Tenho feito essa pergunta de forma bem séria para mim mesmo e a minha conclusão mais sincera é que não. A internet é maravilhosa e me dá um acesso sensacional a informação que eu quiser, mas se tratando de absorver o que consumi, consolidar na memória, virar conhecimento e a partir daí criar novas ideias e conexões, sinto na verdade que ou estagnei, ou estou involuindo.
Não se trata de condenar a internet, conheci ao longos desses anos muitos canais e perfis interessantes, mas talvez seja esse volume absurdo de informação fragmentada que escaneamos diariamente, sem aprofundar em nada e, no final, sinto que fica muito pouco. Na verdade fica o acesso fácil e o consumo veloz, dando uma falsa sensação de que aquela informação está comigo, absorvida internamente.
Não se trata de filtrar informação também, pois hoje o filtro está totalmente sofisticado, o algoritmo oferta muito bem aquilo que queremos. Faz tempo que a sobrecarga de informação é daquilo que nos interessa. Temos 24h de conteúdo ao nosso gosto.
Também não se trata de romantizar o passado com 2 ou 3 jornais impressos, algumas poucas revistas na banca e 3 ou 4 canais de TV para se informar (embora nessa época eu percebesse algum acúmulo, mais consistente, de conhecimento adquirido).
Se trata, talvez, de questionar a velocidade das coisas. De não achar que quanto mais eficaz e veloz a circulação da comunicação e da informação, maior será o entendimento, conhecimento e cidadania.
Mas isso é um ponto de vista meu. E vocês, o que acham?
6 comentários
Acho que a proposta do Felipe foi debater a absorção da informação que a Internet oferece, não tanto o acesso à informação. Nesse sentido, acho que a compreensão do que consumimos na Internet perde para o consumo da informação via livros, jornais ou revistas impressas por exemplo.
Tem até essa questão do conteúdo educacional, que em São Paulo quiseram trocar por slides, quando experiências em países como a Suécia já se mostraram falhas. O formato de feeds infinitos, sites poluídos, necessidade de atualização constante em sites noticiosos, vídeos curtos etc. contribui para uma má experiência de absorção da informação, ao ponto das pessoas não terem mais paciência para ver um filme inteiro sem ficar conferindo o celular.
Claro que aproveito e tenho acesso a milhares de conteúdos que não teria se não fosse a Internet mas, na hora de ler ou ver com calma alguma coisa, ainda prefiro ler em papel, por exemplo.
Exatamente. Foi nessa linha mesmo que quis me expressar. Que essa velocidade e eficiência na circulação e compartilhamento de informações não acarreta, necessariamente, em mais compreensão, consciência, conhecimento, cidadania, etc. Pelo contrário, tenho visto mais conflitos e desentendimentos na sociedade. Porque provavelmente existe uma assimetria entre o tempo humano e o tempo da máquina. E claro que a internet tem uma utilidade absurda, no qual eu jamais abriria mão, mas se tratando de absorver, refletir, consolidar memória, criar novos esquemas mentais, compreender, ter empatia, etc, eu preciso recusa-la um pouco. Preciso me afastar. E nesse ponto, o livro, a revista, o jornal, os materiais impressos em geral, dialogam mais com o nosso ritmo. Vide o exemplo da educação que você deu.
Se eu focar somente na pergunta, no sentido literal, respondo que sim.
Sou surdo, e a internet é uma maneira muito boa para que eu possa me informar quase tudo do que acontece na internet, mesmo que sejam coisas dispensáveis ou não, é que gosto de saber.
Por exemplo, estão todo mundo comentando sobre um vídeo que viralizou (principalmente na política), eu fico querendo saber do que tá acontecendo, porém o vídeo não tem legendado. O que faço? Só esperar um pouquinho até sair o mesmo vídeo, porém legendado, aí consigo entender.
Agora em sites, blogs, notícias, são bem fáceis porque consigo absorver ou me informar lendo, é algo que consigo “controlar” compensando a surdez.
Aliás, uma curiosidade que ninguém pediu (e já desvirtua a tema do post): eu costumava assistir desenhos e animes na infância, sem entender tudo. Anos depois, descobri na internet esses animes já com legenda, e pude assistir novamente, e o melhor, já consigo entender referências quando pessoas usam, haha.
Acho que o negócio é não brigar com o fluxo em excesso de informação. Temos informações muito valiosas que antes da internet daria muito trabalho para conseguir. E sabendo lidar com isso só nos trará benefícios.
É aquela velha metáfora da internet com o mar. Não tem como brigar, não tem como absorver tudo, mas aprendendo algumas técnicas, a gente pode boiar no raso, pular umas ondas, surfar, ou até pegar um barco e navegar um pouco mais para o fundo, não mais que isso.
Eu tomei uma estratégia meio própria para me informar, mas que tem funcionado.
Os algoritmos e feeds jogam contra nossa atenção, mas tento fazer um uso útil da “serendipidade” (na minha opinião um conceito inventado pelos techs bros originalmente para justificar o tempo perdido nos feeds), mas de um jeito que seja útil. Não basta ver coisas ao acaso, para internalizá-las precisamos anotar o que nos interessa. Essa foi a forma que achei de tomar algum controle do que estou absorvendo.
Quando vejo alguma coisa útil ou legal, seja um artigo, um post, alguma coisa aqui no órbita, que posso usar em algum lugar. Tiro print, seleciono o texto, escrevo uma nota bem breve de porque e quando achei isso legal. Depois penso em que área da minha vida essa informação será útil, e conforme for já salvo isso para um projeto específico, senão arquivo em um limbo de ideias. O que me ajudou nisso foi uma metodologia chamada “segundo cérebro”.
Isso diminui bastante a velocidade que as informações passam, e aumenta a qualidade delas.
No meu caso que apesar de ter redes sociais, não tenho o costume de entrar e de passar mais que alguns minutos. Entro no instagram, por exemplo, se o primeiro ou segundo post do feed é interessante, já bastou. Paro, tiro print e anoto. O resto é dispensável.
Se vejo aqui no órbita, em algum jornal ou nas newsletters vários textos interessantes para ler, pego um e dispenso o resto sem dó.
Tenho centenas senão milhares de artigos salvos nos read it later da vida, assim como livros físicos e ebooks que nunca li, mas não me importo, pelo menos sei estão lá para quando precisar, em uma busca futura ou num dia qualquer abro um para ler e estou bem com isso.
Ajuda que tenho no geral o contrário do FOMO, acho que tenho JOMO hehe. Não me importo em estar por dentro do assunto da vez e me sinto até feliz por isso. Fujo de discussões que não vão levar a lugar nenhum e que não vão convencer ninguém.
É bem interessante seu comentário, e gostei da sua estratégia, que me parece uma forma de controlar o tempo e as informações.
Eu me sinto melhor informado. Acho que parte da internet joga contra isso — os algoritmos de recomendações das redes sociais, por exemplo —, mas passada essa barreira, abre-se um universo de informações de qualidade, densas e enriquecedoras. Muito melhor que no passado, quando a escassez e a falta de acesso eram limitadoras reais e, a depender de vários fatores (renda, localização etc.), intransponíveis.