já repararam nessa onda horrorosa de topicalizar o texto jornalístico?
vão aqui dois exemplos linkados na página principal do uol hoje:
https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2023/11/09/abrasel-parcelado-sem-juros.htm
e
(alerta de gatilho: estupro) https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2023/11/08/mulher-video-motorista-passageiros-sp.htm
parece que o consumo rápido de notícias exige que esses textos se transformem em power points ruins repletos de “bullet points”
isso é diferente daquele gênero de texto jornalístico praticado por colunistas como a monica bergamo, que reúne num texto coerente um conjunto fragmentado de notas interrelacionadas ― mas nos casos que apresento acima é simplesmente uma redação ruim
eu normalmente sou bastante aberto à desconstrução e transformação dos gêneros textuais consolidados na imprensa e suas convenções, mas nesse caso é simplesmente uma gambiarra mal feita para leitores apressados
6 comentários
Os dois exemplos que você trouxe de fato são péssimo, mas para notícias de consumo rápido, diferente de reportagens, o jornalismo tem buscado formas de se adaptar à realidade que é: as pessoas passam menos de 26 segundos em uma página.
Isso dos bullet points etc tem a ver com o conceito Smart Brevity, da Axios (livro recém traduzido, inclusive https://sextante.com.br/livros/brevidade-inteligente/ -> nota 4/5), mas feitos de formar completamente mambembe.
Gosto do que o g1 tem feito, um híbrido do texto tradicional com esse mais recente, coloca uns highlights no que importa se você está lendo com pressa e um resumo no topo. Exemplo: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2023/10/17/governo-lula-bloqueou-r-86-milhoes-da-capes-em-agosto-dizem-entidades-de-pesquisa.ghtml
Triste. Nivelamento por baixo, pesado.
A chamada grande mídia brasileira (o jornalismo feito pra grandes empresas de mídia, cada uma com os seus interesses que pouco ou nada têm a ver com jornalismo) caiu demais em qualidade. Se antes tinha competição pra dar uma manchete primeiro, agora virou tudo um caça-cliques sem a menor preocupação em checar fatos, acrescentar notas críticas etc. Assim ela vai perdendo cada vez mais espaço pra superficialidade das mídias sociais, enquanto a mídia alternativa, realmente jornalística, corre por fora lutando pra conseguir público.
Apesar de triste, acho que esse tipo de mudança é mera reação ao comportamento dos leitores. Mais uma falha do capitalismo, em que mal dá pra culpar a empresa que produz conteúdo, já que ela está totalmente vendida ao que dá mais dinheiro – e nada mais importa.
E então, o que preocupa mesmo é esse comportamento bizarro das pessoas hoje em dia. Mas que infelizmente mal consigo me excluir (mantidas as proporções).
De qualquer forma, uma infelicidade horrível mesmo. 🫠
eu acho essa abordagem problemática por dois motivos:
se o comportamento do leitor mudou, há formas melhores de tratar o texto jornalístico pra se adequar a esta mudança: utilizando mais intertítulos, construindo melhores narrativas, etc. Simplesmente topicalizar tudo me parece a pior solução.
além disso, pode-se sugerir novas mudanças de comportamento, porque a performance da leitura não é uma via de mão única (em nenhum dos lados)
Hoje eu li que não vale mais a pena investir em carreira de jornalista porque ela está “em extinção” por causa do uso de IA. Então né, espero não estar viva pra ver esse novo “jornalismo”, apesar de perceber o nível de compreensão textual dos leitores quase chegar a números negativos nas redes sociais.