Conversa do livro “Orbital”, de Samantha Harvey
Vamos falar de Orbital?
Samantha Harvey é uma escritora inglesa, nascida em 1975. Fez faculdade de filosofia e é doutora em escrita criativa. Orbital é seu livro mais recente, de 2023. Além dele, ela já publicou outros cinco.
Estilo “pastoral espacial”. Da Wikipédia: Pastoral é um abordagem adotada nas artes e na literatura que se caracteriza pelo tratamento idealizado do estilo de vida dos pastores, retratados como pessoas simples que cuidam do gado em meio a paisagens bucólicas, em conexão com a natureza, de acordo com as estações e as mudanças na disponibilidade de água e de pasto. Principalmente direcionadas ao público urbano, as obras pastorais apresentam as sociedades de pastores como livres da complexidade e da corrupção da vida nas cidades.
Três eventos permeiam todo o livro: o supertufão no Pacífico, a viagem da Artemis à Lua, e o luto da Chie pela mãe. Vamos falar deles?
Orbital, livro da Samantha Harvey, narra um dia (ou 16 órbitas) de quatro astronautas e dois cosmonautas a bordo da Estação Espacial Internacional.
Entre descrições ricas de pontos da terra por onde a EEI passa e alguns poucos dilemas das personagens, a autora preenche a maior parte do texto com reflexões bastante terrenas, que ganham contornos excepcionais pelo ponto de vista privilegiado e sua escrita belíssima.
É menos um “livro de espaço”, mais uma contemplação da vida e da Terra. Na conversa ao vivo, com assinantes do Manual, falamos desse estilo narrativo adotado pela Samantha, de como a viagem (as reflexões) superam a escassez de informações das personagens e eventuais clichês.
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Recomendo assistir ao streaming ao vivo da Estação Espacial Internacional.
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Alguns trechos que foram debatidos:
Então, quais os verdadeiros modelos da pintura — o rei e a rainha (que estão sendo pintados e cujos rostos brancos refletidos, embora sejam pequenos, são vistos ao centro, no fundo da cena), a filha deles (que é a estrela ao centro, tão radiante e loira na escuridão), suas damas (e anões e chaperones e cachorro) de companhia, o homem furtivo flagrado atravessando o limiar ao fundo e que parece estar trazendo uma mensagem, Velázquez (cuja presença como pintor é declarada pelo fato de estar na pintura, com seu cavalete, pintando o que é um retrato do rei e da rainha, mas que também poderia ser o próprio Las Meninas), ou será que somos nós, os espectadores, que ocupamos a mesma posição que o rei e a rainha, que estão olhando de fora para dentro e sendo olhados por Velázquez e pela princesa infanta ao mesmo tempo e, no reflexo, pelo rei e pela rainha?
— Órbita 1, em ascensão.
E eu pensei naquele dia, ele diz, lembro-me de ter pensado — quem ia querer ser astronauta? De repente me pareceu algo meio tosco, como se fossem as projeções de todos os homens frustrados e tristes dos Estados Unidos.
— Órbita 5, em ascensão.
Ele consegue até ouvir o rádio. Algo a respeito de Órion, irmão de Artemis, a espaçonave dos astronautas lunares durante sua jornada de três dias até pousarem na Lua. Ártemis, deusa da Lua, deusa arqueira da caça. Estranho como a ciência de ponta se reveste com os deuses e deusas dos mitos. Independente disso, qual deles aqui não iria querer ser um dos astronautas naquela nave divina e ensandecida? Pisar num outro corpo rochoso que não seja a Terra; será que é necessariamente verdade que, quanto mais você se afasta de alguma coisa, mais perspectiva dá para ter a seu respeito? É provável que seja um pensamento infantil, mas ele tem essa ideia de que, se você se afastar o suficiente da Terra, dá para enfim compreendê-la — vê-la com seus próprios olhos, como um objeto, um pontinho azul, uma coisa cósmica e misteriosa. Não compreendê-la como um mistério, mas compreender que ela é misteriosa. Enxergá-la como um modelo matemático de inteligência de enxame. Ver sua solidez se desmanchar.
— Órbita 5, em ascensão.
Não é tanto que a Terra seja uma coisa e o clima outra, mas sim a mesma coisa. A Terra é suas correntes de ar, as correntes de ar são a Terra, assim como um rosto não está à parte da expressão que ele faz.
— Órbita 5, em descensão.
A princípio, o que os atrai é a paisagem noturna — as luzes da cidade lindamente incrustadas na Terra e o fulgor superficial das coisas feitas pelo homem. Há algo de nítido, claro e proposital a respeito do planeta à noite, a trama fechada das suas tapeçarias urbanas. Quase cada quilômetro da costa da Europa se vê habitado e o continente inteiro delineado com precisão, as cidades-constelações unidas pelos fios dourados das estradas. Esses mesmos fios dourados trilham os Alpes, geralmente em cinza-azulado, coberto de neve.
— Órbita 7.
Absorto, Anton corre os dedos sobre um nódulo que apareceu no seu pescoço na última quinzena, que ele tenta esconder erguendo o colarinho da camisa polo. A última coisa de que você precisa é cair doente no espaço. Todos ficarão preocupados e vão mandá-lo para casa, mas como não dá para voar de volta sozinho, dois outros terão de acompanhá-lo, e interromper as missões desses dois outros seria imperdoável. Ele não vai falar nada para o médico de bordo nem para seus colegas, e espera que ninguém repare. É do tamanho de uma cereja, no vão do pescoço, mais para baixo, perfeitamente indolor.
— Órbita 10.
Conte nos comentários suas impressões, dúvidas, do que gostou ou qualquer aspecto do livro de que gostaria de conversar.
Estava no encontro e gostei de ouvir as impressões do Ghedin e do Jesus, que gostaram mais do que eu.
Para mim (que só li uns 70% do livro, ainda preciso terminar), o resultado foi positivo, gostei de ter lido, mas eu entrei com as expectativas desalinhadas.
Eu estava esperando um livro de ficção mais tradicional, onde você constrói muito bem os personagens, seus dilemas e conflitos, e a narrativa segue para resolver esses dilemas e conflitos. Não é o que Orbital faz.
A autora escolheu utilizar a linha narrativa, os personagens e o cenário apenas como base para escrever diversas reflexões e perspectivas sobre o planeta Terra e a relação da humanidade com ele. São reflexões até interessantes e ela tem perspectivas suficientes pra sustentar um livro desse tamanho, mas eu não esperava ler uma série de “ensaios” e “crônicas” maquiado como narrativa ficcional.
Eu até achei que quando a autora se dá ao trabalho de falar sobre os personagens e seus dramas e conflitos, que ela tem um enorme talento pra isso. Ela só escolheu não fazer muito.
Então a minha crítica se resume àquele famoso “eu preferia que ela tivesse escrito outro livro”. Mas, dentro do que ela se propõe, ela faz muito bem feito. Só comece a ler com as expectativas alinhadas.
Olá Ghedin, na vdd fiquei com uma dúvida sobre o clube. Há alguma parceria de descontos para aquisição dos livros? Vlw!
Oi Filipe! Não tem parceria com editoras, não.