O paradoxo da segurança  densediscovery.com

Viver, em 2026, consiste em guerrear com outras pessoas em múltiplas frentes, o que se normalizou chamar de “competição”. Vale para tudo e sempre gera um efeito paradoxal: o acirramento da nossa guerra privada do dia a dia piora a vida de todo o mundo.

Na última edição da newsletter australiana Dense Discovery, Kai chamou a atenção ao livro Trapped: Life under security capitalism and how to escape it (algo como “Preso: A vida sob o capitalismo de segurança e como escapar dele”), de Setha Low e Mark Maguire.

Os autores argumentam que a “segurança se transformou de um direito inalienável em uma commodity acumulada por quem pode pagar”, estimulada por uma indústria que não para de inventar tranqueiras e softwares cada vez mais invasivos sob uma promessa que jamais é cumprida. Esse mercado macabro não gera mais segurança; gera medo:

Quanto mais você securiza sua vida, mais essas cercas, portões e guardas deixam sua vida pautada pelo medo em vez te deixar com menos medo. E assim, à medida que o medo cresce, você quer mais segurança, compra mais dispositivos, apoia todos os tipos de iniciativas de policiamento.

O paradoxo aparece quando se tira a cabeça do próprio umbigo. O aparato, ilusório em essência, no fim deixa o mundo pior para todos:

“[Isso cria] uma profecia auto-realizável de pessoas com medo querendo mais segurança e o estado e a iniciativa privado produzindo-a, apenas para tornar o mundo mais temeroso para alguns e desprotegido para outros.

Penso nisso sempre que passo por muros com cercas elétricas e arames farpados, condomínios residenciais de alto padrão, câmeras de segurança, policiamento ostensivo. O que significa que tenho pensado muito, e cada vez mais, no assunto.

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7 comentários

  1. Tem um livro do Eduardo Galeano que também fala sobre como a busca por segurança faz as pessoas se sentirem mais inseguras ainda. De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso.

  2. ainda assim, eu prefiro morar num condomínio fechado, com ruas arborizadas e sensação de segurança, do que em vila que qualquer um pode entrar.

    1. Sendo bem sincero, se eu tivesse condições até iria morar em um condomínio também. Só que o terreno onde eu ia morar ia murar e colocar câmeras também. Não ia confiar tanto nos meus vizinhos.

      Irônico, né?

      Eu ia complementar meu comentário mas esqueci e aproveito aqui.

      A ideia de “a vila observar” depende muito justamente da vila onde vive. Eu moro em um bairro onde desconfio demais dos meus vizinhos (tive uma briga bem feia com um deles). E sempre foi esta desconfiança por uns 20 anos.

      E claro que isso vai de pessoa para pessoa, de experiência para experiência. A sensação de segurança também tem a haver com quão diferente a personalidade da pessoa lida com os outros – se desconfia demais, se abusa do outro, etc.

      Aí indo de encontro com a discussão do post: a gente tem o F-Droid, onde a confiança está no mútuo entre quem puxa e quem oferece o app pela “loja”. E é rarissimo a gente ler que um app de lá tem algum problema de segurança severo. O sendo de “segurança da vila” está ali, no entendimento que “se a gente confia em gente que oferece de graça ou com preços módicos softwares que tem um bom nível de segurança e praticidade, são confiáveis”. E lembrando que o Google quer dificultar a instalação de apps por este canal também.

      Aí vai no condomínio do Google – a Play Store. Apps que vem de lá vem com propaganda embutida ou algo estranho, e deixam passar de boa.

      Estar em um lugar – mesmo digital – requer confiança das partes. E entendo quando por exemplo alguém desiste de publicar gratuito no F-Droid, pois nem todo mundo vai trabalhar de graça e muitas vezes a pessoa vai ser soterrada de cobrança mesmo com uma oferta gratuita e em open source. Vai preferir embutir uma propaganda no app e divulgar no Google. “Ah, preciso pagar as contas”, beleza, concordo. E o app ganha uma propaganda que pode vir embutida de problemas severos de segurança…

      Na analogia do paradoxo de segurança, é que nem a pessoa que muda por exemplo para um bairro com muito barzinho madrugador nas ruas. Galera precisa pagar contas, mas o custo disso vai além – vai de problemas sociais devido aos incômodos da madrugada, até problemas de segurança em si pois são pessoas que alteradas podem gerar problemas sérios. Um cara com camiseta estilo time com um “Tigrinho” as vezes pode ser tão incômdo quanto a propaganda de tigrinho do app que gratuitamente oferece acesso as câmeras compradas na China…

  3. O caso da internet tem o problema que as propagandas muitas vezes hoje sáo a porta da entrada da insegurança, e só pagando para tirar o outdoor a pessoa “se sente segura”. A segurança é um valor e hoje está se cobrando caro por isso.

    Se bem que sou da máxima que “o melhor mesmo é se afastar de tudo e não usar nada”. Mas como até o dinheiro está no digital hoje, não tem muito o que fazer. Só se virar especialista em escambo.

    A analogia com condomínios fechados tem um ponto não visto. Pessoas buscam condomínios devido a traumas no bairro ou outros lugares onde viveu. Condomínios são “placebos de segurança”, mas de certa forma funcionam aos traumatizados e à outra classe de pessoas que moram dentro de condomínios: quem fez dinheiro de forma ilegal. Porque geralmente quem cria um condomínio fechado geralmente é herdeiro de terras e quem compra os primeiros terrenos quer lavar dinheiro do tráfico, dos ganhos ilegais como roubo a banco, tigrinho e jogo do bicho. Se houvesse uma cultura de espalhar essa ideia que “os mandantes dos crimes estão nos condomínios e quem mora do lado é cumplice”, talvez mudaria um pouco esta ideia de segurança nos condomínios. Ou talvez as pessoas assumiriam as hipocrisias internas delas…

  4. Condomínios e bairros fechados e segregados, afastados. Isso de fato torna as cidades mais violentas e insustentáveis.
    Muro é talvez o elemento construtivo mais nocivo que nossa sociedade inventou. Em nome de uma suposta segurança privada, tornamos a cidade toda mais hostil e insegura (e feia). O problema é que muitos estudos apontam que a sensação de segurança de quem mora dentro destes muros não melhora, pelo contrário, só aumenta o medo e a paranoia.

    Não tem nada mais terrível do que andar a pé ao lado de um muro de condomínio, te faz sentir (e de fato você está) vulnerável ao mesmo tempo que está sendo vigiado, fica claro que você não deveria estar ali.

    Tem um livro do Bauman chamado Medo Líquido (que ainda não li inteiro) que também trata exatamente disso, e que vai de encontro exato com os trechos citados da Setha Low e Mark Maguire. Ele diz que cada muro, cada fechadura adicional na porta de entrada, cada câmera, cada dispositivo de segurança funciona como recordação permanente do perigo percebido, transformando a arquitetura num “sistema auto-propagador de medo” que intensifica a vulnerabilidade psicológica, promovendo ainda mais ações defensivas que amplificam o próprio vigor autossustentável do medo.

    E tem muitos estudos – [um aqui](https://www.scielo.br/j/urbe/a/ryxkpKFM7SQvtWQCP7vQ9BD/?format=html&lang=pt) – que apontam como muros altos eliminam exatamente o mecanismo de segurança natural que funciona em ruas vivas – a vigilância informal de olhos de rua – e que ruas configuradas por muros e paredes cegas apresentam maiores taxas de roubo e furto comparadas a ruas abertas. (Aqui tem também uma crise estética, pq não tem nada mais feio do que uma rua de casas muradas).