Acrílico sobre tela

A pandemia aprofundou um incômodo que muitos já sentíamos antes: o tempo excessivo que passamos com os olhos grudados em telas.

É comum, quando se fala de alternativas a elas, que a pintura seja sugerida. Aqui mesmo, no Órbita, a atividade apareceu em quatro de pouco mais de 50 comentários.

Em janeiro, motivado a variar minha rotina, segui a sugestão dos amigos leitores e comecei a fazer aulas de pintura, uma vez por semana, em sessões de 1h30min, com todo o material necessário à disposição (exceto as telas, que são baratas).

Fazia tempo que ensaiava dar uma nova chance ao Rodrigo criança, prolífico artista especializado em animaizinhos e super-heróis e afeiçoado aos lápis de cor. À tinta, era avesso. Sua experiência com a guache escolar em papel sulfite, combinação que resulta em folhas “molhadas” e pouco controle do pincel, foi um tanto traumática.

Na primeira aula (agora, depois de adulto), a professora Thaís Mengatto, do Hava Arte e Ateliê, me ofereceu dois caminhos: pintar com tinta acrílica ou pintar em aquarela, com água e guache, mas uma tinta guache que, se entendi bem, é diferente daquela que usamos na escola. Joguei seguro e fui de acrílica.

Meu maior desafio surgiu antes mesmo de pegar num pincel: o que pintar? Criatividade artística não é o meu forte, então a Thaís me deu alguns livros de arte, para me inspirar. Conversamos e achamos que seria uma boa eu tentar reproduzir (ênfase no verbo “tentar”) uma das telas. Gostei de uma com plantas azuis
no fundo do mar ou envoltas na neblina, um quê de mistério e melancolia, sei lá, do pintor dinamarquês Henrik Simonsen1.

A tinta acrílica é bem consistente e a tela, áspera. Pintar com esses materiais passa uma sensação bem diferente da que me lembrava do papel sulfite e tinta guache da infância. Mais resistente, a tela aguenta pinceladas mais fortes — por consequência, mais controle dos traços. Nota-se pela minha primeira obra que, apesar disso, estava inseguro no ajuste da intensidade da força.

Este foi o resultado da primeira sessão:

Parcial do primeiro quadro: gravetos na base e um fundo degradê, tudo em tons de azul acinzentado.
O graveto mais bonito, do meio, foi a Thaís que fez como exemplo. Foto e arte: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

E aqui, a tela finalizada:

Plantas azuis, com flores borradas, em primeiro plano, e fundo meio verde oliva em degradê.
Foto e arte: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

Sem surpresa, a minha versão ficou bem diferente da referência. Mais grosseira, sem tantos detalhes e com vários “erros” aparentes. O efeito e a cor do fundo combinados às flores em destaque, as borradas, me passam uma impressão de sujeira. Poderia dizer que foi intencional, mas estaria mentindo.

***

Coloco “erros” entre aspas porque o conceito de erro, na pintura, é controverso. No digital — no Photoshop, GIMP ou Pixelmator —, o “desfazer” infinito e as camadas isoláveis fazem com que o erro seja sempre intencional. Em outras palavras, o erro não existe.

Com átomos, com a tinta fresca e o pincel, o erro está sempre à espreita e é, para um iniciante, inevitável. Ele não é, porém, algo a ser evitado. Corrige-se o erro com mais camadas de tinta sobreposta, da mesma ou de outras cores; com adaptações, alterações que surgem à medida que a pintura ganha forma e que podem divergir um bocado da ideia original.

Thaís sempre enfatizava o erro como parte do processo, imperfeições como detalhes únicos a serem celebrados em vez de reprimidos. Lembretes úteis porque, mesmo indo às sessões sem qualquer pretensão perfeccionista, ciente de que erraria muito — e tudo bem —, levei algum tempo para perder o incômodo com as pinceladas que não saíam do jeito que eu queria, e um pouco mais para abraçar os “erros”, para aceitá-los.

Creio que o desprendimento se manifestou já no segundo quadro. Para ele, tinha uma vaga ideia do que queria pintar: pessoas, várias delas, em um cenário urbano e situação rotineira, com um traço levemente abstrato.

Essa tela foi a mais difícil de esboçar devido à perspectiva. Aprendi a ter sempre um ponto de referência para manter a perspectiva harmônica, ou crível (porque era esse o intuito). Ainda que no fim tenha achado que a rua ocupou muita tela, achei que ficou legal — em especial a faixa de pedestres.

Foi nessa tela, também, que adotei um estilo de pincelada pesada, com a tinta “grossa”, com textura. Até arrisquei umas partes com a espátula. A paleta de cores foi menos óbvia e as pessoas têm um traço característico, muito meu. Do resultado, incomodam-me um pouco as árvores, que parecem desconectadas do resto da imagem. Ainda assim, gostei.

Pintura de uma esquina, com várias pessoas na calçada e sobre a faixa de pedestres, com árvores no topo e o horizonte ao fundo.
Foto e arte: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

***

A minha obra-prima estava por vir. Antes de apresentá-la, preciso resgatar uma história familiar, da minha infância, da vez que, na pré-escola, desenhei um livreto de um macaquinho que fascinou meus pais. Como o dia das mães estava próximo, tive a ideia de pintar uma releitura do macaquinho para presentear a minha.

O primeiro obstáculo foi a referência, ou a falta dela. Não lembro como era o famoso macaquinho e não consegui achar o livreto original. Tudo bem, é um macaco, não pode ter sido algo muito estranho. Tomei essa liberdade criativa para esboçar a nova versão, mais de 30 anos depois.

Esboço, com lápis em sulfite, de um macaco pendurado pelo rabo em um galho.
Foto e arte: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

Esse quadro eu tinha “pronto” na minha cabeça, mais que qualquer outro. Imaginava como ele deveria ficar e as primeiras pinceladas se revelaram promissoras. Thaís montou uma paleta de cores maravilhosa, que deu vivacidade e originalidade ao meu esboço, e ajudou a enriquecer vários detalhes — os pêlos dos macacos, por exemplo, eu não tinha cogitado e deram um sopro de vida a eles.

Foi o quadro mais trabalhoso e demorado, e isso se nota no resultado. Foi o quadro mais bonito que eu pintei.

Primeira parcial da pintura dos macaquinhos, com apenas a floresta ao fundo pintada.
Foto e arte: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.
Segunda parcial do quadro dos macaquinhos, com tudo pintado, mas sem contornos nem detalhes.
Foto e arte: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.
Terceira parcial do quadro dos macaquinhos, quase tudo pintado, só faltando alguns detalhes.
Foto e arte: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.
Dois macaquinhos no meio da floresta, um pendurado pelo rabo em um cipó, outro sentado em um galho.
Foto e arte: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

Àquela altura, terminada a tela dos macaquinhos, me vi com apenas duas semanas antes de um mês de agenda complicada por outros compromissos. Achei por bem cancelar as aulas e refletir a experiência até ali. Antes do hiato, aproveitei as aulas que restavam para dar uma chance à aquarela.

Achei a aquarela bem mais difícil que a pintura com tinta acrílica. Não consegui controlar direito a água, o que prejudicou bastante as minhas intenções ao pintar.

Mesmo já confortável com os “erros” e o descontrole que a pintura enseja, achei a tinta guache e a água indomáveis. Thaís dizia que não havia problema em deixar a tinta fluir na tela e eu, de verdade, prefiro pinturas que não tentam reproduzir fielmente a realidade. O que me frustrou um pouco nesse estágio foi a renúncia à reprodução perfeita não ser deliberada, mas sim o que estava ao meu alcance. Seria diferente se eu pudesse pintar algo verossímil, mas não quisesse fazê-lo. Com a aquarela, nem a abordagem livre funcionou muito bem.

Voltei ao exercício primeiro que fiz com a tinta acrílica, desta vez com a aquarela: reproduzir uma pintura alheia. Não preciso dizer que ficou muito distante da referência — em alguns momentos, ridícula. Com a ajuda da Thaís, no fim acho que “salvamos” a pintura que, com carinho, batizei de “A cabeçuda”.

Pintura em aquarela de uma mulher de cabelos médios, olhos fechados, olhando por cima do ombro.
Foto e arte: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

Foram quatro telas em três meses. Não retornei às aulas porque não encontrei, na pintura, o que me motivou a tentá-la: uma desconexão profunda de telas. Do mundo, para ser sincero.

Consegui sentir isso em alguns momentos, mas foi algo espaçado demais. O fato do ateliê ficar do outro lado da cidade deu uma desanimada também.

Fiquei contente com os resultados, em especial o dos macaquinhos e o destino que dei a eles.

  1. Não consegui encontrar uma foto da tela, intitulada “Azul-pálido”, na internet. Ela consta no livro Ilustração botânica, de Helen Birch.

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27 comentários

  1. Que maravilha, muito sucesso nos estudos!!
    Existem um kit que vende na web ou no ML chamado pintura terapêutica ou “pintando com números”. Eu mesmo já fiz 2 desses é um excelente exercício para concentração e mente. Esse é mais instantâneo não requer estudo, um colorir mais chique hehehe. Para quem quer ter um primeiro contato é válido.

  2. Oi, Ghedin. Você conseguiria (e apenas caso queira, claro) explicar melhor o que quis dizer com não ter conseguido essa “desconexão profunda de telas” mediante a pintura? Em que sentido/dimensão isso não ocorreu pra você por meio da pintura? Aliás, o que você quer dizer com “desconexão profunda de telas”? Esquecer que existem, nem pensar/usar telas, desconectar-se globalmente de qualquer tipo de imagem enquadrada? Pergunto porque eu mesma pinto (com guache e aquarela, aliás), daí fiquei curiosa. Foi muito legal (e inesperado) ler ser seu relato com a pintura. Valeu.

    1. Oi Maria! É desligar-me do mundo mesmo, focar 100% no que estou fazendo. Comecei a fazer ioga faz umas duas semanas e de imediato senti isso de primeira — é muito bom.

      Outras atividades que me permitem alcançar esse estado são leitura (romances, principalmente; o último foi A casa dos espíritos, da Isabel Allende) e filmes (dos mais recentes, O mal não existe, do Ryûsuke Hamaguchi, e Folhas de outono, do Aki Kaurismäki).

  3. Que maneiro, tenta o desenho, geralmente é mais prático pra começar e você pode ter um caderninho a mão pra registrar os fatos ordinários como se fosse uma fotografia :)

  4. que legal!

    ghedin, como é sua relação com o desenho (não com a pintura, mas com o desenho mesmo)?

    às vezes tomando um café ou parando numa praça fazer um desenho rápido numa caderneta pode ser igualmente satisfatório — e pode inclusive propiciar esse desligamento do mundo por alguns instantes agradáveis, sem a necessidade de “terminar” uma tela como no caso da pintura

  5. Ficaram todos muito “daora”. Caramba!!!
    Tá ai, muito se fala em desligar das telas e ir fazer esportes, ler livros, mas nunca tinha visto alguém indo para algo tão mais profundo e criativo (na minha opinião).

    Parabéns pelo o talento, Ghedin.

  6. Como todas as coisa na vida eu diria que isso depende do ponto de vista. Fiz faculdade de Design Gráfico e confesso que quando eu tinha que lidar com substancias que faziam muita sujeira (como no caso da tinta e pior ainda: Argila, usada nas aulas de modelagem) eram atividades que eu considerava extremamente estressantes. Serio, só de lembrar desses dias aquela sensação ruim parece voltar totalmente. A única atividade do tipo que eu gosto é desenhar e pintar com lápis de cor (que não faz sujeira).

    1. sou um pouco parecido

      detestava fazer maquetes e modelos na graduação, mas desenho é algo gosto bastante

  7. Oi Rodrigo, parabéns pelo seu relato, por compartilhar sua experiência conosco. O conhecimento já tem, agora tentei fazer mais, sei bem como é isso de distância, moro no extremo da zona leste de sp. Gosto demais de desenho e bordado no papel e até consegui montar e vender uns zines. Siga em frente, sucesso!

  8. Parabéns, Ghedin! A da rua é minha favorita, aprecio muito essas pinturas que remetem ao retrato de um “cotidiano”. Gostei do detalhe das sombras das pessoas e do tronco da árvore.

    Não entendo muito do assunto, mas algo que me atrai nas pinturas em tela é sua falta de contorno (diferente do que ocorre na maioria das HQs, por exemplo), as figuras humanas “sem rosto” e, ao mesmo tempo, com expressivas no conjunto (algo que me lembra muito o jogo Flashback).

    Mas o que acho mais fascinante é a imaginação que nos despertam: como é a vida daquelas pessoas naquela cidade? Como as coisas funcionam por ali? etc. Isso acontece muito quando vejo concept art, com ilustrações avulsas que não resultaram em nenhuma HQ, jogo, filme etc.

    A série Tales From The Loop fez exatamente isso, criando uma narrativa para as artes de Simon Stålenhag, mais conhecido pela arte de No Man’s Sky.

    1. a sensação que tive vendo alguns episódios de tales from the loop foi justamente o de uma certa frustração na busca de expandir o mistério dessas situações e personagens

      o “infamiliar” das imagens dele tinham uma graça que acho que se perde na hora em que transformam em narrativas tradicionais e lineares (por mais que a série não seja propriamente linear). Mas ela tem bons momentos.

  9. Que pena que largou, Ghedin, tinha futuro! Ficou ótima a tela dos macaquinhos, parabéns!

    Mas entendo o problema de logística. E aí pergunto: já tentou quebra-cabeças? Dá pra fazer em casa mesmo, exige muita atenção (o que acaba ajudando a desconectar) e você nem vê a hora passar. A Gume (https://gume.store/) tem uns bem bonitos e de ótima qualidade. Aqui em casa montamos dois da série “Fauna & flora brasileira” que enquadramos e penduramos na parede.

    1. Tentamos quebra cabeça aqui em casa, depois que compramos as versões mini (sem querer), ficamos desanimados. :/

    2. É o que eu gosto de fazer no meu momento de desconexão e ia sugerir também. Gosto muito de passar incontáveis horas tentando identificar um pedacinho de padrão de uma peça pra saber onde que ele se encaixa no todo.

  10. Obrigado por compartilhar a tentativa de hobby Ghedin. Belos quadros, alias.
    Eu fui arrumar como hobby eletrônica, então menos me afasta de tela do que o seu :D
    Mas com criança pequena aprendendo a andar pela casa, todas as atividades estão meio que “em suspenso”, pelo menos até entrar na escola.
    Abraços

  11. legal compartilhar sua experiencia nos faz pensar que é uma jornada onde teremos um bom caminho, mas é precisa passar por vários ambientes até achar um que encha o kokoro.

  12. Muito legais as pinturas! Sobre o ateliê ser longe, chegou a tentar fazer remotamente?

  13. Que relato legal. Quero começar aulas de desenho e ler sobre sua rotina me animou a pensar nisso novamente!

  14. Também ando tentando encontrar alguma atividade que relaxe e tire tempo das telas. Meu problema é que perco o interesse muito rápido conforme vou esbarrando nas dificuldades da aprendizagem. Já toquei vários instrumentos musicais, mas com o tempo perco a paciência de fazer exercícios repetitivos, e aí largo o trem no canto pegando poeira. Desde o ano passado tenho tido vontade de me aventurar em artes visuais, mas fico com medo de ser mais uma atividade que vou começar e deixar pra trás depois de um mês. Nisso, comprei um caderno de desenho e uns lápis pra pelo menos fazer uns rabiscos e tentar desenhar algo de maneira mais “artística”. Até que gera uma satisfação boa, o difícil realmente é achar a conjuntura ideal de tempo livre/mente descansada/vontade. Se eu de fato continuar desenhando com consistência vou tentar pegar umas aulas de pintura tipo essas. Achei bacana esse post, mostra que o cansaço das telas é uma realidade e que o mundo analógico vai estar sempre aí pra nos aliviar. Suas telas em acrílico ficaram realmente impressionantes pra quem nunca tinha pintado antes. É um meio interessante de expressar a criatividade.

  15. Achei muito bacana o post foi bem interessante ficar sabendo dessa sua experiência.
    Hoje pra mim meu tempo fora de tela é na natação 2x por semana, pra mim dá pra relaxar bem.

    1. Meu tempo fora de tela era a academia, 5 vezes na semana, mas desde que me mudei a trabalho, uso o gympass para fazer “check-in” na academia, então levo o celular, e muitas vezes me pego utilizando no meio do treino…
      Para não ficar 100% em telas, comecei a treinar corrida (3 km) aos domingos. Vou no calçadão ao lado da rodovia, perto de casa, sem pressa. Mais ou menos 1 hora longe de quase tudo de tecnologia, salvo pela Huawei Band 8 no meu pulso, monitorando os batimentos cardíacos e o ritmo médio da corrida.
      Tirando isso, é tela pra todo lado hahaha

  16. amei seus trabalhos, mas realmente a distância e o deslocamento são meus principais inimigos em São Paulo. Ja tentou bordado livre? é bom demais! é minha meditação.

  17. Primeiramente parabéns pela experiência, acredito que estava no caminho certo e acho que a pintura deve ser algo que avança a passos muito lentos.
    A procura do hobby perfeito, confesso que estou nesta procura também para desconectar e usar de forma mais produtiva/prazeirosa meu tempo. #chateadocomotempoperdido
    Penso seriamente em tentar um instrumento musical (ps. nunca toquei nada).
    Já tenho meu hobby que é a corrida-bike-tênis durante a semana que me desconectam totalmente e ainda ajudam na parte fisica e no final de semana corrida/treeking nas montanhas outra atividade que me deixa totalmente imersivo, mas repito que continuo procurando algo que me prenda durante a semana e não envolva uma tela.

  18. “We don’t make mistakes, just happy little accidents.”