Confesso que eu tenho uma implicância reversa a do texto. Eu implico com jornalistas, principalmente depois da patuscada de que a imprensa é o bastião da democracia (ainda mais vindo da Folha de SP, notória apoiadora do golpe de 1964). A dessa semana é que o Podpah (que eu nunca ouvi mais do que um “corte” no YouTube) não deveria estar onde está porque eles não se preparam para as entrevistas (como se jornalista se preparasse). Eu inclusive acho que o formato deles (e de todos os outros podcasts grandes do Brasil) é um formato preguiçoso e casando. E indo mais além, o próprio formato de podcasts já está cansado, saturado e naquele platô que toda a mídia chega e se torna, basicamente, rádio ou TV aberta. Mas nem por isso eu acho que o problema seja o Podpah, o Flow ou qualquer outro podcast brasileiro. O problema é o senso de autoimportância dos jornalistas e do próprio jornalismo (normalmente a serviço da burguesia, vide CNN, Globo, FSP, DW, El País e qualquer outro veículo grande do mundo; e sim, tem veículos progressistas no país e no mundo, mas eles são muito pequenos e nichados para serem levados em conta fora das franjas que eles ocupam) que se enxerga como algo “além”. Seja lá o que isso quer dizer.
Eu poderia dizer muita coisa sobre isso, mas o texto quye o Cris Dias postou no LinkedIn diz tiudo o que eu queria dizer:
Desde que a internet é internet tem alguém tentando desqualificar o trabalho dos nativos digitais. Estou nessa bagaça tem 24 anos — mais tempo se você contar meu Geocities falando dos CDs que eu ouvia. Já vi blogueiro ser comparado aos tais macacos sentados em uma máquina de escrever tentando ser Shakespeare. Teve também as jornalistas de moda reclamando que blogueira não podia entrar na SPFW, como bem lembrado pela Gabriela Bianco no Zap. Já fui contratado pelo YouTube para fazer Um Grande Canal de TV Esportivo cobrir de forma nativa-digital uma Copa do Mundo — e meu trabalho acabou sendo ficar ouvindo os gritos dos diretores do canal de que aquilo ali não era palhaçada, era jornalismo sério. É um ciclo, é só eu esperar que ele volta.
A polêmica da semana na internet — aquela que quando a gente botar o telefone de volta no bolso deixa de existir — é que os apresentadores do maior podcast do país não se prepararam para duas entrevistas, das mais de 500 que já fizeram. Do nada acharam duas entrevistas já antigas — umas de 2022 — e o recalque resolveu sair do armário.
Isso sempre me soa como “Não é justo, eles estão no topo, nós não”. Eu sei do que estou falando, eu já critiquei o Podpah. “Como pode? Estou aqui tem anos e os caras, do nada, chegam no topo? Não é justo.” Aí eu fui ouvir e entender.
Eu costumo brincar que escrevo melhor quando estou com raiva. Em 2019 mesmo, na volta anterior da polêmica “podcasts brasileiros são ruins” eu cometi um desses textões — eu vou colar o link abaixo. Você vai ver que é a mesma história de agora, mudam os personagens, mas os papéis são os mesmos. De um lado, “jornalistas sérios” acusando criadores digitais de fazer um trabalho “menor” — sendo que o critério do que é “sério” é o dos jornalistas, é claro. Do outro, pessoas que lutaram para conquistar seu público — e que nem pediram para serem chamadas de jornalistas.
Eu só acho engraçado que o Brasil tem zilhões de “podcasts de entrevista” falando besteira todo dia. De defesa ao nazismo a conselhos danosos de investimento. Mas os “despreparados” são dois caras que vieram da quebrada, falam de temas progressistas e cresceram, entre outros motivos, porque seu público se viu ali na tela, coisa que não encontravam em outro lugar, que convidam para a mesa gente que não era convidada em nenhum outro lugar. Como já falei em um Braincast distante, estou cansado desse fogo amigo, movido pela fogueira das vaidades.
É normal. É só o status quo sendo defendido. Espero encontrar você na próxima vez que este tipo de treta acontecer.
Link pro post: https://www.linkedin.com/feed/update/urn:li:activity:7214620826233425921/
Link pro texto que ele fala da ~treta dos jornalistas com os mesacasts: https://boanoiteinternet.com.br/p/jornalistas-serios-e-sua-eterna-implicancia
12 comentários
Já consumi diversos produtos de mídia que apontavam como lixo, e nunca deixei de consumir nenhum e nem diminui as criticas a eles. Acredito que o produto pode ser o que for e o público pode falar o que for. Assim como se pode precificar um produto caro e também se pode falar que tal produto é demasiadamente caro.
Sobre o podpah, acredito que chavosos como os apresentadores sempre se blindem de criticas com frases como “não aguenta ver o sucesso do outro”, “favela venceu”. Dá pra remontar isso ao surgimento do ostentação lá no período de desenvolvimento no fim do segundo governo Lula. Vejo isso com o chavoso da USP e com qualquer homem que já vi entrar nessa subcultura urbana de ser chavão. Vejo mais pela ótica de masculinidades.
Como valorizar uma profissão sem elitiza-la?
Na real todas as profissões possuem pessoas defendendo o próprio trabalho como “essencial para a sociedade”, mas tá cheio de gente incompetente, arrogante e desonesta em cargos importantes.
Então pra mim toda essa polêmica em torno dos podcasts é só mais uma polêmica como qualquer outra de gente incompetente que recebeu fama em excesso.
Mas o podpah é meio meme já que eles não fazem a menor ideia de quem tá lá….kkk
Desde o princípio você aprende uma máxima no jornalismo que é “um dos grandes riscos que um jornalista tem é morrer se despencar do alto do seu ego”
Não soube dessa polêmica, nunca ouvi o Podpah. O comentário da Liliane Ferrari no post aponta que a crítica partiu de duas entrevistadas, o que valida a crítica, acho eu — deve ser uma experiência ruim.
Dito isso, e comprando a premissa de que “jornalistas sérios” reclamam do Podpah e de outros fenômenos da internet, creio que exista um erro conceitual e outro comparativo nessa celeuma.
O conceitual é no tratamento dado ao jornalismo/aos jornalistas. “Sério” é subjetivo, portanto difícil de determinar, mas criterioso, não. O que separa um jornalista de alguém que relata acontecimentos é o método. (Note que não quero dizer que precisa de carteirinha ou de faculdade para ser jornalista; eu me identifico como tal e não tenho diploma do curso.)
O erro comparativo é classificar tudo como jornalismo, incluindo podcasts de entrevistas, ou de bate-papo. Uma entrevista pode ser jornalismo, mas pode ser também só uma conversa, sei lá — a linha que separa as duas coisas sempre foi meio borrada, e se perdeu com a democratização dos podcasts.
Existem podcasts de entrevistas feitos por jornalistas que são horríveis, existem podcasts feitos por “civis” que são ótimos e/ou populares (caso do Podpah), existe tudo, na real. E está tudo bem. Enquanto um podcast for apenas ruim (seja feito por jornalistas ou não), é do jogo. Os problemas que o jornalismo enfrenta — baixa confiança, competição pesadíssima por atenção e precarização da profissão — são muito maiores que o Podpah ou qualquer produto específico.
As críticas dos artistas eu acho bem vazias. Eles reclamam sempre. Já reclamaram do Jô Soares, da Marília Gabriela, do Abujanra, da Hebe etc. Tem artista que espera ser ovacionado em todos os locais. E às vezes o artista em questão estava apenas de mau humor, como todos nós um dia estamos, e acaba que o podcast em questão vira, exatamente, o intrumento do ódio/reclamação.
Acho que a crise do jornalismo não existe de fato, o que ocorre é mais uma exposição dos valores do jornalismo (essencialmente burgueses) que antes não eram expostos. O método jornalístico existe até a segunda página, todos sabemos (assim como toda a ciência ele serve a interesses políticos).
Mas o que me pega é exatamente a ideia de que o mais criticado [pelos jornalistas hoje em dia é o podcast de pessoas de origem periférica. E, ainda, fazendo um cherry-picking de duas pessoas criticando abertamente eles (dentre, teoricamente, mais de 500 enrevistas) enquanto podcasts liberais, neocons e de extrema-direita passam incólume por esses mesmo jornalistas. Acho que pode ser um indício de um filtro ideológico.
Como eu disse no post, o problema talvez seja o jornalismo (o produto) e os jornalistas (quem criam o produto) e não o Podpah, o Flow ou qualquer outro mescast.
Concordo com você, menos nisso:
“Note que não quero dizer que precisa de carteirinha ou de faculdade para ser jornalista; eu me identifico como tal e não tenho diploma do curso.”
Diploma de jornalista é mais que escrever bem ou saber fazer um lide. A faculdade tem cadeiras como história, sociologia, filosofia, ética, português, análise de imagem e outras que, hoje, muitos acham “dispensáveis”. E é por isso que a gente vê o tanto de abobrinhas e absurdos no jornalismo atual – todo mundo é jornalista porque “não precisa de faculdade”. Eu sou do tempo em que, se você vai entrevistar um escritor, um ator, um artista plástico, você fazia o dever de casa e aprendia a fundo TUDO da carreira da criatura. Hoje, a gente tem blogueiro perguntando quem é a nepobaby Fernanda Torres.
Nunca me esqueço a brilhante ideia de um trainee do Globo em se fazer passar por paciente da Heloísa Bolsonaro – mesmo sendo quem é, a relevância dela no cenário político era zero e o jornal conseguiu publicar uma matéria que era totalmente contra o próprio código de ética.
A sua formação é exceção, não a regra. E ela faz muita, MUITA falta hoje.
Minha participação nesse debate é enviesada, porém acho que concordamos mais do que discordamos, Julia. Embora não seja obrigatória (e meu comentário possa ter soado desdenhoso), formação é super importante e toda a bagagem teórica, técnica e de vivência que a faculdade oferece faz muita diferença no dia a dia. (Não sou jornalista de formação, mas comunicólogo; as duas áreas são próximas o bastante para eu usufruir da minha na prática jornalística.)
Seu comentário de maneira nenhuma soou desdenhoso. O que eu vejo, porém, é como a falta da formação acadêmica (que a maioria acha “desnecessária”) impacta na prática jornalística.
Detalhe que não é porque um jornalista é formado e diz seguir o código de ética da profissão que ele realmente vai seguir tal código de ética (E vai saber se este código de ética é justo também…).
Conheci uma pessoa que fez a carteirinha de jornalista só indo na sede do Ministério do Trabalho (em Campinas, pois diz-se que era bem mais fácil lá) e levou só uns impressos do site que tinha e umas fotos tiradas. Isso na época que ainda tava se discutindo sobre obrigatoriedade do diploma (a desobrigação em si veio uns dois anos depois do ocorrido).
Essa mesma pessoa tem contato com todos os políticos da cidade. Tal como outros “jornalistas” (diplomados ou não) da mesma cidade. Preciso dizer como é a fonte de renda de tais jornalistas?
Então; uma das cadeiras da faculdade é ética, e é UMA entre as que citei. História, filosofia e sociologia são igualmente importantes e igualmente desprezadas por quem acha que são desnecessárias ao exercício da profissão.
Todos nós temos um código de ética próprio, que escolhemos seguir (ou não). ESCRITO, só os veículos.
Sim, como muitos também espero que não só na área de jornalismo como qualquer outra, ética / moral seja um tratamento comum e não só uma palavra ao vento.
O ideal seria que na verdade o ensino de jovens na (pré-)adolescência (dos 10/11 anos em diante) tivesse mais aulas de filosofia e ética (coisa que eu vagamente me lembro de não ter tido tanta aula sobre), isso já dispensaria aulas em ensino superior exceto se necessário mais aprofundamento. Só que aí a galera pensa que vai se confundir com a “Ordem Social e Pública”, matéria esta ministrada em aulas da época da ditadura, ou com algo como “excesso de honestidade”.
Isso seria uma disucssão mais filosófica, até porque só ver que infelizmente nos tempos atuais a audiência maior ou mais forçada é em trabalhos não tão éticos (como textos de fofocas de artistas, notícias falsas fabricadas para enviesar pessoas de forma política).
Quanto a ética dos veículos, o texto base deste tópico posto pelo Paulo chega ao ponto: os próprios veículos hoje perderam o tal “senso ético”. Ou talvez melhor elaborando, já expuseram seus viéses e ideais. Isso destrói parte da visão das pessoas sobre o jornalismo – e quando falei do caso citado, na verdade acaba virando um “senso comum” dizer que “jornalistas de bairro são financiados pro grupos políticos e financeiros de bairro, incluso pessoas em zona cinza ou ilegais”. Seja o cara formado em uma faculdade, seja o cara que pegou a carteira no ministério do trabalho.
A valorização de outros canais que não sejam jornalísticos e a confusão com o jornalismo se dá pois como colocado pelo Rodrigo Ghedin em uma das respostas, o que faz é o método. Há pod/mesacasts que provavelmente pesquisam antes da entrevista. Sinceramente não acompanho podcasts, seja por preconceitos internos ou até não ser de interesses os assuntos tratados. Mas não duvido que haja podcasts feitos por não-jornalistas formados mas que tenham método jornalístico (pesquisar, apurar, dar a informação essencial, perguntar a pergunta essencial).