experiência — tanto no Read.cv quanto no Posts.cv — é bem agradável de qualquer forma.

Nah, mais que isso: não é preciso nem se cadastrar para apreciar o que os frequentadores do Posts.cv expõem. Fiquei um bom tempo visitando a aba Highlights deslogado e sem conta antes de criar coragem de botar o meu inglês ruim para jogo — é o idioma oficial por lá.

Três pessoas trabalhando em computadores, sentados em três mesas, em uma sala iluminada pelo sol.
Foto: Read.cv/Divulgação.

Perguntei ao Andy qual o segredo para manter a atmosfera amigável da plataforma.

“Tivemos a sorte do nosso produto ter ressoado com uma comunidade tão positiva e talentosa”, respondeu ele. “Acredito que uma parte disso é que confiamos muito na curadoria para ditar o tom da plataforma, tanto no Read.cv quanto no Posts.cv. Isso nos permitiu celebrar o melhor conteúdo da plataforma de uma maneira que parece mais autêntica do que abordagens mais algorítmicas.”

As curadorias da aba Highlights e da página “Explorar” do Read.cv são feitas à mão pelos três fundadores — além de Andy, Mehdi Mulani, baseado em Los Angeles, e Shen, de Vancouver, Canadá. Por agora, Shen tem feito a maior parte desse trabalho.

Andy não revela números, diz apenas que ele e seus sócios querem crescer — “é vital para a saúde do nosso negócio”. Ele acredita que é possível crescer e, ao mesmo tempo, cultivar a atmosfera positiva tão presente lá hoje, “desde que a motivação das pessoas para estarem ali permaneça genuína e não transacional”.

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3 comentários

  1. Oi Rodrigo! Interessante esse posts (e read).cv, teve outras oportunidades em que você falou dessa rede. Me tira uma dúvida: os usuários / vagas são mais de tecnologia ou tem pra área de conteúdo? Será que esta pobre jornalista se daria bem ali? Alternativas para colocar o bloco na rua eu sempre procuro e se for em um ambiente agradável, como você descreveu, é sempre uma boa! Obrigada e sucesso!

    1. O forte ali é design, mas vez ou outra aparecem trabalhos de áreas relacionadas, como produto e escrita. O quadro de vagas é aberto, talvez valha a pena ficar de olho. (No momento, porém, quase todas são para designers 🥲)