Vi num outro tópico deste fórum o pessoal falando de ‘pirataria’* e não sei se todos aqui conhecem o trabalho que ficou conhecido como ‘The Darknet Paper’.
Em resumo, no começo deste século a indústria confabulou pra que o DRM emplacasse, e a epítome dessa tentativa tenha sido o Windows Vista (e seu glorioso fiasco). Mas já em 2002 uns pesquisadores da Microsoft lançaram um singelo artigo chamado The Darknet and the Future of Content Distribution no qual diziam que, dado o formato e funcionamento da internet, seria impossível impedir a ‘pirataria’ de conteúdo digital, fosse qual fosse, e que a própria tentativa de evitar isso seria um incentivo pras pessoas montarem arranjos próprios de rede pra ter acesso e compartilhar conteúdo digitalizado.
Claro que o paper foi ignorado, se não me engano os pesquisadores foram até punidos, e a indústria insistiu no DRM etc.
Outro ‘paper’ que causou bastante impacto na época foi o que ficou conhecido como Microsoft Research DRM talk, que na verdade não é um texto, mas a transcrição de uma fala do Cory Doctorow na Microsoft, em 2004, em que mais uma vez a Microsoft é confrontada novamente com argumentos (ótimos e diretos) contra o DRM.
Fica aí de curiosidade aos mais jovens e pra quem não conhece. Recomendo a leitura de ambos os conteúdos pois eles anteviram o que ao longo do tempo se cristalizou em novos modelos de negócio que, além de terem surgido fora da indústria de conteúdo tradicional, inovaram ao não buscar reproduzir o antigo modelo de negócio (vender a propriedade ou o direito de uso de um arquivo digital) mas vender a comodidade de acesso a esse material (Netflix, Spotify etc.).
* Como sou old school, até hoje faço a distinção entre pirataria x cópia ilegal: não existe pirataria de software enquanto o software copiado e reproduzido for idêntico ao original nos seus bytes e bits. Pirataria é algo que se passa por outra coisa, normalmente um objeto físico (um tênis, boné, camiseta, componente eletrônico etc.), ou, no caso de software, um software que pretende se passar pelo software x mas na verdade não o é, emulando o original ou uma versão modificada do original (que, por isso, deixa de ser idêntico ao original etc.). O que a maioria chama de pirataria de software na verdade é cópia ilegal (claro, dentro desse conceito que uso).